quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

É do Édouard

 

 

Volto a falar sobre o pintor francês Édouard Vuillard. Os textos e análises semióticas a seguir são inteiramente meus. Boa leitura!

 


Acima, Argila e gerânio numa mesa azul. A argila é o poder transformador das mãos de um artista, pegando algo e produzindo algo novo, num atelier produtivo, na prova de que artista não é vagabundo. As flores são a fertilidade da mente criadora, sempre elocubrando e imaginando. As flores são a delicadeza e a cautela, na função de sentinela de pés de roseira nos vinhedos, com uma flor sensível, sinalizando de antemão se alguma praga está se insinuando no vinhedo, como um leal cachorro, que defende um lar. A mesa é o artista debruçado no labor, com as costas arqueadas, calejadas, com as mãos curtidas pelo manuseio do barro, imitando Tao, que transformou barro em homem, sendo Tao este grande artesão, este trabalhador, mostrando-nos que a vida espiritual de desencarnado está longe de anjinhos dourados tocando harpas – a vida metafísica exige labor, sempre, numa carreira que nunca finda, pois qual seria o sentido de tudo se não houvesse a inimaginável dádiva da Eternidade? A janela dá para um jardim ensolarado, na dádiva que é encontrar Paz em nossos dias na Terra, numa rua tranquila, arborizada, com o elixir para os ouvidos que é o canto dos pássaros, numa sinfonia de Paz, trazendo-nos um contentamento enorme. A terra no vaso é as entranhas da Terra, com os vegetais nascendo, servindo de comida aos veganos, que servem de comida aos carnívoros, no sendo de humor que é a cadeia alimentar, com tudo se rendendo às bactérias, as quais reiniciam o ciclo da Vida, num ritmo aquoso de eterno recomeço. Aqui temos o divino silêncio da quietude, numa pessoa que descobriu que o segredo da Vida é encontrar Paz da forma mais fácil e simples possível. O livro aberto é uma pessoa receptiva, que vive de coração aberto para o Mundo, como me disse uma grande amiga psicóloga: “O Amor é o segredo da Vida”. É como no gesto de, ao recebermos o passe espiritual num centro espírita, termos que posicionar as palmas das mãos para cima, para receber a energia de luz e bondade que nossos entes queridos desencarnados nos enviam, no maravilhoso modo como, ao desencarnar, encontramos não só entes queridos que conhecemos na Terra, como também entes como bisavós, no divino modo como os vínculos de família sobrevivem ao Desencarne, pois, no frigir dos ovos, somos todos da mesma família, um fato que, infelizmente, é tão ignorado e subestimado na Terra, com as guerras de insanidade, ou seja, irmão derramando sangue de irmão – o Ser Humano tem MUITO a evoluir. Uma luz suave entra neste cômodo, nos ambientes intimistas de Vuillard, num momento de introspecção, como num momento de insight num consultório de Psicologia, no momento em que o silêncio reservado do consultório se torna um momento de debruçamento para si mesmo, com o terapeuta mostrando as portas que podem ser cruzadas, num guia espiritual. Vemos aqui várias obras, numa demanda, e numa ironia metalinguística – Arte falando de Arte. Então o atelier vai produzindo tal qual cabelo crescendo, ou capim, e as obras têm que ser destinadas, doadas ou vendidas, como uma amiga minha, uma artista plástica que me deu um quadro de uma figura de gueixa, o qual me apraz muito, na minha paixão pela Cultura Japonesa, na universalidade humana, na busca humana por um sentido nobre, que valha a pena, que justifique nossa vinda a este mundo duro que é a Terra. Vemos uma cesta vazia no chão, uma serventia, uma utilidade, esperando ansiosamente para servir, como num jogador de Futebol no banco de reservas, louco para pisar no gramado e jogar, rezando para que o técnico o chame, nesta força de vontade que faz com que a pessoa não tenha medo de lutar, pois a Vida não é luta? Vemos mais outras flores no quadro, na delicadeza feminina, no poder dos perfumes, do olor delicado, como narram que o médium Chico Xavier expelia um perfume espiritual irresistível, no modo como o Bem é agradável, lógico, no único caminho que Tao imaginou para nós, seus nobres filhos.

