Falo pela quarta e última vez sobre o pintor italiano Annibale Carracci. Os textos e análises semióticas a seguir são inteiramente meus. Boa leitura!
Acima, Assunção da Virgem. A Virgem olha para cima, atenta somente ao metafísico, rejeitando todo o mundanismo material, cercada de querubins, que são a fertilidade, como antigas deusas pagãs de fertilidade, no agricultor orando para sua lavoura ser farta, remetendo a uma certa imagem da Virgem, cercada de anjinhos, com estes competindo para obter a atenção da Virgem, como uma pessoa carente, solitária, derretendo-se por completo por alguém que lhe dê o mínimo de atenção, num semblante triste, carente, naquelas pessoas que, por mais que sorriam, têm os olhos tristes, na inevitabilidade do caminho solitário, na descrição de Deus no filme Dogma: Solitário, porém engraçado, no talento de um bom palhaço, fazendo do humor algo tão humano, na capacidade da pessoa de rir de suas próprias dores, as quais são inevitáveis, sendo importante que não soframos por tais dores. Aqui é como uma cena de consagração, como num artista recebendo um cobiçadíssimo Oscar, na obsessão por sucesso mundano, como a atriz Hale Berry, oscarizada, tendo a coragem de receber a infame Framboesa de Ouro por seu papel como a Mulhergato, na prova de que ninguém está por cima o tempo todo, fazendo de Hollywood a terra dos sonhos despedaçados, como um certo senhor, o qual provavelmente sonhou com uma carreira em Hollywood, frustrando-se, no modo como o insucesso pode ser depressor e desorientador, com a pessoa frustrada sem forças para virar a página e tocar a Vida para frente, como uma pessoa andando em círculos por um submundo, nos belos versos de uma canção de Bowie: “Perdido e solitário – isto é o submundo!”. Os homens aqui entram em júbilo comovente pela assunção da Virgem, num momento excepcional, no qual o rígido patriarcado se rende ao feminino, como na Vênus de Botticelli desperta, ao lado do Marte em sono profundo, na vitória da Paz, no discernimento simples: grosso é fraco; fino é forte, mas num Ser Humano para sempre se equivocando, achando válida a imposição pela força, nos meios das ditaduras, oprimindo e aterrorizando o pacato cidadão, como no episódio recente da Venezuela, num atentado contra a liberdade democrática de um povo, no apego humano ao poder, sempre o poder, no Anel maldito de Tolkien sendo obsessão dos homens que querem poder acima de tudo, ao contrário da hierarquia espiritual, irresistível, com os espíritos mais amorosos governando os menos, no modo como tudo se resume a Amor desapegado, leve, eterno, pois, se minto e quero enganar, é porque não amo, havendo no apuro moral a pessoa que odeia mentir, remetendo a um certo senhor, o qual mentiu e me enganou, faltando com apuro moral, um senhor que acabou se autodeletando de minha Vida, o que não deixa de ser engraçado. Aqui é o glorioso Desencarne, no dia de libertação, como no último dia de aula no colégio, abraçando o recreio de Verão, em doces férias, num refúgio da juventude, na recompensa para quem passou por todo um processo durante o ano, em folgas tão merecidas, como no espírito que desencarna, o qual repousa lá em cima para, inevitavelmente depois, procurar algum trabalho para fazer, num lugar divino, no qual não há desemprego, na seriedade da Vida e do trabalho, pois até Tao está sempre operante e criando, deslumbrando-nos com tal perfeição em suas concepções, como num ardoroso fãclube esperando pelo próximo passo na carreira de um artista, em artistas que sabem que, se pararem de produzir e de batalhar, sumirão. A Virgem veste roupas majestosas, finas e vaporosas, mais finas do que qualquer tecido sobre a face da Terra, em vestes de rainha, distantes das vestes humildes de uma anônima esposa de carpinteiro, no desencarne tranquilo de uma pessoa pobre, deixando para trás as vicissitudes materiais e abraçando a plenitude de metafísico, na máxima cristã: Os últimos serão os primeiros, como numa certa igreja do Brasil Colonial, como uma parte para os ricos, cheia de arabescos, frufrus e desnecessidades, e a parte para os escravos, limpa, clean, elegante, impecável, na noção de da Vinci: A simplicidade é o mais elevado grau de sofisticação, na impecabilidade do homem de Tao, tomando ação só quando é necessário, como uma Elizabeth II voltando atrás em sua opinião sobre a morte da famosíssima nora.
