Paulistana de 1953, Sônia Menna Barreto foi, em 2002, a primeira brasileira com trabalho a entrar para a Royal Collection, fundação da Família Real Britânica. Sônia acumula 71 participações, entre salões de Artes Plásticas e mostras individuais no Brasil, EUA, Argentina, Portugal e Rússia. Eu era piá, mas me lembro de uma mostra dela em Caxias do Sul nos anos 1990. Os textos e análises semióticas a seguir são inteiramente meus. Boa leitura!
Acima, A Torre de Babel. Temos aqui um pouco de Escher, apesar de Escher tão pouco trabalhar com cores. O balão nas alturas são os sonhos, num artista sonhando em ser compreendido e valorizado, ou como numa menininha caxiense, que quer ser, desde pequena, Rainha da Festa da Uva, para acenar para o povo num lindo carro alegórico. A torre aqui está sendo (re)construída, num paciente trabalho de formiguinha. Isto me remete àquele filme sobre a Bíblia, no qual a torre, por ira divina, foi destruída, na arrogância do Ser Humano em querer ser Deus. A Torre é a diversidade, com as inúmeras línguas que povoam a Terra, no prazer que é ter nascido e criado falando Português, este idioma lindo e complexo. O dia aqui é primaveril e agradável, digno de céus renascentistas, como nas temperaturas deliciosas metafísicas, nunca nos flagelando com frio ou calor, com dias agradáveis e noites amenas, num lugar sem os impiedosos ritmos das estações, no prazer das estações indo e vindo, como as azuis hortênsias todo fim de ano – que pena que não é o ano todo. O balão é o esforço, o avanço científico e tecnológico, numa Humanidade urgentemente ávida por uma vacina contra a Covid, nas brilhantes mentes científicas, nossas elites, nossos irmãos de descomunal inteligência, inspirando-nos a crescer e a atingir altos graus de depuração espiritual e moral, pois a estagnação é o caminho ilógico, visto que Tao está sempre criando, com suas teias perfeitas, deixando perplexos até o espírito mais elevado, como num fã, que espera avidamente pelo novo álbum de seu cantor preferido – o agora, o hoje, é o melhor momento sempre, pois traz o máximo de depuração que um espírito pode produzir. Aqui vemos mares e lagos majestosos, com os navios, que são o ímpeto exploratório, na sede humana incessante por Conhecimento, sempre querendo desvendar os indesvendáveis segredos do Cosmos, como no ímpeto das Navegações, deparando-se com as selvagens terras americanas, num choque de civilizações, resultando em massacres, como a eterna vocação do Ser Humano para a discórdia sangrenta, com caprichos de crueldade, como queimar uma pessoa vida – irmão não faz isso com irmão. A torre aqui, com suas subtorres, ergue-se altiva e ambiciosa, como no desenvolvimento imobiliário de Balneário Camboriú, como torres gêmeas de oitenta andares cada, deixando o Homem perplexo com seu próprio desenvolvimento, na competição fálica para ver de quem é o mais alto prédio do Mundo, numa competição de guris apostando corrida, nas comoções que geram os grandes jogos, as grandes lutas e as grandes competições, num espírito competitivo, pois, no frigir dos ovos, artista acaba competindo com artista, mas com todo o cavalheirismo, na elegância no fio do bigode. Vales verdes e férteis se estendem, como nas cheias do Nilo, fertilizando a terra e abastecendo todos os quilômetros de extensão do Antigo Egito. Um homem pequenino assina a obra, num alterego, como se Sônia estivesse sendo representada por alguém, como um artista é representado por seu empresário ou um curador. Podemos sentir aqui uma brisa com o delicioso cheiro de Mar, a grande mãe que, num dado dia, nos chama para o regresso ao Lar, às terras metafísicas de Paz e Irmandade. E os navios se perdem no fundo do Mar, como num menininho que, antes de se tornar cientista, passava horas contemplando as estrelas no Céu noturno. Cascatas límpidas cortam a torre, como no lindo lugar Valfenda, de Tolkien, onde moram os belos e mágicos elfos. Apesar de estar claramente inacabada, a torre é bela, com seus arcos clássicos, ventilados, numa sala de estar ao ar livre, recebendo convidados, queridos amigos os quais jamais saem de nossa mente.
