quarta-feira, 3 de março de 2021

Prestígio de Presno

 

 

O uruguaio Lincoln Presno (1917 – 1991) foi um abstracionista que participou de três bienais de São Paulo. Foi docente de Arte na Universidade do Trabalho do Uruguai e conservador artístico no Palácio Legislativo do Uruguai. Presno foi premiado no Uruguai e na Argentina e integrou o Grupo 8, de artistas afins. Os textos e análises semióticas a seguir são inteiramente meus. Boa leitura!

 


Acima, Composição. Temos aqui sobreposições, num certo jogo de transparências. Um grande ponto negro se revela, como um grande problema, um grande percalço a ser contornado, pois é necessário ter paciência para, passo a passo, contornar tal vicissitude, numa pessoa que tem que fazer um esforço ENORME para reconstruir a própria vida, na esperança de que há uma saída para tal “labirinto”. O ponto negro é a mente acima de tudo, no modo como é o espírito que tem que mandar na carne, e não o oposto – não ouça só o seu coração, pois, assim o ouvindo, este coração vai ludibriar você. Aqui é como uma lua nova, negra e profunda, deixando que as estrelas no céu brilhem ao máximo sem a interferência do luar. O ponto negro é como o fundo de um poço, numa pessoa que enfrenta tal percalço, vendo sua própria vida ficar miserável existencialmente, num episódio depressivo, profundo, no qual a pessoa tem extrema dificuldade em colocar os pés no chão e ver a Vida no jeitinho que esta é – é como uma miopia. O círculo aqui, absolutamente sem arestas, “compete” com as formas quadradas e retangulares, no sentido da polidez, como é o homem de Tao, um homem excessivamente polido, que cumprimenta tudo e todos, vivendo de coração aberto para o Mundo. A polidez é como as quinas de mesas de vidro, polidas para que não machuquem os outros, pois quando sou inofensivo, inofensivo me sinto, como uma espada sem fio; quando sou arrogante, sinto-me como um terrível bisturi. Esta obra nos traz cores discretas, escuras, sofisticadas, sem um arcoíris vibrante como todo um leque de cores carnavalescas. O fundo é um azul metálico, quase negro, como numa densa nuvem de tempestade se aproximando com ruidosos trovões, como uma terrível crise chegando, envolvendo a pessoa em trevas como nunca antes na vida desta pessoa, nas palavras de uma excelente psicoterapeuta que conheço: “As crises são positivas”, pois as crises apontam um ponto de renovação na vida da pessoa, numa vida nova, fresquinha, no eterno recomeço, nesta missão que o espírito encarnado tem para cumprir na Terra. Aqui é como um jogo infantil, com pecinhas tendo que ser encaixadas, ensinando à criança o discernimento e o indispensável Pensamento Racional, este raciocínio que tanto nos diferencia dos animais, havendo na fria lógica matemática esta mortificação, esta falta de expectativas, pois quanto mais tenho expectativas, mais me frustro – é o caminho da falta de ilusões, havendo na dor desilusória este aprendizado, como na canção de Bossa Nova: “Quando a ilusão se desfaz, dói no coração de quem sonhou demais”. Aqui temos subconjuntos mais claros, na luz científica sobre o funcionamento do Corpo Humano, em desafios como a cura do Câncer, no modo como a Humanidade tem que ser assim, autodidata, e no modo como cada pessoa tem que ser autodidata para ir rumo ao autoencontro existencial – cada pessoa é uma história diferente, pois cada um tem que se encontrar consigo mesmo, pois como é bom ver uma rara pessoa que vive aberta ao Mundo! Vemos aqui um retângulo cor de tijolo, no paciente trabalho de formiga, construindo os indecifráveis labirintos do formigueiro. É como no negócio de construção civil, numa obra que leva anos para ser concluída, num trabalho persistente de paciência, como disse o grande líder Obama: “Você será lembrado pelo que você construiu, não pelo que você destruiu”, alfinetando, aqui, os terroristas, como no título de Esqueleto, arquinimigo do herói He-Man: “O senhor malévolo da destruição”. Aqui temos o poder da simplicidade, modernista, como numa casa modernista, ou nas linhas arquitetônicas de Brasília, simples, limpas, numa simples rampa substituindo uma escadaria mais complicada, como na simples rampa do famoso templo erguido pela faraó Hatshepsut – menos é mais, realmente.

 


Acima, Estrutura Urbana. Elegantes prédios se erguem, em sonhos apolíneos de Arquitetura, num lugar de apuro visual, de sofisticação, na elegância de uma aristocrática camisa listrada, na tentativa humana em apreender o nobre, o impecável e o eterno, no milagre da Vida Eterna, esta dádiva que faz com que jamais findaremos, na prova do poder imenso de Tao, o subestimado – se sou subestimado, poderei surpreender o Mundo. Aqui podemos ver um pouco de Mondrian, este grande mestre que trouxe os novos ares arejados de arte pós acadêmica, no poder limpo, matemático e minimalista de simples retas, como uma publicitária que conheci, a qual gostava de usar fontes de letras mais simples, como a Arial, sem arestas nem frescuras desnecessárias, como numa cidade limpa e bem administrada, num lugar divino onde não há lugar para nenhum fiapinho de sujeira ou pó, no prazer de se entrar numa sala de visitas limpa, num anfitrião fino e agradável. Nas cidades, há uma certa competição fálica, como em âmbito mundial, com nações competindo para ver quem tem o prédio mais alto do Mundo, como na pujança imobiliária de Balneário Camboriú, SC, como as recentes torres gêmeas de oitenta andares cada. Aqui, o céu noturno, e os cidadãos dormem lidando com seus próprios códigos oníricos, talvez com pesadelos, como vilões combatidos por super-heróis, na Racionalidade limpa combatendo as sujeiras das ambições mundanas – quanto menos quero, mais tenho. Aqui há tensão, e não há espaços para linhas orgânicas fluidias, aquosas, como na vinheta do televisivo Viva o Gordo, da Globo, com as letras gorduchas acumulando-se como gordura abdominal, no carisma de palhaços gorduchos, como um rei Momo, celebrando a fartura e a prosperidade, na riqueza de um salão regido por um só ritmo. Aqui, vemos uma certa tensão entre estes dois prédios, num relacionamento, numa tratativa, como numa intrincada negociação, como um jornalista entrando em árduas negociações para entrevistar um grande popstar, nos eternos joguinhos medíocres de Ego humano, na arrogância do lema: “Não nasci para esperar; nasci para ser esperado”, num Woody Allen expressando desprezo pelo stablishment das celebridades. Aqui é um disciplinado trabalho de régua, como um arquiteto bolando um novo prédio. É como o retilíneo mapa norteamericano na divisão dos estados, com divisões feitas com régua, muito diferente das subdivisões do Brasil ou da Itália. Aqui as retas vão em todos os sentidos: horizontal (Cultura de Massa), diagonal (Cultura Popular) e vertical (Cultura Erudita). Um grande retângulo rubro se revela no pé do quadro, como numa ferida aberta, ardendo, num hemofílico perdendo sangue. É como uma pimenta, dando graça a um prato, na missão da Arte em se tornar tal prazer ao espectador, como multidões vendo uma grande película, na capacidade em se promoverem comoções em massa, como na mensagem antiburguesa de Titanic. Vemos aqui uma discreta listra em azul marinho, numa cor de discrição, nos modos humanos em ver toda a nobreza de Tao, fazendo do aristocrata elegante um representante de tal classe, de tal nobreza, de tal pertinência positiva. Nesta competição fálica, um prédio está ligeiramente acima do outro, como uma partida de Futebol vencida com apenas um gol de vantagem, fazendo das competições este entretenimento em escala universal, como dois titãs competindo no Tênis, por exemplo. Este é um quadro de disciplina, numa pessoa acordando e deixando de ouvir aos sedutores apelos de Morfeu, saindo da cama para iniciar uma nova lida, um novo dia de interação social. As linhas aqui fazem uma dança para delinear algo que faça sentido, como placas tectônicas se acomodando e reacomodando, no poder artístico em imitar tais forças da Natureza, pois se alguma obra de Arte não mexe comigo de algum modo, como poder ser algo válido? É o pavor do artista em se ver ignorado.

