quarta-feira, 10 de junho de 2020



Volto a falar sobre o grande pintor francês Paul Cézanne. Os textos e análises semióticas a seguir são inteiramente meus. Boa leitura!


Acima, Banhistas. 1874-1875. O cenário é de um doce dia de Verão, de férias, de delícia, na libertadora experiência de se andar nu numa praia de Nudismo, pois, com essa simplicidade, numa “mão sem anéis”, sentimo-nos conectados à Natureza e ao Cosmos, numa sensação deliciosa de libertação, como o feto no útero. O dia aqui é lindo, ensolarado, e podemos ouvir o poderoso som de pássaros, dando a trilha sonora para este momento de férias, de descanso, como no lindo resort salvadorenho Vila Galé, com suas piscinas, jardins e praia. Aqui, as mulheres se banham despreocupadas, sem saber que estão sedo vistas pelo espectador, como na tentadora oportunidade de se observar dentro das casas dos outros, no fetiche voyeur, como em câmeras esfomeadas em um estúdio de Big Brother, no termo “zoológico humano”. O doce vento aqui faz farfalhar as folhagens, como no sutil som de veludo em um guardarroupa silencioso, na delícia de se acariciar um casaco de pele, como mergulhar em um armário cheio de tais casacos, numa pessoa se sentindo muito à vontade entre a família e os entes queridos, na delícia que é conversar com um amigão, uma amizade que não se corrói com o passar das décadas, pois amigo de verdade é aquele no qual olhamos nos olhos, numa intimidade psíquica enorme. Aqui, é o “Clube da Luluzinha”, e meninos não são bem vindos aqui, como numa festinha de aniversário de menina, só com colegas meninas do colégio, num momento de intimidade, no modo como fui tolhido por uma menina homossexual quando em insinuei para fazer amizades com as amigas dessa menina, estando esta se sentindo numa espécie de “protetor” de tal “harém”. A água aqui é absolutamente cristalina, limpíssima, no modo como, em certas culturas, a noiva, momentos antes de se casar, banha-se com o restante das mulheres da tribo, havendo na água tal poder nesses rituais de purificação e de renovação, havendo na água um símbolo de Tao: sem cor, sem cheiro, sem gosto, ou seja, sempre subestimada, sempre passando despercebida e, ainda assim, absolutamente vital, no líquido que permeia toda e qualquer vida na Terra. Aqui, a vegetação é vibrantemente verde, nutritiva, alimentando dinossauros vegetarianos, na opção vegana de pessoas em busca de uma vida mais saudável, tecendo toda a cadeia alimentar, num ciclo no qual as bactérias acabam vencendo sempre. Todas as mulheres aqui são belas, e parece-se com um harém faraônico, numa competitividade para ver qual das esposas se tornará a mãe do próximo rei do Egito, no modo patriarcal no qual é absolutamente impensável uma mulher ser casada com vários homens, no modo como a Humanidade está irremediavelmente dividida entre Clube da Luluzinha e Clube do Bolinha. Aqui, a nudez nos mostra como a Natureza deve ser, sem roupas, no modo como Tao concebeu a beleza do Corpo Humano, havendo nas bonecas metáfora com a plenitude mortificada espiritual da Beleza, num lugar onde a pele de todos sequer tem um poro, na Beleza que só é possível a nível metafísico, havendo na Terra um mundo tão propositalmente imperfeito. Os cabelos das moças estão soltos, à vontade, como cavalgar sem camisa, na ausência de malícia na nudez dos povos indígenas, na maçã do Éden que trouxe à Humanidade a culpa, o pecado, a restrição aos sete pecadinhos gostosos capitais. Uma das moças aqui está deitada, completamente descansada, e podemos ouvir a vibrante prosa feminina, como num chá de panela, só com mulheres, como quando se encontram minha mãe e minhas tias, naquela conversa de vozes femininas embrulhadas umas nas outras, inaudível e indecifrável para um homem. Uma das moças, digna de Vênus de Botticelli, carrega uma grande toalha branca, na cor da limpeza, da leveza. Aqui, há perfume cítrico, refrescante, e tudo de sujo e malicioso vai embora pelo ralo – é o modo feminino de Simplicidade.


Acima, Imperador Aquiles. 1868. O imperador está diminuto em seu trono, como se fosse pouco para assumir tal cargo, tal responsabilidade, tal coroa. Ele é tão diminuto que precisa de um suporte para apoiar as pernas. Este suporte é uma caixa, que é a reserva, algo que tem que ser guardado com cuidado, como uma boa amizade, aquele amigo o qual reconhecemos inteiramente na Dimensão Metafísica, após o Desencarne, com dois amigos que se olham nos olhos e se conhecem muito bem, no feliz som de alegria de amigos se reencontrando, pois, no final, tudo se resume a Amizade, a Amor. O imperador aqui está entediado, talvez envolto em mil e uma formalidades, como deve ser enfadonho o cargo de pessoas como Elizabeth II. Ele olha para o lado, talvez evitando os fotógrafos ou o pintor – difícil imaginar momento mais entediante do que posar para ser pintado numa tela, como na divertida imagem que vi num parque da Disney, nos EUA, numa Monalisa claramente impaciente, contando os segundos para ir embora do atelier de da Vinci. O casaco do imperador é azul marinho, nobre, discreto, numa pessoa que conhece o valor da Discrição, como num instinto de sobrevivência, numa pessoa que apenas nasceu assim, sem ter que frequentar caras instituições privadas de Ensino, como num artista com décadas de carreira, sempre na luta, sempre no ringue, sempre se reinventando e dando a volta por cima das inúmeras vicissitudes, no lamentável modo como há tantas pessoas talentosas que simplesmente não sobrevivem, ou que param de lutar, atirando-se nas cordas da Vida, como me disse uma inesquecível médium: Tao quer nos ver lutando pela Vida, com tesão de viver. Este frágil imperador parece ter uma paralisia nas pernas, como numa pessoa paraplégica, como no pesado encargo físico sobre o gênio astrofísico Stephen Hawking, lutando bravamente para continuar se expressando, num exemplo de como a Vida tem que ser desbravada e batalhada, como uma querida amiga minha portoalegrense, a qual postou recentemente em uma rede social a marca de dez anos em uma empresa, e eu disse para ela: “Parabéns! Continue no ringue!”. As mãos do imperador são cadavéricas, sem vida, sem graça, pálidas, mortas, como as assustadoras garras de Gary Oldman em Drácula de Bram Stoker, na divertida metáfora do vampirismo, o qual fala de psicopatas ardilosos, manipuladores, inteligentes e altamente maliciosos, dando-nos um conselho: Nunca duvide da malévola inteligência de um psicopata. Aqui, o homem está numa posição depressiva, exatamente no modo como nos sentimos ao falarmos com uma pessoa deprimida, vendo esta olhar para o lado, prostrada, desanimada, sofrendo cada minuto de sua encarnação, prostrada numa cama, sem conseguir, porém, dormir – é um horror – que doença horrorosa. A estampa do “trono” é florida, feminina, agradável, mas parece não trazer contentamento ao prostrado regente, num tédio total, como numa pessoa vestida de preto dos pés à cabeça, sem diversão, sem sortimento, sem vibração de Vida. O fundo do quadro é bem sombrio, como os sintomas de Depressão, numa pessoa que passa por um descomunal momento de decepção com a Vida, achando esta muito dura, muita impiedosa, muito cruel. O preto é imprevisível; é o mistério, no modo como Tao não nos revela o futuro, pois se este fosse revelado antes da hora propícia, não aconteceria. É como uma densa cortina, com camadas e mais camadas, na sensação infernal de virar páginas de um livro que não acaba, na desolação de se caminhar por uma cidade toda deserta, sem uma alma amiga para trocar uma palavra, no modo como a pessoa deprimida se sente assim, em desamparo, duvidando da existência de Tao, o Pai sempre atencioso, altamente atencioso, num Pai que coloca atenção sobre todo e qualquer filho, sem fazer distinção, numa linda parábola que ouvi, de uma pessoa que se sentia sozinha, vendo que, na areia sob seus pés, só havia as pegadas de uma pessoa, e quando esta pessoa reclamou para Tao, este lhe disse: “Havia só as pegadas de uma pessoa porque era eu que te carregava em meus braços!”. Este quadro mostra que o Poder, por si só, não traz felicidade, e que a pessoa, para ser feliz, tem que ser humilde e produtiva.


