O pintor americano Robert Motherwell (1915 – 1991), antes de se encontrar como artista, cursou Filosofia e Literatura Francesa Moderna – um intelectual. Um ano antes de sua morte, a carreira foi reconhecida pela Medalha Nacional das Artes da Casa Branca. Os textos e análises semióticas a seguir são inteiramente meus. Boa leitura!
Acima, Colagem Número 2. O losango superior é como um balão de festa junina, subindo aos céus e encantando o público. Temos aqui uma colagem muito rica, variada e colorida, como se fossem fragmentos dissociados de uma revista, remontados numa nova composição, na tarefa básica do artista plástico, que é pegar elementos dissociados e, associando-os, gerar coisas novas, numa espécie de visionário, fazendo associações antes despercebidas pelas pessoas, na tarefa do artista em abrir os olhos do Mundo, atiçando e provocando este, como numa boa pizza apimentada, vibrante, excitante, no fascínio que as especiarias orientais causaram na Europa, com a Canela sendo amplamente usada até hoje no globo inteiro. Vemos aqui um predomínio de pinceladas negras afoitas, como numa interferência, como uma televisão com a imagem prejudicada, numa espécie de Miopia, num quadro basicamente escuro, discreto. Vemos alguma estampa, com flores bordôs, num perfume, como numa pessoa que, ao reformar seus estofados, vai a uma loja de tecidos de estofados, deparando-se com tantas opções, escolhendo uma estampa que lhe apraze, no modo como a casa de cada pessoa acaba tendo a cara do dono, naquele pequeno reino em que tudo é do jeito da pessoa, ou como num casamento, em que o marido tem que aceitar o gosto da esposa em matéria de Decoração, na palavra mágica que existe para que qualquer casamento dure: Paciência. Vemos aqui quinas, objetos truncados e tensos, como num Frankenstein, com pedaços de cadáveres sendo reunidos, reanimados por Eletricidade, o que me remete aos primórdios da MTV Brasil, no início dos anos 1990, com o VJs apresentando os programas, havendo atrás dos apresentadores imagens recombinadas, interferidas, vibrantes, criativas, mágicas, dando todo um hálito especial ao programa, com “loucuras” sendo catarseadas, como nas cartas de sequestros, escritas com recortes de letras de jornais, para a caligrafia do sequestrador não revele o autor. Temos aqui um RM que praticamente brinca no trabalho, no prazer de produzir, num artista que cruzou quase todo o Século XX, abraçando a Arte Moderna num século em que formas de Arte como o Cinema arrebataram o Mundo, gerações, preparando a Humanidade para o século seguinte, o da Tecnologia Digital. Aqui é como um furioso furacão arrastando tudo e todos, como num artista causando comoções catárticas, como um Michael Jackson se transformando em um horrendo lobisomem, como defuntos saindo de suas tumbas, num videoclipe que se tornou um monstruoso sucesso, um sucesso grande ao ponto de aprisionar o próprio Jackson, pois a face má do Sucesso é que este desafia a pessoa a sobreviver a tal momento doce, pois, amarga ou doce, esta página tem que ser virada... Aqui é uma colcha de retalhos pós moderna, fugindo da monótona quadriculação, numa equação louca e enigmática, indecifrável, na capacidade do grande artista em permanecer um mistério, uma lenda, como um texto que não pode ser decifrado ou traduzido, como um hieróglifo. Aqui é como algo explodindo, ou um terremoto acontecendo, quebrando ranços conservadores, na tarefa da Arte Moderna em produzir um museu específico em Nova York, a cidade que transpira Arte. Aqui é um cenário democrático com muitas interferências e pontos de vista, no modo como muitas pessoas não entendem o que é Democracia – não concorde comigo; apenas me respeite. Aqui é o caos de um atentado terrorista, como numa facada profunda, deixando os EUA paranoicos em relação a atentados desse tipo. Aqui é como uma mulher produzindo um look, divertindo-se já no momento de escolha do figurino, querendo arrasar no seu look; querendo ser a mulher mais maravilhosa do salão de baile.
