quarta-feira, 4 de novembro de 2020

Décio Nota Dez (Parte 2)

 

 

Volto a falar sobre o pintor carioca Décio Vieira. Os textos e análises semióticas a seguir são inteiramente meus. Boa leitura!

 


Acima, sem título (1). Um quadro bem limpo, um tanto singular na obra de DV. Remete ao painel de fundo dos programas da Globonews, com delgadas linhas sutilmente engordado e emagrecendo, nos altos e baixos da Vida, na liquidiscência que tanto nos coloca lá em cima quanto lá em baixo, pois, não canso de dizer, o Sucesso é um amante (altamente) infiel. Aqui temos elegância, na elegância fria da razão dos números, no único caminho válido, que é a Lógica, na ironia de Tao nos números, como nos números primos, os quais existem por toda a Eternidade dos números, no senso de humor de Tao, o lógico. Aqui temos limpeza, no modo, logo antes de redigir aqui, dei uma geral no meu apê, na sensação gloriosa de, ao final de tal esforço, estar num ambiente limpo e perfumado, aproximando-nos da impecável limpeza das casas metafísicas, casas sequer com uma única bactéria, como cidades limpas e bem administradas, num prefeito amoroso e competente, que faz jus aos votos que recebeu no pleito, ao contrário do ambicioso, que só quer o Poder pelo Poder, e não para apresentar propostas concretas e realistas. As linhas mínimas são o minimalismo japonês, numa civilização tão polida, tão limpa, numa bandeira nacional tão simples e impecável, no poder das mensagens sucintas de um anúncio publicitário, como num outdoor – quanto mais informações são dispostas, menos será absorvido pelo receptor, no lema clássico: “Menos é mais”. Aqui são como placas tectônicas, acomodando-se e causando tantos transtornos, na inevitável imperfeição da Matéria, num mundo duro, no qual é um capital desafio manter a Fé em um plano superior melhor, numa verdadeira provação para um espírito encarnado, evitando se tornar uma pessoa amarga e embrutecida, no modo como a chegada de netos pode quebrar um pouco com a sisudez dos avós, como numa querida prima minha, faceira com a chegada recente do netinho. Aqui é como uma rachadura, num objeto que luta para se manter uno, como num país heterogêneo como o Brasil, com tantas subculturas distintas, no desafio que é manter uma unidade nacional, por meio de aspectos culturais como o Samba, o Churrasco ou o Futebol. Aqui temos a impecável disciplina de linhas retas e exatas, resistindo às tortuosidades de uma coluna barroca, na imposição de Ordem Racional ao Caos, como no símbolo da Medicina, com a serpente da Malícia sendo domada pelo bastão fálico, num mundo patriarcal, no qual o homem sempre vem na frente... Aqui é o branco de uma bandeira que clama por Paz, nos incansáveis esforços diplomáticos para a manutenção da Paz no Globo Terrestre, no modo como é difícil para o Ser Humano observar que a universalidade nos une em uma só raça, uma só família, em nobres esforços como os Jogos Olímpicos, deixando muito claro este laço universal que nos une. Aqui é uma impecável lição de Geometria, no modo como, hoje, percebo a importância do ensino de Matemática, apesar de eu, em então idade escolar, subestimar e desprezar o valor do raciocínio lógico, na fria beleza dos números, como no gelado córrego de entrada para a floresta mágica de Lothlórien, de Tolkien, numa água que, apesar de tão gelada, traz a cura, como numa pessoa passando por um processo importante de desilusão, passando a observar o Mundo do jeitinho que este é. Aqui é como a perfeição dos encaixes pétreos incas, no mistério arqueológico – como diabos eles faziam isso, sendo tão avançados em uma era tão primitiva? Aqui são como os fatos se encaixando, mostrando a lógica final na resolução de um crime num romance policial, num dia que vai amanhecendo, trazendo a glória esclarecedora de Eos, a deusa da Aurora, com terras abençoadas e nobres, banhados da luz dourada, na impressão de que tudo está na mais perfeita ordem. Aqui é como um trabalho de historiador, encaixando vestígios e tentando fazer uma remontagem de um tempo que não voltará.