 


Acima, Evasão de Planos. Uma ponta de faca se pronuncia, como no facão do MST, na eterna tendência humana em obter as coisas da forma mais brutal e cruel possível, num reino infeliz, descontentado, que sempre quer anexar mais e mais territórios, pois se o que tenho acho que não é o suficiente, então nunca terei o suficiente, numa sede incessante, afastando, assim, a Paz, esta força tão subestimada pela paixão bélica humana. O quadro aqui tem uma textura, como numa parede rústica, no modo como o rústico é acolhedor, sem pretensões, acolhendo de forma simples, igualando todos, na deliciosa sensação de saber que estamos ente irmãos, longe das prisões encarnatórias, pois não é a Carne esta prisão que tanto nos ensina e que tento nos faz evoluir como seres humanos? Presno gosta de linhas racionais e disciplinadas, como se estivesse com uma régua na mão, este falo que faz com que o aluno se assuste e respeite o professor, na intrincada tarefa de se impor disciplina a crianças e adolescentes inquietos, no inevitável modo de que, sempre, numa classe de alunos, há os excelentes, os medíocres e os insuficientes, num inevitável degradê, num gradiente, fazendo da escola o primeiro plano de competição entre os seres humanos, na eterna sedução de jogos e campeonatos, ou em concursos de beleza. Podemos ouvir aqui o discreto som do lápis retilíneo cortando o quadro. O branco é a base, na indestrutível tradição da noiva vestida de branco, nos preconceitos patriarcais de se entregar no púlpito uma filha pura e casta, a qual sempre foi guardada debaixo de sete chaves pela autoridade patriarcal, num mundo machista no qual não é permitido que a mulher tenha prazer sexual, havendo no mundo artistas mulheres tão transgressoras, que colocam o dedo neste nervo preconceituoso, pois, já ouvi dizer, uma sociedade só evolui a partir da transgressão de alguns de seus membros, na missão do transgressor em abrir os olhos do corpo social. Aqui, a retidão dos raios solares incidem, como nos braços retilíneos de Aton, o transgressor deus monoteísta egípcio, e a retidão é este apuro de caráter, esta dignidade, esta honestidade, com linhas aristocráticas de clareza e disciplina, na função do aristocrata em representar tais valores de Tao, desta classe impecável, como Jesus Cristo oferecendo a outra face, ou seja, deixe de ser bagaceiro e torne-se nobre! Neste prédio pós-moderno de Presno, temos uma lacuna na parte inferior, como escavações na rocha, como no Vale dos Reis, no Egito, com suas covas escavadas no ventre das colinas pedregosas, no incrível trabalho empreendido e supervisionado por líderes vaidosos, os quais não chegam aos pés dos líderes clemente que agem sob Tao, o fino, o emblemático, o arrebatador. A base aqui é cor vinho, no fascínio que os vinhos exercem, fazendo da birita algo tão universal, surgindo de formas diversas Mundo afora, trazendo, aqui, novamente, o preconceito patriarcal milenar, pois na Roma Antiga uma mulher não podia tomar vinho em público, numa misoginia que vai a extremos, como castrar uma menina puberscente, fazendo de Eva a eterna serva de Adão e atriz da queda do Ser Humano. Já, na porção mais superior, vemos uma boa porção dourada, na universalidade do Ouro, dos materiais valiosos e preciosos, tudo girando em torno da dimensão acima, a dimensão em que nos descobrimos absolutamente especiais, como príncipes que pulsam no sagrado sangue azul metafísico – somos todos iguais perante o amor de Tao, o Pai de tudo. Este prédio em trapézio é recatado, reservado, tímido, pois está recolhido, deixando o fundo branco ter um papel mais protagonista, no recato de uma pessoa que, apesar de cujo trabalho ser reconhecido socialmente, é, ainda assim, uma pessoa reservada, como se soubesse que bom mesmo é se sentir, dentro de si mesmo, tão especial e único, como no patinho feio que “virou” cisne – você sempre foi e sempre será um príncipe, fazendo com que você precise trilhar tal caminho de autoencontro, e isto é nítido, pois cada um tem que encontrar a si mesmo, sozinho, num caminho autodidata.