Acima, Casamento místico de Santa Catarina. Aqui temos um contraste social, com a mulher rica, adornada por vestes nobres e uma coroa de pedras preciosas, ao lado da mulher pobre, que é a santa. A coroa é o poder mundano, na dignidade de realeza, como uma certa moça que tinha um grande potencial de se tornar uma figura na qual o povo poderia depositar suas esperanças, mas infelizmente uma moça a qual, apesar de ter sangue azul de fato, não se revelou dona de um grande carisma, como uma certa competente modelo, a qual revelou ter carisma aquém do carisma esmagador de uma Gisele – a Vida é assim mesmo. O anjo é a figura da guarda, na noção espírita de que cada um de nós é sempre acompanhado por um anjo amiguinho, o qual quer nos ver sempre no bom caminho, num caminho de Amor eterno, em vínculos de afeto que sobrevivem à Eternidade, na imortalidade dos laços de Amor Metafísico, um Amor desapegado, leve, como dar um singelo oi para alguém na Rua, ao contrário do amor fixado, doente e obsessivo, em espíritos obsessores, sugando-nos, perturbando-nos, num encosto, como me disse certa vez uma inesquecível médium espírita, como no filme E a Vida continua, num rapaz obcecado por uma moça, na contramão do Amor leve e fraternal, na noção de que somos todos iguais perante Tao, mas um Tao que criou cada um de nós com profunda distinção – somos únicos, eternamente especiais, príncipes filhos do mesmo Rei Supremo, fazendo das realezas mundanas tais cópias de tal plenitude metafísica. A criancinha nua é tal inocência, como em fontes com menininhos fazendo xixi, numa nudez tão inocente, no início no Éden, com a nudez colocada como algo natural, como em inocentes praias de nudismo, na conexão do corpo com a Natureza, na delícia de se nadar nu no Mar, na nudez inocente uterina, numa profunda sensação de paz e bem estar, prazer, na simplicidade da nudez, como na revista Playboy brasileira, num nu de tão bom gosto, numa revista apreciada até por homens homossexuais, tal o bom gosto, em edições emblemáticas como o debut de Galisteu, ou a de Vera Fischer em Paris. A Virgem usa um adorno na cabeça, num recato, em vestes tão discretas e dignas de respeito, na busca de uma pessoa por respeito – existe algo melhor do que estar na moda, pois modas vêm e vão, como os quinze minutos de fama do Big Brother, e este algo é respeito, o qual é perene, resistindo à passagem do tempo, como um móvel feito de madeira nobre, com décadas e décadas de serventia, sem um único foco de cupim. Uma menininha fita o espectador, querendo sair do quadro, como no pôster do filmão Uma secretária de futuro, com a moça ambiciosa atrás, quase oculta, com olhos de fome e ambição por sucesso, querendo mais da vida, mais do que ser uma humilde e anônima secretária, num país livre, no qual o cidadão tem o direito de sonhar. A mulher rica se rende ao Menino Jesus, tocando-o de leve, num Amor sutil e leve, arejado, em cenas de uma revista de decoração em casas lindas na zona serrana carioca, numa terra elevada, nobre, numa luz fina, fazendo do Amor o que de mais fino existe, como fazer um contato metafísico com um ente querido já falecido, sendo muito simples: Num lugar silencioso, no qual estou sozinho, tenho que sentar, fechar os olhos e falar com tal pessoa, a qual ali estará, em amizades verdadeiras, que abraçam a Eternidade, como pedir diariamente a bênção a um ente querido, abençoando nosso dia, como em cada dia da vida fértil de Chico Xavier, um homem desinteressado, na noção taoista: Aquilo que nada quer, tudo tem, num Chico que era uma página em branco a serviço do Mundo, acalentando os corações de mães que perderam os filhos. A mulher rica está pensante, talvez reavaliando sua própria obsessão por glórias mundanas, ao ponto da pessoa estar “vacinada” contra os apelos mundanos, estando farta de estar doente, no modo como a Vida é boa quando é simples, como nos dias simples de Cidadão Kane com seu trenó Rosebud.
