quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Tempestade e Bonança

 

                                      

O pintor francês Pierre Bonnard (1867 – 1947) nasceu de um pai que queria ver o filho se tornar advogado. Estudou Arte em academias célebres de Paris. Foi também ilustrador de revistas. Multipremiado, teve em 1924 sua primeira retrospectiva. Amigo de Toulouse Lautrec. Usava a própria esposa como modelo. Os textos e análises semióticas a seguir são inteiramente meus. Boa leitura!

 


Acima, A Mesa do Toalete. É engraçado Pierre usar a própria esposa nua, em algo como “usar a prata da casa”. A mulher tem um corpo belo, digno de posar para um pintor. Seus seios jovens são voluptuosos, lindos, vigorosos, dignos de uma deusa grega. É uma mulher cheia de curvas, como uma montanha com seus picos e insinuações geológicas. Aqui não podemos ver o rosto, talvez num Pierre que, apesar de retratar a própria esposa, não “entregá-la” por total ao Mundo. O espelho é a reflexão, numa pessoa que se depara sobre sua própria vida, talvez num excruciante momento de pobreza existencial, no qual a pessoa se vê nua, solta, perdida, deprimida, sem ter a mais básica noção de Norte, de referência. Aqui, a mulher está “decapitada”, talvez catarseando um machismo, uma misoginia, no poder terapêutico da Arte, fazendo do vômito catártico tal purificação, tal lavagem de alma – se estiver com ânsia de vômito, vomite; não retenha. A jarra é o receptáculo feminino, a passividade, a Jeannie em sua garrafa de gênio, como a jarra de Galadriel, nos mistérios aquosos de um espelho mágico que revela o passado, presente e futuro, ou um futuro possível. É o lar, como no interior de uma flor oca, abrigando água e podendo gerar pequenos girinos, na ânsia de Conhecimento que faz com que o Ser Humano querer ver se há Vida fora da Terra, numa Era Espacial Humana que está ainda tão embrionária, tão iniciante. A pia é a purificação, como se benzer ao entrar num templo católico, ou como, nos dias de hoje, higienizar as mãos ao entrar em alguma loja ou restaurante, no modo como tudo tem um lado positivo, pois os cuidados com o Coronavírus estão fazendo com que os casos de gripes e resfriados despenquem vertiginosamente. Vemos mágicos frascos de perfumes, no poder das fragrâncias, fazendo metáfora com as irresistíveis fragrâncias metafísicas, comportamentais, pois de que adianta um psicopata que usa um perfume se sua alma corrompida e imoral fede a carniça? É como já narraram pessoas sobre o perfume comportamental do célebre médium Chico Xavier, uma pessoa tão fina que tal perfume mental invadia as narinas físicas das pessoas ao redor do mestre espírita – Beleza vem de dentro; Elegância vem de dentro. De que adianta uma cantora brega que veste Chanel? Este toalete tem um momento íntimo, perfumado, com som reverberante no box de banho, num momento pessoal, altamente pessoal, a hora para um poderoso ritual de purificação, como li certa vez sobre uma pessoa que desencarnou e parou numa poça de lama, sendo assim conduzida por um espírito benéfico, talvez seu anjo da guarda, a um banheiro qual a pessoa tomou um banho e se purificou, e Tao é assim, limpo, essencial, cuja preguiça faz com que suas atitudes sejam limpas, minimalistas, no fato poderoso de que menos é mais. Podemos ouvir o som de água correndo, como violinos cantando, fluindo, com perfume fino pairando no ar, como na personagem transexual Ninete de Tieta, saindo do banho com todo o poder do perfume feminino, como no filme Perfume de Mulher, na célebre cena do personagem cego dançando tango com uma mulher perfumada, como disse um personagem de Whoody Allen ao filho: “As mulheres são a melhor coisa que você terá na Vida”. A luz entra aqui pura, uniformemente distribuída, iluminando o corpo, num erotismo que não chega a ser sexual, mas sensual, como no suave toque de veludo, ou de um casaco de pele, fazendo metáfora com o carinho entre irmãos na Terra e no Céu, como um bebê cercado de cuidados. A cadeira é o repouso, ou o momento de autoestima, num bom banho sendo tomado, talvez com unhas sendo pintadas, numa pessoa que aprendeu que o amor próprio é uma das coisas mais importantes na Vida.