 


Acima, Geometria. Uma entrada de igreja, na universalidade das religiões, tentando desvendar o indesvendável, que é Tao, o eterno e excitante enigma. É como o sexo feminino, na entrada de uma vagina, numa Madonna que se sentiu muito invadida por um jornalista inglês que sugeriu que a diva tirasse fotos de seu próprio interior uterino, aborrecendo a cantora com tal indiscrição – respeito é bom e todo mundo gosta. Aqui, Presno foge um pouco da retilinidade e traz formas ovais, como em arcos góticos, na arte que antecedeu a explosão renascentista, no modo como o novo sempre vem, nas novidades brotando e excitando o Mundo, na vogue impressionista, desafiando séculos de arte acadêmica, na delícia que é o sabor da transgressão, esta força que nos faz mais avançados e modernos, numa encarnação que, com suas turbulências, vai fazendo de nós pessoas melhores, fazendo com que nos tornemos menos egoístas e menos grosseiros, pois nunca ouvimos falar que é para frente que se anda? Aqui é um quadro um tanto sombrio, com tons fechados, na culpa do pecado, como num Oscar Niemeyer, o qual projetou a catedral brasiliense com claridade, evitando a culpa lúgubre do pecado, no modo como o Ser Humano foi feito para pecar e aprender a não mais pecar, como um bom aluno que vai trilhando brilhantemente sua carreira escolar, ganhando a admiração dos professores. Aqui é uma porta de entrada para algo, num lugar que nos chama e acolhe, no prazer de se entrar num restaurante de hotel para tomar um belo café da manhã, na fartura de uma mesa com tantas opções, como num adolescente, que se vê tendo que fazer escolhas universitárias, a escolha de sua vida, no modo como é comum uma pessoa abandonar algo para abraçar algo novo, como num ator frustrado que mudou de profissão, buscando, assim, ter uma vida melhor – todos temos o direito de sonhar com uma vida melhor. O interior desta igreja é alaranjado, vibrante, provocante, numa fruta subestimada, a qual é feia por fora e deliciosa por dentro, ensinando-nos a lição de que nunca devemos subestimar as pessoas, pois é exatamente a pessoa subestimada a qual acaba nos surpreendendo. Tudo aqui se rende ao formato oval, como um ovo de Páscoa dentro de outro ovo, como bonecas russas, como numa família, com neta, filha, mãe, avó, bisavó etc. É o modo de sucessão monárquica, remetendo a uma época em que o paradigma democrático ainda não tinha ganhado toda a força que tem hoje, como numa Elizabeth II, a qual reina mas não governa. Aqui é como se fosse um quadro com linhas retas o qual foi subvertido, abalado, liquidificado, afetado, sofrendo assim uma influência forte a arrebatadora, como numa pessoa mudando de opinião e crescendo, aprendendo que é insuportável uma pessoa arrogante, pois a arrogância precede a queda, como num político encarando um amargo impeachment. Esta porta e estes arcos acolhem o fiel, no espetáculo de uma missa gospel, na riqueza afroamericana de cantores negros com vozes avassaladoras, gerando uma cultura pop tão rica, num país que se esforça para ser o mais democrático possível. Algo de vibrante e interessante está acontecendo dentro desta igreja, como no divertido filme com Whoopi Goldberg, uma cantora que acaba se encontrando com freiras cantando em missas. Estamos aqui do lado de fora da missa, mas podemos ouvir o movimento lá dentro, num templo que nos convida a entrar, como membros de uma religião, interpelando as pessoas na Rua, dizendo-lhes: “Jesus te ama!”, num Brasil que simplesmente não cobra impostos de instituições religiosas. Aqui é uma ogiva nuclear sendo detonada, no sentimento perene de culpa que persegue um soldado detonador, sabendo este, no fundo, a cruel estupidez que fez, num caminho de inferno consciente, fazendo da Guerra uma experiência que deixa sequelas inapagáveis – como posso ter Paz pensando em crianças as quais matei? É como no assassinato grupal da família real russa – desculpe-me, mas não é ok matar crianças. Aqui é uma estampa meio psicodélica, como uma fatia de torta revelando várias camadas geológicas formada em bilhões de anos – à Matéria vem a danação.

 


Acima, título não informado na referência bibliográfica. Vemos aqui um diálogo truncado, tenso, com negociações árduas, como nas complicadas relações diplomáticas, sempre primando pela harmonia, havendo na Guerra a perda total de tal tato, com o assassinato de Abel, na incapacidade humana em entender que viemos todos do mesmo Imaculado Útero. Aqui é um vaivém, como carros transitando em direções opostas, ou como pessoas passando umas pela vida das outras, na construção de relacionamentos, nas grandes amizades que resistem ao tempo, na eternidade dos grandes vínculos, relegados à infinitude de Tao, o inacreditável, pois, como eu já disse, há maior poder do que o Infinito? Aqui são como janelas sendo abertas, numa casa sendo arejada num feliz momento de limpeza, no prazer de se estar num lugar limpo, como na limpeza impecável do Plano Metafísico, um lugar onde há lugar sequer para uma única bactéria, fazendo do banho esse ritual que tenta nos dar uma amostra da plenitude limpa e perfumada dos desencarnados, num lugar onde os egos humanos e as bajulações caem por terra, pois as massagens de ego são desnecessárias num plano em que sabemos, com muita certeza, de que somos muito, muito especiais, fazendo do homem sábio este representante de Tao na Terra, no talento dos grandes líderes amorosos, pessoas imunes à sede de poder, numa espécie de imunidade psíquica, bloqueando a dantesca energia do Umbral, a dimensão miserável habitada por quem realmente não se sente especial. Aqui são como hélices de ventilador ventilando um ambiente, no modo como água parada fica podre, ou seja, quem não labora, não é feliz, sendo o Trabalho esta força que traz dignidade e preenchimento existencial, pois, já me disse uma amiga psicóloga, é tão desinteressante uma pessoa que é apenas dona de casa... Aqui, as linhas em diagonal buscam quebrar um pouco tal sisudez, numa rainha tão sisuda como Elizabeth II, sentindo-se acuada a tomar ação no momento da morte de uma das maiores personalidades de toda a História da Inglaterra – Diana, num país em que, na teoria, ninguém pode ser mais importante do que a Realeza. Aqui são janelas que se abrem para uma majestosa aurora, num momento que parece que o Mundo é feito de ouro, como na beleza intimidante da Galadriel de Tolkien, uma feiticeira de olhos penetrantes, que veem os homens por dentro, num personagem sábio, de elevada depuração moral, uma deusa da Estrela da Manhã, no momento em que, ainda em noite escura, uma estrela nos avisa do novo dia, da nova chance, do novo momento, no prazer de se tomar café da manhã à luz de um dia fresquinho e novo, numa página que tem que ser virada todas as manhãs. Aqui vemos um contraste com as cores das “janelas” em meio a um fundo tão denso, discreto, fazendo da discrição algo tão importante, pois a pessoa discreta é subestimada, ou seja, pode agir e surpreender a todos, ao contrário do exibidinho, o qual pouco tem a mostrar. Aqui, Presno assina sublinhado, num realce, algo para chamar nossa atenção, na intenção artística do artista se tornar algo importante, algo maravilhoso, cheio de dignidade, sendo respeitado, amado, num patinho feio que se descobriu cisne, num processo cognitivo esclarecedor, num dia que vai amanhecendo aos poucos, num processo gradual, que leva um certo tempo para se desenrolar. Aqui são como leques sendo abanados, como damas antigas em bailes, abanando-se, na grande invenção que foi o Ar Condicionado. Aqui são como elevadores indo e vindo, na demanda de um grande prédio, na preguiça humana em tomar as escadas, pois, eu já disse outras vezes, foi da Preguiça que vieram grandes invenções da Humanidade. Essa predisposição diagonal é como a revolução da perspectiva geométrica renascentista, num momento em que a poderosa vogue do momento era derrubar a limitada arte medieval e trazer o frescor de novos ventos para a Europa, na febre das Navegações, num momento em que a Humanidade descobriu a si mesma, na dúvida de que se há ou não Vida, e Vida Inteligente, fora da Terra. Uma linha corta do quadro de norte a sul, como numa linha divisória, dividindo reinos amigos.

