quarta-feira, 2 de setembro de 2020

Alanis Morissette, digo, Morisot

 

 

A francesa Berthe Morisot (1841 – 1895) é A Grande Dama do Impressionismo. Debutou com trabalho no Salão de Paris de 1864 e expôs junto a lendas como Cézanne, Degas, Monet e Renoir. Cunhada de Édouard Manet. Berthe retratava mulheres de sua própria família e de fora desta, numa identidade feminina. Os textos e análises semióticas a seguir são inteiramente meus. Boa leitura!

 


Acima, A Irmã da Artista em uma Janela. Uma cena de tédio, talvez na irmã entediada em posar para Berthe, apelando à Nossa Senhora desfazedora de nó. A moça veste um belo vestido branco, na cor das noivas, da virgindade, da limpeza, na moça sendo entregue pura e casta pelo pai ao noivo na Igreja, talvez numa pessoa que passará a própria vida vivendo a vida de outra pessoa, num mero útero reprodutor, reduzida ao dia a dia dos afazeres do lar – a Vida é mais do que só cuidar de uma casa, e Berthe entendeu isto, conquistando seu espaço no respeito artístico, mostrando o quão longe uma mulher pode ir, batendo de frente com os preconceitos do Patriarcado, o qual sempre considera a Mulher num nível abaixo do Homem.  A moça brinca com o leque, entediada, talvez num contexto social em que não precisa trabalhar, no modo como o tempo passa de forma extremamente vagarosa para quem não produz – nada mais trabalhoso do que não trabalhar. Aqui temos uma placidez, e na rua podemos ouvir o som dos pássaros, numa rua bela e plácida, fazendo com que a Paz seja o tempero secreto para que se viva bem num mundo tão complicado como a Terra – é uma plácida vizinhança, na prova de que nada mais barulhento do que o silêncio da Paz, no discernimento taoista: É melhor ser mau ou bom? Parece ser uma pergunta óbvia, mas é fácil de se observar a tendência psicopática numa pessoa, fazendo com que esta expressa de forma clara sua simpatia pelo Lado Negro da Força, citando aqui Star Wars. A poltrona aqui é o conforto do lar, como num café que frequento, no qual as poltronas mais confortáveis são a preferência frente a cadeiras não tão confortáveis. É a poltrona do Cinema, na magia da Arte em transportar as pessoas para outros planos, outros mundos e outras percepções, fazendo da poltrona essa nave de viagem, nas comoções que causam grandes filmes, fazendo da Arte tal hecatombe benéfica, unindo as pessoas em torno da percepção de um diretor, no modo como respeito a memória de Fábio Barreto, um grande brasileiro, uma pessoa criteriosa e batalhadora, com a força para virar as páginas da Vida. Aqui a temperatura é agradável, quiçá quente, e a moça pode estar com a vontade de tirar tal vestido e mergulhar num lago. O vestido é a Feminilidade, no design de roupas de grandes filmes, fazendo da Moda algo divertido, pois colocar uma roupa é como colocar um personagem, numa mulher que, em um momento delicado, sent4e-se feminina e veste Chanel; em um momento mais masculino, veste-se com um boné de Baseball. A poltrona é floral, fazendo da flor o símbolo dos apaixonados, numa sugestão erótica, pois as flores são os genitais da planta. Aqui o ar circula saudavelmente por um cômodo arejado, como é Tao, sempre vivo, sempre respirando, sempre tocando a Vida para frente, na metáfora do bestseller As Horas: Doce ou amarga, a página tem que ser virada – o insucesso é complicado porque é prostrante; o sucesso é complicado porque resulta em pressão para que a pessoa permaneça em tal doce momento passageiro, uma permanência que é impossível. A moça brinca com o leque colorido, num acessório bem feminino, fazendo metáfora com o frescor de uma dama arrumada e perfumada, encantando cavalheiros no salão de baile, no momento de interação social em que ocorre o flerte, a paquera, como numa igreja, com mulheres que se arrumam para ir à missa dominical, querendo, no fundo, descolar um marido e casar no mesmo templo. É como ouvi certa vez de uma pessoa inteligente: “Mulher quer é casar. Se puder, junto a isso, ter carreira e filhos, melhor. Se não, está casada”. Será que é verdade? Pode ser. Vivemos num mundo machista, no qual a fêmea tem que girar em torno do macho.