Acima, Natureza Morta com Maçãs e Laranjas. 1895-1900. Um majestoso pano branco respalda as coloridas frutas, as quais são maduras, doces, deliciosas, suculentas, implorando para ser devoradas, num perfume frutado, como num bom vinho branco fino, o qual, depois de ser bebido, deixa na boca o gosto residual da fruta. Aqui, é uma mesa farta, como na mesa farta de Tom Bombadil, personagem de Tolkien, numa mesa rica que recebe muito bem os convidados, num talento de anfitrião, como numa socialite, a qual faz questão de bem receber seus ilustres convidados, numa pessoa rica, que não sabe o que fazer com o dinheiro que tem, talvez numa pessoa cheia de amarras, achando-se sexy demais para arregaçar as mangas e fazer algum tipo de trabalho de fato, como numa dondoca improdutiva, achando-se pretensamente uma deusa que sequer pode ir ao mercado fazer compras. Aqui, são as maçãs do Éden, deliciosas e tentadoras, trazendo as delícias dos pecadinhos capitais, com a Gula em primeiro lugar, pois não há algo de errado em comer um bom negrinho de panela, pois o que seria da Vida sem prazeres, só com Disciplina? É no fato de que, no Nível Metafísico, há sim, além de trabalho, muita diversão, numa vibrante agenda social, de fazer inveja a qualquer socialite na Terra. Atrás do pano alvo, respaldando a cena toda, fartas estampas, no modo como, ao redor do ano de 2000, entraram na moda as bermudas de surfista com estampas floridas, quebrando a “regra” de que estampas floridas são algo estritamente feminino, como me disse certa vez um surfista, o qual divagou sobre a beleza de uma simples flor, num surfista que de afeminado nada tinha. Uma grande taça branca carrega algumas frutas – é a taça da vitória, dos doces frutos dourados da vitória, os quais vêm depois de um esforço e um empenho de dedicação, como num investimento, numa pessoa que sabe que não é necessário ser workaholic para se atingir o sucesso. É a glória de um tenista a final de um campeonato, fazendo da vitória mundana a metáfora com a perene sensação de vitória no Nível Metafísico, um lugar onde todos nos sentimos grandes estrelas, grandes espíritos, na sensação de estarmos nos trilhos de uma carreira brilhante, havendo, no Umbral, a deprimente sensação de fracasso. Este manto branco é digno da Nossa Senhora da Pietà de Michelangelo, numa mulher que, em vida, foi pobre a anônima e que, depois, ao desencarnar, adquiriu dignidade de rainha, como uma pessoa falecida de minha família, a qual, com certeza tem, lá no Céu, a dignidade de uma rainha – sou neto de uma rainha, pois os vínculos de família não se dissolvem com o Desencarne. É como uma pessoa emoldurada por uma luz, na lei inabalável de que Beleza vem de dentro, muito além de qualquer cirurgia plástica. Vemos aqui uma jarra florida. A jarra é o receptáculo original, como na Galadriel de Tolkien, no princípio feminino de útero armazenador, numa fruteira bem farta, com alimento para todos os filhos da ninhada, numa teta que nunca seca, na arrebatadora imagem da loba amamentando Remo e Rômulo. As frutas aqui foram cuidadosamente selecionadas, como numa esteira de produção, selecionando cuidadosamente frutos que vão para exportação, na luta que é conquistar, na cabeça do consumidor, uma posição de predileção e excelência, pois sucesso é para quem batalha por tal sucesso – se você está esperando pelo príncipe encantado, acorde! As frutas são a Saúde, a fartura, numa mesa de rei, numa abundante mesa de galeteria ou de café colonial, impressionando o turista, que se depara com uma mesa que era o sonho de fartura de um imigrante italiano que levou uma vida árdua carpindo seu lote. As frutas são o milagre da Vida, numa prova do bom gosto de Tao, ao ponto de inventar sabores e mais sabores, como numa manga, num mamão formosa, num caqui etc. É como uma farta ninhada, no milagre da multiplicação dos peixes.