Acima, A Última Parada. O trem é o progresso. A fumaça é o terrível hábito tabagista, remetendo a uma época em que fumar era sinônimo de saúde, elegância, charme e sensualidade. O trem é o ímpeto, numa pessoa com a coragem de desafiar o Mundo, jamais deixando que este dite a esta pessoa como esta deve viver, ou seja, mostrar o dedo do meio. A lâmpada é o esclarecimento, numa pessoa focada, num cientista debruçado pro seu escopo, desejando se tornar um expert no assunto, como num aluno fazendo uma conclusão de curso universitário, no esforço científico de relacionar tudo com o escopo, como numa composição cromática, na qual predomina um determinado tom ou cor. O trem corta o túnel vaginal, e o espírito cumpre seu trajeto e desencarna, voltando ao Imaculado Útero de Nossa Senhora, no escândalo que foi a atitude protestante de desprezar a Virgem Maria, sendo esta um dos pilares de todos os ramos cristãos, numa metáfora que busca fazer com que o Ser Humano entenda a glória da libertação metafísica, numa encarnação que vai mostrando à pessoa o valor da Disciplina. Os livros são a erudição, como num filme que vi certa vez, no qual o Ser Humano retrocede e passa a ignorar todo o Conhecimento adquiro pela Humanidade. O trem aqui é o êxito, sendo encontrada uma saída para uma situação complicada, como numa pessoa que superou os terríveis meandros da Depressão, esta doença perniciosa que destrói a autoestima da pessoa depressiva, e a autoestima é tão importante. O trem é o sucesso, com frutos doces que podem não ser eternos, no modo como as páginas, doces ou amargas, têm que ser viradas sempre – o Insucesso é irmão do Sucesso... Este gabinete é o momento de estudo e dedicação, como num Tolkien, cujo hobby se tornou um monstro da Literatura da Língua Inglesa. É claro que podemos ouvir aqui o impetuoso e sonoro apito do trem, anunciando sua chegada, na sua dignidade levar e trazer pessoas, nas demandas eternamente crescentes das grandes urbes, cidades vibrantes em constante processo de crescimento, nas noções civilizatórias trazidas, dizem os ufólogos, por alienígenas no passado da Humanidade, neste “empurrãozinho” civilizatório. Na porção superior do quadro, vemos que se trata de um cartaz rusticamente colado, com imperfeições que nos dizem que a Vida é assim mesmo, imperfeita, como na cozinheira inglesa Nigella, uma pessoa sem obsessões ou pretensões perfeccionistas. Este cartaz aqui ameaça cair e parece estar colado a muito tempo, num descuido. É como num painel de outdoor, com um anúncio sendo colado em cima do outro, como na incessante cascata de informações no Facebook, um site no qual não podemos ter uma atitude preciosista, pois o Face é esta infindável cascata, com informação sendo soterrada por mais informação – é frenético. A biblioteca é o silêncio, no momento de concentração, na sabedoria que é encontrar Paz dentro de casa, numa pessoa discreta e reservada, conquistando o respeito de outrem, pois como posso ser respeitado se sou um exibicionista sem conteúdo? O carro inicial do trem, com a chaminé, é a força motriz, trazendo todo o resto engatado, numa pessoa que conseguiu organizar a própria vida, hierarquizando seus sentimentos, como numa mandala, girando em torno do mesmo centro. O carro inicial é o Amor, pois, depois deste, vêm valores como Liberdade, Inteligência, Humildade e todas as outras coisas boas da Vida, como uma pessoa humilde, a qual, apesar de brilhar frente ao Mundo, opta por uma vida pacata, na simplicidade de ir à cozinha para preparar um chá, pois a Vida é boa quando simples, longe das tempestades de Ego e Vaidade, esta narcisismo que faz com que a pessoa se exponha ao perigo, pois a Arrogância precede a queda. Este trem vem de terras belas, com elegantes pinheiros, no prazer de se viajar pela Rota do Sul, na Serra Gaúcha, e ver tantas matas virgens de araucária, este pinheiro altivo que se ergue retilíneo e elegante.