 


Acima, Tríptico. O prazer violador de se olhar para janelas, dentro da casa de alguém. É no genial sistema Windows, ou seja, Janelas, simplificando para o usuário o uso de computadores, longe de códigos e padrões de pouca estética, não fazendo com que o usuário precise ser um nerd brilhante para acessar tal tecnologia.

Quadro 1: Cacos de vidro, num coração despedaçado, no momento doloroso em que a ilusão se desfaz, dando choques de realidade na pessoa, como na desconfortável sensação de se levar um choque elétrico. São quinas agressivas, perigosas, e exigem que tomemos distância respeitosa, como num reino pacífico, que irá à Guerra se provocado. Aqui é como uma dança de baile, com o flerte, as paqueras, as expectativas amorosas, na dor de se levar um chute, ou seja, um rechaço amoroso, fazendo da expectativa a irmã siamesa da dor de desilusão, como na letra de Marisa Monte: “Desilusão. Dança eu, dança você, na dança da solidão”. São as carências afetivas, que fazem com que uma pessoa se derreta frente a qualquer demonstração de carinho, numa vida solitária e triste. Aqui é como um beijo impossível, complicado, com duas pessoas que estão tendo dificuldade em se entender, talvez numa pessoa arredia e temerosa, temendo muito se machucar com estas quinas traiçoeiras. Aqui há um desencontro, com idealizações que foram sendo frustradas e desiludidas, como numa pessoa que troca de namorado como troca de roupa, sabendo o que é Sexo; não sabendo o que é Amor. É um beijo de despedida, com cada pessoa rumando para um lado, no modo como as grandes amizades resistem tanto à passagem do Tempo.

Quadro 2: Aqui há arestas mas há também linhas orgânicas e arredondadas. Vemos uma vírgula negra, num pedido de pausa, de calma, no modo como o Desencarne é uma mera vírgula, numa pessoa que desencarnou e percebeu que precisa continuar trabalhando em produtividade. Vemos um retângulo arredondado, gordinho, querendo se posicionar no centro do quadro, querendo ser importante, querendo ser algo, talvez um artista respeitado, ou um príncipe, no modo como o homem de Tao é assim, excessivamente polido, cuidadoso, como se soubesse que há perigo na travessia de um “rio”. É como se um córrego de sangue saísse desse retângulo, nas dores mensais menstruais, no modo como a mulher é mais tolerante à dor que o homem o é – quem é mesmo o sexo frágil? Vemos aqui uma ponta de faca cortando alguém, como rejeitar alguém, rejeitar um namorado, mandando esta pessoa rechaçada ir vagar pela rua dos sonhos despedaçados, numa pessoa que não mais suporta levar tal vida de lobo solitário. É como um dente de vampiro, este ser fantástico que faz certíssima metáfora com o sociopata, este sugador de almas, este manipulador ardiloso que acha que é Deus, simplesmente Deus – existe arrogância maior? Aqueles que mentem acabam sendo rejeitados e desprezados. O fundo branco é como os pálidos personagens góticos do diretor Tim Burton, na palidez dos ingleses, numa terra na qual o Sol luta tanto para acalentar dias de neblina cinzenta.

Quadro 3: Aqui dá para se observar uma inspiração no grande mestre Piet Mondrian, no modo como é inevitável que os artistas influenciem uns aos outros, fazendo com que os grandes artistas célebres se tornem “escola” para os artistas ainda não tão célebres. Assim como em PM, vemos linhas retas racionais e elegantes, na magia do equilíbrio assimétrico, no equilíbrio de uma equação, fazendo da Matemática esta clara prova da mente suprema de Tao, o lógico, como se cada um de nós fosse um computador, uma máquina, no caminho da construção técnica do espírito, nunca perdendo, é claro, o Amor e a afetividade por seus irmãos, seus iguais. O traço negro aqui é marcante, sério, delineador. São como folhas sobrepostas, numa assemblagem, numa reunião de vinhos, numa salada de fruta, num corpo social diversificado, no qual as diferenças têm que ser altamente respeitadas.

 

Referências bibliográficas:

 

Lincoln Presno. Disponível em: <www.aplicacoes.fcc.sc.gov.br>. Acesso em: 21 fev. 2021.

Lincoln Presno. Disponível em: <www.arteinformado.com>. Acesso em: 21 fev. 2021.

Lincoln Presno. Disponível em: <www.articulo.mercadolibre.com.uy>. Acesso em: 21 fev. 2021.

Lincoln Presno. Disponível em: <www.galeriaciudadela.com>. Acesso em: 21 fev. 2021.