Acima, Os Jogadores de Cartas. 1892-1895. A cena pode ser descrita como um patético preenchimento de tempo livre, talvez dois senhores alcoólatras, matando o tempo, quando, na verdade, não deveriam estar bebendo nem jogando, mas trabalhando, deixando a bebida só para o momento da happy hour, da descontração depois de um dia disciplinado de labor. Entre eles, uma garrafa, com uma precisa pincelada de Cézanne que mostra o perfeito lustro da peça de vidro, num momento de sutileza em que um artista mostra a que veio. A garrafa é o vício, como nos vários alcoólatras que conheço, e é muito fácil, para o não alcoólatra, dizer a um alcoólatra que este deve parar de beber, no fato de que não há ex-alcoólatra, mas uma pessoa que tem que se esforçar, diariamente, no sentido de não beber, como num alcoólatra que conheço, cuja força de vontade me admira, pois ele está há décadas sem beber uma só gota de álcool. Os homens aqui estão carteando, só para passar o tempo, numa vida desinteressante, com nada sendo construído, sem uma luta, sem um esforço, sem uma batalha para que se vença no ringue da Vida, pois a pessoa disciplinada é sempre recompensada, como numa colega estudiosa que tive no Ensino Médio, a qual simplesmente não tirava notas abaixo de nove, numa rotina espartana de estudos, talvez num espírito que, numa encarnação anterior, levou uma vida desregrada e desinteressante, sem construir algo para se orgulhar, num espírito que, na nova encarnação, tratou de partir em busca do tempo perdido. Os dois homens aqui estão cabisbaixos, talvez sabendo, no fundo, que suas vidas não estão exatamente nos trilhos, no modo como é enfadonha a vida do bon vivant, como no personagem Oscar Schindler, o qual inicia a trama como um playboyzinho fútil e, ao fim do processo de crescimento, acaba se compadecendo do sofrimento do Mundo, tecendo a famosa lista, como numa pessoa desencarnada que decide visitar no Umbral todos os infelizes psicopatas que conheceu na Terra – a lista é Amor. A toalha na mesa está encobrindo algo, escondendo algum fato, alguma verdade, como se estes homens estivessem já sentindo o modo como a Vida cobra sério e, realmente, não dá pata fugir, havendo na fuga um preço muito alto. Aqui, os chapéus são a última proteção desses cavalheiros ociosos, numa vida que, de algum modo, tornou-se agonizante, como num paciente que morre de Covid-19, simplesmente não mais podendo respirar, nem com a ajuda de aparelhos. Aqui, é uma matação de tempo, pois, fora do reduto vicioso do bar, a vida não tem sentido, numa pessoa que se conformou em ser uma escrava de alguma substância. É como um alcoólatra se internando numa clínica de desintoxicação, começando a sentir, na pele, os efeitos de abstinência, como falta de calma ou paciência, fazendo do álcool uma fuga, uma ilusão de resgate, ao ponto de considerar o Álcool um amigo. Um dos senhores aqui fuma um cachimbo, talvez em outra tentativa de passar o tempo, num hábito relativamente inofensivo, desde que cercado de moderação. A garrafa aqui é este lago, esta piscina na qual mergulha a pessoa, e o que era um “amigo” pode se revelar algo bem pelo contrário. O som aqui é pontuado por silêncio, como numa carteada, quando joguei com uma senhora que era fera no carteado, e ela me disse: “Preste atenção às cartas na mesa”. Então, o Ser Humano se mostra tão vulnerável aos vícios, fazendo com que estes tenham uma decisiva interferência psíquica, como certos rapazes, viciados em videogames – o segredo está na moderação. Os dois chapéus aqui são diferentes, no inevitável e saudável modo como Tao nunca faz um filho igual ao outro, e somos isso, filhos de Tao, como Zeus animou um pedaço de barro e criou a Mulher Maravilha, numa Imaculada Conceição – somos todos sangue azul, mas não a nível mundano; a nível metafísico, chique. Esta cena é o Ócio, num artista que sabe que tem que sentar e produzir, pois, do contrário, cairá no poço da improdutividade, como num ator que, há anos, atingiu muito sucesso na televisão, mas que hoje está por baixo, improdutivo.


Acima, Retrato de Louis-Auguste Cézanne. 1886. Este é o pai do artista. O senhor aqui está entronado, muito confortável em sua poltrona, na condição de rei do lar, chegando em casa depois de um dia de labor, esperando encontrar tudo em ordem no lar, com o jantar sendo encaminhado, num pai zeloso, que nada deixa faltar dentro de casa. Ele lê seu jornal calmamente, como uma pessoa de minha família, que gosta de ler o jornal enquanto toma café da manhã, ao contrário da Rainha da Inglaterra, que lê os jornais ainda na cama, indo tomar café já bem informada sobre as notícias de seu reino. Neste quadro há um silêncio profundo, e a única coisa que podemos ouvir é o farfalhar das folhas sendo viradas, no modo como o jornal físico, impresso em papel, ainda não foi suplantado pela edição eletrônica. As pinceladas deslumbrantes de Cézanne deixam a luz branca natural entrar, num efeito iluminador sem igual, num efeito muito natural, tão natural que nos esquecemos de que é um quadro pintado – a luz entra despercebida em nossas mentes. Atrás da poltrona, um quadro de natureza morta, numa metalinguagem – Arte falando de Arte, como um sonho dentro de outro, como no contundente filme A Origem, como bonecas russas, em um receptáculo dentro do outro, numa sensação que se pode ter ao dormir, acordando de um sonho, mas ainda sonhando outro, como em Matrix. A poltrona cinzenta tem um efeito acetinado, suave ao toque, nas magia deslumbrante dos tecidos metafísicos, vaporosos, delicadíssimos, muito mais finos do que qualquer tecido nobre sobre a face da Terra. Este senhor está vestido discretamente, numa pessoa que sabe a importância de passar despercebida, subestimado, como um colega de faculdade que tive, uma pessoa que acabou me mostrando minha subestima por ele, “dando-me nos dedos”, como diz a gíria, ou seja, ensinando-me uma lição. Suas pernas estão sutilmente cruzadas, confortáveis, no momento glorioso de relaxar um pouco, como meu falecido avô, que gostava de, depois de aposentado, tomar um uisquinho antes do almoço. Este senhor tem uma toca sobre a cabeça, um acessório negro, denso – é o aconchego protetor do lar, numa pessoa que aprendeu a se apaixonar pelo próprio lar, cuidando deste, curtindo o hábito de tomar um chá ou chimarrão, num momento em que as demandas do Mundo ficam do lado de fora, proibidas de perturbar a calmaria do lar. A poltrona aqui dá e sobra, ou seja, é mais alta do que o senhor sentado, num cuidado extra, numa pessoa que sabe que cuidado nunca é demais, mas que pode ser demais, como uma pessoa que conheci, uma pessoa que teve uma mãe superprotetora, a qual dizia: “Meu filho não merece dez; meu filho merece onze!”. A poltrona é um colo aconchegante, na lembrança que tenho, quando pequeno, deitar no colo de minha mãe, ouvindo os barulhos cósmicos orgânicos do organismo dela, no “choque térmico” que é sair de casa para morar sozinho, no modo como eu tive que aprender, na marra, a me virar sozinho dentro de casa, lavando minha roupa e minha louça, num processo de “desmame”, como me disse uma grande amiga psicóloga: O carinho materno está em aspectos como naquela roupa quentinha, recém saída da secadora, com perfume de amaciante. Ainda atrás na cena, uma porta escura – é a passagem, o destino, a próxima etapa, como o estudante saindo do Ensino Médio e ingressando no Superior, ainda trazendo consigo um considerável residual adolescente, só depois ingressando na pós adolescência. A porta é a próxima dimensão, como li esses tempos no Facebook: Se você está assistindo cada vez menos televisão, é porque você já está se preparando para o próximo passo, ou seja, o retorno ao Lar Primordial, fazendo do Desencarne uma mera vírgula, no modo como os espíritas lidam de um modo natural e saudável com o Desencarne. O jornal é a ligação com o Mundo lá fora, com a Vida em Sociedade; o jornal é o Senso Comum, a coletividade, a Sociedade que é construída e preservada em conjunto, como num time, havendo no cidadão de bem uma pessoa que ama o Mundo, pois, se amo o Mundo, por este sou amado.


