quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Keep the Faith (Mantenha a Fé)

 

 

Americana de 1930, Faith Ringgold nasceu no bairro negro do Harlem, Nova York. Foi aluna e professora de Arte. Politizada, aderiu a movimentos feministas e antirracistas. Sua carreira acumula setenta prêmios e honrarias. Os textos e análises semióticas a seguir são inteiramente meus. Boa leitura!

 


Acima, American People Series n. 15: Hide Little Children (Séries Povo Americano n. 15: Criancinhas Escondidas). 1966. As crianças aqui aderem ao bioma, tornando-se parte de um organismo maior e supremo, na sabedoria da pessoa se curvar, ser humilde e procurar aderir ao sistema, para que, assim, esta pessoa acabe triunfando – quem começa se curvando, acaba vencendo, ao contrário do arrogante, o qual acaba quebrando a própria cara. As crianças aqui são os frutos, na esperança de uma família, porque o que seria de nós sem as crianças que nos sucederão? Podemos ouvir aqui o cricri dos grilos, insetos que se calam nas frias noites de Inverno. As crianças são como ovinhos de Páscoa, tornando-se tal tesouro para os pais, com crianças envoltas em cuidados, numa pessoa que, ao ter filhos, teve que aprender, na marra, a ter responsabilidade, como uma pessoa de minha família, tendo que encarar a dureza da Vida, como me disse certa vez uma pessoa querida: “Se tu tiveres filho(s), tua vida nunca mais será a mesma. Nunca”. Aqui temos uma camuflagem, numa pessoa que quer se reservar e ficar implícita, no poder das mensagens subjetivas, as quais resultam em objetivas, ao contrário das mensagens primordialmente objetivas, as quais acabam se perdendo – de novo, curva-te e reinarás. Podemos ouvir o farfalhar das plantas, na canção Summer Wind, na sensualidade dos processos perenes, num Universo em constante processo de mudança, de evolução, pois a estagnação não é sexy, pois é como se fosse uma fétida água parada, cheia de bactérias nocivas. Aqui temos discrição, como num Luis Fernando Veríssimo, meu escritor preferido desde minha adolescência, um senhor que, quando eu estava há anos num shopping em Porto Alegre, Veríssimo lá estava passeando com a esposa, mas eu não o interpelei para tirar uma selfie – eu respeitei o momento de lazer do cidadão, na questão taoista da pessoa conquistar o respeito secreto das pessoas. As folhas são a força da Natureza, como numa antiga abertura do televisivo Fantástico, da Globo, com as forças da Natureza, vibrantes, implacáveis, fascinantes, com os quatro elementos se revelando, dando uma ínfima amostrinha do poder de Tao, a grande tempestade que acaba nos fazendo tanto bem, como um remédio amargo que cura, com frutos sendo colhidos após um árduo plantio. Aqui temos um pudor, uma reserva, numa pessoa que aprendeu que a Indiscrição prejudica a própria pessoa indiscreta, como uma pessoa desagalhasada num gélido dia invernal, entrando aqui a questão da autoestima, do amor por si mesmo, sem narcisismos, como diz uma canção: “Aprenda a amar a si mesmo, pois isto é um grande, grande sentimento”. Aqui o novo vai se revelando, com as gerações passando, com artistas emblemáticos que se tornam poderosos ícones de uma geração inteira, como num Sinatra, na decepção de meu pai, o qual, em Nova York, indo assistir a um show de Frank, deparou-se com um aviso da bilheteria: “O senhor Sinatra está gripado e afônico. Logo, não se apresentará esta noite”. É como a minha geração, a geração Marisa Monte, no topo da MPB, com artistas sofisticados, dignos de obter o respeito de intelectuais, empresários, médicos, advogados etc., ou seja, a Inteligência, numa Elis Regina, absolutamente criteriosa na hora de selecionar repertório – é a questão de respeitar a inteligência de outrem. Aqui, a hera vai lentamente se entremeando, apoderando-se gradualmente, despercebida, subestimada, até dar seu bote, como numa Gisele, nos píncaros de popularidade capazes de fazer seus ondulados cabelos virarem moda global – todas querem ser Gisele, numa raiva inconsciente, tentando “arrancar” de Gisele a estrela que a supermodelo tem. Aqui é uma plantação pronta para a colheita, como na vindima, no desafio de colher a fruta no ponto certo – nem muito verde e azeda, nem muito passada.