Lincoln Presno. Disponível em: <www.galeriamisiones.com>. Acesso em: 21 fev. 2021.

Lincoln Presno. Disponível em: <www.mnav.gov.uy>. Acesso em: 21 fev. 2021.

Lincoln Presno. Disponível em: <www.pt.wikipedia.org>. Acesso em: 21 fev. 2021.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Descobrindo o Américo

 

 

Precoce talento intelectual multimídia, o brasileiro Pedro Américo (1843 – 1905) estudou na Europa sob o patrocínio de seu poderoso mecenas, ninguém menos do que o Imperador Dom Pedro II. Difícil falar de Pintura Acadêmica Brasileira e não falar de Pedro Américo. Os textos e análises semióticas a seguir são inteiramente meus. Boa leitura!

 


Acima, A Carioca. Realmente, toda a impecável técnica de PA. O dedo do pé mal toca a água, num gesto sutil, discreto, trazendo ondas de perturbação, como na ambição artística de causar impacto e comoção, com grandes transgressores catárticos, expondo sua alma ao Mundo.  O lago é a placidez, a vida, a quietude, numa pessoa que encontrou quietude em seu dia a dia, produzindo calmamente, sabendo que Roma não foi construída num dia só. Podemos ouvir aqui o delicioso som de água pura fluindo, sendo Tao esta fonte que nunca seca, sempre provendo, sempre criando e imaginando. A carioca tem os cabelos negros como a asa da graúna, e penteia-se, aprumando-se, como se soubesse que está sendo observada pelo pintor, no ritual de aprumação, de mulheres que levam mais de hora para se arrumar para algum evento social importante, sendo que, para a mulher, a diversão já começa na hora de se arrumar, como uma Evita Perón, a qual, reza a lenda, levava cerca de quarenta minutos para ficar pronta ao acordar, com um cabeleireiro que a assistia na Casa Rosada. A nudez aqui, como tudo em PA, é sutil, refutando toda e qualquer vulgaridade, como na revista Playboy brasileira, no erótico que não é banal ou vulgar. O manto negro é a dor da cólica menstrual, uma dor que os homens mal imaginam, na minha memória do Ensino Médio, com minhas colegas chorando de dor, tendo que tomar doses cavalares de Atroveran – como eu já disse no blog: como é duro ser mulher! O vermelho é o interior uterino, no tapete vermelho das celebridades, numa cor luxuosa e chamativa, com o público, as pessoas comuns, “babando” com os trajes extravagantes de divas, numa aparição pública que faz com que esqueçamos de que somos todos seres humanos, filhos do mesmo Rei. O vermelho é o prostíbulo “Casa da Luz Vermelha”, como em disse certa vez um amigo – no puteiro, como perdão do termo chulo, tudo remete a Sexo. O vermelho é o sangue de irmãos derramado na Guerra, esses horríveis eventos em que Tao é totalmente deixado de lado, num momento brutal em que nos esquecemos que o esforço diplomático em nome da Paz é o que importa – como pode haver Paz se cobiço o terreno de meu vizinho? Aqui, vemos um erótico momento de intimidade e reclusão, como se fôssemos voyeurs invadindo as casas alheias, no interesse erótico de se observar aquilo que não vem a público, como no prazer científico de construir grandes telescópios que nos mostram confins remotos do Universo Observável – a Criação é tão vasta que se torna infinita, mais uma prova do poder de Tao, no presente que nos é dado, que é a Vida Eterna – existe presente maior do que o fato de que jamais findaremos? Aqui, temos uma paisagem digna de quadro renascentista, num estilo artístico que mais tarde seria deliciosamente transgredido pela Arte Moderna, abrindo o leque de opções e libertando a Arte da função retratista. Aqui é o momento de um banho, com o perfume pairando no ar, na sensação revigorante de um bom banho ao fim de um dia de labor e atividade, no modo como há toda uma ritualidade por trás de um inocente banho. A carioca aqui não parece olhar exatamente para o pintor, mas para um fundo mais além, mais longe, numa pessoa que sabe observar o Mundo com grande alcance, na dádiva que é observar o Mundo do jeitinho que este é. Na porção inferior vemos perfumadas flores, na sedução das fragrâncias, estes frascos que exercem tanto fascínio, fazendo metáfora com a Dimensão Metafísica, onde tudo é extremamente limpo, puro e perfumado. Vemos aqui uma cascata, na sensação revigorante de se tomar um banho de cascata, com a água caindo impiedosamente na pele do banhista – vida nova.

 