Acima, Três Crânios. 1900. São os Três Porquinhos, já devorados pelo lobo. É como o Cinturão de Órion, com as Três Marias perfeitamente alinhadas, como nas três grandes pirâmides do Egito, no enigmático modo como o antigo egípcio conseguiu construir tudo o que construiu, no modo como o tempo passa e as civilizações são perdidas. Aqui, é como um laboratório de Faculdade de Medicina, na memória que tenho quando visitei, num passeio do colégio, os cadáveres conservados em Formol na Unisinos, com os estudantes de Medicina se divertindo ao assustar as meninas em meio a um ambiente tão lúgubre, contraindicado para quem é muito sensível, como na terrível imagem de um braço decepado, com as unhas pintadas de vermelho, numa pessoa com autoestima – Jesus do Céu. Os crânios são o lembrete de que a Matéria perece, só permanecendo, só sobrevivendo o espiritual, o psíquico, no embate inevitável entre Fé e Ciência, e a primeira coisa que vou dizer a uma amiga minha psicóloga, ao encontrá-la no Plano Metafísico, será: “Acreditas agora em Vida depois da Morte?”, no modo como o Espiritismo se serve de Lógica para explicar aquilo que vai além da Ciência, pois qual seria a razão de tudo sem a Eternidade? Aqui, é como uma tumba de faraó sendo arrombada e saqueada, na ávida sede humana pela Matéria, por Dinheiro, num Ser Humano tão mundano, tão distante da virtude de Tao, o Elegante. É como uma família sendo enterrada junta, como nos Romanov fuzilados pelos comunistas, no modo como deve ser terrível de carregar consigo, para sempre, a carga de ter fuzilado crianças inocentes, nos horrores que o Ser Humano é capaz de fazer em nome do Poder, como num Getúlio Vargas, infeliz ao ponto de dar cabo da própria vida, não conseguindo imaginar a Vida sem Poder. As caveiras são a carcaça que sobra, no termo “do pó ao pó”, no modo como é uma virtude saber quando se tem o suficiente, nas disputas insanas das guerras, girando em torno de quem tem a maior espada, envolvendo, nesses pesadelos, pessoas inocentes, como na Guerra das Malvinas, ceifando jovens vidas dos dois lados do tabuleiro, no modo como a competitividade pode extrapolar os limites, gerando sangrentos conflitos, pois, se sou único, ninguém pode competir comigo; se sou único, reconheço que meu irmão é único também. Então, tudo se resume a Respeito, o concreto sobre o qual a Vida em Sociedade se sustenta. As caveiras são três irmãos, talvez ceifados num acidente de carro, remetendo-me a um inesquecível carrinho de bebê com trigêmeos, no milagre da Vida, sempre fértil, sempre renovando, como nos ciclos climáticos das estações. A mesa aqui é a base, a referência, o discernimento, um juízo que só pode vir com a Maturidade, quando a pessoa aceita que o Mundo não muda, só mudando o como eu me relaciono com tal Mundo. A base é a família, a educação, os valores incutidos na cabeça da criança, no desafio que é incutir valores nobres na cabeça de um filho, num pai se esforçando para ser o mais exemplar possível, no discernimento taoista – menos é mais, ou seja, quanto mais limpinho, melhor. As caveiras são a lembrança de um tempo, de uma época, no modo como os amigos são o que fica, sendo família ou não, na riqueza que é reencontrar, no Mundo Imaterial, pessoas tão queridas, numa linda e calorosa festa de retorno ao Lar, de retorno ao Mundo Real, onde somos todos jovens, belos, produtivos e divertidos – é a Grande Vida, havendo na Eternidade a prova do poder imenso, imensurável de Tao, a charada eterna. As caveiras são o residual, o vestígio, como fotografias de tempos idos, com fotografias que acabam se perdendo enquanto o tempo passa, no modo como na Dimensão Metafísica nada se perde, nada se esquece, e tudo faz sentido em nome da plenitude, como os personagens plainando em O Tigre e o Dragão, na sensação deliciosa de se desafiar a Lei da Gravidade, a Lei da Matéria, a Física. As caveiras são alunos comportados, mortificados em sua disciplina, numa pessoa que sabe que, realmente, não pode faltar Trabalho, a fonte da Dignidade.