 


Acima, Black Light Series n. 12: Party Time (Séries Luz Negra n. 12: Hora de Festa). 1969. Aqui temos uma movimentação cíclica, como num clipe das Spice Girls, no qual cada uma personificava um dos quatro elementos primordiais, num conjunto que teve que levar adiante após o desligamento voluntário da quinta spice girl. As bandas são como casamentos sem Sexo, e é duro manter um grupo coeso depois de décadas de carreira – precisa haver diálogo e paciência. É como numa firma, num organismo em que cada órgão tem sua dignidade. Aqui é a beleza das Quatro Estações, numa Nova York, com um Verão tão tórrido e abafado e um Inverso tão gélido. É como a fronteira entre quatro nações, nos controles alfandegários, na fiscalização buscando por drogas, na promessa populista de Trump em construir um descomunal muro dividindo as duas nações – quanto mais regras você inventa, mas as pessoas desejarão transgredi-las. Aqui é como uma divertida pista de dança, no prazer de suar na pista, deixando de lado, ao menos por um momento, as exigências sociais em relação à aprumação e formalidade, como num bom baile, indo até o raiar do dia, com os coloridos vestidos das moças brilhando no mágico amanhecer de gala, com a beleza da Estrela da Manhã, na promessa da terra metafísica da Beleza e da sensação de alto pertencimento, como numa estrela de Cinema com uma carreira absolutamente nos trilhos, deslanchada. Aqui é num curioso fluxo de pista de dança carnavalesca num salão, com os foliões dançando em ciclos anti-horários, com água escorrendo ralo abaixo, nos poderes magnéticos da Terra, com a água escorrendo no sentido anti-horário num hemisfério e no sentido horário no hemisfério posto, no senso de humor de Tao, dando para uns o Verão e, para outros, o oposto – observando tudo de um modo amplo e abrangente, a Vida não deixa de ser engraçada. Aqui é um vibrante círculo de mulheres conversando, como nas mulheres da minha família por parte de mãe, as quais, quando reunidas, conversam em um volume auditivo que beira a gritaria – é divertido. Aqui é uma se colocando no lugar da outra, na questão da compaixão, da comiseração, pois amar não é pieguice, mas se colocar nos sapatos do outro e entender como o outro se sente. Aqui são as renovações democráticas, numa certa alternância no Poder, como nos EUA, numa dança de cadeiras que reveza Democratas e Republicanos, na saudável renovação no Poder, pois, ao final do mandato, acaba o baile de Cinderela, a qual tem que se retirar, como num produto com prazo de validade. Aqui é como mulheres se divertindo num shopping, fazendo não só compras, como também uma peregrinação exaustiva pelas lojas, no prazer de tocar nos produtos, ou seja, curtir ao máximo o momento de recreio consumista. Aqui são como irmãs na mesma família, umas emprestando as coisas para as outras, como batons, brincos, esmaltes etc. Aqui são como quatro vizinhas, fazendo suas saudáveis fofocas, como no filmão O Clube das Desquitadas, com mulheres se unindo para encurralar os seus próprios maridos ingratos. Aqui, temos dois quadros claros e dois escuros, na alternância entre dia e noite, vendo aqui também o senso de humor de Tao, dando a uns o dia e a outros a noite, como num colégio que nunca para de funcionar, com alunos em todos os turnos, no título novaiorquino de A Cidade que Nunca Dorme. Nos quadros azulados temos um sensual luar, numa luz mais discreta, que não revela muito; nos quadros restantes, temos ideias mais claras e definidas, no jogo entre claro e escuro, como na Pintura Barroca, com seus fundos negros e suas formas terrivelmente claras, no poder chamativo dos contrastes, como num farol listrado querendo atrair a atenção dos navegadores, como nos antigos moldes sociais baianos: ou você era um rico branco ou você era um pobre negro, fadado a trabalhar para o branco – como são cruéis os abismos sociais! E são abismos que, ao Desencarne, dissipam-se invariavelmente, só restando a hierarquia em termos de apuro moral.