 


Acima, sem título (2). Aqui temos uma cena bélica, com um exército sendo cercado e rendido pelas forças inimigas, como na tática russa de derrotar Napoleão, atraindo as tropas deste para dentro das terras geladas russas, acabando por derrotar o inimigo pelo cansaço, como numa força gravitacional, que acaba influenciando toda a matéria para o ponto mais baixo. Essas arestas remetem às raras fotos feitas da superfície de Vênus, esta esfera tão inóspita, tão quente, tão escura na superfície, nas características singulares de cada planeta que forma nosso sistema, como numa família com vários filhos, cada um com suas peculiaridades de personalidade, no modo como Tao nunca faz um filho igual ao outro, sempre dotando de singularidade cada um de seus filhos, pois não haveria lógica ou sentido em se fazer duas pessoas idênticas, como no amor de um Chico Anysio na construção de sua riquíssima galeria de personagens, distintos, com pouquíssimo a ver uns com os outros, como num panteão de deuses, com cada divindade com seus traços, com suas responsabilidades, no majestoso Coliseu, com seus compartimentos em arco, cada um para abrigar um deus romano em especial, no modo como o politeísmo é universal, como nas divindades tupiguaranis. Aqui as arestas arranham uma às outras, num jogo tenso, como num embate marcial, na competitividade para ver quem é superior, na diversão lúdica que a criança conhece desde cedo, com seus joguinhos de disputas, como videogames. Aqui temos uma rosa dos ventos atordoada, apontando aleatoriamente, sem noção, como numa pessoa num labirinto existencial, com uma visão turva, sem noção alguma do que deve fazer ou pensar. Aqui é um cenário tenso, de um escopo científico sendo definido, como na hora da residência no curso de Medicina, onde o aluno escolhe qual especialidade quer ter, indo cada um para um lado, no modo como os adeus são inevitáveis, e não há rede social capaz de amenizar ou neutralizar os goodbyes, os adeus, havendo na Dimensão Metafísica o ponto de reencontro com velhos bons amigos, numa dimensão onde todos voltam a se relacionar intensamente, mas com a leveza fresquinha espiritual, pois ninguém é obrigado a ser gêmeo siamês de alguém, havendo espiritualmente tal desprendimento, em oposição ao amor apegado e obsessivo, numa pessoa fixada em outra pessoa, num amor condicional, doente, obsessivo, remetendo a uma velha canção de Dance Music: “Eu vou te proporcionar minha obsessão. Eu vou te ter. Você será meu”. E a Obsessão é inimiga da Paz. No centro do quadro temos um triângulo cinza, neste quadro rico em triângulos. As cinzas são os vestígios do dia anterior, no trabalho de rotina de se limpar a lareira, como num cigarro consumido, no vício, pois um novo cigarro sempre tem que ser aceso – isso não é Saúde; isso não é sexy. A superfície deste quadro tem um aspecto escovado, desgastado, lixado, como num aço escovado, num efeito de desgaste, como jeans rasgados, como numa roupa surrada, desgastada pela Encarnação, no modo como, ao Desencarne, temos que tirar tal “roupa” e devolvê-la, entrando nu neste “chuveiro”, neste passo de depuração, deixando no Mundo tudo de mundano – não se levam joias ou pedras preciosas para o Plano Metafísico, numa espécie de filtro, de depuração, inspirando a pessoa a abraçar o plano das ideias, dos conceitos, no modo como disse uma política: “A Política não é um lugar para se ganhar dinheiro, mas para se discutir ideias”. Aqui são como bactérias se reproduzindo irrefreavelmente, na força da Vida, como um artista que começou a fazer sucesso, sabendo surfar na onda e sabendo sobreviver a tal sucesso, sendo este uma provação enorme, sempre se certificando se a pessoa tem os pés no chão, pois, do contrário, tal artista não sobreviverá, no modo como houve tantos e tantos artista de talento que não sobreviveram aos anos 1980, por exemplo. Aqui é como Trinity extraindo um pernicioso robô do intestino do herói Neo, em Matrix, remetendo-me à vez em minha infância em que o médico teve que extrair de meu dedo um bicho de pé, num momento de dor, mas também de cura.