Acima, Back to Holland. O chão em xadrez é a ludicidade, o espírito brincalhão, na jovialidade que jamais devemos abandonar. É um jogo que exige de nossa inteligência. O quadro aqui está todo embrulhado, talvez uma encomenda para ser entregue, como numa pessoa rica que encomenda um quadro, como num Andy Warhol, que passou a receber inúmeras encomendas, no namoro da Arte com o Dinheiro, numa Nova York que, apesar de tão rica em termos de Arte, é a pura ambição financeira do Tio Sam. A Arte nos mostra como o Ser Humano é universal, não? No canto esquerdo inferior vemos um plástico bolha, no prazer violador de estourar as bolhas, como um leão faminto fincando as presas num antílope desavisado, virando almoço. É o prazer transgressor, num artista que se sente preso e que quer se libertar o quanto antes, no modo como as ditaduras aprisionam o artista em nome de ideologias obcecadas em Poder. Aqui as cordas contêm o quadro, e são como ardilosas teias de aranha. Vemos aqui senhores numa divertida conversa regada a vinho, com suas golas elizabetanas, no modo como o boom renascentista inspira artistas até hoje, na universalidade imortal de Shakespeare. É um clube exclusivo, onde só entra quem tiver grana para a mensalidade, como numa boate esnobe, numa celebração óbvia e tediosa de Poder representado pelos pretensiosos frequentadores. Ao fundo um balão se eleva, em ambições sonhadas, pois qual o artista que não quer obter sucesso? Vemos aqui uma bela piazza italiana com seus prédios delicados, nas cores do Carnaval Veneziano, nas fantasias que acabaram por influenciar amplamente o Carnaval Brasileiro. As pessoas passeiam no momento de interação social, talvez depois de uma missa numa cidade pequena, no momento de flerte em que pretendentes são ambicionados. O céu aqui está meio aberto, meio nublado, com duas faces – uma divertida e uma séria. O cinza é essa sisudez discreta, e vemos uma poltrona, um pufe e uma luminária, no momento de curtir o lar e ler um livro, num estilo de vida reservado, longe das loucuras de massagens de Ego, massagens que, no Nível Metafísico, dissipam-se, pois se tenho certeza de que sou especial, por que meu Ego tem que ser massageado? Vemos um garçom careca carregando uma bandeja com vinho – a calvície é a carência financeira, num senhor pobre que tem que trabalhar nas casas dos senhores ricos, como nos moldes de estratificação social baiano, respirando ares coloniais – ou é branco rico ou é preto pobre. Aqui o vinho deixa-nos corados e alegres, num etilismo que saboreia cada gole, ao contrário do alcoólatra, que somente quer injetar álcool no próprio organismo. Este quadro é como um presente violentamente aberto e violado, no prazer de um ato de destruição, como comer uma comida, pois a Culinária é uma arte feita para ser destruída. No extremo direito superior, vemos um selo, e o quadro parece ter sido enviado pelo correio. O selo é emblemático, icônico, como numa Elizabeth II nos selos britânicos. O selo é a garantia e a autenticidade, com um carimbo confirmativo, atestando a autenticidade do envio, na credibilidade dos Correios no Brasil. Aqui vemos uma violação, um estupro, na Arte sendo devorada pelos olhos do espectador. Ao lado da poltrona, vemos um quadro com cabeças saindo dele – é a abundância; é a Arte se libertando da moldura e entrando na mente do espectador; é a força da Vida, sempre prosperando, sempre crescendo, no trabalho periódico de cortar as unhas ou de tirar o pó de uma casa, num cuidado que nunca cessa. Esta confortável a acolhedora poltrona é o prazer de estar pacatamente em casa, longe da fogueira de vaidades do Mundo lá fora. A poltrona é banhada pela luz do Sol, numa casa arejada e iluminada, num momento plácido em que tudo o que temos que fazer é ouvir os pássaros e o farfalhar das folhas nos galhos de árvore. Aqui temos uma violação que traz uma revelação, como num Gisele sendo revelada para o Mundo inteiro, ou numa Diana, que amava aparecer nos televisores do globo inteiro.