 


Acima, Dentro do Parque. O gramado parece ser feito de veludo, luxuoso, luxuriante, glamoroso, numa sensação extremamente agradável ao toque, como se fosse uma gigantesca sala de estar, com chão de carpete e adornos elegantes, causando inveja a qualquer sala de estar na face da Terra. O cachorrinho é a ludicidade, com o bicho se divertindo ao máximo, correndo pelo capim e cheirando odores divertidos e estimulantes. É um momento de lazer, de espairecer, como numa Gisele, querendo passear um pouco por Porto Alegre no Parcão, no direito do cidadão comum de ter seu momento de diversão de lazer, pois sabemos que a Vida não é só siso. A mulher veste um negro discreto, oposto da mulher virgem, na discrição respeitosa do Luto. Ela cuida de uma criança pequena e lânguida, talvez num dia de calor abafado. A criança é a vulnerabilidade, a dependência, num ser totalmente dependente de cuidados maternais, só havendo a libertação na Idade Adulta, quando a pessoa assume as rédeas da própria vida. O preto é a responsabilidade séria, como na incumbência de cuidar dos filhos de outrem, como numa creche, nas primeiras memórias de Infância, quando a pessoa traz consigo um residual da Vida no Plano Metafísico, a dimensão onde a dúvida encarnatória se dissipa, só trazendo dias de certeza ensolarada, recompensando os que tiveram Fé enquanto encarnados. Podemos ouvir o sedutor farfalhar do capim em uma brisa suave, ideal e amena, na temperatura amena que acaricia aqueles que não mais estão ligados a um pedaço de carne. Vemos ao fundo uma menininha sem chapéu – é o momento de diversão no qual as formalidades nada significam, num momento de euforia festiva carnavalesca, num momento em que buscamos nos parecer ao máximo como a colorida glória metafísica, o prisma eterno que sempre vibra em luz, graça e leveza, mostrando que a grosseria é de um atraso moral absurdo. A menininha não quer usar o chapéu, o qual atrapalha na brincadeira, no modo como uma casa com criança pequena está sempre bagunçada. Este parque está quase deserto, e podemos ouvir o doce canto dos pássaros, na minha memória de Infância de ouvir os bem te vis em Porto Alegre, nas ruas arborizadas da bela capital gaúcha, a cidade a qual amo profundamente. Aqui é um doce dia de calor, de Sol majestoso, no modo como são raros em Londres os dias de Sol forte, fazendo dos londrinos um povo pálido. O capim aqui é como uma grande e confortável cama, convidando-nos a deitar languidamente e curtir o doce pecadinho capital da Preguiça, como na canção Lazy Afternoon, ou seja, Tarde Preguiçosa, cantada por Barbra: nada de errado em momentos de contemplação passiva e preguiçosa, pois que vida excruciante é esta de só labor, como num sistema escravocrata? O chapéu da mulher é a proteção, o invólucro do lar, na série de responsabilidades de um adulto, com medidas cautelosas, como, ao se ligar o fogão ou o forno na cozinha, exigir que crianças deixem a cozinha, como num caso lamentável de uma criança que morreu ao beber um produto químico que acreditava ser água – não é fácil prover segurança a um filho. Neste quadro temos uma predominância do verde, a cor dos bosques, dessas majestosas roupas que vestem os campos e florestas, dando uma ideia da majestade de Tao, mas uma majestade tão subestimada pelo Ser Humano, o qual fica obcecado com palácios mundanos e se esquece de contemplar a obra de Tao, o chique, como Jesus, elegante ao oferecer a outra face: fino é forte e sólido; grosso é frágil e quebradiço. Aqui vemos brancas e delicadas flores silvestres, na magia de flores que não tiveram que ser plantadas, como se idealizadas por um grande jardineiro. As flores são a delicadeza feminina dos quadros de Berthe, uma mulher que obteve respeito ao se portar como uma dama, e o Mundo é daqueles que se comportam, fazendo metáfora com a virgindade de Maria, na ideia de limpeza metafísica, como na beleza limpa e fria dos números. A criancinha está sonolenta, na paz profunda de um bebê dormente, dando aos pais raros momentos de quietude.