 


Acima, sem título (3). Num dos setores vemos um efeito de granito, gelado, como na frieza de um sociopata, uma pessoa sem qualquer sinal de remorso. O granito é a solidez, como numa pessoa que organizou a própria vida, sabendo que se deve centrar no trabalho, na atividade, no modo como não há preenchimento existencial para os improdutivos, muitos dos quais, para preencher os vazios de suas próprias existências, tornam-se fofoqueiros, ou seja, fiscais do fiofó alheio, com o perdão do terminho chulo. Aqui uma discreta linha vermelha cruza verticalmente, talvez na noção entre público e privado, com uma pessoa que tem sua vida social mas, ao mesmo tempo, tem um ombro amigo para falar de tristezas, no mágico momento redentor de se colocar para o outro, para o amado, num momento de entrega sentimental que nenhum, nenhum dinheiro pode pensar em comprar – o melhor da Vida é de graça. Esta linha rubra é como um raio de raio x, fazendo mapas tridimensionais de múmias, no modo como a Egiptologia é um plano inesgotável. Esta linha quer dividir, numa festa, os homens das mulheres, como nas reuniões dançantes de infância e adolescência, com a menina tendo o papel passivo, esperando que o menino a tire para dançar, no misógino patriarcalismo, no qual uma mulher JAMAIS pode ter personalidade e independência, sendo inaceitável a menina tirar o menino para dançar, sendo esta rotulada de puta, com o perdão do termo chulo. Aqui o azul é discreto e sisudo, como numa pessoa que conheço, extremamente discreta, no modo de se vestir e de falar, havendo na Discrição uma certa defesa, numa invisibilidade, resguardando-se de “predadores”. Temos aqui um quadrado todo negro, como num quarto escuro, na toca malévola de Laracna de Tolkien, o lugar onde as luzes da Esperança desaparecem, num cenário de miséria existencial enorme, numa janela para o nada, sem finalidade ou lógica, longe da fria e bela limpeza matemática do Pensamento Racional, do falo iluminado de Galadriel, o oposto do sombrio monstro Laracna. A linha vermelha é uma canetada de professor, sempre chamando a atenção do aluno, colocando os pés deste no chão, chegando momentos em que o professor tem que deixar bem claro que, dentro da sala de aula, quem manda é sempre o professor, nas hierarquias verticais de Cultura Erudita, ou como no Exército. O triângulo azul é como uma rampa, uma escada, como uma pirâmide servindo de ponte para o Céu, esta misteriosa dimensão onde somos todos belos, jovens, produtivos e divertidos, numa bela festa de volta ao Lar, com entes queridos, até com uma bisavó, a qual, apesar de não termos conhecido na Terra, cobre-nos de Amor lá do Plano Imaterial – é a maravilhosa afeição estelar, puramente espiritual. Vemos aqui também uma linha vertical mais clara e mais grossa, com num intervalo, num sino tocando para anunciar o recreio e o fim deste, como no consultório de Psiquiatria, com a sessão acabando disciplinadamente no momento do fim do tempo da consulta. É como um enorme prédio desafiando as Leis da Física, tentando ao máximo imitar os inimagináveis sonhos de Engenharia dos prédios metafísicos, estruturas não submetidas à implacável Lei da Gravidade, combinando fatores como luz, luxo e leveza, como numa Cinderela da Disney, repleta exclusivamente de coisas boas, encantando as crianças para ensinar a estas e linha divisória decisiva entre Bem e Mal, num trabalho de discernimento. O retângulo azul é como um livro, numa capa honesta, que não busca seduzir, no modo como não podemos julgar uma pessoa sem antes conhecê-la de fato, rechaçando assim fofocas e focando-se no que importa, que é o espírito. Este azul é como um céu de Lua Cheia, banhando jardins tropicais, com os enamorados se beijando à luz do luar, com os grilos cantando e uma brisa deliciosa passando pelos apaixonados. O trapézio azul é o espetáculo circense, que entretém, como numa jovem Dercy Gonçalves, resolvendo fugir de casa para se juntar a uma trupe de circo, neste espírito errante de mambembe, na beleza arrebatadora e comovente da Arte, esta forma de tocar as pessoas, de Ser Humano para Ser Humano.