 


Acima, Atriz Yvonne Printemps em uma poltrona. A atriz está confortável, lânguida e relaxada, no modo como a Preguiça foi o que gerou as maiores invenções da Humanidade, como a Roda, o Telefone e o Elevador. Ela segura uma rosa, talvez um presente de um admirador, talvez cobrindo a atriz no final de uma peça, no modo como Fernanda Montenegro ganhou o título de Grande Dama do Teatro Brasileiro, na dura vida de ator, o qual, depois dos esfuziantes aplausos ao fim do espetáculo, vê o Teatro voltar a um silêncio denso, com a casa, antes cheia, ficando vazia, no eterno recomeço, como num ator que sabe a hora certa de agradecer e sair do palco, assim que os aplausos dão a sutil impressão de estar cessando, chegando ao fim, como Marília Pêra interpretando Maria Callas, numa metalinguagem – deusa falando de deusa: ao receber os aplausos, fique o mais imóvel possível, pois, assim, os aplausos duram mais tempo, como no monstro Bette Davis, que sabia a hora de sair de cena, no modo como, já ouvi de uma comediante, o Ego dos atores é monstruoso, mergulhando num mundinho fútil de bajulação, no qual o tratamento de estrela seduz a pessoa bajulada, com o diretor chegando de manhã cedo no set dizendo: “Como vai, minha estrela?”. Aqui a atriz olha para Vuillard desafiando-o, e parece que o olhar da diva fura o quadro, numa pessoa que mostrou ter o instinto para brilhar, um instinto que nenhum livro ou faculdade é capaz de ensinar. Seus olhos azuis são penetrantes, e fazem o Tempo parar. É o segredo da Fotogenia, num dom que faz com que pessoas horrorosas apareçam muito bem numa foto ou filmagem, ao contrário de pessoas pessoalmente belas, as quais não conseguem fotografar muito bem... A poltrona aqui tem a dignidade de um trono, e a atriz o ocupa como uma rainha, com o público aos seus pés, na fogueira de vaidades das celebridades, num mundo meio nojento, no qual tudo gira em torno do status, de eu ser quem eu sou no mercado de showbusiness, numa atriz bajulada, a qual realmente crê que pertence a um Olimpo maravilhoso, pairando sobre os reles mortais, como na genialidade de Woody Allen, o qual despreza o stablishment das celebridades. Temos aqui algo frequente em Vuillard, que são as flores e as estampas floreadas, e podemos aqui sentir o perfume da diva, como nas celebridades que lançam fragrâncias internacionais, num mercado concorrido, no qual todos e todas querem ser deuses intocáveis e adulados, tais quais rituais de sacrifícios a deuses pagãos. Ao fundo vemos uma luminária, que é a lucidez, o esclarecimento, uma pessoa que se encontrou muito bem no que faz, na dádiva que é encontrar prazer no labor, abraçando as duas faces do trabalho – a fácil e a difícil, ou seja, o liso feminino e o áspero masculino. As duas luminárias são como dois cães de guarda que guardam a estrela, como numa princesa que nasceu em meio a privilégios de corte, sendo cuidadosamente criada para ser desposada pura e casta, numa doce virgem casada com um príncipe de um reino vizinho, fazendo do Casamento uma ferramenta estatal de Diplomacia, como numa Maria Antonieta, destinada a ser rainha da França e a se tornar um útero reprodutor a serviço de uma linhagem de sangue azul – difícil imaginar vida mais enfadonha. A atriz aqui é uma mulher chique e sofisticada, com um precioso bracelete e um lindo anel coruscante, talvez num presente de um admirador, no modo como as celebridades mimadas gostam desse mundinho de bajulação e paparicação, numa corrupção ativa ou passiva – não sei qual das duas me dá mais ânsia de vômito. A atriz aqui faz um esforço mínimo, tendo que simplesmente ter a paciência para ficar horas ali posando, como na atriz Michelle Pfeiffer, a qual, num determinado filme, teve que ficar por seis horas seguidas numa cadeira de maquiador, pois quando se perde a Paciência, perde-se tudo, não? O ambiente aqui é luxuoso, talvez num camarim digno de estrela, de diva, no modo como o artista tem a áurea função de nos guiar, de algum modo, a Tao, a finalidade de tudo. Os cabelos encaracolados da atriz são rebeldes, no momento em que o artista se sente livre para se expressar.