 


Acima, A Tigela de Leite. O Sol entra furtivo na sala, banhando tudo como ouro, como no ouro dos faraós, banhando o Egito de Vida, Riqueza e Agressividade, num Império que se impôs militarmente, sendo temido, assim como era a temida Invencível Aramada Espanhola quando Elizabeth subiu ao trono inglês, assim como hoje em dia os EUA são tal potência militarmente temida – cada época com seus impérios, como disse LF Veríssimo, meu escritor favorito: “É o Império da Língua Inglesa”. Aqui, é o termo “lagartear no Sol”, remetendo-me a um lagarto que vi em minha residência em Caxias do Sul, com o réptil tomando seus banhos de Sol, no prazer de se aquecer à luz do grande astro. É o consolo de um raio de Sol em um dia úmido e frio, no modo como a Vida tem que ter seus contentamentos, pois se o que tenho considero que não é o suficiente, então jamais terei o suficiente – a Ambição é inimiga da Paz. A menina aqui está apagada, camuflada, escondida, extremamente discreta, como uma pessoa que aprendeu o valor da Sutileza, esta força delicada que varre mundos com sua delicadeza, pois o conotativo acaba sendo um denotativo de ouro. Através da janela, parece que vemos um mar, bem plácido, calmo, sem traiçoeiras ondas, numa doçura, assim como são doces as lembranças de Infância, remetendo-nos aos amiguinhos, aos desenhos animados, aos doces em festinhas de aniversário. A menina parece segurar um pequeno espelho, como o espelho que a idosa Rose segurou em Titanic, na divertida frase por ela proferida: “O reflexo mudou um pouco”. Símbolo de Feminilidade, o espelho é a Beleza, a autoestima de uma mulher que se apruma para interagir socialmente. A menina aqui está bem escondida, como se tivesse medo de se mostrar, numa pessoa que aprendeu que o exibicionismo é a contramão da dignidade respeitável. Na pequena mesa banhada de Sol vemos o leite sendo servido. O leite é o sangue da Vida, numa mãe amorosamente amamentando, no instinto das fêmeas mamíferas, dando tudo de si pela prole, com a diferença que, no Ser Humano, o carinho materno sobrevive ao crescimento da prole. O Leite é a pureza, no modo como deve ser complicada a Vida de pessoas intolerantes à Lactose, só podendo consumir laticínios sem tal substância. É como fiz agora há pouco, quando cozinhei uma panela de negrinho, no prazer de comer o doce em generosas colheradas, na fabuloso pecadinho da Gula – que vida é essa na qual não há esses prazeres, uma vida crucificada em impiedosa disciplina? Este Sol sobre este saudável leite me remete quando tomei muitos remédios para intoxicação alimentar, quando vomitei tais remédios e fui tomar café da manha, com o Sol nascente banhando a copa iluminando uma boa xícara de café com leite, no poder das revistas de decoração com casas iluminadas majestosamente pelo Sol, como casas serranas, fazendo metáfora com as elevadas terras metafísicas, lugares de Saúde e Beleza, num lar irresistível, formidável. Talvez aqui seja uma cena matutina, com a deusa grega Eos trazendo a luz de ouro para um dia novinho em folha, na beleza dourada de salões vibrantes, fluidios, finos, amigáveis. Os pilares na pequena janela são a sustentação, numa pessoa que decidiu adquirir o controle sobre a própria vida, não mais deixando que o Mundo a diga como deve viver, o que deve fazer, no que deve acreditar. Os pilares são a força, a vontade de batalhar e viver, numa pessoa que está centrada em algo, dedicando-se, como no jingle de Rádio de uma certa instituição de caridade: “São homens e mulheres se doando com Amor. Partilhando, você é mais vencedor”, ou seja, é o prazer de se compartilhar, na contramão do Egoísmo. Podemos ouvir o doce som de ondas do Mar, com uma majestosa Iemanjá emergindo das águas azuis, trazendo fartura às redes dos pescadores, como no milagre cristão da multiplicação dos peixes, fazendo de Tao esta fartura, este milagre que é a Vida.