Acima, Figura em Preto (Menina com Listras). Dois olhos fitam o espectador, como se este estivesse também sendo observado, remetendo-me a um livro infantojuvenil que li quando criança, quando crianças presas dentro de uma caverna acreditaram estar sendo observadas por dois grandes olhos brilhantes do escuro. Remete-me a um despacho de Macumba que vi certa vez, com duas velas acesas que pareciam me observar. São como os frios olhos famintos e maliciosos de Laracna, o monstro de Tolkien, acuando as presas num labirinto negro, fedorento e traiçoeiro, assim como é o Submundo, esta prisão que tece uma relação viciosa de Amor e Ódio com seus prisioneiros. Estes “olhos” parecem ser as bobinas de uma máquina de filmar antiga, com os rolos de negativos sendo usados para o registro, na tecnologia que se tornou uma vogue do fim do Século XIX, gerando o cinematógrafo, gerando, assim, a indestrutível Sétima Arte. Esta livre estilização de figura humana remete às figuras primitivas, de povos antigos, tribais, retratando seres divinos que vinham do Céu, com seus grandes olhos e descomunais cabeças, atiçando a imaginação dos que creem que a Humanidade foi visitada e auxiliada por alienígenas num passado remoto, numa espécie de “empurrãozinho” dado ao Ser Humano em nome da evolução da espécie, arrancando o Ser Humano do Neolítico e trazendo-o à era da Civilização. A menina aqui é delgada, num seco corpo de modelo, no impiedoso padrão estético que faz com que meninas beirem a Subnutrição – como é feia a Beleza! Estes olhos de Motherwell parecem um pouco melancólicos, lacrimejando, como num cachorro que se perdeu de seu dono, num quadro de carência e melancolia, talvez num Robert catarseando um sentimento de abandono, no poder terapêutico da Arte. Temos aqui pinceladas amarelas, douradas, numa aurora majestosa dominical, como um amigo meu que, certa vez, chorou e disse que, em tal momento, parece que tudo é perfeito. O dourado é sonho de ser reconhecido e devidamente valorizado, no desafio da Dignidade, pois, fora desta, só há um mundinho fútil de sinais auspiciosos. O amarelo é a obsessão humana por Ouro, por preciosidades materiais, corrompendo o caráter, desviando a pessoa do que importa, que é a áurea e dourada evolução moral do espírito, na obrigação de, ao morrer, ser alguém melhor do que era ao nascer. O branco traz aqui contraste com a menina negra, como na transformação de He-Man, o qual era cercado por poderosos raios brancos de energia com um cenário sombrio atrás, no poder do contraste. Esta “cabeça” é como uma janela, pronta para ser aberta e trazer ares de renovação, arejando uma casa, no modo como o que de melhor posso fazer é arejar minha própria cabeça, tornando-me uma pessoa que pensa por si mesma, sem ser manipulada por outrem. É uma caixa de papelão. São como óculos num anúncio de grife chique, tentando vender estilo, no modo como estilo tem a ver com personalidade, ou seja, estilo não se compra; atitude não se compra, pois é a contramão do estilo achar que só posso estar fashion se visto roupas carésimas. Aqui é como no aparelho em consultório de Oftalmologia, no momento em que o paciente é desafiado a mostrar até onde pode ir visualmente, fazendo metáfora com a Miopia em Marketing, numa pessoa “míope” que perde clientes e não consegue enxergar longe em seu negócio, subestimando a importância da construção de tal cartela de clientes, numa ingerência, numa incompetência. Aqui são como olhos opacos de criaturas que vivem em profundas águas oceânicas, na capacidade da Vida em se adaptar em quaisquer ambientes, com a Vida sempre encontrando um modo para respirar e prosperar, num Ser Humano que sequer sabe se há Vida fora da Terra. Aqui, é como se esses olhos estivessem presos, talvez num espírito vagando pelas terras inóspitas do Umbral, muito longe da vida pulsante do Reino dos Céus, a dimensão onde percebemos que a Vida continua, e que a morte do Corpo Físico é uma grande piada de Tao para conosco, na sobrevivência triunfante da Mente.
