quarta-feira, 13 de maio de 2020

O Pulo da Gata



Paulista de 1989, Yuli Yamagata é formada em Artes Visuais pela USP e já foi indicada duas vezes ao prestigiado Prêmio Pipa. Já expôs em Lisboa, na Romênia, em Nova York, no Panamá e, é claro, no Eixo Rio-São Paulo. Costura lançar mão de costuras e tecidos. Os textos e análises semióticas a seguir são inteiramente meus. Boa leitura!


Acima, Brick Sneakers. Há uma gota caindo, talvez numa lágrima, uma lágrima negra, cheia de medo e culpa, talvez numa pessoa extrassensível, que tem que aprender a se proteger da dureza do Mundo, num Mundo que pode ser tão duro para com os inocentes sonhos de um artista. É uma gota de orvalho negro, imprevisível, no modo como, quando não é o momento de antevermos algo, não há Cristo que possa interceder. Parece-se com uma colher, nos afazeres do dia a dia, talvez numa mãe zelosa e exausta depois de tanto cuidar de uma casa pela parte da manhã, acordando cedo e enfrentando a Vida, muito distante dos sonhos belos de um lindo dia de casamento. A colher está dependurada, à disposição, numa rústica e acolhedora parede de tijolos à vista, no modo como, nesta semana, pedirei um telentrega de pizza rústica, pois o rústico é despretensioso, logo, acolhedor, como uma pessoa que conheço, que tem um estilo rústico, sem frescuras, no prazer de se levar a Vida com simplicidade. No topo da obra vemos um formoso laço em rosa pink, feminino, na cor do universo da boneca Barbie, num mundo perfeito, onde não há feiura ou vicissitudes, o que não é verdade, pois, mesmo na Dimensão Metafísica, temos que continuar tocando a Vida para frente, na famosa frase popular: “Beleza não põe à mesa”, desculpe a sinceridade. A fita são os amorosos laços de família, talvez numa família que, na Terra, tenha passado por espinhosos momentos de desentendimento, mas tudo tem seu tempo, e a Eternidade é isso mesmo – tempo para tudo, pois os sagrados laços de família não se dissolvem com o Desencarne, ou seja, toda e qualquer desavença, todo e qualquer erro de relacionamento, terá um fim, um término, certamente, pois é Eternidade é mais nobre, forte e duradoura do que qualquer pedra preciosa da Terra, portanto, de que serve o acúmulo de tesouros? Vemos aqui um grande estômago amarelo, processando a ordem gastronômica do dia, talvez numa pessoa que comeu mais do que precisava, na ancestral ambição humana em acumular mais e mais poder, sequer chegando perto do poder de Tao, o incompreensível infinito imenso. É da cor do ouro, da vitória, na inesquecível musiquinha de júbilo de Senna, que saiu de cena de forma épica, tal qual um ator falecendo em pleno palco, numa pessoa que se fez digna e útil ao Mundo, embalando os sonhos terrenos de libertação metafísica. Envolvendo o estômago, um invólucro negro, pesado, na discrição do luto, como numa densa cortina, que não nos permite saber direitinho tudo o que ocorrerá em nossas encarnações, pois, se soubéssemos, não aconteceria... Vemos um grão de amendoim da cor da parede, querendo ser discreto, talvez querendo ser um furo, uma lacuna pela qual podemos respirar Liberdade, na libertadora sensação de se chegar em casa e retirar a máscara anticovid. Este grão traz dois bebês azuis, dois meninos, como Remo e Rômulo, na contundente imagem da loba alimentando os meninos, no modo como redijo esta crônica a poucos dias do Dia das Mães. Numa predominância, ao fundo, um verdejante campo fértil, fresco, sustentando tanta Vida, tão diferente do que qualquer planeta de nosso sistema solar – por que a Terra é tão singular? O verde é uma salada, com tantas pessoas aderindo ao Veganismo, numa opção não só alimentar, mas política, na regra de não se adquirir produtos testados em animais. O verde é uma bala de menta, ou uma refrescante pasta de dente, numa boca sempre limpa, sempre fresca, na glória metafísica de estarmos sempre com a sensação de banho tomado e dentes escovados, como disse a grande diva Fernanda Montenegro: “Meu tratamento de Beleza é sabonete e pasta de dente”. O amendoim aqui é um embrião, talvez no famoso Alien assassino do Cinema, num quadro parasitário, fazendo metáfora com os psicopatas.


