quarta-feira, 8 de maio de 2019

Abts Abstrata



Nascida alemã em 1967, Tomma Abts está radicada em Londres desde 1995. A artista é conhecida por suas pinturas abstratas a óleo, sempre no mesmo formato – 48 por 38 centímetros. Já recebeu dois prêmios importantes – The Paul Hamlyn Award of Visual Arts, em 2004, e o Turner Prize, em 2006. Os textos e análises semióticas a seguir são inteiramente meus. Boa leitura!


Acima, Feke. 2013. Linhas tensas oblíquas lutando umas com as outras, querendo se estabelecer num mundo tão aguerrido e competitivo. O amarelo é doce, suave, numa deliciosa sobremesa que leva baunilha, no termo do filme Céu de Baunilha, na magia dos temperos que deixam a comida tão mais interessante. Há aqui linhas em estampa de xadrez, como as fitas que os policiais colocam para impedir que alguém viole a cena do crime, como num clipe de Lady Gaga, em que esta estava vestida apenas com essas fitas, numa artista talentosa, criativa, transgressora e respeitada, numa pessoa feliz, que é apreciada ainda em vida, ao contrários de artistas que ou foram reconhecidos postumamente, ou, pior, que jamais foram ou serão reconhecidos, no modo como premiar um artista visa expressar reconhecimento – claro que é (muito) doce ganhar um troféu! Aqui, são as cores do deserto do Saara, na cor do Egito, a nação que se ergueu graças às danças sazonais do Nilo, numa manifestação civilizatória em que a Morte é desafiada e o embalsamamento deseja driblar a passagem do tempo e a finitude da carne, pois encarar a Morte é algo muito humano. Aqui, é como uma lição sofisticada de Geometria, no esforço de um aluno em aprender novas lições, no modo como a Vida Escolar e a Vida em geral são caminhadas repletas de desafios, fazendo com que a pessoa cresça e coloque os pezinhos no chão, no sentido de como a Mortificação Psíquica combate as idealizações e combate também o apego a sinais tolos auspiciosos, no modo como é um exercício necessário o combate às idealizações. Neste quadro, não há espaço para curvas tortas orgânicas ou liquidiscentes, no exercício do prático pensamento racional, no modo como a linha reta é o menor trajeto entre dois pontos, havendo na racionalidade uma intenção simplificadora, resumindo a complexidade e trazendo tudo à clara luz do Conhecimento, no modo como a Ciência é altamente universal. As linhas amarelas aqui são como ouro sob uma linda luz de aurora, cobrindo o Mundo de dourado, no modo como o maligno Anel de Tolkien é capaz de produzir uma rainha bela como o alvorecer, nas tentações que o Poder exerce sobre o Ser Humano, sendo este um ser fraco, eternamente agrilhoado a ganhar na loteria, na ilusão de que o dinheiro traz norteamento existencial. Então, o rico se depara com sua própria conta bancária e não se sente feliz como deveria estar se sentindo. Então, deságua nas drogas, por exemplo. É o vazio produzido pela grana. Quase ao centro do quadro, vemos um polígono um tanto sujo por tons de cinza, como um fechado dia cinzento de Inverno, como diz Djavan: “Um dia frio, um bom lugar para ler um livro”. É a nesga de incerteza, nesga que nunca poderá ser neutralizada durante a Encarnação. É a sujeirinha residual que jamais poderá ser totalmente limpa, na faxina que é o Desencarne, quando a pessoa deixa para trás tudo o que é mundano e material, como sexo, classe social ou raça, no fato de que os espíritos são, realmente, iguais perante Tao, o grande juiz que rege este eterno jogo, no modo de que a vida é luta, havendo no falo de São Jorge a força racional que derrota a Malícia e a Inutilidade. Aqui, as linhas estão dançando, em movimento, num corpo dinâmico e inquieto, em que tudo é processo, tudo é transformação, tudo é estrada que se ruma, pois pobre daquele que acha que nada mais precisa aprender, como nos narcisistas, que se consideram simplesmente perfeitos. No polígono aqui analisado, Luz e Escuridão travam uma batalha, como na batalha pelo controle do famoso Castelo de Grayskull de He-Man, o Castelo da Caveira Cinza, que assim se chama porque pode tanto ser do Bem quanto do Mal, na liberdade que o Ser Humano tem em optar entre o Bem e o Mal, no modo de que Deus não inventa o Mal; o Ser Humano inventa o Mal.