 


Acima, Em um Banco. A moça está com um sorriso bem plácido e sutil, como uma pessoa que encontrou Paz em seus dias na Terra, trabalhando tranquilamente, sem construir expectativas, ou seja, protegendo-se das frustrações, pois se não espero, não quebro a cara. Seus cabelos de Gisele caem sobre o busto belo, numa moça no auge de sua beleza, como em A Morte lhe cai bem, no qual uma poção mágica dava a eterna juventude àquele que bebia a fórmula. A moça está bem comportada e comedida, disciplinada, posando pacientemente, como me disse a atriz Glória Pires: para se construir um personagem, você precisa ter paciência. E não perde tudo aquele que perde a calma, a ponderação, a cautela? Como posso ter Paz se cada dia de minha vida é sofrimento numa sangria desatada? Berthe gosta de doces cenas de Verão, em dias sedutores de praia e piscina, na magia veranil de férias, de curtir a vida, de descanso. A moça aqui usa um delicado chapéu, que é o respaldo, a cobertura, a proteção, como uma mãezona me disse certa vez: “Não sei do que sou capaz para proteger um filho meu”. A moça está com os braços sensualmente expostos, no jogo de sedução entre mostrar e ocultar, provocando, apesar de ser uma moça aparentemente comportada, muito bem criada, como a própria Berthe, um verdadeira lady, numa mulher que mostrou que, na questão de talento artístico, pouco importa o artista ser deste ou daquele gênero. Atrás da moça, as plantas e flores vigoram cheias de Vida, cheias de beleza e de vontade de viver, pois se não estou reagindo e se não estou adquirindo o controle de minha própria vida, como posso ser feliz e me realizar? É capital a pessoa controlar a própria vida, seja, homem, seja mulher, como uma esposa disse certa vez ao marido: “Você não manda em mim!”. A pele leitosa da moça é a pureza, a candura, e podemos sentir um fino perfume floral, como um bom vinho branco frutado, com perfume de flores, como no sutil olor de jasmim. O banco azul é o respaldo, o descanso, num momento em que a pessoa quer espairecer e distrair-se um pouco, sabendo que a Vida não é só árduo labor, no modo como deve ser complicada a vida dessas supercelebridades, pessoas prisioneiras de seu próprio sucesso; pessoas que não podem se dar ao luxo de passear livremente pela Rua, como uma Xuxa, a qual, ao sair de cada dirigindo sozinha, tem que ser escoltada por um carro cheio de seguranças – cada um com sua cruz. A moça usa uma pulseira dourada, que é a virtude, a atitude preciosa, numa pessoa que entende que fazer Caridade é dar uma ajuda a outrem, como um ator que apadrinha outro ator, na intenção nobre de ajudar quem precisa de um empurrãozinho, como uma pessoa de coração de ouro que conheci, uma pessoa que me ofereceu um auxílio. Obrigado, meu amor! As listras da saia da moça são a disciplina aristocrática, como na comportadíssima esposa do príncipe William da Inglaterra, no modo como as cerimônias de casamento divertem e entretém tanto o Mundo, em torno da união entre os opostos complementares do Universo. A moça fica aqui como um enigma, e ela parece ter um segredo para contar, mas não conta, talvez para estancar o processo de fofoca, este malicioso hábito de pessoas que não cuidam de suas próprias vidas – fofocar é perder (muito) tempo. Os cabelos soltos são a liberdade, até a rebeldia, no modo como uma mulher livre, controlando sua própria vida, é tão mal vista pelos preconceitos patriarcais, num mundo marginal em que a mulher está eternamente a um degrau abaixo do homem, havendo no Desencarne a cura para tudo isso, pois a nível metafísico não há gênero, na questão da assexualidade dos anjos, esses espíritos amorosos que nos acompanham por toda nossa encarnação, dando-nos conselhos nobres de conduta, num amor entre irmãos, entre iguais. A moça usa um discreto anel – é a discrição, o contentamento com pouco, pois se não estou o tempo todo ambicionado obsessivamente, posso ter Paz em meus dias na Terra.