Acima, Chat and drinks. Novamente, uma lágrima, na capacidade de um artista em catarsear inevitáveis sentimentos de tristeza, solidão e carência afetiva, fazendo da Arte a cura para tais males, assim como a Arte também liberta o espectador. É uma gota rubra, de sangue, talvez nas dores de cólicas menstruais, na força que uma mulher precisa ser para ser mulher, sendo mais tolerante à Dor do que um homem é capaz de ser tolerante à mesma – não é fácil ser mulher. Neste cenário de YY, uma branca Lua no topo do quadro, na magia das noites claras de luar, no modo como a Lua, em sua altiva independência feminista, mal liga para a regularidade masculina solar, em momentos de cólica que fazem com que a mulher queira declarar guerra até aos EUA, como num certo videoclipe pop, com mulheres arranhando paredes, em um chão manchado de sangue. A Lua aqui é pura e idealizada, como se vista de uma elevada varanda, ficando ainda maior ao olhar do habitante de tal esfera, seduzindo com suas crateras, as cicatrizes que contam uma história, uma trajetória, no charme de homens com marcas de expressão, seduzindo as mulheres na feiura da experiência, da carreira, da caminhada de Vida, como num Tarcísio Meira ou num Sean Connery, seduzindo as mulheres com essas “tatuagens” que contam um enredo, no preconceito patriarcal, que acha feia a mulher que tem uma trajetória, uma história, uma caminhada, no arquétipo de Nossa Senhora, a mulher sem história, nos cruéis padrões de Beleza que exigem que a mulher não tenha rugas ou quaisquer marcas de expressão. Neste quadro, o azul marinho é a sedutora noite tropical enluarada, na Lua fazendo inveja a qualquer outra estrela no Céu, numa arrebatadora Lua Cheia, regendo os instintos sexuais animais, num prato prateado, num badalar místico, nos mistérios irrevelados da Natureza, esta Mãe que, após o Desencarne, torna-se Nossa Senhora, a Fada do Bem que transformou Cinderela, no modo como, desde cedo, a criança é criada para entender o que é Virtude e o que é Vulgaridade, num trabalho de discernimento, como no livro de Tao, mostrando-nos que, o que é suave e sutil, é eterno, ao contrário do carregado, que é finito, ou seja, é a lição do Desapego. Este quadro é cortado por muitas serpentes, de várias cores. Vemos uma sisuda serpente negra, discretinha, num ser que não tem as mundanas ambições de dominar o quadro, na lição da camuflagem discreta – se estou invisível, não serei pego pelo predador. Vemos duas serpentes de tons diferentes de verde, numa YY que sabe trabalhar com critério, com o bom gosto cromático. O verde é a impenetrável Floresta Amazônica, ou no parque Trianon, no seio da selva de pedra paulistana, ou como no famoso Central Park, num respiro de Natureza em meio ao concreto duro e cinzento, com furtivos esquilinhos, adaptados a este “aquário” de exceção que é tal parque, na verdadeira explosão do Movimento Ambiental Mundial, com as intervenções radicais e corajosas de movimentos como o Greenpeace, o qual, apesar de carregar a palavras “paz” em si mesmo, lança mão de recursos e ações um tanto belicosas, contundentes. Vemos aqui um entrelace de lombrigas rosa pastel, como numa confusa e labiríntica malha viária, confundindo quem não é de tal cidade, no modo como a pessoa pode estar tão perdida, sem Norte existencial, não sabendo o que fazer ou qual medida tomar. Nesta malha rosa, vemos uma fração branca, na esperança de se obter Paz em seus dias de encarnado. Pelo quadro, vemos algumas “unhas” de um vermelho profundo, como um útero perfumado, como acordar em uma confortável cama com lençóis sutilmente perfumados, numa sensação de lar e proteção, como num condomínio fechado, onde a ordem é absolutamente inabalável, longe das vicissitudes terrenas de assaltos, roubos ou agressões. As unhas são a Feminilidade. E vemos uma protuberância no quadro, como um bebê querendo nascer e aventurar-se pelo Mundo, no modo como filhos são criados para tal Mundo, pois Tao nos cria para sermos livres.


Acima, Chiclet. Aqui, temos um ardoroso beijo de língua, num casal que atingiu nível máximo de intimidade, estando um muito confortável nos braços do outro. Talvez sejam duas mulheres, femininas, no fetiche que os homens heterossexuais têm em ver duas belas mulheres transando num filme pornô, algo que não corresponde à realidade, pois já ouvi dizer, de uma mulher homossexual, que tais filmes nada têm a ver com a realidade lésbica, pois as moças desses filmes são, na realidade, heterossexuais. YY nos traz superfícies macias e agradáveis ao toque, como num confortável sofá, na rotina de um lar, o lugar onde nos sentimos tão simples e despretensiosos. Parecem duas ostras, e em uma delas há, de fato, uma pérola, na magia clássica de colares de pérolas, na intenção humana de “fazer compras” na Natureza e extrair tais riquezas, havendo nos adornos a intenção humana de se perseguirem o belo, o fino e o diferenciado. Noutra boca aqui, a pérola é verde, como um grão de ervilha, como numa semente de feijão, como na fábula dos grãos mágicos de feijão, que levavam até um elevado castelo de um gigante, remetendo-me à experiência na Pré Escola em colocar um grãozinho de feijão num algodão umedecido, e ver tal grão brotar, na magia da Vida, com seres vivos nascendo milagrosamente, nos mistérios da Vida, num Ser Humano que está ainda tão, mas tão longe ter a perfeição de Tao, o grande cientista. A língua aqui é dourada, na sensação dourada de uma pessoa que se apaixonou, numa sensação maravilhosa de que o Mundo é indefectível e de que as pessoas são todas repletas de Amor e Gentileza. Aqui, a boca da direita é o homem, pois sua língua eriçada é o pênis desbravando a vagina, numa invasão, num estupro, no paladino falo que mergulha nas profundezas e, lá no fundo, deposita sua semente, garantindo a descendência, como na obsessão de Henrique VIII em colocar no Mundo um herdeiro homem, nas patetices humanas em torno de gênero, na ilusão de que homens e mulheres não são a mesma coisa, pois os anjos, em sua superioridade, não têm sexo, ou seja, ser Homem ou ser Mulher é passageiro, havendo no cavalheirismo masculino e na delicadeza feminina um retrato de esperança, como gente elegante num baile de gala, fazendo com que tais eventos sociais façam menção aos apolíneos e finos eventos sociais metafísicos, numa agenda social maravilhosa, cheia de elegantes anfitriões em casas espaçosas e confortáveis, num momento de leveza, luxo e luz. Podemos ver aqui as gengivas cor de rosa, numa gengiva saudável, no modo como, no frigir dos ovos, tudo da Terra se resume a Saúde, seja física ou mental. Podemos ouvir aqui o som do splish splash do beijo, remetendo à canção da Jovem Guarda, ou no clipe Dont’t Talk, Just Kiss, ou seja, Não fale; Somente Beije, da banda disco Right Said Fred, havendo no beijo uma das provas da afetuosidade, uma força que vai contra a crueldade da insensibilidade – o beijo nos faz humanos; faz-nos seres mais carinhosos. Aqui, é como a luz num exame de garganta, na luz da Ciência e da Medicina, lutando para desvendar os segredos do Homem e do Universo, na grande e divertida charada que Tao nos impõe, como num exigente professor, que vale cada centavo da mensalidade. O fundo deste quadro é branco, limpo, como num guardapó de médico, na cor dos rituais de Umbanda e Candomblé, ou de chefes espíritas, remetendo à farsa revelada de um certo senhor, que se fazia passar por médium para abusar de desesperadas mulheres que ele consultavam. O branco é a cor da pureza, da Paz, nos heróicos esforços diplomáticos em nome da concórdia, numa Terra ainda tão aguerrida e instável, tão turbulenta nas competitividades de reis que querem invadir o espaço de outros reis, na falta de garbo e elegância da Guerra, em rubros campos de batalha, tomados de sangue – não há Beleza na Raiva; somente há Beleza na Paz, como numa plácida vizinhança, num lugar em que temos a certeza de estarmos entre irmãos, entre iguais, num mundo onde o Amor é regra, e não exceção.