 


Acima, Concerto matinal em Vintimille. É claro que podemos ouvir aqui o som do ensaio, com todo o esforço da Disciplina, como uma dançarina profissional que conheci, uma pessoa que, realmente, ensina os outros a ter toda essa Disciplina. Aqui é como uma Elis Regina ensaiando, a qual, ao ser atrapalhada num ensaio, disse bravamente: “Vocês não veem que eu estou ensaiando?”. Aqui é a dedicação, como num atleta, que exige o máximo do próprio corpo, talvez adquirindo algum problema de Saúde em meio a tal empenho e dedicação. Aqui, a cor cinza é da Discrição, num dúbio dia nublado, na dúvida encarnatória, como o Castelo de Grayskull, disputado pelas forças do Bem e do Mal, num limiar decisivo que se torna uma linha divisória clara, definindo vilões e mocinhos, como nos desenhos animados, educando as crianças para que estas tenham a noção de discernir o Bem do Mal, ou seja, a Virtude da Malícia, na icônica imagem de Nossa Senhora esmagando implacavelmente a Serpente da Malícia. Aqui é a produção de Cultura Erudita, a qual inicia nos bancos escolares e segue rígidos parâmetros, numa hierarquia vertical, como no Exército, com uma rígida estrutura hierárquica, obrigando o indivíduo a ter respeito pelos que estão acima, como num irmão mais velho, o qual acaba se tornando um cuidador dos mais novos. Realmente, Vuillard gosta de intimistas ambientes fechados, nos momentos de Insight num consultório de Psicoterapia, com o paciente abrindo todas as gavetas de sua mente ao terapeuta, num gesto de entrega e confiança, como já ouvi de duas pessoas diferentes: “Todos deveriam se submeter à Psicoterapia”, sendo como cuidar de uma ferida, banhando o ferimento com Mertiolate e trocando os curativos diariamente, no modo como a pessoa só pode ser feliz se, antes de mais nada, tiver autoestima, pois se não sou eu quem vai amar a mim mesmo, que outra pessoa amará? Aqui não podemos ver os rostos dos três músicos, com se eles estivessem tímidos perante o olhar de Vuillard, numa reserva, como vinhos reservados numa adega, envelhecendo vagarosamente, na virtude que é ter a paciência para esperar, só que sem criar expectativas, pois quem tem expectativas acaba se frustrando invariavelmente, como um senhor que conheci, que se frustrou na carreira de ator e acabou se tornando advogado – todos temos o direito de “dar uma sacudida na poeira” em nossas próprias vidas, pois como diz o jargão da chef Rita Lobo: “Você é livre, meu amor!”. Aqui vemos uma grande pintura sem moldura, numa carência, num abandono, como se estivesse recém concebida, esperando pela moldura, pelo respaldo, pelo apoio de aliados poderosos, respeitados. A falta de moldura é esta sensação de abandono, numa pessoa que está solitária e perdida, como num labirinto traiçoeiro, cheio de truques que confundem quem vaga por tais meandros traiçoeiros, na dádiva decisiva que é o autoencontro, o qual acontece sempre dentro de si, nunca fora, como na personagem Olenska, de Michelle Pfeiffer, personagem a qual acreditava que se mudar de cidade mudaria radicalmente sua vida – a Vida é dura em qualquer lugar, não? As partituras aqui são como um caminho existencial, o qual deve ser trilhado passo a passo, pacientemente, sem o desejo de pular etapas, pois, como eu já disse, na Vida não há controle remoto, e quando tenho todo um trajeto existencial a trilhar, não há Cristo que possa intervir. Aqui é o esforço e a dedicação, numa pessoa que descobriu que não se pode viver ao sabor do vento, sem os pés no chão, numa questão muito simples que um psicólogo me ensinou: O que é melhor – viver erraticamente ao sabor das aventuras ou ter os pés no chão, vivendo uma vida com responsabilidade? E, aqui, a cor cinza é este juízo, esta seriedade, numa pessoa que vê que não há Esperança para a pessoa que não produz – que Vida é esta? Aqui vemos quadros emoldurados, apadrinhados, abraçados, cuidados, dando inveja ao quadro sem moldura, no modo como admiração e raiva andam juntas, mesmo que a nível inconsciente, como imitar o cabelo de Gisele, numa mulher que quer “arrancar” de Gisele aquilo que a topmodel tem de tão extraordinário.