Acima, Bêbada. A vitrine é a exposição, como num escândalo provocado por uma pessoa rebelde e transgressora, com a coragem para lidar com a exposição decorrente da transgressão. Os vidros aqui são tortuosos, e distorcem a realidade, como numa pessoa confusa, perdida, com dificuldade em observar o Mundo do jeito que este é. É como a teoria astronômica da Matéria Escura, que seria uma “cola” invisível que mantém o Cosmos unido, fazendo metáfora com Tao, o invisível, o discreto, o humilde, sempre subestimado em sua forma reservada de agir, nunca com as ambições de Ego em querer ser o suprassumo do Mundo. Aqui é um cenário meio desolado e solitário, e vemos um homem solitário de bicicleta, talvez um carteiro fazendo entregas, num trabalho solitário, na terrível sensação de se sentir tão abandonado, tão ignorado, na capacidade do Submundo em fazer com que a pessoa se sinta tão deslocada e tão longe de encontrar um sinal verdadeiro e não meramente auspicioso. Aqui são como os relógios derretidos de Dalí, como num dia tórrido carioca, digno de amolecer o asfalto, como numa crônica de Luis Fernando Verissimo, na qual a Rio derretia ao ponto de derreter os fios da fiação elétrica! A rolha aqui está empenhada em evitar desperdícios, buscando vedar ao máximo a garrafa. Essa garrafa é como um artigo de elaborado artesanato, fugindo do clichê industrial perfeccionista. É aquosa, fluindo sempre, num rio vivo, sempre fluindo a alimentando vales, carregando peixes, Vida, na capacidade em Tao ser uma cachorra amamentando a ninhada, num trabalho de dedicação instintiva, numa mãe que se sacrifica para dar o melhor aos filhos, talvez uma mãe que, numa encarnação anterior, tenha levado um estilo de vida egoísta, buscando na nova chance, na nova encarnação, ser alguém mais dedicado às necessidades do Mundo. A garrafa se contorce sensualmente, como uma gata no auge do cio, enlouquecida, enrolando-se no chão, como no boom de hormônios da Adolescência, na época em que a pessoa se vê “escrava” de sua própria sede por Sexo, como ouvi numa palestra de Marta Suplicy: “A Adolescência é uma época em que se masturbar dez vezes por dia é perfeitamente normal!”, impactando e arrebatando a plateia de adolescentes, numa Marta imponente, muito longe de ser simplória. Aqui a rua está quase deserta, no cenário de desolação do filmão Vanilla Sky, numa pessoa que simplesmente está sozinha no Mundo, numa Nova York apocalíptica, desolada, deserta, árida, sem consolo algum – é o Umbral, o lar daqueles que não aceitam o seu próprio Desencarne. O vidro tortuoso aqui traz uma pitada de irreverência à sisudez do Mundo, como retilíneos azulejos distorcidos pela água na piscina, nas delícias de Verão com os amigos em torno de uma piscina ou orla. Aqui, a toalha sob a garrafa “barroca”, por assim dizer, está casual, desarrumada, como numa mulher de jeans e camiseta num salão de beleza. É como na esmagadora moda jovem dos anos 80, uma época em que a Juventude, de algum misterioso meio de propagação de Cultura Popular, encontrou uma força jovial, colorida e irreverente de ser jovem, como já ouvi: “Precisamos ver mais Juventude no tapete vermelho”. Num minúsculo detalhe, vemos um insetinho aderido ao vidro da vitrine, solitário, perdido dos seus, desamparado, numa artista catarseando um sentimento de solidão. O título Bêbada é porque as distorções vítreas trazem o efeito de embriaguez, como numa pessoa irresponsável que vai dirigir embriagada, trazendo perigo aos outros condutores, no modo como a Vida é algo tão sério, tão sisudo, que exige tanto desenvolvimento de discernimento e responsabilidade adulta. O Álcool vai desorientando, e certa vez um homem na Rua, visivelmente embriagado, pediu-me dinheiro para comprar pinga... Aqui é como uma pessoa que vai adormecendo, entregando-se à aquosidade de Morfeu, como num barco que vai fluindo lentamente, como nos braços de ninar de uma zelosa mãe. Aqui a água parece estar viva, pulsante, numa fonte inesgotável. É como uma água viva no Mar, defendendo-se com seus membros cáusticos, num ato de autoproteção que faz com que a espécie siga firme no processo intermitente de Seleção Natural.