Acima, Milho. O milho simboliza a Vida, a alimentação, as vastas plantações que nutrem nações. É como os milhos da menina que é escultura de Dalí, no MoMA, com as formiguinhas andando, no poder avassalador da Vida, irrefreável, assim como a Beleza e a Paz derrotam o Ódio. São as plantações de milho devoradas por famintos javalis, na força que as pragas exercem sobre vinhedos, fazendo da Terra esta grotesca cópia do Mundo Metafísico, como diz a letra da banda gaúcha Cidadão Quem: “Sonhei que as pessoas eram boas em um mundo de amor, e acordei neste mundo marginal”. O milho é a Saúde, a Nutrição, num ninho cheio de filhotes famintos, na obrigação de pai em nutrir o lar, como na logomarca dos produtos Nestlé. Na porção inferior desta obra, vemos um pedaço felpudo e macio, amarelo. É a carícia, o toque carinhoso, numa roupa macia, tratada com amaciante. É a glória dourada do Amor, unindo todos os irmãos ao redor da criação de Tao, a cola invisível que mantém unidas todas as inúmeras galáxias do Cosmos, fazendo deste algo indesvendável, mesmo perante o mais moderno telescópio humano. É o toque, a precaução, como uma mãe vestindo o filho antes deste sair para um dia frio de Inverno. Na porção superior da obra, uma esfera irregular rubra, como um com vinho sendo degustado, na universalidade da birita, com cada civilização tendo suas próprias formas de bebida alcoólica. É uma gota de sangue em uma película de vidro, para um exame científico, ou como no altruísmo de uma pessoa que doa regularmente sangue, num espírito bem intencionado, que se esforça para colaborar para com os bancos de sangue, ou como voluntárias para um banco de leite materno, como em escravas negras, amamentando os filhos da senhoria. É um rubro sol japonês, envolto em alvas brumas, como um prato de ouro, num gongo, nas badaladas de Tao, o disco solar que nutre a Vida na Terra. É Marte, o planeta vermelho, a esfera mais provável de ser colonizada pelo Homem, num ponto em que tal Homem ganhará o status de alienígena... O fundo é negro, como nos confins do Universo, em cantos nunca desvendados, o que faz com que o Ser Humano se pergunte porque o Cosmos é tão além da compreensão humana. O preto é a traiçoeira toca de um monstro faminto, que atrai suas vítimas e as aprisiona numa teia ardilosa, nas armadilhas que são os submundos, ambientes maliciosos e viciosos, que nada mais fazem do que intoxicar a mente do indivíduo que vaga por tais esferas nefastas. O preto é a cor da merda, com o perdão da palavra; com o perdão do desabafo, pois não são benéficas as catarses? Esta grande espiga de milho é sustentada por uma discreta bola cinzenta, como um discreto planetinha em um rico sistema solar, numa atitude sábia de discrição, como no preto velho, quietinho em seu canto, só observando os egos ascendendo e descendendo, numa testemunha ocular da História, num saindo de sua despretensiosa posição. As cascas desta espiga remetem ao jeans, esta peça de roupa que veio para ficar, definitivamente, esta peça tão jovial, tão simples e resistente, tão corriqueira, tão desprovida de pernóstica pretensões, pois não é insuportável uma pessoa pernóstica, cheia de sujas e desnecessárias afetações? Temos em YY uma alma de costureira, tecendo sua obra e também tecendo a conquista de seu espaço, fazendo do paciente labor de costura um remédio para os estresses mundanos, os quais giram em torno da tola ilusão de que há pessoas perfeitas sobre a face da Terra – todos aqui somos estudantes, aprendendo nossas específicas lições, talvez ajudando na educação de nossos irmãos, sendo nós também ajudados pelos mesmos. Aqui, o milho é sexy como num striptease, revelando-se aos poucos, como nas fases lunares, revelando para, depois, esconder novamente, provocando a imaginação do espectador. É como no chamado efeito cebola, quando saímos de casa, pela manhã, bem agasalhados e, durante o dia, vamos tirando as camadas de roupas. O milho aqui é um tabuleiro de Xadrez, com ruas e avenidas se entrecruzando, num ambiente frio e técnico, onde cresce o espírito em meio à Moralidade do Pensamento Racional – não há Beleza na Vulgaridade.


Acima, Pneu. Uma bala furando um corpo, num tiro à queima roupa, na agressividade do termo em Inglês hit, ou seja, agressão, golpe de sucesso e penetração. Aqui, temos um Sol exótico, colorido, como um Sol de alguma exoplaneta, ou seja, em algum outro sistema solar. É como um planeta sendo cortado ao meio, revelando suas camadas, suas fatias geológicas, contando uma história, um processo geológico que durou bilhões de anos, na insuficiente maneira humana em medir o tempo cósmico a partir dos dias, meses e anos deste nosso planeta pequeno. É uma explosão, no desejo de um artista em estourar, em obter sucesso e reconhecimento, neste mundo duro em que vivemos, com tantos e tantos sonhos sendo frustrados todos os dias, na forte tendência humana em construir expectativas, pois quem não tem expectativa, não se frustra, e é por isso que Tao nunca se frustra, pois Tao observa tudo sem expectativa, sempre perdoando seus filhos, numa mãe zelosa, que quer ver seu filho homem feito. Aqui, é como uma semente cortada ao meio, servindo de alimento, como o famoso pinhão brasileiro, a semente que cai do Pinus araucaria, numa árvore que é símbolo da região sul do Brasil, num hábito gastronômico que me remete a Inverno e a aconchego. Aqui, é como um embrião se desenvolvendo no útero materno, num processo paciente, que leva meses para se desdobrar por completo, no modo como já disse uma famosa mãe: “A gravidez e o parto são uma grande piada de Deus”. Então, a barriga vai crescendo, e o milagre da Vida vai se revelando, no termo “gestação” para descrever o tempo que um artista leva para conceber uma obra, como num escritor, que leva meses, quiçá anos para finalizar um romance, num processo paciente e disciplinado, numa pessoa que sabe que Roma não foi construída em um só dia. Aqui, é como um olho, com contorno e sobrancelha, numa mulher se maquiando e se aprumando, sabendo que os momentos de interação social são especiais, como numa professora que tive no Ensino Médio, uma mulher que, às sete e meia da manhã, estava completamente maquiada e aprumada, e imagino com que antecedência ela deveria acordar todas as manhãs para se aprumar tanto, num ato de autoestima, ao contrário de outra professora que tive, uma mulher que, hoje, largou-se por completo, e não mais se arruma nem se gosta muito, saindo de cada com qualquer aparência – amar a si próprio é importante, pois a primeira pessoa que tem que gostar de mim sou eu mesmo. Aqui, é a magia de um ovo de Páscoa sendo aberto, com o perfume de chocolate, em embalagens coloridas, na magia de um domingo colorido, fazendo metáfora com a Paz Metafísica, a Paz que faz com que as Guerras sejam uma sombra desprezível, pois Tao não inventou a Discórdia, sendo que o Ódio é fruto do talento humano para o Mal e para a Desolação. Aqui é um olho aberto e consciente, numa pessoa que tem a total noção de que desencarnou, aceitando a morte do corpo físico, como nos olhos abertos de máscaras mortuárias egípcias, num espírito que acordou de um sono e que, finalmente, pode abraçar uma vida mais simples e muito mais rica, numa dimensão plácida e iluminada, onde Pensamento é tudo, desprezando a Matéria, ao contrário de um espírito mundano, o qual simplesmente não aceita o próprio óbito, querendo voltar para uma prisão, mesmo já tendo chegado seu dia de soltura... O branco aqui é a camada mais profunda deste grão, desta semente, na esperança de que tudo será melhor e menos sofrido, no modo como as dores são inevitáveis na Terra – o que muda é se me permito ou não sofrer por tal dor. Aqui, é como a água rolando ralo abaixo, como numa galáxia girando, nas demandas gravitacionais do Cosmos, nos pólos magnéticos, na revolução humana que foi a invenção da bússola, guiando navegadores pro aventuras em terras virgens e selvagens, na curiosidade da Europa em ver tais mundos exóticos. Aqui, o pneu roda, na grande invenção que foi a Roda, algo tão simples e tão genial, num Ser Humano evolutivo, sempre buscando aprimoramento, havendo estagnação na vida de uma pessoa que se acha perfeita.