Referência bibliográfica:

Paul Cézanne. Disponível em: <www.pt.wikipedia.org>. Acesso em: 3 jun. 2020.
Problema técnico. A postagem desta semana vai demorar um pouco.

quarta-feira, 3 de junho de 2020


O pintor francês Paul Cézanne (1839 – 1906) é considerado uma espécie de ponte entre as Artes dos séculos XIX e XX. Dois grandes mestres – Matisse e Picasso – disseram: “Cézanne é o pai de todos nós”. Os textos e análises semióticas a seguir são inteiramente meus. Boa leitura!


Acima, Menina ao Piano. A menina é a disciplina, o esforço, a dedicação, como numa hiperdisciplinada Maria Callas, dedicando-se ao máximo. Podemos ouvir a música tocada, enchendo a sala de perfume musical. A menina erra aqui e ali, num processo evolutivo, no qual os erros são inevitáveis, como num amigo meu, o qual, na primeira vez na vida em que pegava uma raquete de Tênis, já queria, de saída, ser um mestre no ofício esportivo. Isso me remete a uma vizinha que tive, preenchendo a vizinhança com o som de seu piano, uma vizinha que gostava muito de tocar a marcha nupcial. Este quadro é meio escuro, uma das marcas de Cézanne, e a luz entra pálida e fraca, como no pálido Sol londrino, fazendo com que os londrinos tenham uma pele tão alva, tão branca. Ao lado da menina, uma paciente costureira, costurando, trabalhando, como numa cafeteria/doceria que conheço, na qual, na parte da tarde, várias senhoras se reúnem para tricotar – no sentido literal e figurado – e, claro, tomar café. É como na deprimente história de Grace Kelly, a qual, após se casar, para ter algo para fazer com as vagas tardes de sua vida de dona de casa de luxo, fazia arranjos de flores secas. Vemos uma poltrona com uma estampa florida – é a Feminilidade. A menina ao piano busca tocar com suavidade, com carinho, como se soubesse o discernimento taoista, no qual fino é forte e grosso é fraco, nas lições de discernimento que os pais tentam incutir, desde cedo, nas cabeças das crianças. A cor preta tem uma certa predominância, e ambas as mulheres estão com as faces um tanto enegrecidas, concentradas, absorvidas pelo trabalho. A tecelã é o destino sendo selado, com os fatos acontecendo nas vidas das pessoas, no modo como há uma Divina Providência tecendo as existências, fazendo com que as pessoas passem pelas vidas umas das outras, sempre com importantes lições existenciais sendo aprendidas, fazendo com que o espírito evolua e depure-se. A moça de branco é a virgindade, a inexperiência, numa pessoa que tem ainda muito pela frente, no modo como as mulheres vintonas são o intermédio entre a malandragem adolescente e a maturidade balzaquiana. A menina aqui erra, várias vezes, sempre repetindo as notas, fazendo com que qualquer pessoa ao redor tenha a paciência para aguentar tais erros, no modo como Nossa Senhora tem a paciência com nós pecadores, como o Pai sempre perdoando os erros dos filhos, sabendo que o perdão é a chave da Eternidade. Esta sala tem estampas, num visual carregado, muito longe das casas modernistas brasileiras, com suas linhas retas, racionais, elegantes e limpas, num arquiteto sabe que tomar banho é também um banho na alma, num gostoso ritual diário de renovação, de refresco, no modo como a Dimensão Metafísica tem sempre esse frescor, essa limpeza, essa beleza, essa simplicidade japonesa limpa e minimalista, sucinta, sem excessos sujos ou pretensões. A moça veste uma farta saia branca, como numa Gisele toda de branco acompanhando o namorado numa entrega do Oscar, na ânsia da mulher em se casar lindamente na igreja, como numa família tradicional caxiense, com três filhas mulheres, e a mãe delas, numa entrevista televisiva, disse orgulhosamente: “As três casadas!”. No modo como vou dizer aqui algo bem machista, conservador e careta: Não entendo essas mulheres lindas heterossexuais que nunca casaram. Desculpem-me! A mulher tricotando é a Nossa Senhora desfazedora de um nó, de todos os nós, num exemplo de muita paciência e persistência, como numa pessoa que conheço, a qual foi uma linda atriz na juventude, mas que acabou não deslanchando na carreira: Você não fracassou porque não tem talento; você fracassou porque deixou de lutar. Aqui, é um quadro de rotina, como na minha rotina semanal em divulgar o blog no Facebook. As mulheres aqui estão com os cabelos devidamente arrumados e disciplinados, no encanto de uma mulher que se arruma antes de sair de casa – há Beleza na Disciplina.