 


Acima, Dois Poodles. Os cães aqui podem estar brincando ou brigando – depende da leitura do espectador, como na metáfora do copo cheio até a metade, com pessoas que dizem estar meio vazio e pessoas que dizem estar meio cheio, no modo como cada pessoa vai abraçando as consequências de suas próprias escolhas e ações. É como num sutil take do filmão Advogado do Diabo, na agressividade competitiva da profissão, numa tapeçaria que mostra, de forma rápida na tela, um grupo de lobos dantescos devorando uns aos outros, como dizia um professor meu do Ensino Médio, ironizando a recomendação cristã de “Amai-vos uns aos outros”, com o professor dizendo: “Devorai-vos uns aos outros”. É como filhotes ainda muito jovens, brincando com os irmãozinhos, como se treinando para os desafios da vida adulta, com a obrigação adulta de caçar e prover o grupo, no termo “Matar um leão por dia”, no irônico modo como a Vida é dura tanto para os humanos quanto para os animais, como me disse uma pessoa cuja inteligência respeito: “A Vida é difícil em qualquer lugar”. O fundo verde é um vistoso gramado, como num bom estádio, com um gramado bem mantido, ao contrário de outros gramados menos cuidados, abrindo a metáfora: Se amo a mim mesmo, sou um próspero gramado viçoso e saudável; se odeio tudo e todos, sou um gramado debilitado, doente e carente. O verde são as anuviadas lembranças de Jardim de Infância, com memórias vagas, numa época em que o espírito carrega consigo grande parte da pureza espiritual de desencarnado. O verde é a fertilidade, um terreno fértil, como deve ser fértil a imaginação do artista, um artista empenhado em nunca se repetir, para, assim, não entediar o espectador, no desafio que é um artista não se repetir por décadas de carreira, apesar de ser necessário que o artista estabeleça uma identidade, um estilo, uma marca registrada, como as bolas e círculos de Yayoi Kusama, ou as paisagens oníricas de Dalí, ou o estilo inconfundível de Romero Britto, o qual encarou uma psicótica que destroçou uma obra de Britto bem na frente deste, virando uma meme na Internet. Aqui podem ser dois irmãos brigando, no modo como são comuns as brigas entre irmãos, em qualquer família, talvez no aspecto espírita de duas pessoas encarnarem irmãs, talvez porque numa encarnação anterior foram pessoas que se odiavam, fazendo com que o vínculo de sangue “force” que a Paz seja estabelecida entre esses dois entes. Aqui é como num octógono, com a impactante imagem de lutadores sangrando no ringue, com seu sangue manchando o chão do local de luta, num contexto que, apesar da inevitável violência, tem o respeito entre os lutadores, com um lutador que tem um controle emocional grande ao ponto de não levar as pancadas para o lado pessoal, numa pessoa altamente disciplinada, como nas pessoas que têm a disciplina de organizar a própria vida, centrando-se em algo, organizando assim seu dia a dia em torno de algo produtivo, pois como é desinteressante a pessoa improdutiva, que não sonha em ter certas metas profissionais! Num dos cantos do quadro vemos duas discretas flores, que são a delicadeza, a paz entre vizinhos, no modo como são delicadas as relações entre vizinhos, fazendo com que seja importante o respeito entre os moradores de um mesmo prédio, pessoas que, querendo ou não, fazem certa parte de nossas vidas. As flores são a esperança de conciliação, de harmonia em um jardim em pé de guerra, no modo como a Humanidade evoluiu depois de muito aprender com as duas terríveis Guerras Mundiais, conflitos que têm a função de mostrar e expor toda a estupidez, grosseria e patetice do Ser Humano, um ser que nunca está feliz dentro de seu próprio reino, sempre querendo anexar mais e mais territórios, como egos imperiais que ascendem e descendem, na fogueira de vaidades que trazem tanta desarmonia. Aqui vemos um momento de competição, com cada jogador querendo impor respeito, só que por meio da brutalidade, e não do cavalheirismo e da sutileza.