Acima, Fimme. 2013. Um avassalador furacão, um redemoinho, uma galáxia girando em torno do Nada, de um Buraco Negro, como água correndo abaixo em um ralo de pia, nos mistérios que regem o funcionamento do Universo, num Ser Humano ainda tosco e ignorante, cercado por um Cosmos ainda a ser descoberto e explorado, no sentido de que a Humanidade é ainda um feto. É como o movimento circular de algo num liquidificador, com toda uma demanda sendo exercida, num artista capaz de causar comoção e, ainda assim, ficar estável no olho do furacão, observando o Mundo com calma e ponderação, no poder da Arte em causar comoções planetárias, como um recente filme de super-heróis da Marvel. É a tentativa humana em imitar as forças da Natureza, como tribos neolíticas que enxergavam deuses em tudo – na água, na terra, no ar, na chuva etc. A grande intenção do artista é jamais passar despercebido, sendo doloroso o ônus de um artista que se sente ignorado, desprezado e desconsiderado, na dor de uma pessoa que, apesar de ter potencial, acha-se muito desimportante, numa dor existencial que faz com que a pessoa comum olhe para os grandes e sinta um pouco de inveja, até raiva. Aqui, temos um capcioso jogo de listras, como um sorvete de máquina visto de cima, no perfume doce um bar bonito, cheio de gente bonita, numa agenda social exuberante e invejável, na vida social indescritível da Dimensão Metafísica. Aqui, as listras fazem uma dança, e linhas retas casam com linhas tortuosas, havendo aqui muitas arestas prontas para ser aparadas, no modo como as dores da Encarnação surgem para que a mortificação espiritual apare tais arestas, tais espinhos, no caminho de depuração moral, pois só os seres de apuro moral fazem a diferença no Mundo, deixando aos impuros a dívida de, no frigir dos ovos, ser desinteressantes. Neste quadro, há um claro centro gravitacional, num ponto mínimo, invisível, que é Tao, o grande centro gravitacional que acaba atraindo tudo para si, como um patriarca agregador, que tem gosto em reunir toda a família numa noite de Natal, com as crianças abrindo seus presentes, no poder agregador que tem a Arte, numa forma de pensamento humano capaz de unir as pessoas em torno de algo, como uma plateia em uma sala de Cinema, num momento de comunhão, em que todos riem da mesma piada. As formas retilíneas aqui lembram o formato de uma estrela, com suas pontas agressivas que impõem respeito, exigindo que a observemos a uma certa distância. É o modo humano de metaforizar as estrelas no céu noturno, fazendo destas um símbolo de pessoas de inteligência brilhante, pessoas que simplesmente nasceram sabendo brilhar. Esse é o grande sonho de um artista – ser uma estrela, num corpo celeste belo e fino como cristal, na missão de guiar os navegadores e virar uma lenda, fazendo de sua passagem pela Terra um momento célebre: “Por favor, lembrem de mim”, diz o artista, sendo insuportável ser ignorado. Aqui, há um lugar vibrante, com muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo, e parece que as linhas não giram em uma só direção, mas em direções diferentes, no modo como no Mundo há toda uma diversidade de pensamento, com cada pessoa acreditando no que quiser acreditar, sendo fundamental o respeito mútuo – quando este se perde, vem a Guerra, a lamentável Guerra. É o esforço diplomático em nome da harmonia entre tribos, vizinhos e povos, e a pessoa sábia jamais perturbará tal silêncio de equilíbrio. Aqui, as listras contrastantes chamam a atenção, como na elegância de uma roupa listrada, no perfume de uma pessoa que sabe que beleza vem de dentro, no exercício da virtude, numa pessoa de conduta sempre pacata, na metáfora entre Clark Kent e Super-Homem – seja da Paz e serás um deus. Aqui, é como um complexo jogo de origami, num trabalho de muita paciência e dedicação, fazendo da Arte e do Artesanato a tentativa humana em ver beleza e ordem em um lugar tão duro e caótico como a Dimensão Material.


Acima, Inte. 2013. Este quadro, na época em que foi concebido, segue uma forte tendência de Design do momento então – linhas tensas oblíquas, numa tendência facilmente observável em programas de TV e em campanhas publicitárias no Mundo todo. São como leques sendo abertos, ventilando a mente do espectador, o qual sempre espera que o artista traga o frescor de novidade, exigindo que o artista seja original e criativo, não havendo muito respeito àqueles que trilham caminhos já trilhados por outros artistas. Aqui, os leques abrem e fecham, como nos pântanos do videogame Pitfall, dos anos 80, em que lagos inflavam e diminuíam, fazendo o jogador ter que passar no exato momento de secura. São como pulmões respirando, como uma sanfona respirando e produzindo som, como no claro talento do gaúcho Borghettinho. Os leques são as opções da Vida em Sociedade, numa gama de cursos sendo oferecidos por instituições de Educação, na Liberdade de Escolha, sagrada Liberdade, na qual o indivíduo se torna dono e senhor da própria vida, dos próprios acertos e dos próprios erros, num sentido de responsabilidade, num mundo em que a pessoa pertence a si mesma, como no contraste ideológico entre as Coréias, sendo a do Sul um subconjunto do Liberalismo. Aqui, as linhas rubras são como as lapidações de uma joia, num jogo complexo de superfícies reflexivas, na magia de uma peça de cristal, dividindo a Luz e produzindo o arcoíris. São veias e artérias retilíneas, como se fosse a releitura gráfica de canais tortuosos como galhos de árvore. Aqui, são uma espécie de veias retas. Vemos aqui um pouco de Art Decó, como na majestosa galeria portenha do Teatro Piazzola, havendo em cada momento mundial uma tendência gráfica, dando o sentimento de união universal em torno de uma mesma apreciação. As linhas partem de um ponto principal, como uma grande metrópole que recebe muitos voos diários de ida e volta a muitos cantos do Mundo, numa grande demanda urbana, com centros de aglomeração, dos quais partem estradas que vão aos quatro cantos de um reino, numa hierarquia entre cidades – a mais pujante é a principal. É como os raios de uma supernova explodindo, espalhando-se por todas as direções, nos inúmeros espetáculos cósmicos, dos quais pouco podem se ver da Terra. Além disso tudo, temos, de forma discreta no quadro, linhas um aspecto acetinado, na sedução de uma cama de lençóis de cetim, num momento romântico entre namorados, no modo em que, apesar de românticos, tais lençóis não podem ser meros sinais auspiciosos, tendo que existir muito respeito e consideração entre o casal de enamorados – fins de semana em Gramado são muito românticos, mas a Vida não é só fim de semana; a Vida não é só Gramado. Estas linhas são os raios emanando do disco solar Áton, a primeira divindade monoteísta da História, agredindo as velhas tradições politeístas egípcias da Antiguidade. É como um pensamento emanando em várias direções, tentando compreender o que há ao redor, como um supertelescópio, mirando em várias direções e buscando fotografar o Universo, na impossível tarefa de mapear o Cosmos inteiro. Na base deste quadro, há um discreto tom de cinza, como nas cinzas vestigiais de uma lareira que amanheceu apagada, exigindo que seja feita a rotineira limpeza, como nas cinzas de um cigarro, as quais, em amarga ironia, ficam tragando a saúde do fumante. O cinza é a cor da discrição, do resguardo, da dúvida existencial em uma dia nem muito claro, nem muito escuro, na dúvida de que se há algo nos esperando após o inevitável Desencarne. Aqui, é o jogo sofisticado de uma sala de espelhos, com seus lúdicos jogos traiçoeiros, deixando o espectador atordoado e encantado, hipnotizado. É como o ditado “Todos os caminhos levam a Roma”, ou seja, tudo leva a Tao, e, na prática, tudo fica reduzido a Amor, na mensagem de Jesus, que deletou de Deus a imagem de patriarca rígido e desconfiado. Aqui, são asas que levantam voo na missão de elevar as mentes humanas, fazendo da Arte um dos principais indícios civilizatórios, como na depuração de uma boa escultura grega antiga.


