quarta-feira, 17 de agosto de 2022

Xul é show! (Parte 2 de 3)

 

 

Volto a falar sobre o artista argentino Alejandro Xul Solar. Os textos e análises semióticas a seguir são inteiramente meus. Boa leitura!

 


Acima, Arcos de cabelo. 1924. Aqui temos um complexo jogo de transparências, com sobreposições, como num cruzamento de pontos de vista, como num debate político, quando um oponente quer “devorar as tripas” do outro. Vemos um rosto sério, sisudo, como se estivesse adquirindo uma certa responsabilidade, como criar um filho, no modo como as responsabilidades geram na pessoa tal senso adulto de consequência. Aqui vemos toda uma articulação, como numa comunidade se unindo em torno de algo, no modo como Caxias do Sul e região, em um dado momento, uniu-se em torno do diretor Fabio Barreto para tirar do papel o ambicioso projeto de um filme, na capacidade de um grande homem em unir as pessoas, fazendo com que estas, por um breve momento, esqueçam-se de suas diferenças, como num Brasil se unindo em época de Copa do Mundo. Vemos aqui um quadro de confusão, a qual ocorre quando Tao se perde, trazendo caos, como num país turbulento, sem autoridade, como em conflitos e guerras, espraiando ares pestilentos de desordem e confusão, como num certo líder mundial, o qual é um perfeito e absoluto ditador, aterrorizando e ameaçando seu próprio povo – dores àqueles que ousam se pronunciar contra a ordem vigente, como nas manifestações atuais no Brasil, em agosto de 2022, em defesa do Estado Democrático de Direito, lembrando da época no Brasil em que não se podia ousar ir contar a ordem vigente. Os olhos aqui estão díspares, descoordenados, num caos e numa desordem, numa incapacidade de liderança, num homem o qual não tem o respeito íntimo e secreto dos cidadãos, os quais só obedecem porque sabem que estão sob ameaça, na manutenção artificial de paz e ordem, copiando estados de ordem plena, nos quais imperam ordem e liberdade, como em países estáveis como o Canadá. Aqui vemos certas cruzes se espalhando, que são a fé, a religiosidade e a esperança, numa figura de carisma respeitável, na qual o povo deposita suas esperanças, na figura de uma Gisele, a menina comum que adquiriu carisma de princesa, num poder de arrebatar o Mundo, na vitória do talento e do desinteresse, pois Gisele tem o Mundo exatamente porque não quer ter tal Mundo, no caminho de discernimento taoista: Curva-te e reinarás! Aqui vemos uma urbe intensa, com várias pessoas e veículos indo e vindo, numa demanda cosmopolita de movimento, com várias pessoas cuidando de suas vidas, mantendo-se produtivas, com cada um vivendo sua vida e aprendendo suas importantes lições, pois a meta é desencarnar como uma pessoa melhor da qual se reencarnou, num encadeamento de processos: a criança que se torna adulta, o aluno que se forma na faculdade e o espírito que cresce em escala de apuro moral, no preceito dialético de encadeamento de processos, numa rede complexa de metáforas. Aqui temos uma tentativa de constituição, de união de algum corpo social, num mundo eternamente aguerrido, cujos conflitos nem Jesus Cristo soube resolver: em um mundo aguerrido de azuis versus amarelos, seja verde, pois você não resolverá a guerra, mas será a promessa de um amanhã melhor, num verde no qual as pessoas depositarão suas esperanças, nos ramos cristãos de religiosidade – depois da cruz, a redenção, na promessa do Plano Metafísico, a verdadeira morada, fazendo da Terra um lar de passagem, como um paciente que fica em um tempo no hospital. A boca do rosto aqui é séria, quase amarga, num remédio amargo que surte doces efeitos, na máxima: Se é amargo no início, é doce no fim, no sentido de que, se antes de eu desempenhar um trabalho acho que será facílimo, acabarei achando dificílimo tal trabalho, ou seja, não entre “de salto alto” em campo, como um time que entra arrogante em campo, pois a arrogância não precede a queda? O nariz do rosto é negro, fechado e imprevisível, numa dificuldade em observar o que poderá vir, nas misteriosas esquinas da Vida, no modo como nunca sabemos exatamente como algo acontecerá, pois, se soubéssemos, não aconteceria. Na porção inferior, o Sol que luta para brilhar e trazer a esperança de uma terra onde só há beleza, limpeza, virtude, significado e produtividade – nenhum trabalho é em vão.