Acima, sem título. Mais uma vez, um beijo de língua, como cálices de vinho sendo brindados, e podemos ouvir o tilintar dos cristais, num momento de celebração, de interação social, num ato de tradição, no modo como é tão tradicional a bebida feita de mosto de uvas. As línguas aqui são marrons, sujas, talvez numa pessoa desbocada, sem muitos brios na boca, como numa divertida Dercy Gonçalves, uma pessoa que construiu a reputação por ser desbocada, algo que ficou ainda mais engraçado a partir do momento em que a atriz foi ficando idosa – as pessoas não mudam. O fundo aqui é um sisudo azul profundo, numa seriedade formal, contrastando com os dois amantes se curtindo entre quatro paredes, como uma professora que tive, a qual, ao ir a um baile de gala, ficou escandalizada com os beijos de língua no salão, pois se os casais fazem isso em público, o que resta para fazer entre quatro paredes? Esta obra luta para ter uma certa simetria, como uma concha sendo aberta, revelando se expandir tanto para sul quanto para norte, no modo como tantos seres vivos, ou a maioria deles, ou quase todos, ou todos eles são simétricos, na prova do talento de designer de Tao, aquele que nunca para de criar, inspirando-nos para termos uma vida produtiva, proveitosa, na sensação de vazio de uma pessoa a qual, ao desencarnar, vê que nada construiu em vida – não dá para viver ao sabor do vento, e o siso, os pés no chão, são altamente capitais em qualquer encarnação. Aqui, as línguas são como fezes, como numa pessoa improdutiva, a qual produz o quê? Fezes... Temos aqui porções negras, como numa necrose, num organismo morrendo, sendo decomposto, no avanço negro e pestilento do Submundo, aprisionando mentes e escravizando pessoas, numa vida empobrecida, sem norte existencial, pois como pode ser feliz uma pessoa sem juízo? Vemos aqui porções cor de rosa, como chiclete de morango, na magia infantil das guloseimas, no modo como as crianças têm o talento para se alimentar mal! Então, a disciplina alimentar começa a se mostrar tão necessária, em medidas radicais, como aderir ao Veganismo. Vemos aqui porções em branco, como nuvens, num glorioso dia ensolarado, longe de um melancólico dia brumoso, um dia incerto, com a dúvida cinzenta: Existe ou não existe a Dimensão Metafísica? Existe ou não existe o Umbral? É uma questão de Fé, não de Ciência, pois Tao está além de qualquer ciência humana. Quase no meio da obra, um triângulo verde, num sedutor gramado de verão, na magia de um dia de calor à beira da piscina, nas diversões com os amigos, em doces lembranças infantis, numa época simples, em que só havia estudo e diversão, fazendo ironia comparativa com a Paz Inabalável Metafísica, numa delícia plácida, veranil, o paraíso para quem gosta de ser produtivo. Neste quadro, vemos uma pequena pepita de Ouro, como um dente implantado, na avidez humana em extrair riqueza da Natureza, na ancestral obsessão humana pelo material, pelo tangível, num Ser Humano que compra a ilusão de que Amor pode ser vendido ou comprado – na Vida, vende-se tudo, menos o que mais importa. É como a triste história de um ganhador da Loteria, uma pessoa que passou a ser cercada de amigos por interesse, e não por amigos amorosos. A pequena pepita é a pequenez humana frente ao mundano, na ilusão de que a Matéria é eterna, pois Tao é assim mesmo, subestimado. Portanto, não tenha medo de ser subestimado, pois só quem é subestimado pode surpreender... É como um colega de faculdade que tive, uma pessoa que, em um primeiro momento, eu subestimei e, depois, vi o erro que cometi. É como uma pessoa que angaria as forças para dar uma volta por cima, no modo como o Pai Tao quer que sejamos forte e que não desistamos. É como a popstar Alanis Morrisette, a qual, em um primeiro momento, fracassou e, depois, retornando à lida, revelou-se uma grande estrela. É uma vingança, mas uma vingança do Bem. Aqui, as bocas são o diálogo e a concórdia, no hábito russo de homens se beijando na boca, num ato que, naquela cultura, é considerado perfeitamente viril.

Referências bibliográficas:

Yuli Yamagata. Disponível em: <www.premiopipa.com/artistas/yuli-yamagata/>. Acesso em: 2 mai. 2020.
Yuli Yamagata. Disponível em: <www.yuliyamagata.com/about>. Acesso em: 2 mai. 2020.

quarta-feira, 6 de maio de 2020

O Deserto Povoado de Saar



Longeva californiana, Betye Saar nasceu em 1926. É reconhecida por suas assemblages, por sua politização e pelo modo como traz a questão da mulher negra americana. Lenda da Arte Contemporânea. Os textos e análises semióticas a seguir são inteiramente meus. Boa leitura!