Acima, A Noite com os gênios do Estudo e do Amor. Este deslumbrante quadro eu vi certa vez no Museu da Arte do Rio Grande do Sul, o MARGS, num quadro grande, arrebatador e deslumbrante, numa deusa ascendendo no luar sensual, com seu corpo puro como leite, semioculto por uma renda que tanto mostra quanto esconde, num jogo que brinca com a excitação de forças cósmicas opostas regendo o Universo. Aqui é como um comercial da sedutora marca de lingeries, a Victoria’s Secret, ou seja, o segredo da vitória do feminino, fascinando um Woody Allen, cujo personagem disse: “As mulheres são a melhor coisa que se pode ter na vida”. Uma gigantesca Lua está quase oculta, neste satélite que desde sempre fascinou em mistério o Ser Humano, neste símbolo feminino cíclico, numa stripper no palco, absorvendo todos os olhares dos homens na plateia. A Lua é este prato de prata que reflete, numa intensidade luminosa tão dúbia, que não fede totalmente nem cheira totalmente, por assim dizer. Esta deusa da Noite então pontilha o céu noturno com estrelas em um prato prateado, o espelho que é símbolo da Feminilidade. Outro símbolo noturno aqui é a coruja, vivendo notívaga, como nos boêmios, buscando na Noite uma reclusão para se esquecer um pouco dos próprios problemas, na frase famosa: “A Noite é uma criança”. É como um vampiro que evita o Sol, como no Gollum de Tolkien, refugiando-se num mundo escuro, num submundo, desconectando de algo que é primordial, que é o Senso Comum. Aqui, a deusa é suprema e protagonista, ocupando o quadro, abocanhando-o com fome e ambição. Seus cabelos são tão longos, talvez nunca cortados, na moça pura e casta que é negociada pelo próprio pai num casamento arranjado, na crueldade patriarcal que faz da mulher uma mera mercadoria a ser negociada, no preconceito que coloca Adão como uma obra prima; Eva como um arremedo secundário, só servindo para parir e cuidar da casa, vivendo a vida de outra pessoa. Aqui é o fascínio da prataria, na reflexão, da pessoa encarando um espelho existencial, observando a própria vida da forma mais clara possível, como numa pessoa que, de modo repentino, dá-se conta de um empobrecimento existencial que veio se desenvolvendo devagar, pé por pé. Aqui, a deusa voa, com poderes mágicos, leve como uma pluma, avassaladora como uma supermodelo numa passarela, deslumbrando o Mundo com o poder que existe na Feminilidade. Vemos o gênio do Amor com a fálica flecha do Amor, mirando em corações, num coração dolorido e sofrido, sofrendo com as dores do Amor e da Paixão, talvez numa pessoa solitária, triste e carente, derretendo-se toda para qualquer um que ofereça um pouco de carinho. O gênio do Estudo ergue sua tocha esclarecedora, jogando luz sobre os mistérios, mas uma luz que não é o suficiente para desvendar os segredos da Noite. A tocha arde com paixão, na busca humana por Conhecimento, mandando sondas a Marte. O Livro é a Civilização, no modo com a Letra foi o que criou as civilizações, na codificação de palavras, eternizando palavras pela noite dos tempos, perpetuando obras como a Bíblia. Os gênios aqui são gêmeos paridos pela Noite, no modo como Tao se biparte e gera Yin e Yang, as forças opostas de um rei e de uma rainha que regem o Universo. Os cabelos da deusa aqui são águas turvas e misteriosas, instigando a curiosidade científica, na missão científica de, em metáfora, saber como funciona um relógio sem poder olhar este por dentro... Aqui, tudo é esvoaçante e fino, na sensação deliciosa de se vestir uma camisa de seda, fazendo metáfora com o carinho uterino, cercando o feto de proteção e carinho. Aqui, a renda é de estampa feminina, orgânica, como ralos de pia de galáxias, pratos girando numa ciranda, jorrando estrelas pelo Céu noturno, no simples ato de se observar as estrelas, a morada dos deuses, nossos irmãos que atingiram a plenitude do apuro moral, dando-nos o exemplo de evolução espiritual, nesta grande universidade que exige que cada pessoa se encontre por si mesma.

 


Acima, David em seus últimos dias é aquecido pela jovem Abisag. O ancião parece estar assustado com o assédio da jovem – é o medo, talvez no medo humano da Morte, no modo como os espíritas lidam tão naturalmente com o óbito do corpo físico, sabendo que a Mente sobrevive à morte da Carne. David aqui tem todo o aspecto do patriarca, no modo como temos esta imagem de Deus – a de um patriarca ultraexperiente, idoso, cheio de sabedoria. Os lençóis e cortinas ficam com um aspecto fluidio e sedutor, como água correndo, e quase podemos ouvir o som de água escorrendo, numa sensação relaxante como a sensação indescritível de Paz na Experiência Extracorporal, quando o espírito sai momentaneamente do corpo físico, dando-nos uma amostra maravilhosa da plenitude de liberdade espiritual, ou seja, na plenitude feliz dos desencarnados elevados ao Reino dos Céus. A barba extremamente longa é essa experiência, num homem que desde menino vai galgando seu caminho, adquirindo experiências e adquirindo essas “rugas e cicatrizes”, como em galãs como Tarcísio Meira, seduzindo as mulheres com essa carga de experiência, nos preconceitos patriarcais – a uma mulher não é permitido ter experiência, rugas ou cicatrizes, com mulheres artistas que tratam de transgredir esses preconceitos milenares. Abisag é bem jovem, sem um fio de cabelo branco, no preconceito de que uma mulher simplesmente não pode aparentar envelhecer, tendo que permanecer para sempre virgem, jovem e bela – que preconceito, hein? Aqui, é um leito digno de rei, com nobres cobertas, na imagem de um regente deitando em seu leito tão confortável, girando em torno de algo superior, que é a sensação metafísica de bem estar, num espírito desencarnado que, ao voltar ao Céu, sente-se tão bem disposto, tão bem. Abisag veste joias nobres, enfeitada, como uma mulher de um harém de um faraó, a qual, em período fértil, enfeita-se para ser penetrada pelo regente, que tem a obrigação de colocar no mundo um herdeiro varão, com mulheres subestimadas como Elizabeth I, a qual acabou superando tantos e tantos homens, mostrando o poder feminista libertador. O ancião é a passagem do Tempo, como num curso universitário, desenrolando-se por anos, no périplo de estudos e trabalhos que um estudante tem que fazer para se formar finalmente, como no desencarne, quando a pessoa nota que sua missão terrena foi cumprida – hora de voltar para casa, numa pomposa festa de retorno à Fonte, com amigos recepcionando o recém desencarnado – na Vida é tão bom ter amigos, ou seja, o que seria de mim sem amigos para ter? As negras melenas da moça fluem com água negra numa noite escura, numa imprevisibilidade, num mistério, nos confins negros do Universo, excitando a curiosidade científica, num Ser Humano que se viu nascer em tal mundo enigmático, no desafio que é manter a fé em relação a uma inteligência suprema, que é Tao, o eterno enigma – passaremos a Eternidade tentando desvendar o indesvendável, pois, do contrário, qual seria o significado de tudo? A moça aqui suspira na sedução, com uma boca vibrante e sedutora, deliciosa, irresistível, e o ancião considera que isso tudo é muita areia para o caminhão dele mesmo, como num caminho de superação de obstáculos – em primeiro lugar, temos que nos curvar e não subestimar o desafio; em segundo, depois do ato humilde de se curvar, é hora de encarar a lida, vencendo um obstáculo que parecia tão intransponível, pois se inicio achando que vai ser tudo fácil, acabarei achando tudo muito duro. David aqui parece antever algum perigo, e é como o homem de Tao, sempre cauteloso, nunca recomendando violência, como se soubesse que há perigos na travessia de um rio. A nudez da moça aqui é realçada pelos adereços, no eterno jogo de sedução entre mostrar e ocultar. A rubra cortina é esta sedução carnal, como entrar numa loja de lingeries perfumada, num David que se vê tão extasiado com tais mistérios. A moça tem beleza digna de rainha, e sua pele é pura como leite, como nos lençois abaixo de si, na sensação de se desflorar, como apontar telescópios para os confins de um Universo tão vasto, tão além de qualquer compreensão humana.