 


Acima, Coming to Jones Road n. 4: Under A Blood Red Sky (Vindo para a Estrada Jones n. 4: Sob um Céu cor Sangue). 2000. As figurinhas humanas são como um exército de formigas, sempre trabalhando pelo grupo, pela coletividade, no talento de um líder, que se coloca a serviço da comunidade, merecendo respeito. Um formigueiro agredido sangra como um escândalo revelado, desvelado, como numa reviravolta na vida de alguém, sacudindo a poeira e ganhando vida nova, numa pessoa que entendeu que o autoencontro é dentro de si, nunca fora de si. A densa floresta é o mistério, com coisas que nunca são reveladas antes da hora, no modo como não existe bola de cristal, e as surpresas nos aguardam – quanto mais humilde sou, menos sofro com surpresas negativas. As árvores aqui são a proteção do lar, o acalento, numa mãe zelosa, num filho que, pela primeira vez vivendo sozinho, sem a mãe, dá valor ao zelo que então recebia – dou-me conta do que perdi depois da perda em si, ou seja, devo me dar conta das bênçãos para não as perder. O vermelho é um céu que sangra, como na estrela rubra, um rubi belo no céu, no sangue de um brutal campo de batalha, como o Aragorn de Tolkien encorajando os homens no campo de batalha, gritando: “Que venha um dia vermelho!”. Aqui é uma colcha de Faith, numa avó zelosa cobrindo o neto numa noite fria de Inverno. A colcha é o acalento do lar, da família, no modo como os vínculos de família sobrevivem ao Desencarne, havendo na Eternidade o tempo de superação de todas as desavenças – você nunca vai deixar de ter família! Os troncos da árvores são a firmeza, a garantia, numa pessoa que entendeu a credibilidade de um homem de Tao, um homem que nunca ambiciona dinheiro ou pedras preciosas; um homem que tem a noção da ilusão que é a possessão material, rechaçando as ilusões materialistas. As árvores são a Vida, a força da Vida, sempre lutando para sobreviver, vestindo roupas maravilhosas, mais luxuriantes do que qualquer obra de um estilista de Moda. Os troncos brilham no escuro como neon azul, nas mágicas florestas coloridas de Avatar, numa mata paradisíaca, cheia de água fresca e perfumes vegetais, como na magia floresta Lothlórien de Tolkien, num mundo mágico, como nas atrações turísticas de Gramado, sempre visando encantar o turista, como no complexo de parques de Orlando, EUA, apelando para a memória afetiva da pessoa, vendendo produtos que emocionam, no talento mercadológico americano em vender, como numa competitiva China, exportando para o Mundo. O vermelho é um poente ardendo em vermelho, anunciando um dia seco e ensolarado, nos dias gloriosos de Sol nos quais temos o prazer de olhar para um céu limpo e encher nossos pulmões de ar, na dádiva que é ter Saúde, pois nunca ouvimos que tendo Saúde é o que importa? Então, tudo gira em torno da Saúde inabalável do Plano Metafísico, o lugar onde terminam nossos problemas terrenos, fazendo com que abracemos a Simplicidade maravilhosa da dimensão acima, um plano em que tudo que temos que fazer é arranjar algum trabalho, num plano em há empregos (bons) para todos, longe das vicissitudes de falta de empregos na Terra. Esta obra é muito bem emoldurada, na questão de uma moldura só ajuda se estiver emoldurando um quadro bom, ou seja, de que adianta eu fazer um anúncio publicitário maravilhoso para um produto de baixa qualidade, deixando, assim, de fidelizar o cliente? Esta moldura traz estrelas, numa pessoa em momento de contemplação, sonhando e olhando para as estrelas, sonhando com uma vida maravilhosa, desapegada, bela, poética, querendo sair um pouco do Mundo de vicissitudes, querendo sobreviver a tal Mundo. As estrelas são os deuses, os espíritos evoluídos, de perfeição moral, como nas noções civilizatórias da tábua dos Dez Mandamentos, inspirando a Humanidade a evoluir e fazer da Terra um extensão do Mundo acima, do Mundo pleno e espiritual. Por fim, vemos uma discreta luz branca, na magia dos ciclos da Natureza, sempre voltando ao ponto inicial, no eterno recomeço.