 


Acima, Interior com Flores. A cena toda é muito floral e feminina, como no enorme buquê de flores na foto que Barbra Streisand tirou com Celine Dion, numa canção em que uma mulher mais experiente dá conselhos a uma mulher mais jovem e inexperiente. Vemos uma caixinha aberta – são os segredos revelados, com mistérios esclarecidos, talvez numa pessoa que conseguiu organizar a própria vida, matando a charada de um traiçoeiro labirinto, como no filme em que a personagem de Jennyfer Connely – é assim que se escreve o nome dela? – depara-se com a enorme responsabilidade de cuidar de um bebê, numa menina imatura que se viu obrigada a virar mulher madura, responsável. As flores são a Vida respirando, num vale alimentado pela chuva, resultando num rio que corta terras, nesta esfera tão ínfima e rica que é a Terra, numa riqueza biológica a qual, provavelmente, não tem igual ao menos em nosso sistema solar. A mesa é o suporte, a sustentação, na responsabilidade de um chefe de família tendo que sustentar uma casa, com aquela pequena dúvida incômoda: Será que darei conta do recado e poderei fazer com que nada falte em casa? Aqui a decoração é bem clássica, apesar do fato de ser pintada por um pinto não clássico, não acadêmico. Remete-me a um belo par de pôsteres que adquiri na giftshop no Met, em Nova Tork, ilustrações florais que traduziam toda a fineza, beleza e riqueza do irresistível museu, numa instituição que me proporcionou uma das mais nobres experiências de vida para mim – inesquecível, deixando-me “sequelado”. A transparência do vaso de vidro é a amizade, a autenticidade, com duas pessoas que se conhecem profundamente, num caso de intimidade, num casal que parou de fazer Sexo para fazer Amor, no peso incomparável de um relacionamento verdadeiro, em que um se joga nos braços do outro, desabafando suas tristezas e suas lágrimas, num momento de entrega que dinheiro nenhum pode comprar – o melhor da Vida é de graça. Este buquê é a diversidade, no modo como é enorme a tarefa de irmãos se respeitarem mutuamente, num mundo tão egoísta, e que cada um tem suas tolas ambições, como num homem corrompido pelo Poder, querendo anexar mais e mais territórios a um brutal e estúpido sistema imperialista, ambicioso e impiedoso – o Ser Humano nunca está satisfeito. Esta sala é bem iluminada – é a graça de uma pessoa que se encontrou, na importância de tal autoencontro, como disse certa vez uma senhora espírita numa palestra que assisti, na questão de colocar a Vida em ordem, nos trilhos, pois como pode ser sólida a vida de uma pessoa que vive ao sabor do vento, sem os pés no chão? Os arabescos aqui são a elegância, a magia da estação das flores, com flores silvestres coloridas brotando, flores que não tiveram que ser plantadas pelo Homem, no prazer de mordiscar o talo de uma flor azedinha, numa certa acidez de morango, nos pequenos prazeres que acabam se revelando gigantescos. Aqui é uma sala elegante, talvez numa anfitriã que sabe receber bem seus convidados, como num consultório de Psicologia, numa terapeuta que acalma o paciente e faz este se sentir bem, pleno e tranquilo. As flores aqui brotam com uma força esmagadora, na força da Vida, no poder avassalador da Beleza, esta força que vence a Guerra e a Morte, como numa rainha da Festa da Uva, triunfante, bela, cheia de energia vibrante, como imagino Odila Zatti, rainha de 1934, devidamente trajada e coroada no Plano Metafísico, e eu farei, em tal plano, a pergunta para uma grande amiga minha: “Você acredita agora em Vida depois da Morte?”. Ter Fé é um desafio, uma provação. As paredes floridas me remetem ao mestre Emilio Sessa, o pintor italiano amicíssimo de Aldo Locatelli, nas decorações elegantes de Sessa, estampando templos católicos, no poder arrebatador de um belo templo decorado e embelezado, como na respeitável igreja caxiense de São Pelegrino. Aqui só podemos ver uma porção de uma elegante sala, talvez num Bonnard nos instigando e provocando, deixando um gostinho de “quero mais”, na capacidade de certos artistas em fazer render, sempre deixando o público querendo mais.