 


Acima, Fala do Trono. Aqui, PA faz justa homenagem a seu grande e poderoso mecenas, Pedro II, um dos maiores líderes da História do Brasil, quiçá o maior, num reinado longevo. Aqui, nosso imperador é absolutamente majestoso, não deixando a desejar em relação aos grandes monarcas europeus, no poder representativo que as famílias reais têm – quaisquer destas. A altivez do imperador faz metáfora com a soberania da nação, num recado claro: nós, os brasileiros, não fomos encontrados numa “lata de lixo”, pois temos uma história, um berço, uma proveniência; não somos um país sem eira nem beira. O grande e retilíneo cetro é este falo imperial, com leis buscando unificar um Brasil tão vasto e heterogêneo, numa unidade tão questionada pela malograda Revolução Farroupilha, a tragédia fundadora do Rio Grande do Sul. A barba é a masculinidade e a experiência sábia, num líder que envelheceu no trono, adquirindo tal invejável knowhow. O cetro é o poder do Pensamento Racional, num regente sem paixões nem impulsos insanos, como num paciente de psicoterapeuta, sendo desdobrado pacientemente nas sessões. Outro falo aqui é a espada na bainha do líder, num aviso: sou pacífico, mas responderei se provocado. Ou seja, comporte-se, caro cidadão brasileiro, numa era em que a herança de sangue de rei já começara a ser corroída pela Revolução Francesa, num Brasil que se tornou república e baniu a princesa Isabel, a última representante da glória dos de Orleans e Bragança. O manto majestoso faz metáfora com toda a riqueza de fauna e flora do Brasil, num país tão rico de belezas naturais, dando tanta inveja aos países de bioma menos exuberante, na majestade das paisagens cariocas, por exemplo, com suas frutas exóticas e pássaros coloridos. Aqui, é um momento solene, num ponto em que o Governo trata de deixar bem claro que é o Brasil e para onde este vai, fazendo metáfora com a riqueza espiritual do Plano Metafísico, gerando imitações na Terra, como na imitação que é a pompa na coroação de um rei inglês, numa tradição milenar que gira em torno da atemporalidade metafísica, no lugar onde não há envelhecimento ou perecimento, em tradições que conquistam a admiração e o respeito do povo. No topo do cetro vemos um ser alado, na liberdade do Pensamento Racional, na beleza estonteante da Matemática, na riqueza psíquica de toda uma sofisticação sendo gerada pela simples lógica matemática: primeiro vem o 1; depois, o 2 etc., fazendo de tal lógica uma irrefutável prova da sofisticação humana. As densas vestes do imperador sugerem que é um dia de frio europeu, mas na verdade é um dia de calor tropical carioca, numa carente era quando não existia o ar condicionado. Ao fundo, acima, duas damas assistem ao evento pomposo, no eterno preconceito machista e misógino do patriarcado, na raridade de regentes mulheres respeitadas, como na egípcia Hatshepsut, a qual reinou, na prática, como homem. Ao fundo, mais abaixo, vemos um grupo de nobres cavalheiros, indefectíveis, na intenção de PA em retratar um momento tão digno, respeitável e apolíneo, num esforço do pintor em valorizar um poder que lhe deu invejável instrução europeia, um cenário conservado e tradicional que viria a ser tão transgredido pelas tempestuosas e impetuosas pinceladas de Impressionismo. A decoração aqui é toda clássica, tradicional, tal qual a Pintura Acadêmica, no paradigma estético grecorromano, marcando para sempre o modo ocidental de observar o belo. Os sapatos do imperador são delicados, num homem polido, com tato e preponderância, num Tao adquirido ao longo de muitos anos de regência, no desafio de um regente em ser visto, amado e respeitado pelo próprio povo, pois o regente que se afasta do próprio povo deixa de ser regente... A faixa azul no peito é tal sangue azul, numa árvore genealógica deslumbrante, mas com um aviso: é claro que é maravilhoso ter tal nobre ascendência, mas, no frigir dos ovos, o príncipe assim nascido tem que, mais tarde, na vida pública, demonstrar ter “autonomia de voo”, deixando de ser um príncipe com P minúsculo para se tornar um com P maiúsculo – que desafio, não?

 