 


Acima, Lucie Belin. O véu cobre a modelo misteriosamente, com tantos mistérios que seguem desafiando a sede científica por Conhecimento. Vuillard tem essa pincelada tímida, oculta, nunca revelando por completo, como a Encarnação é isso, fazendo com que enxerguemos através de uma lente opaca, ocultando tantas coisas de nossa mente humana, como no agente Mulder de Arquivo X, com aquele olhar de cão curioso, ávido por desvendar os mistérios que cercam a Humanidade – há Vida, e inteligente, fora da Terra? É num jogo sensual de mostrar e ocultar. Lucie aqui come um petisco, talvez um croissant parisiense, na cena de Audrey Hepburn comendo um croissant vendo uma vitrine de sedutoras joias, pois, como dizia Monroe, os diamantes são os melhores amigos de uma garota. É o charme de Paris, esta cidade que, mesmo frente à pujança americana de Nova York, segue sendo o epicentro do Mundo Ocidental, com as galerias infindáveis do Louvre, um lugar indesvendável, misterioso mesmo se eu passasse minha vida inteira lá dentro. Lucie aqui é discreta, como se recusasse o olhar do retratista, no talento impressionista em revelar sugestivamente, sinuosamente, apelando para a Inteligência Emocional do espectador, como num pôster que vi certa vez, o qual, só depois de algum tempo, fui capaz de ver que se tratava de um retrato do Arco do Triunfo – olhe Paris aqui novamente! Lucie, de roupas escuras, pode estar de luto, num stress pós traumático, como o stress de um acidente de carro que sofri com minha família certa vez – é um baque, como receber uma notícia de falecimento. Lucie é cercada de rabiscos, talvez exercícios de depuração técnica, num artista que tem que se dedicar para, enfim, produzir Arte respeitável, à prova de críticas ferrenhas, impondo respeito perante os olhos do Mundo. O véu de Lucie é como o véu da diva decadente de Sunset Boulevard, na história triste da diva que se desligou dos estúdios hollywoodianos e que, com todas as suas forças, queria muito voltar à ativa, encarando um percalço enorme para tal, escondendo-se abaixo de um véu narcisista para disfarçar a própria loucura, vivendo num mundo à parte. Lucie aqui é muito elegante, num traje simples e impecável, num quadro predominantemente cinzento, na discrição de Vuillard. O véu é a reserva, o recato, numa pessoa como Meryl Streep, a qual, apesar de ser toda a estrela que é, opta por uma pacata vida reservada, pois a Vida é bom quando é simples, rechaçando as intempéries de Ego, da bajulação e do puxassaquismo. Lucie é delgada, sexy, ficando em pé som os próprios pés, numa mulher que, apesar de casada, continua tendo uma carreira, pois ser apenas dona de casa não vai dizer a essa dona quem esta é. Lucie está num belo perfil, como a Rainha da Inglaterra em moedas ou selos de correios, numa vida extremamente pública, desde quando Elizabeth sequer tinha saído da barriga da mãe, nos rituais humanos em torno de gênero, num claro preconceito patriarcal: menina tem que ser pura e casta; menino, o falo alfa. Lucie aqui está reservada num elegante chapéu, e pouco podemos ver seus cabelos, num confinamento autoimposto, como no estilo de vida retirado do genial Luis Fernando Verissimo, o qual, em entrevista, assinalou o divertido fato de que a pessoa tímida é uma Elke Maravilha, atraindo as atenções para si, numa divertida contradição. Uma das mãos de Lucie está coberta por uma luva, num retiro, num recato, num ocultamento, pouco revelando de si; a outra mão está nua, exposta, na contradição de que uma pessoa, no seu próprio trabalho, pode ser transgressora, mas, dentro de si, é extremamente careta. É o senso de humor de Tao, nos mostrando piadas as quais, se observadas de modo amplo e geral, acabam se revelando hilárias, como dizer que boogie é woogie  e que woogie é boogie – as dolorosas vicissitudes não deixam de ser engraçadas. E o véu segue neste trabalho de ocultamento e reserva, uma timidez, pois quanto mais misterioso algo é, mais tesão dará aos cientistas. É uma provocação, fazendo com que uma obra sofra inúmeras interpretações.