Acima, Cristo e o samaritano. A fonte é a Vida, no nome belo de uma comuna italiana. Água viva da fonte, num Jesus que é tal fonte de inspiração, uma figura na qual podemos depositar nossas esperanças, na promessa de um amanhã melhor, num Tao que é o único caminho, havendo só um polo no Universo, que é o Amor, havendo no Umbral tal privação e miséria, com uma mínima fagulhinha de Amor, na esperança de que tal Umbral pode ser derrotado, na pessoa se libertando, tendo a humildade para aceitar ajuda, ao contrário do arrogante, o qual não quer receber ajuda, remetendo a um certo senhor que vive se arrastando como um mendigo pelas ruas de uma cidade, um senhor que diz aos outros: “Não preciso de ajuda!”, no sinal de esperança de que ninguém está no Umbral para sempre, sendo este uma mera casa de passagem, no caminho lógico da Eternidade, com tudo se rendendo ao Amor. Jesus aqui mostra uma direção, um caminho, um jeito de se ver o Mundo, com ensinamentos ecoando em versos bíblicos, nos quatro evangelistas sagrados, em legados como o livro de Tao, o qual, apesar de ter sido escrito há milênios, segue atualíssimo até hoje, em plena era digital no Século XXI, na universalidade e na imutabilidade da condição humana. Ao fundo vemos uma sólida coluna, no sustentáculo que é o apuro moral, numa força, na força da verdade, no laço mágico da Mulher Maravilha, o qual, ao enlaçar alguém, faz com que este diga somente a verdade, no Espírito da Verdade, o qual foi um dos budas que auxiliaram Kardec na concepção da Doutrina Espírita, este ramo que se gerou do Cristianismo, no modo como as finitas pedras preciosas mundanas fazem metáfora com a eternidade da Verdade, esta pedra preciosa que resiste à passagem de qualquer tempo, nos versos da canção Os diamantes são os melhores amigos de uma garota no filme Moulin Rouge: “Eu apenas digo a verdade!”. O jarro é o sustentáculo feminino, o útero, o vaso do qual viemos, no útero sacrossanto da Virgem, a imagem que tenta nos fazer entender que nada se perde, e que nenhum trabalho é em vão, nem mesmo o anônimo trabalho de um coletor de lixo, na construção da Grande Carreira Espiritual, ao contrário da pessoa que não está centrada, como um grande e querido amigo meu, uma pessoa de extremo bom gosto, uma pessoa fina, muito fina, mas uma pessoa que não está centrada, vivendo uma vidinha desinteressante, como uma anônima dona de casa, vivendo na sombra de outra pessoa – reaja, rapaz! Centre-se em algo nobre! Ocupe-se! É na questão da Vida Metafísica, nas palavras sábias de DiCaprio: “Não pode faltar trabalho!”. E não é o Céu um Éden para os que querem se manter atuantes de alguma forma? O centro do quadro, de alguma forma, não é Jesus, mas a mulher, talvez Maria Madalena, recebendo o auxílio Dele, sendo perdoada por ter feito do Sexo um leilão, na triste vida de prostituição, nos que acham que podem comprar ou vender o que é inegociável, que é Amor: A pessoa prostituta se sente um lixo, pois é tratada como um pedaço de carne; quem contrata a pessoa prostituta também se sente um lixo, em saber que esta não está com aquela por que a gosta ou curte, mas por causa do dinheiro. Ao fundo no quadro vemos rumores tomando forma, no modo como Jesus começou a ficar muito famoso, dando inveja aos ricos e poderosos, sendo perseguido e executado, num homem o qual, em tal fim trágico de vida, tinha tudo para cair no mais absoluto esquecimento, ressuscitando na fé das pessoas ao ponto do imperador romano se converter cristão, numa vitória que levou séculos para se desdobrar, na noção da sabedoria popular de que a verdade vem à tona, numa espécie de “vingança”, mas uma gostosa vingancinha, inofensiva. A mulher está de perfil, quase alheia ao espectador, como se quisesse ficar alheia às coisas mundanas e auspiciosas, rejeitando tais sinais tolos, como tediosas alas vip de boates – acredite me mim: Estas são desinteressantes. Jesus aqui tem um papel de guia, mostrando-nos o melhor caminho, como uma bússola de orientação, guiando-nos pelos mares tempestuosos da encarnação.