Acima, Monstro (para Charles Ives). O círculo é como uma hóstia, no momento em que as pessoas comungam em irmandade, ou seja, uns se colocam nos sapatos dos outros, e Amor é isso – saber pelo que o outro passa, o que o outro sente, na virtude do compadecimento, que traz não só Amor, mas Respeito, como o Patrícia, que, ao desencarnar, perguntou: “Onde estou”, e um espírito disse a ela: “Entre amigos”. A compaixão é algo que os sociopatas não entendem, pois são egoístas narcisistas, achando-se o centro do Cosmos, ou seja, achando-se Tao, e Tao, realmente, está em infinita grandeza em relação ao Ser Humano, no poder incompreensível da Eternidade, este presente que nos foi dado, num poder tão intenso que dá friozinho na barriga. A hóstia é um grande olho observador, como na grande mancha vermelha de Júpiter, na sede humana por Conhecimento, como hoje vi na TV que pode haver vida microbiana num planeta tão hostil (ao Ser Humano) como Vênus. Este quadro de RM é cheio de dúvidas, e cada um enxerga o que quiser enxergar. Este monstro é disforme, sem harmonia aparente. Talvez possa ser o olho de tal monstro, de um olho só, como no terrível olho de Sauron, na obsessão humana, ditatorial, de controlar tudo e todos, e o controle é uma ilusão, pois ninguém pode controlar tudo; apenas Tao o pode, pois quanto mais Tao tenho, menos controle desejo obter. Este monstro disforme ergue-se marrom da cor da Terra, como numa gruta subterrânea, cheia de seres exóticos e estranhos, nas entranhas do Inconsciente Humano, como a divertida Cuca do Sítio do Picapau Amarelo, um ser parecido com um crocodilo, escondendo-se e fazendo seus feitiços, como no episódio de Chaves em que as crianças entram na Casa da Bruxa do 71, encarando horríveis feitiços e magias, na percepção binária da criança, para a qual algo é só do Bem ou só do Mal, sem a sofisticação adulta para perceber o que é interessante; o que é sutil. Este furo é como um vão numa sacola, permitindo ser carregada, no termo “mala sem alça”, usado para definir pessoas pedantes, de conduta pouco virtuosa. Este vazio é Tao, no enigma do nada fazer, apenas fazendo o essencial e o necessário, numa conduta limpa, clean, essencial, perfumada, pura, como um rei que, vendo-se acuado, somente faz aquilo que é necessário, aproximando-se da deliciosa languidez de Tao, aquele que só faz o que importa, como numa galeteria, ignorando os pratos preliminares e indo direto ao que interessa, que é o galeto em si. Tao é isso – o importante, e as frescuras se transformam em sujeira. Aqui é como uma grande nuvem escura caindo sobre alguma terra, num furacão avassalador, no modo do artista em ser identificado com uma força da Natureza, na capacidade catártica em estabelecer comoções, como num filme arrebatador, tornando-se sucesso de público e crítica, num doce momento passageiro de sucesso, numa pessoa que, mesmo ganhando um Oscar, acorda no dia seguinte, numa página que, apesar de tão doce, tem que ser virada. Aqui é como olhar para nuvens no Céu e adivinhar o que é visto. Aqui, este monstro marrom se ergue e toma conta do quadro, como num castelo mal assombrado, com as ilusões auspiciosas da noite indo embora assim que um novo dia amanhece, no poder de Eos, a esclarecedora deusa grega da Aurora, banhando de ouro o Mundo, na promessa de que uma sacrossanta vida nos espera, com muitos amigos sinceros e muita produtividade, como uma tia avó minha, um espírito desencarnado que, certamente, segue sendo muito produtiva no Plano Metafísico, a dimensão na qual percebemos que, realmente, a Vida continua e a lida não pode ser deixada de lado, num paraíso para os que gostam de estudar e trabalhar. O olho branco aqui é como um abismo visto de cima, como na gigantesca queda que Gandalf sofre, mergulhando no fundo do poço, lutando intensamente para superar tal momento e ressurgir fortalecido, dando a volta por cima, mostrando como as crises são positivas, pois as crises assinalam um momento de renovação na vida da pessoa, trazendo o maravilhoso remédio da desilusão, esta força que areja nossas cabeças e faz-nos crescer como espíritos.