Acima, Jeels. 2013. Essas linhas curvas lembram o feitio do velho e bom disco LP, formando uma grande espiral, que vai da borda ao centro, como um predador cauteloso, que vai se aproximando da vítima, a passos de bebê, com muita paciência e pertinência, num processo de crescimento gradual e suave, como na construção da carreira de um político, o qual se torna vereador, depois deputado estadual, depois deputado federal etc. É o termo “comer pelas bordas”, numa obsessão persistente. É como os anéis de Saturno, nas forças gravitacionais que regem o Universo. É como as órbitas de um sistema solar, com o grande astro ao centro e, ao seu redor, vários planetas, planetóides e meteoros, na força gravitacional de Tao, o qual, em sua eterna humildade, sempre se posiciona na posição mais inferior e subestimada, acabando sempre por atrair tudo e todos para si, assim como deve ser um artista, uma pessoa sempre subestimada, sempre apenas um coadjuvante, numa pessoa que surpreende todos ao chegar numa posição à qual parecia que jamais alcançaria, na questão do poder ou não poder ser visto chegando – aquele que pode ser visto, em sua pretensão, acaba escravo das expectativas de outrem. É como as ondas sonoras brotando de um pinguinho n’água, espalhando suas ondas de perturbação, como uma antena de rádio, espalhando suas ondas para os aparelhos dos ouvintes, num serviço de distribuição, como é Tao, o Grande Distribuidor, a força generosa que nutre a todos, como numa ninhada, na qual nenhum filhote passa fome, na grande família metafísica, à qual todos pertencemos, sem preconceitos de cor, raça, sexo, classe social etc., nas intenções democráticas, que buscam igualar os cidadãos. É uma hierarquia, havendo no centro o posto mais alto, estendendo-se às várias camadas secundárias, terciárias etc., no sentido de que, por mais humilde que for uma posição, nada nem ninguém é pequeno o suficiente para desmerecer a total atenção de Tao. São como pistas de uma corrida, ou pistas de uma arena de Atletismo, no eterno gosto humano pela competição, para que seja eleito o melhor, fazendo deste um representante de Tao na Terra, na doçura da vitória. Quebrando essas sensuais linhas tortas, como curvas em uma estrada, vemos linhas retas, cheias de arestas, como foi na moda nos anos 80, um momento em que o termo “chocante” entrou em voga, numa estética de raios de eletricidade, nas vogues estilísticas que vêm a vão, dando a tônica de cada momento, cada época. Então temos aqui um diálogo entre Feminino, que é o orgânico, e Masculino, que é o racional. Essas linhas retas são como um vidro sendo estilhaçado, no modo como, na Dimensão Material, tudo está fadado à danação, à ruína, como na Gastronomia, uma arte feita para ser destruída. O fundo do quadro é de um cinza claro, num dia ligeiramente triste, fazendo com que a pessoa pense em um dia ensolarado, como nas cidades metafísicas, onde o Sol sempre brilha majestosamente, mas nunca ferindo as vistas... É como as famosas vinhetas de Hans Donner, da Globo, num designer que deu, por tanto tempo, a tônica televisiva brasileira, como em aberturas do Fantástico. Essas curvas de Tomma Abts são como uma pirâmide circular, havendo no topo o cume, o auge, o sucesso pelo qual todos trabalham e visam obter, num sucesso que, quando é alcançado, torna-se um problema, pois a pessoa bem-sucedida tem o desejo de se manter para sempre em tal momento doce. Mas, o fato é que a Vida é página que se vira, sempre, seja uma página doce, seja uma página amarga, no modo como há tantos artistas que simplesmente não sobreviveram a determinadas épocas, num desperdício de talento. E por que o disco de LP funciona? Porque ele é vazio no centro, e Tao é isso, o vazio, o nada, o metafísico, o pensamento, na riqueza dos pensamentos que Jesus distribuiu em vida, numa concepção revolucionária a qual está ainda, hoje, em andamento. É como um frisbie sendo jogado. É como uma cidade que foi sendo construída a partir do centro. É como uma pessoa centrada, feliz o suficiente para encontrar um norte, um centro para a Vida. E não é ruim uma vida que não está centrada? Curvas como impressões digitais.