 


Acima, Mulher com Cachorro. Aqui é o carinho, a amizade e a fidelidade. O cachorro é adorável, e é tratado com carinho, um animal diferente do gato, sendo este um bicho que não expressa lealdade tão claramente. A estampa em xadrez é um jogo, uma estratégia, num jogo que exige intensa concentração e intrincado raciocínio, no modo como o Homem é destruído por si mesmo, pois um computador programado para jogar Xadrez vence até mesmo o campeão mundial, na ficção Matrix, na qual a Inteligência Artificial se revela um ditador malévolo, opressor e assassino, reduzindo o cidadão a uma mera bateria alcalina a serviço de um estado sem sentido, pois que sentido há sem Liberdade? O cachecol da moça é em pintas, como nas pintas de alguma doença, expondo a fragilidade do Ser Humano, num ano de 2020 que foi marcado por um implacável vírus, espalhando-se impiedosamente pelo globo terrestre inteiro, nas vicissitudes materiais que mostram claramente que as cidades físicas são grotescas cópias das cidades espirituais acima de nós, na promessa do Reino dos Céus. A moça no centro do quadro é bem pálida, na cor do leite e da pureza, na adorável jovem na embalagem do Leite Moça, talvez aludindo à virgindade de uma moça que ainda não foi desposada, no regulamento de concurso que exige que uma aspirante a Rainha da Festa da Uva não seja casada, fazendo metáfora com a Nossa Senhora das Uvas, no milagre da Imaculada Conceição, a concepção mental que pariu imaculadamente cada um de nós – somos todos maravilhosos príncipes. Há algumas flores no quadro – são a força da Vida, da Natureza, na Vida brotando implacável na Primavera, na metáfora das virginais debutantes num baile primaveril, no qual as moças são apresentadas ao Mundo, iniciando sua vida social, como um sensível escritor certa vez narrou a menina debutante que, antes de ir ao baile de revelação, despediu-se das bonecas em sua casa, saindo da Infância para a aurora da Idade Adulta, abraçando toda a riqueza das relações sociais, ao contrário do sociopata, que quer destruir tudo e todos, inclusive a si mesmo – viver em Sociedade é uma fina arte, no desafio de se impor respeito ao Mundo. Mais acima no quadro, uma moça não tão pálida, com cabelos louros, integrando-se a este quadro de Amor e Amizade, talvez num Bonnard expressando o amor pela própria esposa, num casamento feliz, em que o sensível artista percebia toda a beleza nua de sua esposa, tendo orgulho desta, querendo revelar esta ao Mundo, na inocência da Nudez, o modo como Tao imaginou seus filhos, ao contrário da maçã infame do Éden, a qual trouxe a Malícia, no modo como revistas de qualidade como a Playboy brasileira revela suas modelos sem agressividade e sem vulgaridade, no desafio que é fazer o Sensual sem ser Sexual, pois não é vulgar e desinteressante aquilo que é amplamente revelado, exposto em sua obviedade? Bem ao fundo no plano vemos alguns cavalheiros coadjuvantes, como nos cavalheiros cercando Monroe na famosa cena do palco em cor de rosa, a cor da Mulher, da Feminilidade, dos bordéis, como muitos espermatozoides comuns e anônimos cobiçando o óvulo, como uma virginal princesa atiçando os rapazes comuns que não são de sangue azul, no arquétipo erótico de A Dama e o Vagabundo, na batalhadora Masculinidade sendo envolvida pela bela Feminilidade. Os cavalheiros olham as damas à distância, talvez sentindo inveja do cachorro que é tão bem tratado pelas senhoritas. É como na capa do álbum O Guardacostas, com uma grande Whitney Houston sendo cobiçada por vários anônimos e comuns Kevin Costners, num jogo de sedução em que uma esfera gira em torno da outra, na junção erótica de Útil com Agradável. Esta é uma cena ao ar livre, talvez num dia agradável de meia estação, no ritual social que é aprumar-se antes de sair de casa, numa mãe que enfeita a filha rezando para que esta case muito bem casada.