Acima, Pintura de Parede III. Vemos um grande asterisco, num sol majestoso, talvez numa supernova explodindo, num artista se tornando tal bombshell, tal granada. A estrela se expande agressivamente para todos os lados, atingindo as pessoas, coruscando, no fascínio de objetos brilhante, como joias ou bijuterias, numa mulher querendo brilhar como o Céu noturno, na vastidão de um Universo que simplesmente não pode ser totalmente reconhecido ou observado, no absurdo modo como, no fim das contas, o Cosmos é infinito, sendo, assim, obra de Tao, o infinito, o trabalhador que está sempre criando, produtivo, dando-nos o exemplo que deve ser seguindo – nunca pare de criar, de fazer, de conceber. O asterisco é como vários caminhos que levam ao mesmo destino, que é Tao, ou seja, as diferenças têm que ser respeitadas pois, cada um, a seu modo, acaba chegando num destino em comum, sendo que Tao jamais cria um filho igual ao outro, e somos frutos dessa imaculada conceição, como Zeus pegando barro e criando a Mulher Maravilha, no modo como o Ser Humano sempre esquece que somos príncipes do mesmo trono. Aqui, é um gesto primordial que gera vários caminhos, como colegas do Ensino Médio que se separam, cada um entrando numa faculdade e, depois desta, cada um volta a seguir seu rumo, no modo como o goodbye, o adeus, é inevitável, fazendo da Encarnação essa “usina” de fazer amigos, com um certo reencontro marcado para depois da maravilhosa libertação, no plano que cheira a trabalho e prazer. Ao lado dessa estrela suntuosa, uma flor escura, em contraste com o sol aqui. A flor é o Feminino, a delicadeza perfumada, como deitar numa cama de flores em uma tarde fresca de Primavera, na explosão da Vida em cores, banhando campos floridos, na promessa da Vida plena após um período na prisão, pois não vamos para o Céu; nós voltamos para o Céu. Esta flor é também um asterisco, só que menos agressivo, com arestas aparadas, numa pessoa que, ao enfrentar dureza, acaba evoluindo, polindo a si mesma, como num homem que, depois de ser um tanto rude e grosseiro, acaba se tornando um gentleman, um cavalheiro, no maravilhoso modo como a Vida Física acaba nos tornando pessoas melhores e mais depuradas, num apuro moral capaz de enxergar as vicissitudes da Mundo, esta esfera em que Bem e Mal seguem em combate um contra o outro. O fundo deste quadro é de um majestoso dourado, como no interior dourado de um túmulo faraônico, com deuses pintados nas paredes internas, querendo guiar o morto na travessia entre dimensões, na importância de noções como a Tábua dos Dez Mandamentos, dando-nos noções básicas de moralidade, fazendo disto a razão maior de estarmos encarnados – crescer moralmente, fazendo do sociopata um espírito tosco, que está LÁ ATRÁS na escala de evolução moral, num espírito que ainda tem muito, muito a aprender. Talvez aqui tenhamos uma junção de áspero com liso, no discernimento: Facilidade e Dificuldade são parte do mesmo trabalho, ou seja, nada de errado em sentir alguma dureza ao se fazer algum trabalho. Este quadro traz um jogo de contrastes, remetendo ao mago Escher, encantando o Mundo com seus jogos de ilusão de ótica, desnorteante, maravilhoso. Atrás desta flor, temos um retângulo bordô, na cor de um bom vinho, no libertador momento do happyhour, o momento em que gravatas são afrouxadas e o álcool se torna o elixir para se aliviar um dia de pepinos a serem resolvidos, como no hábito inglês dos pubs, fazendo da bebida alcoólica algo tão universal, do uísque à tequila, com monges medievais fabricando seus próprios vinhos. Aqui temos a figura de um casamento, no qual marido faz uma parte, esposa faz outra. É como um sisudo senhor japonês acompanhado de sua esposa doce: seriedade e irreverência, no modo como é positivo a pessoa ter dois “olhos”: um moderno e irreverente; o outro, conservador e machista.