Acima, Weie. 2017. Laços de pacotes de presente, como ouvi certa vez de alguém que viu que, na distribuição de presentes natalinos, as crianças se divertindo mais com as fitas dos pacotes do que com os presentes em si, no modo como o Ser Humano adulto tem muito o que aprender com as crianças, na simplicidade destas. É um belo pacote natalino sendo aberto e deflorado, no prazer da violação, da descoberta, de ver algo que está oculto. É a magia de um aniversário, com convidados chegando com seus presentes nas mãos, buscando fazer uma homenagem ao aniversariante, havendo em tais festas uma espécie de ritual, num momento em que a pessoa está mais próxima do Desencarne, numa espécie de lenta contagem regressiva, no modo como, no fundo, todos ansiamos pelo Desencarne, mas, ao mesmo tempo, todos temos que encontrar a Harmonia, ainda enquanto encarnados. São fitas acetinadas, suaves ao toque, como pele de bebê, numa pele perfeita, sem poros, sem rugas, sem marcas de expressão, no modo como uma pessoa bela, cuja beleza vem de dentro, é bela em qualquer época da Vida. O fundo do quadro é de cor vinho, na magia da transubstanciação da missa, momento em que o vinho se torna o sangue de Jesus, no nobre sangue estelar que nos une a todos, havendo nas dinastias mundanas uma mera cópia (tosca) da nobreza espiritual, no modo como uma fotocópia é a cópia grosseira de uma fotografia colorida, no sentido de que a Encarnação é um vidro muito opaco, sendo difícil ao encarnado observar com clareza o Metafísico. Este fundo de quadro é terroso, como vi certa vez um desfile de Moda, no qual a passarela era toda coberta de terra, como em ...E o Vento Levou, na cena em que o pai de Scarlet diz a esta que o maior investimento que pode ser feito é a terra, num Ser Humano que não se dá conta de que, mesmo que lentamente, tudo perece na Matéria, no grande piadista que é Tao, na necessidade da pessoa adquirir senso de humor. Essas fitas caem suavemente pela cena, como os laços de família, os quais sobrevivem à Morte, no modo como o Amor é eterno, como um presente de altíssima e imbatível qualidade, como um material nobre, que perdura por eras, como a universalidade do Ouro, o metal que faz metáfora (poderosa) com a glória da Eternidade, e esta é o maior presente que pode ser dado – tente imaginar que você nunca acabará. Não é poder incrível e imenso? Esses são os laços que unem os Seres Humanos, no constante esforço do padre ao púlpito, sempre querendo nos recordar de que somos iguais perante Tao, e de que somos todos filhos legítimos, numa família na qual simplesmente não existem bastardos. Essas fitas se desenrolam como estradas sinuosas, num país rico e desenvolvido, numa cidade muito limpa e bem administrada, tornando-se modelo para qualquer cidade sobre a face da Terra. São estradas de diferentes pessoas, e estradas que se interligam, passando umas pelas outras, como amigos verdadeiros, em amizades nobres que a passagem do Tempo jamais deletará, pois só o que é nobre não perece, na constante luta humana em entender a Virtude, entender Tao, entender Nobreza, nos presentes metafísicos que têm o poder enigmático do Eterno, na ilusão de que um diamante físico durará para sempre. Essas fitas exigem cuidado ao serem manuseadas, pois podem cortar e ferir, no modo como é necessária a delicadeza diplomática para primar sempre pela harmonia entre nações vizinhas, no poder de Tao, o Grande Diplomata que mantém o Universo unido. Essas fitas são leves, e qualquer sopro pode fazê-las voar para longe, no frescor de um dia ensolarado, como numa sala de estar ao ar livre, numa vista bela como a de uma cidade serrana. É o delicado que se impõe ao bruto, fazendo da delicadeza pacífica a verdadeira força titânica que rege o Mundo, como diz Tao: “Forte é fraco; fraco é forte”, no esforço de discernimento, fazendo do Cavalheirismo a verdadeira virilidade; fazendo da Brutalidade algo desprezível. É o prazer de se deparar com uma pessoa cordial e alto astral.

Referências bibliográficas:

Tomma Abts. Disponível em <www.artic.edu/exhibitions/2824/tomma-abts>. Acesso 1 mai. 2019.
Tomma Abts. Disponível em <www.es.wikipedia.org>. Acesso 1 mai. 2019.
Tomma Abts. Disponível em <www.pt.wikipedia.org>. Acesso 1 mai. 2019.

quarta-feira, 1 de maio de 2019

Devoção à Arte



O belga Paul Devaux (1897 – 1994) estudou Arte em Bruxelas e também lecionou. Tem um viés surrealista. Infelizmente, sofreu uma progressiva perda de visão e só pode pintar até o ano de 1986. Sua obra é rica e vasta. Os textos e análises semióticas a seguir são inteiramente meus. Boa leitura!