 


Acima, Chefe de serpentes. 1923. Alejandro gosta desses jogos de transparências e sobreposições, em insinuações e combinação de fatores. Na predominância, vemos um homem nos acenando, como na imagem da nave Voyager enviada para o Cosmos, com a imagem de um homem e uma mulher nus acenando, dando boas vindas aos alienígenas que interceptarem tal nave, nos eternos preconceitos do patriarcado, no homem sempre num nível acima do da mulher, numa mulher que está contente em habitar tal posição subalterna, contente em ser uma mera cadela cuja vida gira em torno da vida de um homem – perdoem-me, mas as próprias mulheres são machistas, no costume extremista islâmico no qual uma mulher só pode sair na Rua sob autorização por escrito do marido, ou como na Roma antiga, na qual uma mulher não podia beber vinho em público, na castração da liberdade sexual da mulher, no papel feminista em ir contra tal vento, enfrentando as intempéries de um mundo misógino, no qual a mulher é eternamente Eva, aquela que trouxe todas as misérias para a Humanidade, nos extremos machistas: ou é santa, ou é puta, com o perdão do termo chulo, havendo na feminista nem uma, nem outra, no caminho da igualdade de gêneros, como um casal num restaurante, rateando a conta. Os cabelos aqui são do estilo rastafári, na identidade afro, na eterna busca por beleza e perfeição, ideal que não ocorre na Dimensão Material, estando esta exposta a todas as vicissitudes materiais, havendo a paz metafísica, o Mundo Real, o Mundo de verdade, onde temos exatamente os cabelos que queremos ter, como uma amiga que tenho, a qual, aqui na Terra, é obesa e tem cabelos pixaim rebeldes, uma mulher a qual, no Mundo Metafísico, tem cabelos perfeitamente lisos e uma bunda bem gostosinha, na “magia” da pessoa ter a aparência que quiser ter, num espírito o qual, desencarnado, é mais bonito do que quando encarnado, num renascimento, numa ressurreição, na metáfora da Ressurreição de Cristo, a qual nada mais foi do que o desencarne de tal grande homem, o homem no qual depositamos nossas esperanças de haver, lá em cima, um mundo melhor, mais justo e mais produtivo, num espírito o qual, desencarnado, observa a permanência da necessidade da pessoa em se manter produtiva, como uma parente minha falecida, a qual, certamente, no Céu, mantém-se altamente produtiva, num lugar que é o Éden para os que gostam de estudar e trabalhar, na recompensa dos esforços, no modo como nenhum trabalho é em vão, pois tudo faz parte da construção da grande carreira espiritual, cuja meta é a perfeição moral, num espírito autêntico e verdadeiro, que brilha como um diamante, fazendo de tais pedras um símbolo do que importa mais, que é um espírito de bondade e paz – tudo de material gira em torno do imaterial, numa hierarquia, na máxima: Matéria é nada; pensamento é tudo. Vemos serpentes cruzando o quadro, aquosas, insinuantes, numa sedutora Cleópatra seduzindo homens poderosos, no flerte entre Yin e Yang, numa Mulhergato com seu chicote, domando Batman, deixando este apaixonado. No homem aqui vemos um bolso na camisa, que é a reserva, as provisões para o Inverno, num esquilo fazendo suas provisões, numa pessoa que pensa no futuro, num plano de aposentadoria, nesse substantivo, “aposentadoria”, o qual é uma ilusão, pois ninguém pode parar totalmente: Se você se aposentar, arranje outra coisa de produtiva para fazer, na sabedoria popular: Cabeça vazia é oficina do Diabo. Neste quadro vemos articulações, como numa articulação comunitária em torno do bem comum, na constituição da Cultura Popular, a qual vem do povo e a este pertence, como na Festa da Uva de Caxias do Sul, num momento de união e comunhão, numa comunidade honrando a si mesma. No peito do homem vemos um tronco, que é o pilar, a sustentação, como num estudante fazendo sua defesa de tese de monografia, no momento de clímax do curso universitário, no redentor momento da formatura, no fechamento e na coroação de todo um ciclo.

 