Acima, Canaletto. A prateleira é a organização, numa pessoa que chegou à conclusão de que Disciplina é altamente necessária, sendo esta a única coisa que pode organizar a vida de qualquer pessoa. Um pequeno folião do Carnaval de Veneza se balança numa corda, num cipó, como o pêndulo de relógio, marcando o e Tempo, com horários disciplinados na rotina de alguém, na inevitável passagem de Tempo, no modo como os corpos carnais de cada um de nós possui prazo de validade – nada mais natural do que morrer. Vemos uma elegante e imponente coluna clássica, nos primórdios do Pensamento Ocidental, na aquosidade de ideias que une o Ser Humano em universalidade, como as ideias taoistas são atemporais e universais, podendo ser aplicadas até em tempos de Tecnologia Digital. A coluna é a força, o sustentáculo, como numa Scarlet O’hara, que teve que angariar forças do fundo d’alma, contornando as nefastas consequências da Guerra, sendo estas agentes de disseminação de Fome e Destruição – a Guerra é fraca; só há força na Harmonia. Aqui temos uma ilusão de ótica tipo Escher, pois um quadro pequeno acaba se revelando a paisagem atrás, na brincadeira entre os limites espaciais, pregando divertidas peças nos olhos do espectador. A vela é a vida frágil, tentando persistir num mundo tão duro e insensível, um mundo que pouco se importa se estou feliz ou deixo de estar, sendo assim, portanto, necessário mostrar o dedo do meio a este mesmo mundo. A vela é a fé religiosa, num desafio de se acreditar que paira acima de nós uma dimensão melhor e mais perfeita, fazendo da Terra uma escola na qual tanto aprendemos e da qual “escaparemos” cedo ou tarde. Na base da obra vemos uma chavezinha dependurada – é o segredo, a meta, numa pessoa que se encontrou neste sentido, “abrindo a porta” e passando a observar o Mundo sem filtros ou idealizações, num realismo, visto que não é o Mundo o que muda, mas o modo de eu observar e lidar com este. A gaveta aqui está aberta, numa pessoa de coração aberto ao Mundo. É uma revelação, um tesouro sendo descoberto, como no túmulo do rei Tut, deslumbrando o Mundo com a riqueza cultural do Antigo Egito, fazendo das civilizações uma prova irrefutável da evolução humana, num Ser Humano que olha para o Céu e quer saber o porquê disso tudo. Vemos quedas d’água, que são a consequência, aquilo que vem naturalmente, como num esforço sendo reconhecido por alguma honraria ou prêmio, como num Oscar, que pode ser uma bênção ou uma maldição, no modo como o sucesso e o insucesso são ambos complicados, como numa Whitney Houston, uma voz devastada pelas drogas. Vemos aqui uma cena veneziana, como numa Madonna vestida de noiva pós moderna numa gôndola do clipe de Like a Virgin, numa ironia, numa estrela sendo “desvirginada” pela atenção do público. Podemos ouvir o tradicional canto dos remadores das gôndolas, encantando turistas em meio a todo o charme italiano, este país herdeiro da majestade dos césares. Aqui a gaveta fica inundada pela água que cai, como na crença dos antigos navegadores, sem a noção da Terra ser redonda, crendo haver abismos imensos no fim dos confins marítimos. Neste lago da gaveta, uma gôndola é guiada, nas tradições que encantam o turista, como nas luzes sedutoras no Natal Luz de Gramado. Aqui a paisagem veneziana se estende ao fundo, numa cidade vasta e rica, charmosa, num Sol majestoso ao fundo, no poder de Áton, o disco solar herege que escandalizou o Egito numa reforma religiosa de um faraó tido como insano. O dia aqui se encerra majestoso, na hora de desafrouxar as gravatas e tomar um trago. O céu é de um azul promissor, no céu deslumbrante das Colônias Espirituais, essas cidades limpas e bem administradas, muito longe da patética dança de egos na Terra, como celebridades que tranquilamente aceitam toda a bajulação e a massagem de Ego, ao contrário de um Woody Allen, que despreza as vaidades das celebridades. Os livros aqui são acúmulo de conhecimento, na música de Djavan: “Um dia frio; um bom lugar para ler um livro”.