Acima, As Passantes. 1947. A Lua aqui simboliza a Feminilidade, com seus ciclos menstruais de dor e fertilidade, no modo como deve ser difícil ser mulher. É uma cena banhada sensualmente pelo luar, numa claridade dúbia e misteriosa, e fascinante, na magia de uma noite amena e enluarada, perfeita para namorar. A Lua aqui é cheia, abundante, completa, como um ventre fertilizado, trazendo Vida ao Mundo. É um quadro que simboliza todo um erotismo feminino, uma identidade feminina, até insinuando homossexualidade, no modo como muitos homens se sentem extremamente excitados em ver filmes pornôs de duas mulheres transando. O Céu é limpo, num discreto azul marinho, num mar plácido e doce, num verdadeiro paraíso, num lugar agradável. Podem ouvir o som de grilinhos, dando a trilha sonora para esta noite perfeita. A pele das mulheres é alva como a Lua, formando com esta um continuum de beleza e pureza. A Arquitetura é clássica, num Devaux com um pé no tradicional e outro pé no pós-moderno. Bem ao fundo na cena, vemos uma mulher destoante, pois esta está completamente vestida, recatada, como uma noiva entrando na igreja, na sua pureza virginal, no modo como a Sociedade simplesmente não permita que a mulher tenha experiência sexual, nem prazer sexual – a Sexualidade Feminina é tolhida sempre. Neste quadro de Devaux temos uma libertação, fazendo da Arte uma chave que desbrava terrenos preconceituosos, fazendo com que a Arte imponha uma saudável transgressão, empenhando-se em causar evolução cultural nos núcleos sociais. São mulheres belas e aristocráticas, e temos a impressão de que não poderíamos estar as vendo, num momento de reserva, com as mulheres confortáveis em sua própria nudez, jamais imaginando que estão sendo vigiadas por legiões de espectadores. Suas vulvas são recatadas, nunca descobertas totalmente, como se as mulheres estivessem relutando em se despir completamente. Seus seios estão lactantes, cheios de nutrição, amamentando as crianças, no prazer que um adulto (como eu) tem em chupar um caixinha de leite condensado! O chão aqui é irregular e pedregoso, difícil, e não é lisinho como a pele das moças retratadas. É o chão da Vida, desdobrando-se em todas as suas vicissitudes, suas dificuldades, suas asperezas, no modo taoista de quer que “fácil” e “difícil” são faces do mesmo trabalho. Desde sempre a Lua encantou o Homem, ao ponto deste querer pisar nela de fato. É o desbravamento, a descoberta desvirginizante, nas pegadas do astronauta em solo lunar, deixando uma mácula, no agressivo termo “hit”, que denota filmes ou canções que se tornaram grandes sucessos de popularidade – o termo quer dizer “agredir”. Ou seja, é o falo excitado querendo desbravar os mistérios enluarados da Feminilidade, num jogo de sedução. Vemos na cena pilares clássicos fortes ao ponto de poder sustentar um templo pagão grego, no modo como a Arte pode se tornar um forte pilar que alimenta a Sociedade, nas comoções que certos artistas sabem causar, fazendo da Arte um “terremoto” implacável. Ao fundo vemos uma mulher deitada num divã, talvez num divã de consultório psiquiátrico, abrindo sua mente ao terapeuta e deixando este fazer um diagnóstico preciso, na frieza racional da Medicina, fazendo metáfora com a construção técnica do espírito. A mulher repousa, banhada pela Lua, como me lembro certa vez de ter acordado no meio da noite ver a Lua me banhando na cama. Há postes de luz acesos, mas não são páreo para a luz do satélite, o qual nada mais é do que um espelho que reflete a luz solar, no modo como o espelho é símbolo de Feminilidade, de beleza e dos demais atributos femininos. A limpeza do Céu é a limpeza de Tao, o inventor de tudo. E as mulheres aqui têm semblante sério e plácido, parecendo conversar calmamente, nos mistérios femininos cobertos por um misterioso véu opaco, no modo como não se pode prever tudo na Vida.