 


Acima, Nu Contra a Luz. Bonnard mostra aqui seu talento na retratação desta delicada luz que invade o cômodo e revela a beleza da esposa, como na arrebatadora revelação da Vênus de Botticelli, na concha se abrindo e mostrando tal pérola, numa preciosidade, como num fino perfume, revelando a pureza de intenções elegantes, de bondade, nas fragrâncias terrenas querendo imitar obsessivamente os indescritíveis perfumes metafísicos, no perfume dos espíritos moralmente superiores, numa hierarquia irresistível, apesar de tais espíritos evoluídos mostrarem a nós quais portas apenas podem ser cruzadas, deixando-nos agir pelo nosso livre arbítrio, no modo como chega um ponto em que a pessoa, o espírito, nota a necessidade de crescimento e aprimoramento, matriculando-se nesta grande universidade que é a Terra, a esfera em que pessoas desencarnam melhores do que eram antes de tal desencarne, pois o sentido da Vida é o aprendizado, a depuração, a evolução, como ver que uma pessoa perdeu uma cédula de dinheiro e, apesar de furtar espertamente tal cédula, devolvê-la à dona – Papai do Céu está vendo direitinho tudo o que fazemos, numa espécie de juiz de Futebol. O erotismo aqui traz a modelo de sapatos, sem se entregar por completo, preservando alguma privacidade, como numa pessoa que aprendeu a importância da reclusão discreta, da autopreservação. O quarto é o útero, na magia de um quarto de menina, com suas bonecas, fadas e bichinhos de pelúcia, no modo como a menina homossexual acha tão tediosa e sem sentido tais brincadeiras de meninas, num impiedoso Mundo que tolhe a menina quando esta questiona tal patriarcalismo preconceituoso, gerando, assim, mulheres intelectuais, acima da média mental, como o inesquecível professor Tatata Pimentel chamava de “elite” os poucos alunos que mostravam pensar acima da média. O espelho ao fundo, símbolo de Feminilidade e Beleza, revela o corpo de frente. A mulher segura algo que parece ser um frasco de perfume, na magia das fragrâncias, tão finas, tão pungentes, tão avassaladoras, no modo da Civilização Francesa traz ao Mundo tal sofisticação, numa cidade que respira Arte, com suas inúmeras obras de Arte, num Louvre absolutamente inesgotável, na fartura dos museus, como podemos sentir o espírito de Jackie O. pairando sobre as galerias do Met, na maior mulher da História dos EUA. Aqui a fina cortina impede que vizinhos espertinhos possam ver a modelo nua, e a luz entra difusa, sem a dureza dos diretos raios solares racionais, fazendo aqui um retrato de sutileza, pois o que é sutil perdura; o óbvio perece. A luz banha aqui um sofá floral, feminino, como amigos meus, que se mudaram para o Nordeste Brasileiro e lá abriram um café chic, com uma decoração floral, de identidade feminina, inclusive como, ao menos numa época, os clientes eram recebidos com uma chuva de pétalas de rosas. Aqui é um doce dia Verão no qual a nudez não faz com que a modelo sinta frio, na magia de noites amenas enluaradas, na memória que tenho de vagalumes em Jurerê, SC. Esta mulher está calmamente se arrumando, pois, para uma mulher, a diversão de um compromisso social começa já no “ritual” de aprumação, numa mulher deliciada em se arrumar sem pressa, no deleite de se observar na Rua uma mulher elegante, altiva, ajeitada, distinta e, é claro, cheirando muito bem – é a lição da autoestima. Como é linda a esposa de Bonnard, e como este tem orgulho da companheira. Aqui é um quarto de banho, num ambiente em que a água purificadora flui, na magia da Vida incessante, fazendo com que seja uma ilusão o ritual de se colocar um cadáver num caixão e enterrar este, no modo como, após o Desencarne, a Vida segue com toda a sua seriedade, numa pessoa que, depois de voltar da Terra, busca por palavras de auxílio para arranjar algum trabalho, alguma coisa para fazer, algum trabalho bom, nobre, que exija da Mente. A luz aqui explode em Vida, como se fosse num momento de relâmpago na Noite, como um artista estourando como uma bomba atômica, causando comoções por meios dos formidáveis estímulos de Arte.

 

Referências bibliográficas:

 

Pierre Bonnard. Disponível em: <www.pt.wikipedia.org>. Acesso em: 2 set. 2020.

Pierre Bonnard Obras. Disponível em: <www.google.com>. Acesso em: 2 set. 2020.

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