Acima, A Janela da Garota Negra. A obra traz um pouco de Astrologia, nos ciclos celestiais, com os ciclos lunares e solares fazendo amor, nas constelações selando destinos, na magia dos signos, talvez numa Betye que adora horóscopos e mapas astrais – não sou simpatizante de astrologia, mas respeito, pois esta não deixa de ser fascinante. Temos, na base da obra, uma obra toda negra, da cor do céu noturno, num breu profundo. É uma faxineira, negra, pobre, na base da pirâmide social, numa posição social humilde e vulnerável, acostumada a ser escrava de serviços subservientes, numa vida árdua, de mulher que acorda de madrugada para ir à luta. A mulher abre as mãos, receptiva, querendo captar algo, alguma energia, alguma força para sobreviver em um mundo tão duro, no impiedoso despertador tocando, no momento de um sacrifício, no qual o pecadinho da Preguiça tem que ser aniquilado pela Disciplina. Na moça negra, dois olhos se destacam, como vivos olhos abertos em uma máscara mortuária egípcia, como numa pessoa que tem a mais clara noção de que desencarnou, e de que precisa se preparar para a Vida Metafísica, uma vida tão mais simples, tão mais maravilhosa para aqueles que amam trabalhar e estudar. São como olhos arrebatadores, claros, penetrantes, numa pessoa de alta sensibilidade, na sensação de que estamos olhados por dentro, de forma penetrante, num olhar que faz com que nos sintamos nus, expostos, como nos agudos olhos da Galadriel de Tolkien, olhando fundo dentro da alma de um homem que secretamente deseja obter poder e mais poder, na capacidade que as pessoas altamente sensíveis têm em conversar telepaticamente. Aqui, os ritmos cósmicos se desdobram por constelações, numa Via Láctea que não cessa de girar, numa dança cósmica de sedução, no poder que os brujos têm em nos conectar a tal totalidade, a tal organismo, a tal universalidade, no modo como o Universo é sexy, muito sexy, sendo desbravado por supertelescópios, no erotismo de se observar dentro da casa dos outros, no prazer voyeur em invadir a privacidade alheia, numa tara, um desejo incontrolável de penetrar no particular, no privado, no proibido. No topo desta obra, corpos celestes, como estrelinhas doces, na inteligência binária da criança, para a qual se algo não é do Bem, é então do Mal, e viceversa, sem a sofisticação do adulto no estranho, no enigmático, em Tao, o ritmo sedutor que rege o Cosmos. É como na canção Smooth Operator, de Sade, num telefonista de voz macia e sexy que nos conecta pelos cantos longínquos de um Universo que, apesar de imenso, é um só, como na criancinha, que nasce nua, inocente, sem as malícias mundanas, sem as serpentes que seduzem homens e corrompem almas, no modo como se desdobram pelo mundo as bajulações, as massagens de Ego, e isso não é Tao, pois Tao é inbajulável, incorruptível, pois é a excelência moral dos espíritos superiores. Esta obra traz uma janela, com vários compartimentos, como nas formas de Mondrian. Um compartimento traz um esqueleto, no modo como a Morte não pode ser indefinidamente adiada, tendo que ser encarada, cedo ou tarde, pois é fato que ninguém está no Mundo para sempre, sendo este um mero lar de passagem, como num doente no hospital, esperando pelo glorioso dia da “alta”. Noutro quadro vemos um lobo uivando à noite, à Lua, nos sons selvagens da selva, num terreno perigoso, em que a pessoa tem que ficar atenta e esperta, sempre aprendendo a se proteger do Mal. Vemos uma águia com a palavra Amor escrita sobre si, no modo como só o Amor liberta, pois se sei perdoar, posso libertar, e a Vida Eterna é palco para todo e qualquer infindável perdão. Vemos duas criancinhas abraçadas, na candura das desinteressadas amizades de Infância. Vemos uma cabeça com um cérebro multicolorido, na criatividade. Vemos um ovo cinzento, um camafeu, no poder da tradição, dando a impressão de que o Tempo não passa.


Acima, A Libertação da Tia Jemima. Lembram da cena em que Scarlet O’hara surrava uma escrava negra com uma chibata? A libertação pode ser o dia da alforria, ou o dia do Desencarne, como na redenção do último dia de aula do ano, na entrada libertadora das férias, ou na deliciosa sensação de uma sexta-feira, no atual termo “sextou”. A Escravidão é uma das maiores provas e evidências da brutalidade e da crueldade humana, havendo entre EUA e Brasil uma semelhança neste sentido, ambas nações que se fizeram da força escrava. Aqui, a mulher negra sorri feliz, satisfeita. O lenço amarrado na cabeça denota o serviço da casa, como cozinhar, passar, limpar e até amamentar os filhos brancos da senhoria, no termo “mãe preta”. A mulher tem ar de matriarca, e é forte o bastante para desempenhar uma rotina brutal de serviços de casa, numa mulher que teve que se fazer forte para enfrentar tal vida subserviente. Em uma das mãos, a vassoura, símbolo do labor doméstico, no objeto de limpeza, de depuração, num espírito que cresceu muito em meio a tal árdua encarnação de labor suado e sofrido. Noutra mão, uma carabina, que é a agressividade do caçador, esforçando-se para trazer comida à mesa para as crianças, na universalidade que relega aos homens o serviço da caça, deixando às mulheres os trabalhos mais domésticos e menos agressivos, no termo machista nazista: “Crianças, Cozinha e Igreja”. Uma moldura vermelha cerca a obra, no sangue de escravos acorrentados e chicoteados, servindo de exemplo aos demais escravos da senzala: Comporte-se ou será chibatado, na tradicional e ancestral estupidez humana em impor as regras de força violenta e desumana – nada mais humano do que ser desumano! A matriarca negra exibe um retrato, no qual sorri sustentando no colo uma criança branca. A criança branca chora, e a mulher negra sorri, numa inversão, como dizia Jesus: “Os últimos serão os primeiros”, ou seja, quem se impôs de forma estúpida pagará o preço, enquanto o injustiçado será recompensado. É como numa certa igreja colonial brasileira, na qual havia uma parte para os brancos ricos e uma parte para os pretos pobres – a parte para os ricos era cheia de detalhes dourados, complexos, carregados, excessivos; a dos pobres era simples, branca, limpa, minimalista, taoista, maravilhosa, ou seja, quanto mais a pessoa é apegada ao material, mais complicada será tal vida, e mais complicado será o Desencarne. Beleza rima com limpeza, e quanto mais simples sou, mais maravilhoso. A carabina é a agressividade num ringue, numa vida sendo batalhada, numa pessoa que não nasceu rica, e que precisa acordar cedo para a lida, sendo pobre a vida do rico que não trabalha, pois o trabalho faz com que a pessoa, qualquer pessoa, fique com os pés no chão, ao contrário de uma pessoa vazia, que vive ao sabor do vento e que nada produz. Produza! À frente deste retrato, um vigoroso punho negro, que representa a luta pelos direitos civis, no vigor de uma luta, de uma reivindicação, na luta pela igualdade de direitos em uma América um tanto complicada em relação à questão racial, como no infame Apartheid, no patético modo humano de segregar as pessoas só por causa de tolas questões raciais. Bem na base da obra, uma nuvem, que é o sonho de um mundo melhor, de um mundo menos desigual, menos cruel, menos estúpido. É a cidade espiritual, acima do Mundo Material. É o Plano Metafísico, no qual as diferenças mundanas desaparecem, num plano em que tudo o que temos que fazer é nos arrepender de ter agido com preconceito. Como é linda a âncora Maju Coutinho, por exemplo. Como são lindos os negros. Como é fútil a segregação racial, num Brasil tão miscigenado. O punho aqui tem unha vermelha, ou seja, é de uma mulher, e representa tal força feminina, feminista, no modo como são uma ilusão os gêneros, visto que os anjos, os seres superiores, não têm gênero. Na estampa por trás desta obra, o clichê de uma negra sorridente, vitoriosa, como numa Naomi Campbell, a modelo negra que foi barrada ao entrar na primeira classe de um voo.