Acima, Hércules. Aqui é o homem forte de responsabilidades, como um amigo meu, trabalhando de Sol a Sol para prover um bom nível de vida para a esposa e filhas, na imagem do Atlas segurando o Mundo, nos trabalhos de Hércules, num homem centrado, pés no chão, uma rocha firme que dê à mulher a sensação de estabilidade; um homem que dê a sensação de segurança, como no caso de um amigo meu, um homem sério e centrado, o qual, provavelmente por ser pouco romântico, acabou rejeitado pela esposa, num homem que sofreu um tombo muito grande, pois era – não é mais – um homem que tinha um lar, com esposa e filhos esperando-o ao final de uma jornada de trabalho, no modo como o romantismo está em aspectos simples, que não custam um centavo, como abraçar a esposa e dar um beijinho, no modo como, para que a chama de calor não se perca numa relação, deve haver diariamente uma reconquistadinha na pessoa, em coisas tão baratas como flores. As rochas aqui são tal firmeza, tal estabilidade, numa mãe colocando no Mundo só filhos homens, num lar de identidade masculina, talvez num lar muito heterocentrado, sem um pingo de chances para desenvolvimento de comportamento gay, resultando num homossexual brutalizado, quiçá cagão, com o perdão do termo chulo. Uma mulher aqui sugere uma direção e um trabalho a ser feito, mas é só uma sugestão, e Hércules aqui é dono e senhor dos próprios passos, decidindo se aceita ou não a sugestão, no personagem Conan, o homem viril que será dono e senhor de seu próprio reino, seja este grande ou pequeno, num Conan que se negou a reinar lado a lado de uma mulher, como um senhor que conheço, o qual, apesar de morar na casa da esposa, tem um imóvel próprio, não importando se este é ou não luxuoso, no caminho de desenvolvimento da virilidade e da autonomia, num homem dono e senhor de si. Uma bela deusa está de costas para o espectador, discreta, não querendo abocanhar a cena, numa discrição e numa humildade, numa pessoa que não quer fama midiática, no modo como a celebridade não tem o direito do cidadão comum de ir e vir, como numa Gisele, a qual não pode caminhar na Rua sem ser assediada, no modo como pode se perder o discernimento entre a pessoa e a opus da pessoa, como num Michael Jackson, prisioneiro de si mesmo, no modo como a um bonitão galã é desanconselhado ir para shoppings no fim de semana, tal o assédio de tietes histéricas, como vi certa vez Luis Fernando Verissimo assediado num shopping de Porto Alegre, no apagão da linha divisória entre pessoa e opus. Ao pé do quadro, o homem lendo é a erudição, no hábito pacato de ler, como a porteira de meu prédio, a qual, par anão passar o dia em vão, tem o hábito de ler quando está sentada na portaria, fazendo algo de produtivo durante o expediente, nas responsabilidades de um pai ou mãe de, desde cedo, levar o filho a uma livraria e dizer para este escolher um livro infantil, como um senhor erudito que conheço, dono de uma vasta biblioteca, no hábito de ficar quietinho no seu canto, lendo. Num detalhe do quadro, vemos as máscaras da comédia e da tragédia, na construção das Artes Cênicas, na magia do palco, nesta arte tão antiga, numa Dercy Gonçalves fugindo de casa para aderir a uma trupe circense, nas palavras da diva irreverente: “Eu sou mambembe!”. Ao fundo vemos uma luxuriante palmeira tropical, em cenas sedutoras de noites tropicais à luz do luar, como num resort que conheci em Salvador, BA, muito romântico para quem está em lua de mel, no modo como o romantismo pode morrer num relacionamento, caindo na mesmice do dia a dia, neste terreno complicado que são os relacionamentos amorosos, não importando se é hétero ou homo. Hércules segura o fálico cajado patriarcal, símbolo do poder dos homens, como certa vez num programado SBT, no qual o apresentador, indignado com crimes cometidos, batia furiosamente um cajado na mesa pedindo, quiçá ordenando que o responsável fosse punido com todo o rigor da lei. O deus aqui é corpulento como os homens de Aldo Locatelli.