 


Acima, The American People Series n. 18: The Flag is Bleeding (Séries Povo Americano n. 18: A bandeira está Sangrando). 1967. Os EUA têm lá suas questões sociais e raciais, numa contradição para um país que se diz o paladino baluarte democrático da Igualdade. Vemos aqui um manifesto antirracista, com cidadão de pele branca e negra, longe das profundas miscigenações brasileiras. Aqui é um país de todos, sabemos, mas mesmo assim as tensões são grandes, como na massiva campanha do Black Lives Matter, ou seja, Vidas Negras Importam. Aqui, o homem negro segura uma sanguinolenta faca, ferindo a si mesmo, num país que tanto evoluiu, com um presidente negro reeleito, em contraste com os grupos de supremacia branca que apoiam Trump – que horror e que fútil é o Preconceito. As listras vermelhas sangram, como no sangue africano escravizado, dando heranças sociais a descendentes negros pobres, numa Faith que vem de um bairro que é quase um gueto, num bairro violento, como negros trancados numa senzala, condenados ao labor incessante. E Faith nasceu e cresceu neste contexto, trazendo em sua arte tal manifesto social, tal protesto. Aqui, a mulher, apesar de estar no centro, está diminuta, abaixo dos homens que a cercam, no machismo eterno que faz da mulher um mero útero reprodutor, como numa esposa de príncipe, tornando-se um útero reprodutor a serviço de uma coroa. As listras são como barras numa prisão, com tantos negros americanos presidiários, vindos de um contexto social pobre e violento. As três figuras aqui estão engajadas, de braços dados, numa união, como num protesto na Rua, num país que garante ao cidadão o direito de manifestação e protesto, desde que forma civilizada e pacífica. A mulher aqui é frágil, numa magreza extrema, como numa pobreza extrema, tendo que ser escoltada pelos dois homens. A mulher é a fragilidade da Paz, esta força tão interrompida por conflitos e guerras. A mulher é a esperança de união, no modo como o Desencarne mostra ao indivíduo a superficialidade das diferenças raciais, como numa peça teatral que chega ao fim, revelando o elenco, que se curva para os aplausos. As estrelas são como a roupa da Mulher Maravilha, num símbolo feminista, numa mulher forte e com superpoderes, mas, a nível patriarcal, sempre abaixo do Super-Homem, nunca sendo tão boa quanto este – é o pesadelo das diferenças de gênero, num pesadelo que chega ao fim no Desencarne, no fato de que Tao nunca faz filhos menos ou mais amados do que outros. As listras são a elegância aristocrática, num país que se separou da Coroa Inglesa, tendo para si seus próprios mitos, como a família Kennedy – cada sociedade constrói para si o seu próprio sangue azul, o sangue que faz metáfora com a glória metafísica, na qual somos todos frutos de Imaculada Conceição, ou seja, somos maravilhosos, mas infelizmente nem todos veem isso. Aqui é como Madonna cantando o clássico Fever, ladeada por dois corpulentos homens, como guardacostas, como dois dobermanns guardando algo precioso. A faca é a ameaça, como uma amiga minha sendo assaltada, com o bandido mirando a arma para o coração desta amiga. Aqui temos um país que tenta se unir, enfrentando sua própria heterogeneidade, num país que busca por uma identidade, num Mundo que busca evoluir moralmente, como na possibilidade de o próximo 007 ser interpretado por um ator negro. A mulher aqui é uma frágil boneca, como na fragilidade da Paz, esta força frágil e, ao mesmo tempo, tão poderosa, no fato de que é só na harmonia que há felicidade e prosperidade, fazendo da Guerra um vício humano – não há Guerra no maravilhoso Plano Metafísico. O homem branco está engravatado, como um presidente na Casa Branca, num homem impositivo, como num Obama, o qual, ao ser interrompido por um jornalista numa entrevista coletiva na Casa Branca, “puxou a orelha” do jornalista dizendo: “Você está na minha casa”, sendo aplaudido pelos outros na sala – que homem, que líder, que carisma.