 


Acima, Mãe e Irmã da Artista. Aqui temos um contraste enorme entre as gerações, no branco da irmã contra o preto da mãe. A mãe lê compenetrada um livro, enquanto a irmã nada faz, na diferença entre ócio e produtividade. O preto remete à minha bisavó Antonieta, a qual, após o falecimento do marido, passou, até o fim de sua vida, a usar somente roupas pretas, na cor de luto, da discrição respeitosa, na virtude de uma pessoa que prefere ser discreta, e isso influencia no modo de vestir, no estilo. O preto é a noite, no momento de se recolher, ao contrário do fervo da juventude, aproveitando ao máximo a noitada, numa fase da vida que tem que ser vivida, como eu, muito boêmio em minha pós adolescência, tendo vivido tão intensamente aquilo tudo que peguei rechaço – as fases passam. O livro é a intelectualidade, a cabeça, numa pessoa que sabe que pode embarcar numa viagem sem sair do sofá de casa, no modo como pais buscam incutir, desde cedo no processo de alfabetização da criança, o gosto pela leitura, pois que futuro tem um país sem cidadãos letrados e intelectualizados? A moça brilha na sua virgindade, num papel passivo, passando das mãos do pai para as mãos do marido, na condenação misógina de reduzir a mulher a uma escrava, sempre a serviço da vida de outra pessoa. A sala de estar é elegante e arrumada, própria para se receber visitas, nas honras da casa que devem ser feitas – tenho pavor de visitar pessoas que não me oferecem um mísero cafezinho. Aqui, o preto é este café, nas honras, no talento de uma socialite em ser anfitriã, em receber pessoas importantes em sua elegante casa. O preto é a fase final da Vida, com a sabedoria para não sofrer como uma pessoa mais jovem sofre, pois a Juventude, esta época difícil, está repleta de percalços, apesar de tantos velhos idealizarem seus próprios anos de juventude. Na mesa vemos flores discretas, como um amigo meu que tem um sítio, levando para a esposa rosas de seu próprio jardim do sítio, no jogo de galanteio entre apaixonados, esta coisa maravilhosa que é se jogar existencialmente nos braços de outra pessoa, compartilhando tristezas e lágrimas, mas com tanto carinho, tanta compreensão. Vemos ao fundo um pedaço de um quadro emoldurado, numa ironia metalinguística – pintura falando de pintura. A moldura dourada é a nobreza de atos nobres, numa pessoa que aprendeu que deve tratar os outros com cautela e respeito, pois que mundo é este em que os vizinhos não se respeitam? É a Plácida Vizinhança Metafísica, o lugar em que a Paz “berra” em seu silêncio supremo, numa vizinhança sagrada, um lugar o qual não queremos trocar por nada, no incrível poder de contentamento que Tao exerce – não quero sair de lá, como querer entrar numa casa quentinha num impiedoso dia gelado. O sofá floral é a identidade feminina de Berthe, como na canção Girl Talk de Laura Fydji, numa mãe que mal pode esperar para que a filha cresça pata ter com esta conversas de mulher para mulher. Ambas a mulheres aqui estão com os cabelos devidamente aprumados para o retrato da artista, no ritual social de se arrumar para sair de casa, andando na rua com elegância, mostrando o poder da classe e da distinção, com famílias se empenhando para ser o mais nobre possível, na questão do respeito, fazendo com que a família respeitada na Terra faça metáfora com a Grande Família Metafísica, esta família de sangue azul metafísico a qual todos, sem qualquer exceção, pertencemos, na questão de que tudo gira acima de tal dimensão de pensamento. A parede é cinzenta, na junção entre o branco da moça e o preto da senhora, na dúvida cinzenta de dias de Inverno, numa dimensão em que manter a Fé é um gigantesco desafio, impedindo que a pessoa fique amarga e empedernida, como uma pessoa de joga fora amizades de longa data – o arrependimento é inevitável. Podemos ouvir o discreto som da respiração dessas modelos, e o farfalhar das páginas do livro sendo viradas, num cômodo tão silencioso, como no útero de mãe, o Lar ao qual sempre, sempre pertenceremos, pois enquanto a Matéria está condenada, o Dimensão Imaterial segue soberana na elegância de Tao, o estilo inconfundível, eterno e indecifrável, no poder da Vida Eterna, este grande presente.