Acima, Eis o Homem. 1949. Devaux gosta muito de esqueletos. Eles são a finitude, o fato de que todos temos dentro de nós mesmos uma bomba relógio que, cedo ou tarde, explodirá. Os esqueletos são a natureza finita de nossa passagem pela Terra, num Devaux empenhando em fazer valer o tempo que lhe foi dado aqui no Mundo, no modo como são infelizes aqueles que não colocam sua inteligência a serviço do Mundo. Temos aqui um Jesus sendo retirado morto da Cruz, e todos os seres humanos aqui estão igualados, no fato de, como diz exaustivamente o padre na missa, somos todos irmãos, sangue do mesmo sangue, seres provenientes da Imaculada Conceição de Tao, ou seja, todos temos sangue nobre, muito nobre, extremamente nobre, o que há de nobre. Mas infelizmente continuamos a viver num Mundo muito desigual, no modo como são nobres as primordiais intenções marxistas – mas nunca ouvimos falar que de boas intenções o Inferno está cheio? Aqui é uma cena noturna, escura, fazendo contraste com o manto alvo que envolve Jesus. Aqui não vemos uma gota de sangue, no modo metafísico de rechaçar a natureza física de tudo em volta. A Cruz está bem no meio do quadro, no modo como Cristo dividiu em duas a História da Humanidade, trazendo conceitos inéditos, os quais estão até hoje sendo assimilados pela Humanidade, num legado que ecoa no decorrer dos milênios, numa força nunca antes vista no Mundo. Esta cena mostra como o Ser Humano é patético, e mostra a bobagem que foi condenar e executar Jesus, nosso irmão, nosso igual, um espírito cheio de Amor, pois, no fim do resumo de tudo, tudo se resume a Amor, como um profissional, por exemplo, que tem extremo cuidado com o próprio trabalho, como um Tao atencioso, criando o Ser Humano, pois nada é desimportante ao ponto de não merecer a atenção total de Tao, no mistério da Onipresença; no mistério de que Tao existe desde sempre, pois, como diz o Espiritismo, Deus é o infinito: imagine que você nunca findará. É muito poder, é muito enigma. A Eternidade é o maior presente que pode existir, e só pode ser dada por um ser eterno, é claro. A parte superior do quadro tem cor preta, cor do luto, da tristeza, da Morte, no modo como os católicos e espíritas veem a Morte de formas diferentes: aqueles veem a Morte de forma trágica e horrorosa; já, estes, de forma mais natural, crendo que a Mente sobrevive ao óbito. Aqui, os esqueletinhos são todos irmãos, no modo como anjos, os espíritos de Bem, unem-se ao redor de um irmão que precisa de auxílio e ajuda, no modo como absolutamente ninguém fica sem um Anjo da Guarda – é uma lei. O manto branco faz contraste com uma cena tão escura e fechada, e é a Paz, a limpeza de Tao, na absoluta limpeza das cidades espirituais, que são modelo para a construção das cidades da Terra. É como uma planta artificial tentando ser como uma planta de verdade – é só uma imitação. Os esqueletos tiveram sua carne sendo devorada, como cristãos perseguidos na Roma Antiga, devorados por famintos leões no Coliseu, na eterna e cruel insensibilidade do Ser Humano. Outros esqueletos estão com mantos em tons de azul e roxo, em harmonia com o céu noturno de azul fechado. É uma noite triste, sem Lua ou estrelas. A cidade ao fundo está vazia e quieta, e a cena é onírica, como produto de uma mente que está dormente. É um quadro que clama por Igualdade, nos ideais da Revolução Francesa. Os esqueletos fazem metáfora com o Desencarne, como se a carne fosse o corpo físico e como se os ossos fossem o espírito, numa espécie de sobrevivência após uma hecatombe nuclear, como uma pessoa guerreira, que não para de lutar pela Vida, sempre abraçando uma nova etapa, sempre lutando para se manter estável, como um artista que sabe que tem que virar a página e seguir produzindo, num artista que sabe que, se parar, desaparecerá, no fato de que a gurizada nova vem vindo por aí, na lição jovial de que não existe, de fato, aposentadoria. Aqui, é uma cena teatral, e o vento circula livremente pelas brechas dos esqueletos, como Tao, a brisa renovadora.


Acima, Fases da Lua. 1939. A mulher nua está embrulhada como presente, num laço rubro, da cor da menstruação e da Guerra. O laço a oprime, fazendo dela um mero objeto sexual, no modo como Eva trouxe desestabilização a Adão. Ela está numa varanda, absolutamente exposta, como se fosse um produto numa vitrine, como uma moça infeliz que foi obrigada a contrair um casamento arranjado, na dureza das políticas humanas. À esquerda, dois homens que parecem dois médicos, como se estivessem avaliando a mulher, na imposição científica aos mistérios da Carne, na tentativa humana de impor ordem ao caos. Podemos ouvir o cochicho de um homem falando com o outro, num plano machista excludente, no qual uma mulher jamais pode ter controle sobre si mesma, passando diretamente das mãos do pai para as mãos do marido, como na eterna polêmica cercando a questão do Aborto, numa sociedade em que a mulher não pode ser livre nem para decidir sobre o próprio corpo. Os senhores estão sérios, discretos, falando sobre algo que não deve chegar aos ouvidos da mulher regalo, a qual é um puro objeto. Ao lado dos senhores, uma tosca caixa de madeira que sustenta uma forma misteriosa, talvez uma rocha, talvez a formação rochosa em Marte, em forma de face humana, que tanto instigou cientistas por tanto tempo. E o laço da mulher é como um opressor espartilho, sufocando e castrando a mulher, na típica crueldade do Patriarcado. No topo da cena, a Lua feminina, redonda como uma barriga de grávida, pronta para exercer o parto, o qual simboliza todo o poder feminino – trazer Vida ao Mundo. A Lua dança pelo Céu num ritmo só seu, diferente do linear Sol, o qual é o mesmo todos os dias. É o ritmo cósmico que rege os ciclos de Vida, no termo “mulher de fases”, na inconstância feminina, nos mistérios da Natureza, mistérios eternamente indesvendáveis. Ao fundo na cena, vemos picos rochosos, como na forma do seio feminino, numa terra virgem, pronta para ser desvendada pelas luzes racionais da Ciência. A Terra é a carne, com sua lentíssima dança através das eras geológicas, unindo e separando continentes que, hoje, parecem ser imóveis, e esta é a ilusão da Natureza – parecer que nada muda. Mas muda, só que a nível psíquico, como, por exemplo, não mudam as cidades espirituais, numa imutável referência de acolhimento incondicional, havendo uma hierarquia interdimensional – Mente acima da Carne. Este quadro tem uma certa perspectiva, e mais ao fundo vemos um homem guiando um grupo de mulheres grávidas, como deusas de fertilidade, como uma etérea Angelina Jolie grávida. Como é linda a mulher! O grupo feminino está sendo guiado por um homem, um patriarca, e as mulheres se sentem protegidas e respaldadas, muito bem guiadas, como por um motorista de ônibus. Mais atrás, uma plantação, a fertilidade da Terra, a fertilidade criativa que nos traz alimentos, traz-nos Vida, abundância, cornucópia, como numa farta mesa de banquete de realeza, como numa mesa de galeteria, num imigrante italiano que, ao recém vir ao Brasil, levou uma vida tão dura que acabou firmando o molde cultural da mesa farta, a qual era o sonho de um imigrante pobre agricultor. Esta cena está numa penumbra, e o Sol aqui não reina soberano, mas deixa espaço para a feminina Lua reinar em sua dança cíclica e rítmica, na magia de um tambor, uma bateria ou uma percussão, tentativas humanas de compreender a complexa rede rítmica que une o Cosmos. A mulher embrulhada para presente se senta em uma majestosa cadeira dourada, como se fosse a Rainha do Mundo, como no arrebatador carisma de uma Diana, espalhando-se de forma mágica no imaginário coletivo, numa pessoa autodidata, que soube aprender a brilhar, ofuscando tanta gente. As mulheres estão nuas, puras, como vieram ao Mundo, no modo como a Ciência busca despir os mistérios, havendo na nudez a simplicidade, a beleza das puras ações de Tao, o limpo. Podemos ouvir um grilinho cantando, dando a melodia misteriosa de um lugar mágico e exótico.