 


Acima, The American People Series n. 20: Die. (Séries Povo Americano n. 20: Morte). 1967. Quando Tao é perdido, o Caos reina, e ninguém sabe o que está acontecendo. É na completa insanidade, como um filho matando o próprio pai a machadadas, numa ardilosa Suzane Von Richtofen, tramando o brutal assassinato dos próprios inocentes pais, no modo como a Psicopatia pode trazer uma tenebrosa amostra do hálito do Umbral, a dimensão ociosa e grosseira em que a pessoa definitivamente não se vê como um filho especial e amado de Tao. Aqui é como o famoso painel de Picasso sobre a Guerra Civil Espanhola, como animais brigando, sendo perdida toda e qualquer civilidade ou polidez, num momento em que a Diplomacia não mais é capaz de evitar a Guerra, com diplomatas sendo expulsos de suas próprias embaixadas, no filmão Argo, uma trama tensa na qual um perverso sistema ditatorial tem que ser burlado para salvar vidas de americanos inocentes. Aqui, todos estão insanos e em pânico, com toda a civilidade perdida. Eles querem se defender atacando, na tenebrosa frase: “O ataque é a melhor defesa”, ou seja, por que a Paz se podemos brigar? É o talento humano para o Mal, na crueldade de uma guerra, espalhando fome de destruição. Aqui são como lobos trancados numa cela, cada um querendo se impor, numa concorrência, para ver quem é o macho alfa, no poder patriarcal em obter tensões entre reinos vizinhos, num rei ambicioso, que só quer anexar mais e mais territórios para si, na insanidade do descontentamento – se o que tenho creio que é insuficiente, então nunca terei o suficiente. Então, a pessoa, num processo existencial, vai se dando conta de que é possível ser feliz com pouco, sem ter obsessões por palácios de ouro maciço, os quais são cópias grotescas e materialistas das gloriosas cidades espirituais. Aqui, o sangue reina, e é derramado, como pessoas derramando o sangue do homem mais evoluído que já existiu na Terra, na incapacidade humana em entender o Metafísico. Aqui, vemos crianças inocentes sendo esfaqueadas, numa catarse de Faith Ringgold, como nos bebês mortos no naufrágio do Titanic. Aqui, não temos noção de Tempo ou Espaço, e a confusão reina. Não sabemos de que modo podemos dispor a obra na parede. É o modo como as noções humanas são tão ínfimas em relação ao Universo, num cosmos sem Norte ou Sul, sem Hoje ou Amanhã, na pequenez humana e, ainda assim, num ser que busca em referências como Jesus a compreensão do plano acima, rejeitando toda a imensidão material cósmica, nesse universo que, de tão infinito, faz com que seja inútil querermos contar e catalogar estrelas – é grande demais. Aqui é na comédia Os Sete Suspeitos, num mistério policial, com vários suspeitos numa casa dantesca, num desafio de Agatha Christie para que possamos adivinhar quem é o assassino. Aqui, as pessoas estão em grande pânico, com os olhos arregalados, horrorizados, incrédulos perante a capacidade desarmônica humana, com nas tramas palacianas num Antigo Egito, para ver quem será o próximo rei, neste jogo de tronos no qual a Bondade e o Amor nada, nada significam – é a insana sede por Poder. Aqui é um momento de susto. Vemos duas criancinhas abraçadas, desalentadas, torcendo para que tudo passe e que elas possam brincar em Paz novamente, como na crueldade de A Escolha de Sofia, num sistema governamental que pouco de importa com a felicidade das pessoas – é o caminho da Loucura. Podemos ouvir aqui os gritos ensandecidos e os tiros de revólver, numa manifestação sendo brutalmente reprimida, com tanques esmagando os manifestantes, num sistema em que o cidadão simplesmente não tem o direito de pensar; num sistema que submete a Arte a ideologias, numa escravidão ideológica. Aqui, irmão derrama sangue de irmão, e Tao observa tudo lamentosamente, como no filmão Dogma, com um Deus muito sentido com o caos bélico, restaurando tudo ao final, devolvendo o Ser Humano à pacífica e deliciosa vizinhança metafísica. O fundo aqui é cinza, incerto, num dia dúbio, em que não sabemos se há preto ou branco. É a dúvida existencial.