 


Acima, Mulher e Criança na Sacada. A sacada é a contemplação, com vista para uma cidade majestosa, provavelmente Paris, uma cidade que transpira Arte e Arquitetura. A mulher é o siso, a responsabilidade, tendo a séria tarefa de cuidar de uma criança, no peso da responsabilidade, como um publicitário com o qual trabalhei, uma pessoa que tinha certos ataques de mau humor, justificando-se ao dizer: “Tu não sabes o que é sentir nas costas o peso da responsabilidade”. A menininha é a vulnerabilidade, no modo como uma criança é tão dependente de cuidados específicos, numa mãe que se depara com tal desafio, como minha mãe, a qual disse que, ao dar o primeiro banhozinho em minha irmã, tremia de medo de fazer algo errado. A mulher carrega um guardachuva, que é a cautela, a proteção, numa pessoa que resolveu se proteger, agindo de forma discreta e cuidadosa, como atravessar uma rua bem na faixa de pedestre, ou nadar no Mar bem em frente a uma guarita de salvavidas. Aqui é um majestoso dia fresco e ensolarado, num céu que inspira certezas de Fé, como crer que a vida na Terra é uma mera pré vida, trazendo, no Desencarne, tal prêmio, tal recompensa para a pessoa que evoluiu moralmente na Terra, voltando para casa mais crescida, mais adulta, mais ciente dos problemas do Mundo, ao contrário dos espíritos moralmente toscos que vagam pela falta de sentido que é o Umbral. A grade na sacada é a segurança, o respaldo, no modo como uma criança tem que ser protegida pelos responsáveis, como ouvi de uma mãe com uma criança de colo: “Dá trabalho, mas vale a pena”. Discretas na cena, flores rubras, que são a exuberância feminina, numa mulher alegre e feminina, com vontade de viver, espalhando no ar seu perfume, encantando homens, no jogo de sedução entre Masculino e Feminino, os dois princípios cósmicos que nasceram da bipartição de Tao, o uno, o único, o único poder de fato em todas as dimensões do Universo. A menininha está arrumadinha, como a adorável Sati de Matrix, uma menininha arrumada pelas mãos zelosas da mãe, estando esta tecendo uma trança na menina, ensinando, desde cedo, o valor da autoestima, de uma pessoa ter prazer em se aprumar para a interação social, ao contrário de uma pessoa que sai na Rua sem se arrumar – arrumar-se faz parte do gostar do Mundo, como numa elegante filantropa, inspirando as pessoas miseráveis a ter autoestima e Amor por si mesmas, pois que vida é esta na qual não gosto de mim mesmo? Como posso amar o Mundo e as pessoas se, em primeiro lugar, não me amo? Podemos ouvir aqui uma suave brisa, num dia delicioso. A mulher toda de preto é a majestoso quadro de Pedro Américo, A Noite, numa deusa maravilhosa seminua brilhando no céu como a Lua, numa pele alva como o luar, com vestes vaporosas e esvoaçantes, na sedução de um pedaço de seda, tão sutil ao toque, fazendo da sutileza esta força, pois o que digo de forma suave, dura para sempre, ao contrário de uma pessoa com raiva no coração, uma pessoa que subestima o poder da sugestão, da sutileza. A menininha de branco é a paz da Infância, uma fase simples, em que o indivíduo não tem todas as sisudas exigências dos adultos, pois a criança se contenta com pouco, ensinando-nos uma lição de simplicidade, pois, como eu disse recentemente a uma grande amiga portoalegrense, a Vida é boa quando é simples. O guardachuva está fechado, pois não chove, mas está à disposição caso alguma chuva cair – é a prevenção, o resguardo, a cautela, como diz o ditado: “O seguro morreu de velho”. Aqui um vasto céu se abre, na certeza de uma vida plena e produtiva, sendo felizes os espíritos que desencarnam e seguem produtivos no Plano Metafísico, pois chega um ponto em que o espírito passa a perceber a necessidade de aprimoramento, de crescimento, topando, assim, encarar uma nova encarnação com novos desafios e lições, como numa nova cadeira na faculdade.