 


Acima, sem título (4). O preto traz a base para cores. O preto é a discrição do luto, na cor dos misteriosos confins do Universo, com galáxias tão distantes que sua luz ainda não chegou na Terra, às nossas retinas. O preto é o termo “lista negra”, num rol de pessoas não bem vindas, na eterna capacidade humana em proporcionar inimizades e incômodos, como uma amiga minha, amiga de décadas, que me excluiu de seu Face só por causa de uma tola divergência sobre Política, na incapacidade humana em respeitar o próximo. Os triângulos aqui formam os tetos de indústrias, como em Caxias do Sul, a terra das indústrias, com um parque industrial arrojado, gerando empregos e renda. É a magia de produtos sendo feitos e distribuídos, na obsessão materialista humana, no fetiche do objeto, do palpável, com obsessão por pedras preciosas, esses belos sinais auspiciosos que perecem no momento da transição interdimensional, pois nunca ouvimos que, deste Mundo, nada se leva? Ou seja, o que se leva é o espiritual apenas. Vemos um grande círculo verde, como numa vista aérea de alguma floresta, num Mundo preocupado com as queimadas em solo brasileiro, numa floresta tão vasta e misteriosa, como na Terra Média de Tolkien, o mundo mágico cheio de bruxos e criaturas fantásticas, como na terrível e mágica Galadriel, com seu espelho, o arquétipo de Feminilidade, estranha, quase assustadora, maravilhosa, intimidadora. É o Sol de algum sistema exótico, estranho aos olhos humanos. É como um molho ao pesto, verde, aromático, na magia de deliciosas receitas. É um olho que observa o Mundo, sem construir expectativas em relação a este, pois quanto mais Tao tenho, menos espero, ou seja, mais Paz tenho. É uma esmeralda redonda, na diversidade de cores na Natureza, no fascínio de lustres de cristal, com suas luzes finas, mágicas, na promessa de um Mundo bem melhor, mais fino, mais polido, mais amoroso, na promessa cristã do Reino dos Céus, no conceito inédito de Amor e de Perdão, indo contra ao conceito do “Olho por olho, dente por dente”. É um buraco pelo qual podemos observar o interior de uma tumba egípcia, com o imensurável trabalho e esforço para se escavar a dura rocha e formar câmaras mortuárias no Vale do Reis e no Vale das Rainhas, nos rituais fúnebres humanos, sempre querendo saber o que é que vem depois da morte do corpo carnal, nas malfadadas tentativas humanas em burlar a Morte, pois o que Tao fez, o Homem não faz tão bem. Vemos uma porção de um azul discreto, marinho, nas entranhas aquáticas que geraram a Vida, numa evolução que culminou com os mamíferos. É o pescador que vai à lida diária, pescando seus frutos do Mar, no prazer de se comer um belo camarão crocante, neste hábito de tanto prazer, que é a Alimentação. Vemos aqui um grande triângulo que é formado por dois pequenos, como aliados, pessoas que se juntaram numa sociedade, como num casamento, o qual é uma sociedade – eu faço uma parte do labor, você faz a outra. Uma delgada e discreta linha branca divide estes dois triângulos, num vão estreito, disciplinado, num artista que nunca quer aparecer mais do que a própria obra, como num bom ator, o qual desaparece frente ao personagem, como na genial Meryl Streep, fazendo-nos esquecer de que é ela quem está ali, na tela, na sabedoria de Tao, o invisível, aquele que é feito puramente de Pensamento, na ilusão material de que podemos possuir algo, na ganância, como na caixaforte do Tio Patinhas, neste apego tão grande por riquezas mundanas, como no gigantesco tesouro de um dragão de Tolkien, nos abismos sociais brasileiros entre ricos condomínios e modestas favelas. Aqui são objetos estranhos uns aos outros, como no início de um ano letivo, no qual a criança tem que fazer novos amigos, entrosando-se, sentindo-se bem, entre amigos. O vermelho aqui é um rubro Sol poente, jorrando sangue nos Céus, nos primitivos rituais de sacrifício humano, numa Humanidade que busca evoluir e rechaçar a ignorância da barbárie.