Acima, Carta de Sully. A leve pena remete a um anúncio que vi certa vez do filmão Os Pássaros, com uma simples pena e o nome do filme estampado sobre a pena, num anúncio leve e formidável, com sugestão sutil, nunca óbvia. A pena é o vestígio da passagem de um pássaro. Vemos aqui no quadro vários pássaros, tanto voando quando nadando, e os pássaros voando são originados pelas gotas de tinta da pena, utilizada para escrever à moda antiga, num traço que, mais uma vez, mostra a influência de Escher sobre Sônia Menna Barreto, num desejo de libertação. A pena é o poder da Escrita, da Civilização, dos registros de fatos históricos que geram a trajetória de um povo, na icônica Pedra da Roseta, que possibilitou traduzir os hieróglifos dos faraós, no poder da Escrita, esta forma de expressão que gerou a Intelectualidade, a Cultura Erudita, a qual inicia nos bancos escolares, na formação de nossas elites, como alunos excepcionais, que conquistaram o respeito de um professor exigente como o saudoso Tatata Pimentel, da PUCRS. Aqui, fotos de cartão postal remetendo a algum lugar belo, digno de receber turistas. Os cisnes fluem de um cartão para o outro, como num apolíneo balé, com os impecáveis pés ultradisciplinados das bailarinas, nas ambições de se tornar a primma ballerina. Aqui vemos um castelo digno de contos de fadas. O castelo é a fortificação, a defesa, a resistência a intempéries, numa pessoa que foi se tornando forte a partir de duros episódios de vicissitudes existenciais, no termo: “Sou como bolo – quanto mais me batem, mais cresço”. O castelo me remete ao consultório de minha odontopediatra, num quadro de quebracabeça montado pelo filho da doutora, formando uma imagem de algum castelo europeu – é o trabalho de paciência, de seguir um caminho lógico e juntar as peças para, assim, desvendar um mistério de Agatha Christie. Os cisnes aqui são a placidez e a estabilidade, num silêncio tão plácido, numa pessoa que amadureceu ao ponto de desejar nada além do que Paz, pois como posso ser feliz se luto contra o Mundo e contra mim mesmo? As torres aqui são agressivas e abrasivas, como pontas de pirâmides, como no formato de injeção de um Empire State Building, dando recados subjetivos e ainda assim, claros: Não se meta com esse cara... Aqui a água é plácida, como um espelho, no símbolo da Feminilidade, como no espelho da Galadriel de Tolkien, num personagem supremo e arrebatador, sábio, terrível e belo, tornando-se símbolo da Mulher, num feminismo, pois Galadriel é o ser mais depurado da Terra Média de Tolkien. Aqui são fotos de alguma lembrança, nas facilidades digitais de se conversar tranquilamente, em tempo real, com alguém que está na Alemanha, no frenético galgar das Tecnologias – até onde vai o Ser Humano? Vemos um selo de um místico unicórnio, com seu corno fálico, cortante, penetrante, num símbolo do Império Britânico, fazendo da tradição esta magia, com tradições que nos mostram que a passagem do Tempo é uma ilusão, com televisores do Mundo inteiro acompanhando a coroação de um monarca britânico, num ato que busca nos expressar a riqueza (não mundana) do Plano Metafísico, o lugar onde todos sabemos que somos estrelas. O fundo aqui é um discreto marrom amadeirado, no perfume de lustramóveis pairando no ar, na delícia de se entrar num cômodo limpo e perfumado, como acordar numa cama com lençóis suavemente perfumados. Esta carta é libertadora, com pássaros voando para onde bem entendem, na Lei do Livre Arbítrio, na dádiva de países que deixam o próprio cidadão livre para ser o que este quiser ser. Aqui o castelo é esta maravilhosa morada, mas nunca com tesouros físicos em seus sofres, na charada metafísica – ser rico e pobre ao mesmo tempo! Aqui ouvimos o relaxante som da plácida água, discreta, como se massageasse nossos ouvidos. A carta fala de um lugar maravilhoso, numa pessoa que não mais está de corpo presente na Terra. Na porção inferior do quadro, a água vasa e invade o espectador, num maremoto do Bem, com ideias e conceitos civilizatórios sendo disseminados, numa vida rica e abundante.
Referência bibliográfica:
Sônia Menna Barreto. Disponível em: <www.galeriandre.com.br>. Acesso em: 29 nov. 2020.






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