 


Acima, No Baile. É o momento mágico de interação social, num elegante baile, com suntuosos vestidos, arranjos florais e música, tentando se parecer ao máximo com as indescritíveis festas chiques metafísicas. A moça aqui está completamente aprumada, talvez num espartano espartilho, mal podendo respirar, no cruel modo humano de impor tais desconfortos a uma mulher – como eu já disse no blog, como é duro ser mulher! O leque traz do frescor, numa dama perfumada, inspirando os homens a lhe conferir tratamento de dama, no modo como Tao assinala esta postura passiva da mulher, atraindo os cavalheiros como uma flor atrai uma abelha, numa posição passiva, remota, como numa vala profunda, atraindo gravitacionalmente a água que flui para baixo. É uma mulher jovem, talvez uma debutante, sem cabelos grisalhos. É na metáfora de comparar o jovem frescor das jovens com o frescor dos ares de Primavera, num bando de lindas meninas de branco, na cor das debutantes, antevendo o traje branco de noiva, no sonho da menina em casar bem casada, imaginando uma vida maravilhosa, mas uma expectativa que acaba se deparando com a árdua realidade do dia a dia, com o marido saindo para trabalhar e a esposa cuidando da casa, dos filhos e da lavagem das cuecas do marido. A pele da dama aqui é muito branca, quase da mesma cor das elegantes luvas brancas que usa, numa aparência leitosa, de pureza, como num lugar impecavelmente limpo, ou mais do que limpo – higienizado, com beleza em todos os lados, em qualquer canto, numa mulher cujo processo de aprumação começa com um bom banho, pois, para uma mulher, a festa não começa só no salão de baile, mas começa no próprio processo de aprumação, numa espécie de ritual, como uma tia minha, a qual demora HORAS para ficar pronta para sair. O vestido da moça é muito delicado, sutil ao toque, atraindo o toque, fazendo com que os cavalheiros queiram apalpá-la, mas nunca apalpando de fato, numa provocação, numa mulher que é simplesmente a mais bela do salão de baile, como na canção Maria do Socorro, de Maria Rita: “E no baile só dá ela”. O penteado aqui é complexo, e exigiu muito trabalho e paciência, talvez com fios dolorosamente puxados, na disciplina, na paciência para se aprontar. O penteado dá maior estatura à moça, no modo como se destaca uma pessoa que, antes de mais nada, respeita a si mesma. O leque são as opções, como se a moça pudesse se dar ao luxo de escolher com qual dos cavalheiros quer casar, examinando qual deles tem o maior dote, selecionando cuidadosamente um potencial marido, numa mulher que quer mais do que namorar; que casar, e casar bem casada, sabendo que, num casamento, é preciso ter, além de Amor, conveniência. As flores atrás formam um continuum com a moça, e tudo no baile acaba se tornando tão sedutor, tão belo, numa moça que mexe com os corações de pretendentes, numa moça que sabe que, para ser respeitada, tem que dar ao respeito, merecendo ocupar uma posição social de destaque. As luvas cobrem pudorosamente a moça, e é uma provocação, como a luva sendo tirada por Rita Hayworth, num striptease que, apesar de não trazem total nudez, provoca. Flores adornam o penteado aqui, como se a moça e a Natureza fossem a mesma coisa, como num passageiro embarcando num trem, numa pessoa que tem a capacidade de “se vender”, de emplacar de alguma forma, talvez numa mulher passiva, a qual jamais deixará de viver sob a sombra do marido, uma mulher que jamais vai trabalhar e colocar seu bom gosto para o Mundo, ao contrário de uma Coco Chanel, a mulher que revolucionou a Feminilidade – é desinteressante a pessoa que não tem sonhos. Os olhos furtivos da moça fitam discretamente os rapazes, numa mulher que jamais se revela por completo, desejando, dentro de si mesma, agarrar um belo frango e ter uma vida de rainha ao lado de um homem respeitoso e respeitado, na canção brega: “Como uma deusa você me mantém”. Dificilmente esta moça casar-se-á com um homem pobre. A altura de seu altivo penteado é o desejo de ascensão social, sabendo que só coração não é o suficiente

 

Referências bibliográficas:

 

Berthe Morisot. Disponível em: <www.pt.wikipedia.org>. Acesso em: 26 ago. 2020.

Berthe Morisot Obras. Disponível em: <www.google.com>. Acesso em: 26 ago. 2020.

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