Acima, sem título (1). Vemos uma moldura, sem pintura, como se tivesse sido feito um roubo, no lendário furto da Monalisa no Louvre, numa trama digna de romance policial. A moldura está descentralizada, como se quisesse fugir, ou como se quisesse ficar quieta e discreta, não querendo chamar atenção sobre si mesma, na virtude que é a modéstia, a humildade, como numa Fernanda Montenegro, a qual, num momento de evidência profissional que foi uma indicação ao Oscar, dizia se sentir uma fodida, com o perdão do termo chulo, e assim é Tao, pois, quando brilho em minha humildade, apesar de todo o brilho por mim emanado, sinto-me uma tesoura cega, pois se me sinto fodão maravilhoso, tal arrogância me levará à desmanteladora desilusão – quem é humilde não quebra a cara. A moldura é o vazio que é útil ao Mundo, numa moldura que sonha em abrigar uma grande pintura, fazendo metáfora com o trabalho de Marketing: tudo gira em torno da qualidade de um produto ou serviço que é injetado no Mercado, ou seja, é a pintura em si; se a pintura é ruim, ou seja, se o produto ou o serviço é ruim, não há moldura que possa salvar o dia, ou seja, não há qualquer propaganda que possa ajudar a vender um produto ruim. E isso também se aplica ao Cinema: tudo parte de um bom argumento, boas letras sobre o papel, pois se o argumento é ruim, não há astro ou estrela que possa salvar a película – o negócio já começou errado. Esta moldura quer se tornar uma janela para o Mundo ser observado, no modo como o Ser Humano, com seus potentes telescópios, sentem-se tão privilegiados em poder ter a oportunidade de contemplar a obra de Tao, o imenso. O vermelho aqui é uma porrada vibrante, num impacto, como num interior de pizzaria, numa pizza bem picante, no fascínio dos condimentos, numa boa pizza de telentrega, superando qualquer pizza congelada vendida no supermercado, e aqui entra novamente a questão da qualidade, da excelência de um produto, pois como posso obter sucesso se não respeito a inteligência do consumidor, achando este um mero tolo enganável? Aqui temos uma certa assimetria mondriânica, como na arquitetura japonesa, longe da obsessão ocidental com a Simetria. O vermelho é o sangue em comum entre todos nós, os irmãos que guerreiam entre si, lamentavelmente, no eterno jogo de tronos mundano, num querendo ter mais poder do que o outro, arrastando para a fome bélica países inteiros, deixando rastros de destruição e padecimento de fome, como um rei fechado em seu mundinho de privilégios auspiciosos, alheio ao sofrimento de um povo que mal pode comprar pão – é o ancestral egoísmo humano, um egoísmo que nem Jesus Cristo Nosso Senhor soube neutralizar, pois o Mundo não muda; só muda meu modo de me relacionar com as pessoas. Vemos uma grande faixa de luto, na arrebatadora cena inicial de Evita de Alan Parker, com as multidões respeitosamente silenciosas no cortejo fúnebre em Buenos Aires, com pétalas de flores caindo gloriosamente sobre o caixão da pessoa mais importante da História da Argentina, em contraste com a Eva menina de família pobre e pouco respeitada. A faixa é o expresso alerta dos remédios de tarja preta, avisando do risco da dependência química, sendo esta o verdadeiro Inferno na Terra, como um senhor que conheço, que está condenado a passar o resto de suas décadas de vida numa clínica psiquiátrica, tudo por causa da Cocaína, num retrato de degradação e de uma vida jogada fora. Esta moldura é dúbia, pois tem um traço ondulado azul e tem traços retilíneos pretos, como se eles competissem para ver quem abrigará a pintura, como nas intrigas palacianas no vasto harém de um faraó, com mulheres sonhando em ser a mãe do próximo rei do Egito, subindo assim na hierarquia na corte, elevada ao status de Rainha Mãe. Esta janela está fechada, talvez evitando o nascer do Sol, como uma pessoa evitando a verdade, refugiando-se num mundinho boêmio de sinais auspiciosos, no fascínio da Boemia, no modo como o atual isolamento social deve estar sendo uma dor para a gurizada boêmia, obrigada a ficar em casa em pleno sábado de noite.