 


Acima, The Judson n. 3 (O Judson n. 3). 1970. Aqui, a bandeira americana está subvertida, parecendo-se com um país ditatorial, comunista, como numa Cuba, num líder irresponsável ao ponto de colocar sempre a culpa nos “imperialistas norteamericanos”. É um líder que trouxe miséria a seu país, num líder de clara e observável incompetência – se eu me acho perfeito, o fracasso é culpa de outrem, sempre. Aqui grandes barras de prisão aprisionam o quadro. As barras são a prisão de carne que é nosso corpo, num presidiário que sonha em se libertar, sonhando com o glorioso momento em que será desconectado de todas as vicissitudes relativas à Matéria, indo para um mundo onde tudo é pensamento, nunca pedras preciosas. Estas listras impiedosas são como vetos governamentais a textos considerados subversivos, como na Ditadura Militar do Brasil, numa época em que nem no Exterior era possível vir a público falando mal do governo brasileiro, como numa Elis Regina, a qual falou mal do governo em Paris, fazendo com que a Embaixada Brasileira naquela cidade mandasse o texto para Brasília... É um modo artificial de se ter Paz, fazendo com que um Estado se torne uma prisão. As barras negras são agourentas, escuras como agourentos urubus cercando uma carniça. São tarjas que censuram partes de textos, na frustração de um artista em ser censurado, como na censura em relação à Viúva Porcina de Betty Faria – os ditadores morrem de medo dos próprios cidadãos, numa covardia opressora. Aqui é como uma propaganda comunista, numa Faith que testemunhou toda a Guerra Fria, numa época em que o Comunismo assustava o Capitalismo, insinuando-se sobre o Brasil, talvez querendo anexar este à URSS. É como no jogo de tabuleiro War, com territórios sendo cobiçados e anexados, fazendo com que exércitos se tornem massa de manobra a serviço da vaidade de um líder ambicioso. Estas barras impedem, censuram e sufocam, como num truculento Trump, infantil ao ponto de não reconhecer devidamente a derrota – é o apego ao Poder. Aqui temos um sistema doente, num arremedo precário de Estados Unidos, com estados opressores que gostariam de ser tão ricos e desenvolvidos como inimigo americano, numa atitude de inveja, pois Amor e Liberdade andam de mãos dadas, como Tao, o qual nunca se impõe brutalmente, na hierarquia baseada não em Poder, mas em apuro moral – os mais elegantes servem de exemplo aos menos elegantes. O ditador dá um tiro no próprio pé aqui, um homem que pode ser temido, mas nunca respeitado de fato, no modo como o homem de Tao é secretamente respeitado pelas pessoas, num voto de confiança, como votar com gosto em algum candidato num cargo eletivo. Aqui são como barras num campo de concentração, tratando seres humanos como não se trataria um animal. Aqui são como códigos de barra que reduzem um cidadão a uma mercadoria, sempre a serviço de um ditador em soberba, enviando soldados para a morte certa num campo de batalha, transformando seres humanos em meros peões num tabuleiro de vaidades. Aqui as estrelas estão sufocadas, e o ditador jura que é um líder amado, respeitado e admirado, como se o ditador fosse uma coisa a qual definitivamente não é – um homem de Tao. Aqui, vemos uma guerra entre linhas horizontais e verticais, e as verticais se impõem da forma mais brutal e cruel possível, na questão: “Quem é o vencedor na Guerra?”. Esta bandeira está dura, sem tremular, num marasmo entediante, numa propaganda governamental que insiste em vender o ditador como um anjo apolíneo, num país em que o cidadão sequer pode ter o cabelo do jeito que quiser, trazendo aqui Adam Smith: Cada homem é livre e responsável por si mesmo, no respeito às diferenças. Ao contrário de Marx, que acha a espiritualidade uma piada, num cidadão escravo de um Estado Paternal. Aqui, a frase impositiva assusta o cidadão, mas, na verdade, o ditador é quem teme o cidadão.

 

Referências bibliográficas:

 

About Faith. Disponível em: <www.faithringgold.com>. Acesso em: 11 nov. 2020.

Art. Disponível em: <www.faithringgold.com>. Acesso em: 11 nov. 2020.

Faith Ringgold. Disponível em: <www.en.wikipedia.org>. Acesso em: 11 nov. 2020.

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