 


Acima, sem título (5). A forma oval dá um realce ao quadro, como num professor caneteando com a cor vermelha, buscando chamar a atenção ao erro. O ovo é a Vida, o milagre da Vida, na celebração pascal, celebrando a ressurreição do espírito, no milagre do Desencarne, a tão esperada data de soltura, como num presidiário, contando os segundos para se ver livre. O quadro é riscado por delgadas linhas, elegantes, discretas e impecáveis no seu polimento, no caminho contrário do showman, do exibidinho, aquele que, no fundo, não é respeitado pelos outros, pois o homem de Tao é secretamente respeitado pelas pessoas, numa inteligência ímpar, acima da média, conquistando o respeito de intelectuais, como um grande professor universitário que tive, o inesquecível Tatata Pimentel, o qual só respeitada exceções na sala de aula, e quando um aluno assim falava na aula, o mestre dizia aos demais: “Calem a boca – a elite vai falar”. É um quadro aquoso, da cor do Mar, como num banheiro perfumado, na divertida canção de Rita Lee: “Que tal nós dois numa banheira de espuma?”. E então o banho ganha todo um poder simbólico, entrando em harmonia com a eterna limpeza e perfume dos espíritos felizes desencarnados, num plano onde sempre paira no ar um perfume tão fino, tão irresistível e delicioso, como um certo colega que tive, o qual amava andar sempre perfumado. O ovo é como uma Lua cheia, na cor prateada que banha os lobisomens, na canção: “A Lua me chama – eu tenho que ir para a Rua”. A Lua é o regente das marés, guiando doloroso sangramento do útero, no modo como as mulheres toleram mais dor que os homens toleram, fazendo do chamado sexo frágil o sexo forte de fato, na canção: “Sexo frágil não foge à luta”. Aqui é o pontinho azul como a Terra é vista de outros confins do sistema solar, esta esfera que tanto precisa ser cuidada para evitar um colapso ambiental, pois se a Terra ficar destruída, para onde vamos? No centro do quadro vemos a forma de um cachorro, este fiel companheiro que desde muito acompanha o Homem no Mundo, num animal que se tornou símbolo de fidelidade e amizade. Então, o lobo uiva para a Lua, assustando quem está sozinho na floresta à noite, como nos seres lupinos de Tolkien, com seus uivos cruéis, como num Drácula amando os uivos de lobos em seu cruel e horroroso castelo, fazendo metáfora com os psicopatas ardilosos, cruéis, manipuladores e vampiros, sugando almas, fazendo escravos, querem dar um nó homérico nas mentes de pessoas desavisadas ou ingênuas. Aqui é como um cachorrinho com fome, pegando com a boca o potinho vazio de ração para que o dono ali coloque o tão esperado pão do dia. Quase ao centro do quadro vemos um quadrado, como numa cidade planejada, com ruas que perfeitamente cortam de Norte a Sul e de Leste a Oeste, com quadras regulares, como em Manhattan, a cidade frenética que, em sua pequenez, abriga o a equivalente a dois Uruguais juntos – se você tiver a oportunidade (privilegiada) de ir a Nova York, vá aos museus desta, que são o topo da pirâmide cultural da vibrante urbe. O triângulo vermelho tem aqui os laços de sangue de família, os quais sobrevivem ao Desencarne, como nossas bisavós, as quais, apesar de não terem nos conhecido em pessoa na Terra, seguem nos abençoando do Céu, no amor imortal metafísico, no plano maravilhoso que nos espera com uma vida produtiva, numa carreira brilhante – produzir é tudo. O cão aqui tem patinhas elegantes, que tocam o mínimo possível no chão, na limpeza impecável de Tao, o imperceptível, como nos laços perfeitos tecidos pela Divina Providência, sempre fazendo com que nos deparemos com uma vida de crescimento e depuração moral, numa forma de governo que é tão poderosa que mal é percebida aqui da Terra, havendo no homem de Tao um autêntico representante de tal poder, num poder que respeita a Lei do Livre Arbítrio, como num psicoterapeuta, cuja função é mostrar portas, mas nunca forçar alguém a cruzá-las. Tao, o chic.