Acima, sem título (2). Este minimalista quadro, na riqueza da Simplicidade, remete a um célebre anúncio de carro, um carro de pequeno porte, pequenino no centro do anúncio, com o slogan: “Think small”, ou seja, “Pense pequeno”. É a limpeza de Tao, no prazer de se limpar um vaso sanitário e perfumar este com desinfetante, no prazer de se estar numa casa limpa, aproximando-nos da limpeza metafísica, a dimensão onde não há um só micróbio ou bactéria, pois é uma dimensão imaterial, feita de Pensamento, acima da fogueira de vaidades do Mundo Físico. Aqui é como se fosse um bigode, no símbolo de Masculinidade, como no bigode de um deus hindu, no universal modo humano de observar divindades, levando a Humanidade ao esclarecimento científico, mostrando ao Homem que não há deuses, mas espíritos superiores, ricos em sua depuração moral, num caminho de evolução perceptiva do Ser Humano, lançando mão de algo maravilhoso chamado Pensamento Racional, numa fria equação que resolve mistérios, como no formidável desenho animado de Scooby Doo, com uma trupe empenhada em solucionar assustadores mistérios, como num final de livro de Agatha Christie, elucidando crimes, num “dia” que vai amanhecendo em dissipando os mistérios da “noite”, como uma pessoa crescendo, não mais se atendo a tolices ilusórias, como uma amiga minha, uma pessoa que, na época do Ensino Médio, era uma pata choca desprovida de sensualidade e, hoje, é um mulherão, ou seja, evoluiu – todos nós deixamos a Terra evoluídos, cumprindo uma missão e retornando ao Lar Nosso, o lugar em que temos a certeza de estar entre grandes amigos. Aqui é como se fosse um ovni retangular, desafiando cientistas em mistérios, no combustível que moveu o bem sucedido seriado Arquivo X, com dois agentes do FBI: um deslumbrado, sedento por encontrar evidência de influência alienígena; o outro, cético e científico, disposto a reduzir tudo a hipóteses furadas, que fogem da Razão. É como os ratinhos Pink e Cérebro, na junção entre Razão e Loucura, no modo como a pessoa tem que ter um pé em cada extremo, nunca ouvindo somente um dos lados. Neste quadro não temos simétrica centralização, mas uma transgressão, uma rebeldia, de um objeto que não quer mais corresponder às expectativas do Mundo, pois que vida é nessa na qual sou um brinquedo nas mãos de outrem? Que vida é nessa na qual entrego meu próprio Yang nas mãos de outrem? É como uma dona de casa que nunca saiu da sombra do marido, correspondendo às expectativas machistas patriarcais, com a mulher sempre num nível abaixo do homem. É como no título de um livro de uma famosa feminista, o Contra o Vento, ou seja, pensar criticamente, ou em outro livro chamado O Segundo Sexo, com Eva sempre sendo um arremedo da obra prima de Deus, que é o homem. Aqui, esta nave levanta voo, e parece que está prestes a sair do quadro, deliciada em sua própria autonomia de voo, num avião que pertence somente ao piloto, numa pessoa que tem o poder sobre si mesma de aprovar ou reprovar coisas relativas a si mesma – seja você o galo de seu próprio galinheiro! Aqui é o termo “colocar o preto no banco”, ou seja, expressar-se da forma mais clara possível, como um artista que é um tanto mal compreendido, no modo como a Humanidade demorou algum tempo para se dar conta do legado psíquico de Jesus Cristo, aquele homem elegante que, ao levar um tapa, ofereceu a outra face – você é meu irmão, meu igual! Este vazio branco quase convida o espectador a desenhar algo aqui, resolvendo assim esta questão de desequilíbrio proposital. É como uma mancha na reputação de alguém, como no adultério bobo de Bill Clinton, o qual mentiu ao dizer para todos os televisores do Mundo: “Eu jamais fiz Sexo com Monica Lewinsky”. Aqui são as inevitáveis manchinhas, resistentes ao mais potente sabão em pó, na inevitabilidade das imperfeições físicas, materiais, como disse um respeitado astrônomo brasileiro: “São exatamente os defeitos do Cosmos que fazem com que este funcione”.
Referências bibliográficas:
Robert Motherwell. Disponível em: <www.americanart.si.edu>. Acesso em: 9 set. 2020.
Robert Motherwell. Disponível em: <www.pt.wikipedia.org>. Acesso em: 9 set. 2020.






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