Acima, O Relógio Negro. O relógio é a inevitável passagem do Tempo, nos seus tictacs delimitando nosso tempo de passagem pela Terra, pois nada mais natural do que o Desencarne, no modo como os espíritas lidam de uma forma saudável com a Morte, ao contrário de outras crenças, para as quais a Morte é algo absolutamente escuro e horroroso. Aqui, temos uma sala escurecida, quase na penumbra, no modo como Xuxa Meneguel disse gostar de dormir em um quarto absolutamente escuro, tapando até o buraco da fechadura! Neste silêncio, apenas o relógio predomina, num barulho hipnótico, no modo como eu não gostaria de morar perto das badaladas de um relógio na Rua, como o icônico relógio do Eberle, em Caxias do Sul. Vemos aqui uma xícara, talvez ainda quente, no modo como os dinossauros foram extintos por terem, a partir da queda de um grande meteoro, uma falta de calor, o que exterminou os animais de sangue frio, abrindo espaço aos mamíferos. O perfume do chá enche este lúgubre cômodo, no modo como os chás são universais, desde o Japão até os Pampas. O relógio é o controle, com o Tempo sendo vigiado para que não haja desperdícios, como numa pessoa fofoqueira, que perde o tempo cuidando da vida dos outros, na absoluta e inútil malícia que é a fofoca. Nesta mesa, vemos uma grande concha, extraída das profundezas oceânicas, com o som das ondas, do chiado marítimo. É a Vênus de Botticelli emergindo das águas, numa Iemanjá nua, casta, bela em sua simplicidade nua, na Estrela Matutina, despontando num céu ainda escuro, anunciando um novo dia, no modo como as estrelas sempre fascinaram o Homem, chamando de “estrelas e astros” os artistas de Hollywood, nas tentativas humanas em compreender o Universo ao redor, na curiosidade científica em esclarecer tais enigmas, num Tao que nunca entrega isso de bandeja, num pai amoroso e exigente, que quer ter orgulho de nós, como num zeloso pai vendo o filho com um canudo em uma cerimônia de formatura – o canudo é o falo do Conhecimento, no paladino obelisco anunciando, como um galo, o novo dia. Ao lado da xícara, vemos uma forma que parece ser um limão ou alguma outra fruta, no frescor cítrico, como em fragrâncias que perseguem tal frescor, numa vida plena, da qual exala o perfume comportamental dos espíritos moralmente evoluídos, em profundo contraste com o fedor da malícia escura de sub esferas, as quais são nada mais do que prisões para a mente – é são quem gosta de estar preso? Uma grande toalha veste esta mesa, numa fartura, num manto de rainha, digno da Pietà de Michelangelo. A toalha é o aconchego do lar, numa dona de casa dedicada, deixando tudo em ordem, nas demandas que é lavar a roupa de uma família inteira, dentre outros árduos serviços da casa. Acima do relógio, vemos a parte de um vaso refletida atrás, ou seja, é um espelho. O espelho é a reflexão, numa pessoa que, ao evoluir, dá-se conta de como era anteriormente – egoísta e fútil, centrada no próprio umbigo. O espelho é a Narcisismo, numa pessoa que está pedindo, desesperadamente, por um choque térmico psíquico, como passar por uma internação psiquiátrica, como no infame choque de Lasier Martins na Festa da Uva. Esta concha decorativa tem o formato da cabeça de uma divertida planta carnívora, num ser ardiloso, moldado por muito tempo de evolução, como vi ontem uma aranha querendo devorar um inseto que caiu em sua teia. O limão aqui é um Sol dourado, na magia dos temperos, das especiarias, no modo como os perfumes remetem à impecabilidade higiênica do Plano Imaterial, no modo como, observando os transtornos da Covid-19, chegamos à conclusão de que nosso mundinho imperfeito é uma mera e grotesca cópia de um plano melhor e mais elevado. O chá aqui está esfriando, e temos que agir rápido se não quisermos perder tal oportunidade, no modo como a Vida nos dá sempre oportunidades, como numa pessoa que, no fundo, está esperando pela próxima encarnação para agir. A hora é agora!


Acima, Pierrô e Arlequim. Um dos homens carrega uma retilínea vara, como na vara mágica de Harry Potter, no modo como é mágica a pessoa disciplinada, que tem os pés no chão, sabendo que o trabalho é a única coisa que pode fazer com que a pessoa dê a volta por cima. Este homem com a vara é altivo, ereto, e é muito orgulhoso de si mesmo, na sensação gloriosa que é iniciar e finalizar uma faculdade, pois as pessoas que abandonam a luta são como uma transa sem orgasmo, sem sentido, sem realização. O homem altivo tem uma estampa circense, remetendo-me à impressionante técnica dos artistas do Cirque du Soleil, na magia da beleza circense, e podemos ouvir aqui a música no picadeiro, como na música circense na introdução de uma das turnês do monstro pop Madonna, uma pessoa cujo ímpeto vai se transformar em lenda após à inevitável morte da artista. Atrás do homem altivo, vemos um homem curvado, mais humilde, no polido cumprimento de curvatura ao início de uma luta de judô, no conceito de “O Deus em mim reconhece o Deus em você”, no incrível controle emocional que um lutador tem que ter no momento do embate. O homem humilde veste branco, como nos terríveis enfermeiros do filmão Ilha do Medo. É a cor do princípio, da tela em branco, esperando para ser preenchida, como num grande ator, que sabe que tem que se tornar uma página em branco sobre a qual o personagem será desenhado. O ereto é a pessoa estelar, que conquistou seu espaço e goza das benesses da vida de estrela, como obter um tratamento diferenciado no set, sendo tratado como um rei, cheio de paparicos em volta, como num diretor, o qual, ao invés de dizer “Bom dia!”, diz “Como vai, minha estrela?”. É a nauseante realidade da bajulação, em pessoas que oferecem e pessoas que aceitam a massagem de Ego, na imortal inclinação humana em colocar o Ego no centro de tudo. Atrás na cena, vemos majestosas cortinas floridas, no modo como Tao dá aos campos e florestas vestes maravilhosas, mas um trabalho divino o qual é tão ignorado pelo Homem, sendo este só capaz de ver as belezas dos palácios, pois a beleza de um reino está em suas veste naturais, como na bandeira nacional canadense, fazendo de uma singela folhinha o símbolo de uma nobre, rica e organizada nação. O homem de branco está discreto, coadjuvante, sempre à sombra de alguém, numa pessoa que decidiu trabalhar nos bastidores, nunca exigindo massagem de Ego, como se soubesse que tais massagens são perde de tempo; uma ilusão. As cortinas floridas são dignas de uma pomposa cerimônia britânica de coroação, como o grande peso que uma coroa tem – sentido literal e figurado. Esses dois artistas parecem estar se preparando para pisar no palco, nervosos, tensos, na divertida tradição teatral dos atores que, instantes antes das cortinas serem abertas, dizem uns aos outros: “Merda!”, na crença que desejar “boa sorte” atrai azar. Podemos ouvir uma ávida plateia gritando histérica, exigindo o máximo do artista, num Mundo duro e exigente, no qual não é bom que a pessoa tenha pena de si mesma, tendo a força para reagir e enfrentar a Vida, como uma dona de casa acordando de manhã cedo, fazendo as camas dos filhos, no modo como o duro labor vem depois do lindo e glamoroso enlace na Igreja. O homem de branco parece empurrar e encorajar o homem altivo, e eles trabalham em equipe, como numa dupla sertaneja, na qual um cantor tem a voz mais aguda e o outro tem a voz mais grave, mais discreta, como no trabalho sutil de um baixo numa banda de rock, no jogo taoista entre Razão e Loucura, faces do mesmo planeta. O chapéu branco é pontudo, digno de Gandalf, o mago de Tolkien. É o cume de um pico, num ninho de águia, a salvo de engraçadinhos predadores em busca de ovos ou filhotes. Já, o chapéu do homem altivo é menos altivo (!), no modo como tudo dentro de si carrega a própria contradição, como disse o mestre Luis Fernando Veríssimo – o homem tímido é, na verdade, uma Elke Maravilha de escandaloso. Aqui, a Humildade respalda o Orgulho, no discernimento de que, para dominar, preciso, antes de mais nada, curvar-me.