Acima, O Esqueleto tem a Concha. 1944. A concha é o hálito marinho urinário da Grande Mãe Mar, como no cheiro de Mar que senti na Feira do Peixe Vivo, antes da Páscoa. O esqueleto está se agachando para catar a pequena relíquia, na minha memória de infância em Jurerê, SC, quando minha avó me presenteou com uma concha que ela achara na orla. É o cheio de Iemanjá, embalando o sono liquidiscente de seus filhos do Mar, no encanto da canção de ninar que nos acalma e faz-nos relaxar, na sensação deliciosa de libertação orgasmática que é a impecável limpeza de Tao. A arquitetura aqui é clássica, numa perspectiva renascentista, numa cena plácida, ensolarada e deliciosa, como numa deliciosa tarde de sesta, na sedução de Morfeu, os braços em que nos entregamos e desencarnamos, acordando em uma cama com lençóis suavemente perfumados, preparando-nos para o alegre reencontro com entes queridos já falecidos, numa verdadeira festa de recepção. O outro esqueletinho está num majestoso divã, como uma Cleópatra, e os esqueletos não sabem nos dizer se são macho ou fêmea, na igualdade de gênero, num eleitor assexuado que vai votar sem precisar ser cromossomo XX ou XY. É a ausência de sexo dos anjos, seres andróginos, como os belos elfos de Tolkien, numa raça superior, que gravita acima das picuinhas humanas. No chão aqui, há um enorme círculo, que representa a centralização, o equilíbrio, numa vida centrada no trabalho, no modo como é feliz um artista que é reconhecido ainda em vida, produzindo abundantemente em seu atelier. O chão é a referência, o Norte, e qualquer pessoa tem que viver com os pés no chão, colocando a cabeça no lugar e enfrentando a Vida, sem querer fugir desta. O chão aqui está impecavelmente limpo, como o interior uterino, no útero imaculado, virgem e intocado, apenas tocado pela Mão Divina, a qual é impecavelmente limpa, no modo como a Vida em Sociedade ruiria sem o serviço dos garis. A concha parece ser feita de ossos, como os esqueletinhos, e estes são o lembrete de que a carne perece cedo ou tarde, só estando o imaterial, o pensamento, a mente, o espírito. A concha é sedutora como uma sereia, no blockbuster dos anos 80 Splash – Uma Sereia em Minha Vida. É como os antigos navegadores acreditavam que havia feras horrorosas à espreita nos oceanos, e que, num certo ponto, os oceanos acabavam e caíam como uma cascata indo para o nada, para um abismo, ceifando as vidas dos navegadores, no modo como as percepções humanas estão em constante processo de aprimoramento, fazendo da Ciência algo absolutamente universal, como a Arte, no fato de que uma paciente com Câncer receberá o mesmo tratamento em um hospital do Brasil, Israel, Japão ou EUA. A finitude existencial une os Seres Humanos, o Reino dos Céus também é universal, pois o espírito é espírito em qualquer lugar, ou seja, a polidez diplomática é o que há de nobre e essencial, pois o bom diplomata sabe que deve existir Igualdade – como são toscos os xenófobos! O dia está claro, e podemos ouvir uma brisa muito suave soprando, num dia de clima ameno e ideal, delicioso. As colunas grecoclássicas são o suporte, a força de caráter, a solidez de um homem de palavra, que honra com os compromissos, num homem que sabe se usar o poder para o Mal, perderá tal poder, no modo como o homem honesto sabe que, se não usar o poder para bobagens, permanecerá com este mesmo poder. As colunas são as colunas vertebrais dos esqueletos, e são o cerne, o nervo, o falo de obelisco que eleva os pensamentos humanos, fazendo com que as pessoas sonhem e produzam abundantemente, no modo como um líder linkado a Tao é um líder honesto, que recebe a confiança do Povo, numa relação de confiança, no modo como os líderes que mentem são rechaçados e desprezados. Mais acima vemos uma parte de uma grande abóbada, que é a cabeça, a Mente, aquilo que guia um artista a produzir. Esses esqueletos remetem aos esqueletos de uma cena do filme antigo Fúria de Titãs, em que os esqueletos saíam de sua covas e lutavam com espadas. É o vilão Esqueleto de He-Man, num bandido cujo caráter foi corroído, só lhe restando uma miserável carcaça. É o Umbral.