 


Acima, Lucy Hessel num sofá. Um lânguido e prazeroso momento de relaxamento, com o sorriso de prazer na modelo. É como na deliciosa sensação de liberdade na Experiência Extracorporal espírita, quando a pessoa, em relaxamento, tem a sensação do espírito estar se descolando do corpo momentaneamente, no conforto uterino, como mergulhar numa acolhedora piscina térmica. Parece aqui que uma piada foi recém contada, e que o senso de humor paira no ambiente, como no prazer de estar cercado de amigos, como nas colônias espirituais, onde só moram pessoa que lá merecem morar, ou seja, pessoas basicamente boas, antipsicopatas. O sofá aqui é como um divã de psiquiatra, convidando o paciente a relaxar e a abrir par ao terapeuta todas as gavetas da mente deste paciente, num momento agradável de intimidade com uma comadre, nos desabafos necessários, quando a pessoa fica aliviada ao compartilhar algum sentimento ou angústia, na missão do terapeuta em fazer que o paciente saia do consultório se sentindo bem e leve. Aqui é uma Cleópatra em seu divã, no dramático momento do suicídio, como num Getúlio Vargas, provas de que o Poder não traz necessariamente felicidade à pessoa poderosa, mas sim uma sobrecarga existencial, como uma pessoa que ganha na loto, passando a ficar cercada de amigos interesseiros, e não de amigos carinhosos, que amam o ganhador apesar da conta bancária deste. A mulher é bela e elegante, e seu sorriso é plácido, nunca exagerado. O sorriso é o contentamento, numa pessoa que decidiu estar feliz com o que tem, na contradição do consumista fazendo compras desnecessárias num shoppping – quanto mais adquiro, mais vazio vou me sentindo... As pernas de Lucy estão sensualmente dobradas, com a modelo se dobrando sobre si mesma, como encontrar uma posição confortável na cama, este móvel sedutor, que apela para o nosso Id, o impulso inconsciente de prazer, na dureza que é o momento do despertador tocando, com a Disciplina diária se impondo, avisando que é hora de sair dos sedutores braços de Morfeu. Aqui é uma prazerosa visita, num velho amigo, o qual não vejo há anos, no modo como os amigos íntimos resistem à passagem do Tempo, pois quando olhamos nos olhos deles, parece que foi ontem a última vez em que os vimos. É no delicioso reencontro com amigos no Plano Metafísico, como numa festa de retorno ao Lar, com os nossos avós e bisavós nos esperando, todos belos, jovens, vigorosos e produtivos, num Mundo que nos mostra que a Disciplina continua – não é irônico? Aqui é um momento de Harmonia e Concórdia, e Lucy concorda plenamente com nossas colocações, encontrando algo em comum com a visita, muito longe de uma visita incômoda, a qual nos dá vontade de colocar a vassoura atrás da porta! Lucy aqui nos ouve atentamente, e ficamos confortáveis em seu acolhedor sofá, numa sala de estar limpa e perfumada, que nos recebe de braços abertos, num talento de anfitrião, ou de um patriarca, inspirando a união e a integração, no modo como o homem de Tao tem a capacidade de unir as pessoas, nunca forçando, nunca sendo estúpido, nunca sendo opressor – o homem de Tao é naturalmente respeitado, pois não é um homem ambicioso, obcecado em anexar, por guerra, reinos vizinhos. O sofá aqui é de um tom terroso, na simplicidade da base, do chão, da referência, numa base sobre a qual a pessoa se sustenta, na magia biológica de sementinhas sendo plantadas e trazendo plantas, trazendo Vida, nas generosas entranhas da Mãe Terra, a mãe generosa, farta, como numa gorda e adorável nonna italiana, reunindo a família em torno da polenta. Aqui é um momento engraçado, muito engraçado, e a piada paira no ar como perfume, pois, apesar de ser muito séria, a Vida tem que nos trazer um pouco de ironia, graça e comédia, até que aprendamos a observar as inevitáveis contradições da Vida, fazendo que possamos enxergar o Mundo num plano geral e abrangente, na dádiva que é observar o Mundo com nitidez, sem lentes opacas de idealizações simplórias, como acreditar que minha vida mudará radicalmente se eu apenas me mudar de cidade.