Acima, Natureza Morta com Caveira. A caveira é o destino, a finitude. São os restos mortais de um faraó sepultado e mumificado, dando uma ideia muito vaga de sua majestade enquanto vivo, como diz uma canção cantada por Monroe: “No fim, todos perdemos nosso charme”. As frutas aqui são frescas, deliciosas, como no famoso espírito Patrícia, o qual, ao desencarnar, recebeu como cortesia uma pêra deliciosa para comer. A caveira é o Mal mortificado, vencido, como a cabeça de Medusa sendo cortada, no termo “cortar o Mal pela raiz”, num ato de sanidade, de limpeza, de algo sagrado, como uma assepsia sendo feita com álcool gel, no modo como o ano de 2020, com a Covid-19, não deixará saudades, pois existe algo mais enfadonho do que ficar improdutivo? A caveira é um vago vestígio, como nas cinzas da lareira de manhã, após uma noite ardendo rubra, no mito construído ao redor de Elizabeth I, com súditos dizendo: “A pele dela é branca como neve; o cabelo, rubro como fogo”, na eterna tendência humana em eleger líderes, num papel representativo, no termo “Quem já reinou jamais perde a majestade”, como um espírito que, em uma encarnação anterior, reinou de fato algum povo. O pano branco aqui é a limpeza, a sanidade, como um vaso sanitário sendo higienizado, no glorioso modo como, na Dimensão Metafísica, sequer há um só fungo, bactéria ou sujeira, fazendo dos hábitos de higiene, na Terra, uma referência à absoluta e simples limpeza metafísica. A mesa aqui é o sustentáculo, como num chefe de família, sustentando a casa, querendo chegar em casa, no fim do dia, e encontrar o jantar sendo feito e a ordem sendo estabelecida no lar, como num pai zeloso, que jamais deixou algo faltar dentro de casa, na empreitada de responsabilidade que é ter filhos e criá-los, incutindo valores nobres nas cabeças das inexperientes crianças. Essas frutas, fartas e doces, remetem-me a uma querida vizinha que tive, a qual sempre nos presenteava com produtos do pomar, como chuchu, figos e caquis, no modo como há no Mundo pessoas generosas, que gostam de presentear os outros, como numa pessoa que conheci, a qual, todo fim de ano, encarregava-se de presentear cada membro da família, fazendo das pessoas generosas verdadeiras fontes de Vida e Amor, como num oceano vasto, cheio de atum e sardinha, rendendo uma deliciosa massa à putanesca, na sensualidade dos sabores do Mar, da Mãe Iemanjá dos Navegantes, como no milagre cristão da multiplicação dos peixes, num Jesus generoso, combatendo a fome e a desigualdade social. A mesa aqui está feita de modo casual, sem muita ordem geométrica, sem formalidades, fazendo com que as coisas rústicas sejam acolhedoras, sem doloridas regras de disciplina, trazendo, assim, a simplicidade de Tao, o Pai que limpa as formalidades e traz o que realmente importa, que é amar, visto que tudo se compra, menos Amor. Ao fundo da cena, vemos um cenário sombrio, no modo como a Ciência tem grande dificuldade em provar que a Alma sobrevive à morte do Corpo, como baratas sobrevivendo a hecatombes nucleares, como num artista de forte personalidade, sobrevivendo a décadas de carreira, no triste modo como há muitos e muitos artistas os quais simplesmente não sobreviveram a uma determinada época, a determinado momento de carreira, no modo como ganhar um Oscar pode ser uma bênção ou uma maldição, pois o sucesso é complicado, pois se torna um peso, como numa Whitney Houston, a qual passou a sofrer descomunais pressões após o sucesso do álbum O Guardacostas, na história triste de uma voz devastada pelas drogas – nossos irmãos, que sofrem. A caveira me remete a uma divertida brincadeira de estudantes de Medicina, os quais, numa das janelas do prédio universitário, colocaram uma réplica de esqueleto, para assustar quem passasse por lá! A caveira é oca, como uma casa desabitada, uma casa vaga, um copo esperando para ser preenchido, numa pessoa que se vê útil ao Mundo. O ar circula e renova, como numa casa sem mofo, agradável. Um prato torto sustenta uma fruta – é o respaldo, a ajuda sem a qual não poderíamos vencer, no caminho da Humildade.