 


Acima, sem título (6). Uma altiva pirâmide se ergue rumo à depuração celestial. A pirâmide é a apolínea promessa de um mundo melhor, sem todas as inúmeras vicissitudes materiais, num plano em que a pessoa vê que, apesar de desencarnada, a Vida continua. Este quadro tem um centro do qual linhas divergem, numa discordância saudável e democrática, com vários caminhos distintos que levam ao mesmo destino, que é Tao, o que importa. Neste quadro temos uma sutil predominância do azul celestial, na amarga ironia do massacre que se fez na Praça da Paz Celestial, num evento que de pacífico nada teve, na capacidade dos sistemas ditatoriais em esmagar qualquer discordância, numa certa infantilidade, do tipo: “Eu gosto do Homem Aranha mas o Fulano não gosta, logo, o Fulano é inválido”. Este quadro tem este expressivo ponto central, como no centro de uma trama num romance ou num filme, no esqueleto da ação, preenchido como queijo e presunto num sanduíche, na questão de que, numa galeteria, o centro da ação é o galeto, cercado de luas, de atores coadjuvantes, como a polenta ou a massa. Este é um quadro elegante, rígido, como rígida disciplina, sem espaço para insinuações curvilíneas, como modelos rebolando na passarela, no andar da Garota de Ipanema, numa expressão de agradável liquidiscência feminina, como na bacia mágica de Galadriel, o espelho que mostrava coisas do passado, do presente e do futuro, como no espelho de Chitara, a única heroína dos desenhos inesquecíveis dos Thundercats. É como a jovem Ana Terra, interpretada por Pires, olhando-se no reflexo do rio, ou como num belo comercial de TV com Gisele numa tribo amazônica, com uma bacia sendo enchida de água da chuva, tudo para a estrela se enxergar no reflexo. É como o espelho de Rose sendo resgatado do Titanic afundado, no contraste entre a Rose jovem e idosa. Aqui é o apuro arquitetônico do Antigo Egito, com suas linhas simples e limpas, como nas futuristas linhas de Teotihuacán, a Cidade dos Deuses, alimentando a imaginação dos que creem na possibilidade da Humanidade ter dado uma guinada evolutiva a partir de uma forte influência colonizadora alienígena. A pirâmide é um símbolo de poder, numa ameaça – não chegue perto demais, pois, do contrário, machucar-te-ás, num belicoso Egito imperial, sempre querendo anexar novos territórios, na incessante fome humana por Poder, este ópio que faz com que a pessoa nunca esteja satisfeita com os seus próprios domínios. Este quadro tem uma certa textura, como num estilo provençal, com um charmoso desgaste, ou como na atual moda dos jeans rasgados e esfarrapados, pois é a absoluta contramão do Estilo achar que você só pode estar elegante e bonito se vestir roupas caras – Elegância vem de dentro. Aqui é como se o quadro tivesse sido lixado, como ao se preparar uma superfície para uma repintura. É uma textura de aspecto rochoso, remetendo novamente ao Antigo Egito, numa terra tão árida e inóspita, cuja prosperidade se deve exclusivamente ao Rio Nilo, esta veia sem a qual nenhum faraó teria se erguido altivamente como o faziam os faraós. Aqui é como um planejamento de um arquiteto, como nas linhas elegantes e brasileiras de Brasília, num estilo tão próprio, tão diferente das clássicas arquiteturas de Washington DC, nos EUA. Linhas elegantes trazem os tons de Mar e Céu, como nas casas brancas gregas à beira do Mar grego azul, na elegância aristocrática de disciplinadas listras azuis sobre tecido branco, nos mundanos sangues azuis, pois, a nível metafísico, a pessoa se dá conta, antes ou depois do Desencarne, de que somos todos de sangue nobre, fazendo das dinastias mundanas cópias grotescas da glória metafísica. Este quadro é um ponto dúbio entre luz e dia, na etapa do dia em que estamos numa espécie de penumbra, numa dúbia luz lunar, neste prato de prata que nos hipnotiza, como no majestoso quadro A Noite, de Pedro Américo – pesquise no Google Imagens, pois você não vai se arrepender de contemplar uma das maiores obras da Pintura Acadêmica Brasileira. Deslumbrante.

 

Referência bibliográfica:

 

Décio Vieira. Disponível em: <www.bolsadearte.com>. Acesso em: 18 out. 2020.

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