Acima, Capturar um Unicórnio. A Lua tem algo de místico, prateada, misteriosa, com seus ciclos que desafiam a adimplência inabalável da luz solar. A Lua traz sua luz enigmática, a qual, apesar de iluminar, nunca entrega o jogo, no ritmo cíclico que faz com que sua gravidade afete todos na Terra. A Lua é o símbolo dos namorados, identificando-se com o Feminino, com um jogo cíclico de esconde & revela, impedindo que nós, na Terra, observemos sua face nunca revelada, como no vestido de Bete Menetrier quando esta foi eleita rainha da Festa da Uva, num traje com bolas prateadas, bem na época em que o homem pisou na Lua pela primeira vez, no frenesi da obraprima 2001. Aqui, também temos a mística do unicórnio, um ser mágico que povoa a imaginação de menininhas. O corno na testa é o falo, como na agulha que espetou e enfeitiçou a Bela Adormecida. O corno é uma grande pirâmide, uma grande Torre de Babel, com uma base sólida, feito de Engenharia para suportar grandes cargas, na evolução arquitetônica da Humanidade, na construção de torres cada vez mais altas, como numa competição para ver quem tem o falo maior, como em qualquer competição, como numa corrida de Fórmula 1, na tensão para vermos quem é mais competente. O unicórnio aqui é belo, na inspiração de Tao ao inventar o cavalo, um dos animais mais nobres, majestosos e belos da Criação, na prova da eterna sofisticação de Tao, o grande designer, o designer que nunca para de elaborar. Mas quem predomina no palco é a mulher nua, altamente formosa, voluptuosa, num corpo escultural, como na maravilhosa Playboy de Marisa Orth, num ensaio de tão bom gosto, na distinção decisiva entre sexy e vulgar. A mulher é uma miss, uma musa, uma deusa. Parece ser negra, como me disse certa vem uma pessoa: “Para ficar olhando, gosto da Gisele; para transar, prefiro a Naomi!”. A mulher negra aqui vai rebolando pela passarela, numa modelo competente, que sabe desempenhar o papel de carregar, majestosamente, peças de roupa, fazendo com que a roupa pareça ser tão, mas tão maravilhosa. O cenário aqui é noturno, na capacidade de alguns seres em enxergar no escuro, num animal que sai da toca só à noite, como um notívago, numa pessoa que troca o dia pela noite, transitando na contramão, transitando contra o Senso Comum, o qual define que a noite foi feita para descansar, como numa pessoa pragmática, que vê a noite como um momento de descanso, ao contrário de uma pessoa mais sensível, que contempla as estrelas e pergunta-se sobre os segredos do Universo, ele lar tão, mas tão vasto, sendo inútil contar estrelas. O céu noturno é de um azul del rey, marinho, discreto, como na cor dos oceanos da Terra vistos pelo Google Earth, no poder das cores discretas, mistas, nunca entregando o jogo por completo, sempre insinuando puxar mais para este ou mas para aquele tom. Completamente nua, a mulher pisa com os pés na terra, como numa dança tribal em alguma antiga tribo africana, numa Betye Saar expressando a força da cultura afro em uma América tão protestante, tão avessa a sofisticações como um nu artístico, sendo este algo absolutamente inofensivo, na beleza do corpo humano, uma prova da genialidade de Tao, o Pai Arquiteto. Aqui, a negra e o unicórnio são íntimos um do outro, e formam um só organismo. Podemos ver a mulher montando no bicho místico, como na alma do Negrinho do Pastoreio, o qual, depois de ser condenado a uma morte cruel em um formigueiro, ressuscitou abençoado por Nossa Senhora, cavalgando pelas terras noturnas do Rio Grande do Sul. Realmente, não há no mapa o quanto a África e seus filhos sofreram com a Escravidão. Vemos uma folhagem farfalhando à brisa da noite, na magia de uma noite amena, gostosa, agradável, num momento ideal, no qual não temos calor ou frio. Aqui, a luz lunar é suave, amena, acariciando. A negra tem semblante muito tranquilo, plácido, como se fosse uma deusa indígena que fascina o Ser Humano em relação ao corpo celeste que faz um infindável striptease, atiçando os uivos dos lobos na noite solitária.