Acima, Tributo a Julio Verne. 1971. Parece a famosa Rua Coberta, de Gramado, uma via agregadora, que seduz os turistas num poder gravitacional, poder este próprio de grandes centros turísticos. Paul Devaux adora perspectivas, talvez num certo talento para a Arquitetura. Há o nu frontal de uma menina e um menino, na representação de Yin e Yang, com as forças opostas que regem o Universo. A menina veste flores rubras na cabeça, simbolizando a Feminilidade, a exuberância da Natureza, com flores explodindo em cor na Primavera, na força reprodutiva da Natureza, numa estação em que a reprodução pode e deve acontecer, pois, do contrário, a Vida na Terra cessaria. Bem ao fundo vemos uma grande nau, talvez um navegador português ou espanhol, pronto para pisar em devolutas terras americanas selvagens, num choque que veio a aniquilar as populações indígenas no continente todo, no poder destrutivo do Ser Humano, um ser ambicioso que é expert em estupidez, como na Escravatura, por exemplo. A menina segura um véu, talvez o puro véu de noiva, preparando-se para entrar na Igreja, revelando-se ao Mundo como uma Vênus de Botticelli, sendo revelada, com seus mistérios sendo elucidados, na beleza da Terra da Estrela da Manhã, a terra misteriosa e maravilhosa que nos aguarda... O Mar ao fundo é absolutamente plácido e estável, inerte, como um espelho, numa água morna e doce, como um chá delicioso, nos encantos de uma terra na qual cessam as vicissitudes da Matéria. Vemos outro menino nu, só que de costas para o espectador, e este menino é o resguardo, a discrição, num artista reservado, querendo ocultar do Mundo grande parte da própria Vida, na virtude discreta, como se soubesse que há perigo para os indiscretos, para o showman. O Mar sereno é a Sabedoria, num homem que envelheceu e aprendeu sobre a Vida. Na extrema direita, vemos um senhor de óculos, discreto, e representa o olho clínico e racional, num artista olhando para si mesmo e pintando, em catarse, partes do próprio self, de si mesmo, numa externalização, uma expressão, visando curar certas feridas internas, olhando para si mesmo sob a luz do dia, do esclarecimento. Mais à esquerda, duas senhoras recatadamente vestidas, fazendo contraste com a nudez, talvez numa sociedade puritana a qual tem dificuldade em lidar com Sexo e Nudez. Essas damas são o garbo, a elegância, o aprumo, numa pessoa com autoestima, que se arruma na hora de sair de casa, no exercício do “gostar de si mesmo”, pois não é feliz aquele que se aceita e se acha legal, sem narcisismos? Aqui vemos uma cena urbana de uma cidade muito limpa e bonita, elegante. Os prédios são garbosos e a iluminação artificial funciona perfeitamente. Ao lado das senhoras, vemos uma palmeira tremulando em meio a tal brisa paradisíaca, na sedução do gentil farfalhar de folhas numa noite enluarada de Verão. É o enigma de prazer que envolve o Metafísico, um lugar onde existe o Sensual, mas não o Sexual. À frente da palmeira, outro senhor de óculos, que parece estar olhando para as mensagens no celular, numa certa dificuldade em enxergar, no modo como é difícil prever o Futuro, cabendo ao Homem prever apenas uma fração de tal Futuro, no divertido mistério da existência. Quase ao centro da cena vemos outro senhor vestido, olhando maravilhado para a menina nua, e podemos ouvir a canção Garota de Ipanema, cultuando a beleza feminina, numa canção que se tornou fenômeno mundial de popularidade. Nesta cena, não existe exatamente um centro, um nervo, e todos os elementos competem pela supremacia, num artista querendo encontrar a si mesmo. É o empenho surrealista em elucidar os mistérios oníricos do Inconsciente, buscando iluminar, por meio da Arte, frações do Id, a misteriosa instância instintiva, no modo como não há livro ou faculdade que ensine a pessoa a brilhar. O chão tem formatos de cataventos, no ar que exala da inspiração, sempre ventilando a mente do espectador, estando este permanentemente sedento pela produção de um artista.

Referências bibliográficas:

Paul Devaux. Disponível em <www.pt.wikipedia.org>. Acesso 24 abr. 2019.
Paul Devaux Obras. Disponível em <www.google.com>. Acesso 24 abr. 2019.