Acima, Independência ou Morte. Esta obra é o ponto alto do Museu do Ipiranga, SP, no salão mais nobre do palácio paulistano, marcando o momento em que o filho não mais atura ficar na sombra do pai, como um menino que quer ser homem; como numa pessoa adquirindo o controle de sua própria vida; como uma dona de casa que quer trabalhar e ter uma carreira de fato, encontrando, assim, a si mesma. As espadas fálicas são erguidas para desafiar uma nação europeia a qual tanto sugou de sua colônia, num empreendimento para que o Brasil adquira uma identidade própria, louvando sua própria história. Aqui, o Hino Nacional Brasileiro ganha uma ilustração, e Dom Pedro I faz como Elizabeth I, “colocando o p.. na mesa”, numa regente desafiando uma Espanha estão tão poderosa e militarmente temida na Europa. Claro que ouvimos aqui o som dos cavalos furiosos, impetuosos, cheios de energia e altivez, no animal mais majestoso já criado por Tao. Vemos uma nesga ínfima das águas do célebre Ipiranga, no modo como a História vai fluindo e se desdobrando, num Brasil de uma história cheia de reviravoltas, como golpes de estão, na eterna ciranda do Poder, esse néctar doce que tanto seduz o caráter dos homens, num homem que passou a vida cobiçando mais e mais poder, extirpando sua própria paz, seu próprio sossego. Aqui, é um belo dia, como canta o hino, e é como se todo o Brasil estivesse desprovido de qualquer nebulosidade, de quaisquer dúvidas, numa certeza política. Claro que o protagonista aqui é Pedro, no topo da hierarquia, erguendo a espada agressiva como o facão do emblema do Movimento dos Sem Terra, no eterno modo humano de impor a Paz por meio da Guerra, numa Paz artificial, muito longe de Tao, aquele que nunca toma medidas violentas ou medidas de armistício. Os Dragões da República são majestosos, ocupando lugar de tradição na altiva posse de um presidente brasileiro, na rampa que eleva o eleito ao cargo mais poderoso do país, no modo como nós brasileiros temos nossas próprias tradições, no modo como a altivez jamais pode ser confundida com arrogância que invade países vizinhos, nessa dança de poderes no Mundo, com impérios ascendendo e descendendo, havendo em Jesus Cristo esta permanência em meio a esse mar turbulento das vaidades humanas, num homem de Tao, ou seja, um homem que nada tem a ver com armas. A ironia neste quadro reside no fato de que, na extrema esquerda, vemos uma pacata cena de dia a dia, de labor cotidiano, com agricultores puxando bois para arar a terra, fazendo contraste entre pacato e extraordinário, como Clark Kent e o Super-Homem, fazendo com que comum e nobre sejam uma mão que lava a outra abaixo da água corrente do Ipiranga. Já, na extrema direita, vemos um humilde casebre, talvez representando a pobreza de um Brasil que, ainda assim, é tão rico, pois, como já ouvi falar de um historiador, a corte de Petrópolis não era das mais ricas, entrando em contraste com a pompa ostensiva das tradições britânicas, na hierarquia entre potências e subpotências. Aqui, Pedro toma o lógico lugar de liderança, num senhor entre homens, e aqui é uma cena masculina, sem mulheres, nos preconceitos patriarcais que impedem que uma mulher possa ter papel protagonista. Aqui, o chão é de terra, na terra do Brasil, este país tão vasto, que tanto pode produzir em suas vastas terras. O chão de terra é a simplicidade, a falta de pretensões, na forma simples de hierarquia – o imperador acima de todos. O ímpeto dos cavalos é essa inquietude de jovialidade, fazendo com que o Oceano Atlântico se torne um abismo entre duas nações, num Brasil que resolveu ser de si mesmo, nos desafios do desenvolvimento de identidade nacionais, como a Bossa Nova, é claro, o Samba. Aqui, Pedro discursa aos homens como um papa no púlpito, e o Brasil entende que está na hora de “desmamar” e, de certa forma, impedir que o Brasil siga sendo uma teta mamada pela coroa portuguesa – é um cordão umbilical sendo cortado.

 


Acima, Tiradentes Esquartejado. O quadro retrata um terrível momento de propaganda estatal, de terror endereçado ao cidadão comum – se você não que acabar como este pobre coitado, comporte-se e nunca questione a Coroa Portuguesa, num Brasil Colônia regido por um vice-rei, o qual respondia diretamente a Portugal. Como a Verdade é a filha do Tempo, passa-se o Tempo e Tiradentes é alçado à categoria de herói nacional, com direito a feriado nacional, num ícone que antevia a necessidade do Brasil desenvolver soberania e identidade própria. Neste quadro, vemos um crucifixo, comparando Tiradentes ao Messias que morreu incompreendido na cruz, ambos homens muito à frente de seu próprio tempo. Neste pano branco, vemos um clamor por Paz, num pedido que o Estado seja mais clemente, ao contrário das ditaduras, as quais só funcionam se o cidadão é mantido sob controle, como cão num canil. Aqui, o sangue brasileiro escorre, num desperdício, numa execução tão cruel como a forca, num corpo que, num último gesto cruel de humilhação, foi esquartejado e exposto ao aterrorizados olhos do cidadão comum, com restos mortais que foram enterrados de qualquer forma, como um cachorro sendo enterrado em qualquer vala sem identificação, na eterna capacidade humana em ser o mais longe possível de Tao, aquele que não subestima o Amor. Neste esquartejamento, é como um objeto sendo dissociado e analisado, parte por parte, como nas especialidades médicas tratando de uma parte específica da Vida do Homem, como desconstruir um objeto e descobrir o que faz com que o organismo viva e funcione. Neste impactante quadro, uma das pernas é perfurada com um prego inclemente, com nas abrasivas pirâmides pontiagudas egípcias, nas ambições imperiais que fazem com que se cobicem os reinos vizinhos, na fogueira das vaidades do Poder, esta força que tanto corrompe a alma do Homem, no Anel de Tolkien, seduzindo sombriamente os corações de homens puros, num Anel cujo intuito era simplesmente acabar com o Mundo, como num Hitler, o psicopata que queria colocar metade do Mundo contra a outra metade, acabando, assim, com a Vida na Terra – não há espaço para Amor no coração podre de um psicopata. Aqui, a genitália está coberta, num certo pudor. O pano azul é o sangue azul dos monarcas portugueses, numa época em que o paradigma democrático ainda engatinhava, fazendo da sucessão sanguínea ao trono a forma mais crível de Poder até então. A escada é o caminho da evolução espiritual, passo a passo, como num Jesus que, depois de tão maltratado, ressuscita e volta ao Lar Primordial Metafísico, a dimensão onde todos nos sentimos extremamente especiais, amados e queridos – lá é maravilhoso; é tudo. Podemos ouvir o som de Tiradentes subindo a escada para seu fim derradeiro, na capacidade humana em simpatizar com o Mal. Bem ao fundo no quadro, num ínfimo detalhe na parte inferior da obra, vemos humildes casas de cidadãos comuns, talvez observando a execução pela janela, temendo o poder da Coroa, numa regência a qual, quanto mais assustar do cidadão, melhor, no desespero de um monarca em se manter na parte mais superior possível da “pirâmide”, horrorizado com a perspectiva de perder tal poder. Esta execução é o medo do monarca em que a situação perca controle e que os cidadãos se rebelem em massa. Tiradentes desencarnou, nessa “ressurreição”, e todas as feridas mundanas foram curadas, no milagre da desencarnação, esta vírgula que nos mostra os reais planos de Tao para conosco. Em pouco tempo, as moscas aqui vão se amontoar, e aves carniceiras farão seu banquete, finalizando a grande humilhação imposta a tal herói da Pátria. O Ser Humano é assim mesmo, empedernido, frio, amargo. Nesta terrível vitrine, a cabeça de Tiradentes está no topo da cena, no modo como Portugal foi por tanto tempo a cabeça que regia um Brasil colonial tão selvagem e misterioso. Tiradentes morre para acordar ileso, cercado de amigos, de Amor, na vitória da Aurora sobre a Escuridão. Tiradentes, um visionário.

 

Referência bibliográfica:

 

Pedro Américo. Disponível em: <www.pt.wikipedia.org>. Acesso em: 15 fev. 2021.