Acima, parte da mostra Betye Saar - Dançarina Inquieta. No centro da composição, a luva de boxe é a luta de uma mulher negra querendo se estabelecer num mundo de brancos machos alfa. É a lida pela Vida, numa pessoa que se deu conta de que, apesar de precisar ter uma certa autossuficiência, tem que obter alguma ajuda de outrem, no caminho da caridade, do amor que faço para ajudar um irmão. É o termo “não se atirar nas cordas”, dito para mim por uma certa espírita. Por toda esta obra de Saar, vemos miniaturas de matriarcas negra, gordas, fortes, forjadas na rotina árdua de serviço doméstico, no modo como é preciso ser macho para ser mulher! É uma escrava acorrentada aos serviços do lar, tendo que se desdobrar em duas para dar conta de todo o labor, num trabalho de “enxugar gelo”, pois, a cada dia, a sujeira tem que ser varrida novamente, na rotina diária de serviços, uma rotina que dá à pessoa a sensação de produtividade. Num dos quadros, vemos a questão do Racismo, numa menininha negra montada em uma espiga de milho branco, com os dizeres: “Torne-se branco”, como no incompreensível Apartheid, na ilusão de que os espíritos desencarnados têm raça, sexo, classe social etc. Ou seja, o espírito tem que ser muito corajoso para topar encarnar negro em um contexto tão opressor e preconceituoso. Essas negras gordinhas aqui têm um lenço amarrado na cabeça, no traje usual do dia a dia. O lenço é a disciplina, como cabelos arrumados, disciplinados, numa pessoa que encara uma lida que exige alta disciplina do indivíduo, como no momento de levantar da cama de manhã, mesmo em geladas manhãs invernais, com meu pai dizendo, ao acordar minha irmã e eu: “É fogo!”. Em outro setor da obra, vemos um globo, como o Globo da Morte num circo, com as linhas de latitude e longitude formando uma jaula, uma prisão, com seres negros presos ali, no modo como o Racismo é universal, infelizmente, e acontecem os lamentáveis genocídios, com tantas vidas insanamente ceifadas na II Guerra Mundial. É a prisão que é o corpo carnal, como um prisioneiro contando os minutos para ser libertado e receber a “Carta de Alforria”. Este globo, da cor vermelha derramada pelo sangue do escravo negro chibatado pelo senhor branco, sustenta-se sobre uma cadeira, como uma cadeira escolar, no modo como, desde criancinha, a pessoa se depara com a exigência em relação à Disciplina. Vemos no conjunto uma pequena gaiola, com seres humanos sendo tratados de um modo com o qual sequer se trata um cachorro. É a senzala, numa ironia cultural, pois o prato mais saboroso e tradicional da Culinária Brasileira, a Feijoada, nasceu da comida que era servida aos escravos, numa junção não criteriosa de carnes aleatórias. Debaixo desta gaiolinha, um relógio, marcando as horas do dia, num trabalhador contando os minutos para que o dia de labor termine, talvez numa gloriosa e redentora sexta-feira. Do outro lado deste globo, vemos uma matriarca negra em cima de uma balança de peso, no modo como os escravos eram tratados como animais no mercado de venda de mão de obra do Brasil Colonial, no incrível talento humano em oprimir quem é tão filho de Tao quando o senhor branco é filho de Tao. No topo da composição de Saar, uma negra sorridente, talvez contentada com uma vida tão árdua, no modo como, tanto para quem trabalha, quanto para quem não trabalha, a Vida é dura, mas a dureza produtiva tem mais sentido. Esta mulher mostra o dedo indicador, como num momento de escolha, talvez na revolução que foi os EUA permitindo direito de voto para cidadãos negros, nas boas intenções democráticas, buscando igualar um corpo social tão desigual... Mais à esquerda na composição, uma caixa aberta, como num coração aberto, de uma pessoa que decidiu viver de bem com o Mundo, aceitando este, sabendo lidar com este, como se soubesse que o Mundo e as pessoas não mudam. Vemos pedaços de algodão, nos inevitáveis calos de escravos negros colhendo algodão no Sul dos EUA, encontrando na Arte, como nos Blues e no Jazz, uma válvula de escape em meio a uma vida tão dura e subserviente. Vemos um casal idoso negro, num país em que a miscigenação é exceção, num país em que brancos têm filhos brancos e negros têm filhos negros.


Acima, Qualidade Suprema. De novo a questão da mulher negra, como nos abismos sociais brasileiros, moldados da Era Colonial. Aqui, a mulher está com seu avental branco, pronta para mais um dia de labor árduo, cuidando da casa, da comida e das roupas dos patrões brancos. A mesa de madeira, que sustenta esta obra de Saar, são as pernas firmes de um proletário, condenado a habitar as camadas mais humildes da pirâmide social, como num gari, o qual, apesar de desempenhar a importante tarefa de limpeza pública, leva uma vida dura, fazendo com que sua própria vida seja uma vassoura, varrendo indefinidamente as ruas de uma cidade, tudo isto para ganhar um magro salário. A mesa é o sustentáculo, a força para se encarar uma encarnação tão sofrida, num espírito que decidiu encarnar mulher negra num mundo tão machista e tão racista – é preciso ter coragem para programar tal encarnação. Vemos uma bacia, o instrumento de labor doméstico, talvez numa era em que não havia sido inventada a maravilhosa máquina de lavar, enxaguar e torcer roupa. A roupa aqui é lavada com força, com vigor, numa mulher entalhada nas durezas de uma rotina de labor. Nasci e cresci acostumado em ter empregadas em casa, e nunca vou me esquecer das palavras de meu pai: “Essas mulheres que trabalham aqui, elas não vêm aqui por que gostam. Elas trabalham aqui porque elas precisam de dinheiro para ajudar a sustentar as respectivas famílias”. Aqui, a roupa branca está sendo lavada, na supremacia branca, fazendo da Escravidão uma das maiores provas da rudeza e da violência humana, nas mazelas humanas de filho de Tao explorando filho de Tao, num pesadelo encarnatório, havendo, a nível metafísico, a morte de tais abismos sociais, havendo, nesse nível, uma única hierarquia – a Depuração Moral, pois, quem é mais elevado moralmente, rege o restante. No topo desta obra, vemos uma tábua, que pode ser uma tábua de lavar roupa, num labor acentuado, como dizia uma vizinha minha ao marido, em uma de suas brigas: “Eu me matando para manter esta casa limpa e organizada!”. Não há muita diversão no labor aqui, numa série repetitiva de movimentos, tediosa como puxar ferro em academia de musculação. Neste momento, a mulher tem que empreender um esforço viril, como na pragmática personagem Pierina de O Quatrilho, uma mulher boa para o trabalho doméstico, esfregando com vigor o chão, mantendo a casa na mais perfeita e disciplinada ordem, ao contrário da outra protagonista, Teresa, uma frágil mulher sensível que sonhava com uma vida urbana e sofisticada, longe da árdua vida de camponesa. Podemos ouvir o som do labor de esfregar a roupa, no barulho da água espumosa, como disse certa vez uma simpática senhora, dona de um programa televisivo de culinária: “Mão de dona de casa está sempre limpinha”. Ou como dizia, brincando um professor meu de Inglês: “Mulher tem que esquentar a barriga no fogão e esfriar no tanque!”. Como é duro ser mulher! Aqui, a negra desempenha uma função sem a qual a casa dos patrões não poderia funcionar, sempre subestimada, sempre mal paga, talvez numa pessoa que nunca teve a oportunidade de estudar, podendo até ser analfabetas essas mulheres negras oprimidas, num eterno papel coadjuvante, havendo a libertação do Desencarne, quando a pessoa, finalmente, pode escolher um trabalho não subserviente para fazer, pois os empregos metafísicos exigem da cabeça da pessoa desencarnada. Aqui, vemos a espuma se formando, como ondas do Mar, como no mar psicodélico de espuma da divertida comédia Um Convidado Trapalhão, com o ator genial Peter Sellers. Aqui, sentimos o cheiro de sabão em pó, de água sanitária, numa mulher batalhadora, que se acostumou a almoçar depois que os patrões acabassem a refeição e retirassem-se da mesa. Talvez tenha sido um espírito que, em uma vida anterior, tenha levado uma vida de privilégios fúteis e auspiciosos, encarando uma nova vida de muito realismo.