 


Acima, Misia Natanson sentada numa poltrona. Vuillard adora esses momentos de languidez feminina, com suas musas sentadas e relaxadas. Misia está num trono, como um regente exausto com os problemas do próprio reino, no modo como a coroa pesa sobre a cabeça coroada, no modo como deve ser complicado ser uma pessoa tão pública. A poltrona aristocrática é a dignidade, numa posição social privilegiada, num móvel fino, um tanto pretensioso, indo contra as linhas modernistas simples e limpas, como na simplicidade do templo construído pela faraó feminista Hatshepsut, com rampas simples e limpas, talvez inspirando as rampas limpas da Brasília de Oscar Niemeyer, na prova de que menos é mais, e que os exageros acabam se revelando sujeira e desnecessidade, como água usada numa lavadora de roupas, indo ralo abaixo, desprezada após cumprir sua função. As pinceladas aqui são dúbias, e Misia parece estar deprimida, desmotivada, no modo como a pessoa deprimida sequer tem vontade de conversar, numa pessoa que está passando por uma excruciante decepção generalizada, decepcionada com a Vida num modo geral, numa pessoa cujas expectativas foram sendo fuziladas, uma a uma, pois quem não tem expectativas não se frustra, apesar do Ser Humano tem esta grande tendência em construir expectativas. Misia parece estar com uma coberta sobre as pernas, talvez numa pessoa doente, no meio de uma forte virose gripal, nas evoluções farmacêuticas, trazendo medicamentos nunca antes sonhados na História da Humanidade. A coberta é o resguardo, a reserva, os cuidados num hospital; a coberta é o aconchego do lar no “choque térmico” de um jovem que saiu de casa para morar sozinho para estudar em outra cidade, deparando-se com a falta dos cuidados maternais, os quais cercaram este jovem desde sempre; a coberta remete à minha falecida avó, a qual dizia: “O dia em que vocês me virem com um cobertor sobre as pernas é porque estarei extremamente velha!”. A cabeça de Misia pende de um lado para o outro, talvez num momento difícil, que está custando para passar, no modo como os eventos da Vida vão passando, fazendo com que a pessoa aprenda que é necessário ter Disciplina, nunca crendo que anjinhos dourados me tirarão milagrosamente de tal momento duro – tenho que ser dono de mim mesmo. Aqui, temos tons desmaiados e esmaecidos, tal qual a languidez da modelo, a qual mal tem vontade ou paciência para posar, e esconde um pouco o próprio rosto, num resguardo tímido e reservado, numa pessoa discreta, que sabe do fato de que a pessoa exibicionista nunca é secretamente respeitada por outrem. Misia é pálida e fraca, num momento de recuperação, com a Vida vagarosamente voltando, como numa pessoa que baixa numa instituição psiquiátrica, como num psicótico, tendo que ser contido antes que faça mal a outrem ou a si mesmo. Misia está cética, descrente, e nada do que dizem a ela é capaz de a reconfortar. A cadeira chic denota riqueza, privilégio social, num retrato que mostra que as riquezas mundanas não trazem felicidade ou preenchimento existencial, como uma senhora que conheço, uma pessoa extremamente apegada às riquezas mundanas, materialistas, no modo como a Matéria é uma ilusão, pois, ao Desencarne, “vão-se os anéis  ficam os dedos”. Os tons aqui são desmaiados e doentes, longe de um vermelho vibrante, com vontade de viver, como numa feiticeira que conheci certa vez, uma estonteante mulher de vestido vermelho, maravilhosa, na beleza da Juventude Eterna, como um jardim de vigorosa hera, forte, entranhando-se, com vontade de viver seus dias na Terra, ao contrário do desmotivado, que se prostra nas cordas do ringue da Vida – o Mundo é dos guerreiros, mas guerreiros do Bem, sem ambições mundanas. Misia aqui não quer posar, e está relutante, como se estivesse dizendo: “Chega. Cansei. Vá embora”, no modo como a Paciência é uma virtude.

 

Referência bibliográfica:

 

Édouard Vuillard. Disponível em: <www.en.wikipedia.org>. Acesso em: 18 nov. 2020.

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