Acima, Madona de Montalto. A Virgem é o padrão de beleza feminino, no qual à mulher é vetado envelhecer, nas “loucuras” das quais uma mulher é capaz em nome da beleza, resultando naquelas senhoras elegantes e arrumadas, as quais sabem que idade não é pretexto para parar de se arrumar, como uma professora que tive, a qual, às sete e meia da manhã, estava impecavelmente arrumada, fazendo-me imaginar a que horas ela saía da cama para se produzir tanto, no caminho da autoestima, do amor por si mesmo, algo desdenhado por uma certa pseudointelectual sociopata, um animal que não sabe viver em sociedade, uma sociopata que já me enganou, mas que JAMAIS vai me enganar novamente, no caminho do crescimento e da aquisição de discernimento, no modo como a idade vai nos trazendo sabedoria, juízo e responsabilidade – por nada neste mundo eu gostaria de voltar a ser adolescente. Uma discreta aureola adorna o Menino Deus, na graça da pessoa desencarnada, feliz, envolta por uma luz de felicidade, vivendo uma vida produtiva, cheia de sentido e significado, ao contrário da pessoa deprimida, sem gosto pela Vida, uma pessoa prostrada, atirada nas cordas do ringue da Vida, nas palavras de uma certa médium espírita: “Deus quer nos ver lutando pela Vida!”. Para alva Madona se destacar, o cenário ao fundo tem que ser escuro, como na Primavera de Botticelli, com as beldades claras respaldadas por um cenário escuro ao fundo, no discernimento taoista de que quando digo que algo é liso, é porque conheço o oposto, que é áspero, no modo como fácil e difícil são faces do mesmo trabalho, numa mescla entre dever e prazer, no modo como os gênios fazem parecer que tudo é muito fácil, como um Pelé em campo. Um anjinho quer a atenção da Madona, e ele tem uma flecha retilínea do Amor, no cupido que enlaça, no costume de se ter em Santo Antônio o santo casamenteiro, no modo como os altares pagãos, como na Grécia e em Roma, foram tranquilamente substituídos por santos e pela Virgem, na universalidade da crença religiosa humana, dotando cada santo de uma função especial, como rezar para Santa Clara para que a chuva estie, na superstição de jogar um sabonete no telhado – o que é a Vida sem alguma superstiçãozinha? A Virgem aqui é jovem para sempre, como no filme Vanilla Sky, fazendo metáfora com o Desencarne, na pessoa morrendo, rejuvenescendo e vivendo para sempre como uma máquina racional, no caminho da Eternidade, a qual é o caminho natural do perdão, pois as mágoas e as desavenças não são eternas, e teremos toda a Eternidade para nos relacionarmos com nossos entes queridos, resultando, assim, no Amor desapegado, leve e saudável, sem fixações ou obsessões. Vemos de forma discreta um senhor lendo um livro, na confecção da Bíblia, esses livros base de religiões, livros que são atemporais, que resistem à passagem do tempo, na eternidade da condição humana. Será que este senhor é São José? Como deve ter se sentido José ao saber que seu filho não era seu de fato? Aqui temos uma cena transitória, pois não sabemos se está anoitecendo ou amanhecendo, na mesma estrela de Vênus assinalando o fim e o recomeço, como as personagens lindas de Tolkien – Arwen, a morena, estrela vespertina, e Galadriel, a loira, a estrela matutina, em personagens que saltam das páginas dos livros e nos cativam, fazendo com que sintamos saudades deles. As sandálias da Virgem são a humildade franciscana, no modo como pode ser insuportável uma pessoa arrogante e presunçosa, com tantos e tantos egos ascendendo e descendendo todos os dias no Mundo, em ambições mundanas por poder e dinheiro, com tantos milhões de brasileiros que jogam na Loteria, na noção espírita: Você não faz ideia a que ponto fica reduzida uma pessoa que é considerada feliz na Terra, ou seja, o ganhador da Loteria. A moça aqui é pura e doce como leite condensado, alimentando o bebê com seu leite puro e imaculado, nas responsabilidades de uma mãe dar de mamar, na delícia que é mamar numa caixinha de leite condensado, no gostoso pecadinho da Gula.