Acima, sem título. O relógio é a passagem do Tempo, numa vida que se desdobra, no modo como todos temos que encontrar algo proveitoso para fazer com nossos dias na Terra, como dizia minha querida avó Nelly: “Sem a Poesia, o que faria eu desta tarde brumosa?”. Podemos ouvir o tictac numa sala silenciosa, com o austero badalar que anuncia a nova hora, na poderosa convenção social de Tempo e Espaço, havendo no Umbral a perda de tais noções norteadoras. Podemos ouvir o som do piano, numa pessoa estudando ao ponto de se tornar íntima do instrumento, talvez num rígido e disciplinador professor, o qual exige friamente do aluno, naqueles professores marcantes, maravilhosos, que valem cada centavo da mensalidade, pois o talento didático não é de todos os que ensinam... Temos aqui uma metalinguagem, pois é Arte (Plástica) falando de Arte (Musical), abrindo uma metáfora, como se Saar fosse tal pianista, tocando as teclas. Acima destas teclas vemos a silhueta de um pássaro, que é o desejo de libertação, de recreio, de pausa, de descanso, como na hora de se tomar um café no meio da tarde, papeando com colegas do trabalho, num ambiente em que deve ser respeitada a norma de respeito e convivência, pois como posso ser feliz em um trabalho no qual me sinto assediado moral ou sexualmente? O pássaro é a liberdade dos espíritos que não são escravos da Matéria, do mundano, em pessoas materialmente desapegadas, ao contrário das obsessões mundanas e relação a Poder e Dinheiro. Nesta obra, vemos seis máscaras de estilo claramente africano, na identidade do negro americano, para o qual não há só séculos de escravidão, mas também toda uma herança afro de Arte e Cultura do Continente Negro. É o orgulho afro, como nas vestes da cantora negra Erika Badou, numa busca por identidade, por estilo, como nas contundentes obras africanas nas galerias do Met, em Nova York. As máscaras são mágicas, como em cerimoniais tribais. É como um ator encarnando um papel, usando tal “máscara”, num divertido baile de carnaval, onde extravasamos nossas fantasias psíquicas, assumindo formas, como no americano Halloween, quando as pessoas se fantasiam do que quiserem, revelando paixões, como uma pessoa que se fantasia de seu personagem predileto, numa ocasião em que as personalidade públicas são imitadas, como a rainha da Inglaterra. As máscaras são encarnações de deuses, de divindades afro, em rituais coletivos de purificação, ou de atos de curandeiros. As máscaras são tentativas de retratar esses deuses, num momento de incorporação, quando um líder tribal veste seus trajes cerimoniais, havendo no ritualismo uma tendência tão humana. Nesta obra, há a contundente, a incrível e a chocante imagem das costas de um escravo negro, cheias de cicatrizes por conta de várias cruéis chibatadas, num momento em que o castigado serve de exemplo a todos os outros negros: “Comporte-se ou acabará deste jeito”. É uma pessoa que quis encarnar num contexto absolutamente cruel, na insanidade que é irmão derramando sangue de seu sangue. Aqui, as cicatrizes contam uma história, mas as cicatrizes são passageiras e transitórias, pois, na beleza dos espíritos desencarnados e moralmente elevados, não há cicatrizes, rugas ou espinhas... Difícil imaginar crueldade maior do que causar tais cicatrizes. Como pode ser feliz assim uma pessoa que trata os outros assim? Atrás desta foto contundente, vemos figurinhas que parecem ser negros em um cruel navio negreiro, atravessando um oceano para desembocar nas plantações de café, numa vida sem sentido, só com labor, pois é muito infeliz a pessoa viciada em trabalho, como disse a atriz Jodie Foster, a qual proíbe a si mesma de trabalhar nos fins de semana. É a redução de um ser humano a uma mercadoria, num indivíduo, num filho de Tao, um filho que serve só como bateria alcalina para alimentar um sistema cruel, como em Matrix, trilogia na qual um cidadão é um escravo de um sistema disfuncional.

Referências bibliográficas:

Betye Saar. Disponível em: <www.en.wikipedia.org>. Acesso em: 21 abr. 2020.

COTTER, Holland. It’s about time! Betye Saarr’s long climb to the sumit. Disponível em: <www.nytimes.com>. Acesso em: 21 abr. 2020.

OLLMAN, Leah. In the Studio Betye Saar. Disponível em: <www.artnews.com>. Acesso em: 21 abr. 2020.

ST. FÉLIX, Doreen. Moma’s heady introduction to Betye Saar, “The Conscience of the Art World”. Disponível em: <www.newyorker.com>. Acesso em: 21 abr. 2020.