Acima, O Fumante. O homem está pensativo, num momento consigo mesmo, no modo como são sempre pertinentes, na vida de uma pessoa, alguns momentos de solitude, como num casal, o qual não pode ficar grudado o tempo todo. O homem está esperando por algo, talvez por uma oportunidade, e seus olhos estão distraídos, revelando um pensamento que está longe do próprio homem. O chapéu é a proteção, como me disse uma matriarca: “Não sei do que sou capaz para proteger um filho meu”, quando eu, de certa forma, agredi o filho dela – perdoe-me, por favor. As cores dos trajes aqui são de um discreto azul marinho, profundo em pensamentos, num momento em que a interação social está lá, do lado de fora. É um homem discreto, que sabe do valor de se passar despercebido, sendo sempre subestimado, pois só os subestimados podem surpreender. Sua cabeça está apoiada sobre uma das mãos, num amparo, talvez numa pessoa com uma certa carência, talvez cercada de amizades fúteis, numa vida sem preenchimento, na qual tais amigos superficiais não são capazes de aniquilar o sentimento de solidão, o sentimento de se estar perdido existencialmente. Atrás no quadro, garrafas de bebidas, talvez numa pessoa fazendo do álcool um “amigo”, numa pessoa a qual admiro profundamente, um alcoólatra que está há décadas sem colocar uma gora de álcool na boca. É como um filme com Ralph Fiennes e Susan Sarandon, no qual ambos interpretam alcoólatras que passaram pela vida um do outro, na perfeição das teias tecidas pela Divina Providência, fazendo com que irmãos se (re)conheçam e troquem carinho, no modo como Tao quer que sejamos uma família feliz, com irmãos respaldando irmãos. As garrafas aqui são negras e imprevisíveis, numa pessoa que está com dificuldade em prever o futuro, o qual, se fosse previsto, não aconteceria, pois há um motivo importante para que não saibamos direitinho como tudo acontecerá, pois como posso aprender uma lição antes do tempo? O cachimbo é como uma chaminé num dia frio e úmido, num acolhimento, num aconchego, como um personagem criticando a adorável personagem Bridget Jones, inconscientemente apaixonado pela mesma: “Ela bebe como um peixe, fala como um papagaio e fuma como uma chaminé”. O homem aqui está confuso, como num labirinto, num submundo, com pistas traiçoeiras, numa vida que pode se revelar uma prisão para a mente, numa malha complexa que acaba por aprisionar tal qual mosca em teia de aranha, num submundo que, antes de se revelar, promete libertar a pessoa que mergulha em tal vida negra e desinteressante, pois não é tão simples assim voltar do submundo, pois voltar ao Mundo traz um terrível “choque térmico”. O cachimbo aqui está apagado, e não produz fumaça. É como um melancólico fim de fogueira, com as últimas faisquinhas remanescentes, numa morte melancólica, numa pessoa que passou meses numa cama de hospital, apagando-se aos pouquinhos, preparando os entes queridos para o inevitável desligamento. O homem aqui está um tanto cansado, um tanto farto. Seu rosto é belo e jovem, e está sentindo a cobrança séria da Vida, a qual exige que sejamos o mais adultos possíveis, como me disse uma inesquecível amiga: “A Vida nos apronta cada uma...”. O homem aqui é jovem, pois não vemos grisalhos no cabelo ou na barba, talvez numa pessoa que ainda tem um longo percurso pela frente, no modo como a inexperiência faz com que não observemos o Mundo do jeito que este é, e existe algo melhor do que ser uma pessoa realista, com os pés no chão? Pobre daquele que acha que pode fugir da seriedade existencial, apesar de ser necessário ter senso de humor, pois aquele que só brinca, nada constrói. Os olhos do homem aqui são negros, e estão mergulhados em uma reflexão, talvez numa pessoa que está sentindo uma certa dureza. A luz branca entra neste cômodo, nas fascinantes pinceladas incertas de Cézanne, libertando a Arte desta ter uma mera função retratista, no escândalo saudabilíssimo que foi a ruptura com a Arte Acadêmica.


Acima, Mulheres se Banhando. As mulheres estão num momento de descanso e intimidade, pois estão confortáveis estando nuas umas na frente das outras. Cézanne aqui é como um voyeur, como se fosse um inescrupuloso paparazzo em busca de fotos que podem lhe render muito dinheiro. O único nu frontal aqui é de uma mulher se espreguiçando, relaxando, com os braços para cima, revelando seios bem voluptuosos, de dar inveja a qualquer mulher siliconada, na busca de eterno aperfeiçoamento em nome da estética, numa pessoa que pode se viçar em cirurgias. Podemos ouvir a conversa, e alguns risos, e podemos ouvir o som de água fluindo, como dentro de um banheiro, num momento que a pessoa tem consigo mesma, fazendo a revigorante higiene. A mulher se espreguiça no gostoso pecadinho da Preguiça, na sensação gloriosa de ficar um pouco mais na cama, adiando um pouco a hora do sacrifício; a hora de sair da deliciosa e acolhedora cama. O cenário aqui é um bosque, um refúgio, um esconderijo, na sensação erótica de se desvendarem enigmas, segredos, como vi certa vez, em um filme, um personagem pernóstico, que dizia que o misterioso mundo das mulheres tem que ser ocultado por um véu branco. As três moças que estão de costas para o espectador querem obter um papel mais sutil e coadjuvante, nunca querendo se expor por completo, num grande recato. É a timidez, no modo como pode ser sensual uma mulher tímida, delicadamente insegura, delicada, fina, uma verdadeira dama, no termo machista: “Bela, recatada e do lar”. Neste quadro, é revelado um padrão de beleza da época, com mulheres carnudas, voluptuosas, bem alimentadas, muito, muito diferente do padrão contemporâneo, com mulheres tão magras que parecem estar em um nível semianoréxico, numa magreza incompreensível, num padrão cruel que faz vítimas, com certas meninas que simplesmente se recusam a comer, num pesadelo: Como pode ser feio um padrão de beleza. As nádegas são dignas de comercial de talquinho para criança, e aqui a nudez não é colocada de forma maliciosa, mas como algo natural, no modo como os franceses lidam de uma forma muito natural em relação a Sexo e Nudez, numa Paris que é o epicentro do Mundo Ocidental, com o majestoso e inesgotável Louvre. Aqui, neste momento de descontração, os cabelos das moças estão soltos, revoltos, sendo lavados, muito longe do recatado momento de interação social, aos olhos dos homens, no momento em que a mulher precisa estar devidamente aprumada e disciplinada, com seus cabelos presos em penteados arrumados, como no footing de antigamente na Rua da Praia, em Porto Alegre, num local e num momento em que as pessoas passeavam devidamente aprumadas, com fotógrafos clicando a juventude arrumada, no modo como cada cidade tem sua “calçada da fama”, locais em que os cidadãos passeiam preocupados com o garbo e a elegância, fazendo metáfora com os salões majestosos metafísicos, numa vida social vibrante, um lugar em que nos damos conta do plano divino para conosco. As mulheres de costas são o mistério, algo irrevelado, no modo como posso secretamente respeitar uma pessoa, sem de fato declarar tal respeito. As moças de costas são a renúncia, talvez numa pessoa que tomou a decisão de cursar a vida religiosa, como uma freira, talvez num espírito que, numa vida anterior, levou uma vida fútil, vazia de significado, no modo como é raro, hoje em dia, alguém querer ser freira ou padre. Aqui, a relva é aconchegante, como numa sala de visitas confortável, cheia de almofadas, na missão de deixar o convidado o mais confortável possível, no modo como, num consultório de Psicoterapia, o paciente tem que estar confortável e “jogar-se nos braços do terapeuta”, numa relação de confiança e intimidade, como duas comadres, que abrem, uma para a outra, todas as gavetas de suas mentes, no modo como dizem que um psicoterapeuta é uma comadre bem paga! Vemos aqui algumas toalhas brancas, na cor da bandeira da Paz, num momento em que a pessoa quer esquecer de todo o estresse.

Referências bibliográficas:

Paul Cézanne. Disponível em: <www.pt.wikipedia.org>. Acesso em: 26 mai. 2020.
Paul Cézanne Obras. Disponível em: <www.google.com>. Acesso em: 26 mai. 2020.