Acima, Maria Madalena em uma paisagem. A santa chora retirada, sentindo-se tão só, tão sem amigos, numa pessoa que está perdida de alguma forma, como um grande amigo meu, daqueles amigões que sabem pelo que passamos a nível existencial, num momento em que eu estava perdido, e ele me disse: “Estás perdido!”, no modo como é importante termos um respaldo de estrutura de família, remetendo a um certo rapaz, o qual ignora ter irmão, primos e tios, como no romance Tonico, de cujo autor não lembro, falando sobre um rapaz que se distanciou momentaneamente de sua própria família, sendo acudido por um tio que o viu na Rua, como no processo cognitivo do personagem Simba, do filme Rei Leão, num Simba que se deu conta de quem era, abraçando sua vida e seu destino, deixando para trás relacionamentos fúteis, como num filme com Leo DiCaprio, num rapaz que se dá conta de que está desperdiçando sua própria vida, neste jogo sério que é a Vida, exigindo que tenhamos responsabilidade, no caminho natural da criança virando adulto. Madalena está com os seios expostos, muito longe da pudica Virgem, expostos como os seios da famosa atriz pornô italiana Cicciolina, a qual, ao enveredar para a Política, costumava mostrar um de seus seios em público para chamar a atenção sobre questões importantes, na magia da menina escrava se tornando Cinderela, como numa Gisele trabalhadora e batalhadora, honesta, ganhando a vida com seu trabalho, brilhando como um diamante, ditando, há vários anos, paradigma capilar feminino ao redor do Mundo inteirinho, na capacidade do homem de Tao em conquistar o Mundo. Madalena olha para cima pedindo piedade, inclinando-se para o Metafísico, cansada de fazer do Sexo um leilão, como no início do arrebatador filme A última tentação de Cristo, com uma Virgem Maria enérgica e um tanto agressiva, numa Madalena cuspindo na cara de Jesus por este fabricar cruzes para os romanos, no símbolo de morte que se tornou símbolo de Vida, na imagem de um homem fracassado, executado, desprezado, escarrado, ressuscitando depois na fé do Mundo, na sabedoria popular de que as insinuações subjetivas acabam se mostrando claramente objetivas, pois a Verdade não é a filha do Tempo? Estrela do quadro, Madalena está retirada ao lado, talvez querendo evitar uma exposição, numa pessoa que não gosta de aparecer em vão, com tantas e tantas pessoas que morreriam para ter exposição midiática, como nas subcelebridades de televisivo Big Brother, nos típicos quinze minutos de fama, no modo como já vimos tantas estrelas aparecendo e desaparecendo, pois quem para de lutar, perece e some, na luta para sem manter em décadas de carreira, como em bandas longevas como U2, sabendo que é necessário que sempre coloquemos material novo na praça, na força para se virar a página: Você acorda no dia seguinte e a Vida continua se desdobrando em toda sua seriedade. Madalena segura um crânio, que é a finitude da carne, do corpo físico, no corpo que fica para trás, exigindo que façamos algo de nobre de nossos dias aqui na Terra, como eu gostaria de dizer a um prostituto, o qual está jogando fora sua própria juventude: Vá arrumar um emprego decente, rapaz! Abaixo do discreto crânio, um livro, na revolução do surgimento da Escrita, no momento em que as tradições não mais precisaram ser transmitidas oralmente, ao contrário do Homem Neolítico, sem o registro de escrita, na importância da Pedra da Roseta, a qual possibilitou a ressurreição de uma língua morta, que é o egípcio antigo. Ao fundo, vemos uma rochosa colina, que é a dureza da Vida, no modo como, após o Desencarne, a pessoa se depara com a necessidade de continuar produtiva, remetendo a um grande amigo meu, o qual está ocioso, uma pena, pois se trata de uma pessoa de grande sofisticação, ou seja, um talento que está sendo desperdiçado – não há sentido no ócio. Aqui, Madalena está se debruçando sobre sua própria vida, avaliando os fatores, numa espécie de despertar, como um personagem que cresce e evolui.
Referências bibliográficas:
Annibale Carracci. Disponível em: <www.meisterdrucke.pt>. Acesso em: 14 ago. 2024.
Annibale Carracci. Disponível em: <www.pt.wikipedia.org>. Acesso em: 14 ago. 2024.






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