Acima, Dois meio sangue de avião e pessoas. 1935. É claro que aqui temos toda uma candura infantil, numa doçura, no importante papel docente, num professor que faz parte do desenvolvimento de uma criança, na importância da construção de cultura erudita num país, na noção de que um país se faz com homens e livros, na questão de colocar a mente acima de tudo, na disciplina dos bancos escolares. Os aviões são a liberdade, os sonhos voando alto, nos sonhos de se fazerem aeronaves, na ambição humana em desafiar limites, numa pujança e num desenvolvimento, como se o Homem quisesse desafiar Deus, no conto da Torre de Babel, num Deus tão impiedoso, que simplesmente proíbe e castra o Homem, numa noção errônea, pois Jesus trouxe a noção inédita de que Deus é, acima de tudo, Amor, e não um Deus rígido e desconfiado, patriarcal, na figura dura e inflexível de um patriarca que castra a sexualidade feminina e incentiva a sexualidade masculina – é muito machismo. Os morros aqui são piramidais e abrasivos, cortantes, num Egito outrora poderosíssimo, com suas pirâmides abrasivas dando um recado claro – não se meta comigo, no modo como impérios ascendem e descendem, e ambições ascendem e descendem, e Jesus permanece humilde, como nosso irmão de impecável apuro moral, no caminho da verdade, no laço mágico da Mulher Maravilha, o qual, ao enlaçar alguém, faz com que este fale somente a verdade, fazendo com que pedras preciosas sejam meras cópias mundanas do poder eterno da verdade, mas o Ser Humano, infelizmente, quer vestir tal joia e mentir, e Papai do Céu está vendo direitinho o que estamos fazendo de nossas vidas, no modo como nossos entes queridos desencarnados ficam nos cuidando lá de cima, sempre nos mandando energias boas de paz e bem estar, na figura zelosa de um anjo da guarda, nosso irmão que nos acompanha em cada passo de nosso caminho, num amigo que nos ama e que quer nos ver bem, e não são os amigos o ouro da Vida? Não é insuportável um lugar onde não temos um amigo sequer? Aqui são altivos pássaros, e os dois parecem competir, no modo como as competições tanto entretém, como em jogos de Copa do Mundo, no machismo que reside no fato de que a seleção feminina de Futebol é menos famosa do que a masculina, no sonho feminista de uma mulher mostrar que não é pior do que um homem, no papel feminista de ir contra tal “vento”, numa mulher independente que nunca está submetida a qualquer figura patriarcal, como nas freiras conformadas com o fato de que o Vaticano só pode ser presidido por padres, na revolução espírita, que nos diz que somos todos iguais perante Tao, o Pai que nos fez com infinito amor e carinho. As nuvens aqui são os sonhos, num Céu de Brigadeiro banhando de Sol todo o Brasil, nos versos do hino: “Brilhou no céu da pátria nesse instante”, no papel de um estadista em manter unificado um país, um reino, no desafio do líder em se tornar uma figura na qual o povo possa depositar esperanças, na promessa cristã do Reino dos Céus, trazendo esperança de Paz a uma Terra tão turbulenta e repleta de egos grosseiros. Na porção inferior do quadro vemos pessoas se articulando, como bonecos de palitos, na simplicidade modernista, em um design simples e futurista como no desenho Os Jetsons, nesse incessante galgar das tecnologias, com celulares cada vez mais fininhos, na democratização das tecnologias, no modo como, nos anos 1990, telefone celular era considerado o chuá chic da novidade, numa época em que era tão maravilhoso andar na rua falando em um celular. Já, hoje, tal tecnologia é banal e comum, em gerações recentes que não fazem ideia do que foi a tecnologia analógica, nas inevitáveis obsolências das as fitas cassete ou de VHS, por exemplo. Um dos pássaros aqui tem uma âncora, que é o ponto de referência, a base de comparação, o discernimento taoista: Se digo que algo é belo, é porque conheço o oposto, que é feio. É a necessidade da pessoa em se manter realista, com os pés no chão, sempre tendo juízo, nunca perseguindo atalhos duvidosos.

 


Acima, Mensagem. 1923. A mulher voando é a liberdade de pensamento, num direito tão castrado por ditaduras, as quais morrem de medo dos cidadãos pensantes, que formulam opiniões, no medo do ditador em perder tal poder sobre o cidadão, na metáfora de Matrix, um sistema tirano que quer manter o cidadão sob controle, reduzindo este a uma mera e medíocre pedra num muro indistinto, fazendo com que seja considerado uma anomalia o cidadão que ousa desafiar tal matriz malévola. A escada aqui é a progressão, num caminho lento, passo a passo, num lento processo de graduação universitária, num processo que se desenrola lentamente, no espaço de anos, até a coroa da tese de conclusão de curso, no fechamento de todo um ciclo, no modo como são tristes as histórias de vida de pessoas que largam os estudos e se desencaminham na vida, subestimando a glória de se ter curso superior completo, um privilégio tão restrito num país pobre como o Brasil. Vemos duas flores, que são a criatividade germinando na cabeça de um artista, numa mente produtiva, laboriosa, numa energia criativa que tem que ser canalizada e utilizada para um fim nobre, na questão dos desajustados, pessoas que não se colocam a serviço do Mundo, e é o caminho da dignidade saber que tenho que mostrar algo de bom ao Mundo, em artistas tão dignos de respeito como uma Meryl Streep, a diva que simplesmente desaparece perante seus papéis, como uma folha em branco esperando ser preenchida pelo personagem. As flores são a força da ressurreição primaveril, no poder avassalador da Vida, uma Vida tão rara ainda nos conceitos humanos, na dificuldade em se descobrir Vida fora da Terra, num universo incrivelmente vasto, num Ser Humano que tem tanto ainda por vir, sendo um “feto”, por assim dizer. No centro do quadro vemos um quadrado esclarecedor, clareado, como num mal entendido sendo resolvido e despojado de mistérios, no poder da Matemática, a ciência indispensável que desenvolve o pensamento lógico humano, esta força que traz a face Yang de racionalidade, de luta, numa pessoa que sabe que tem que mostrar algo de bom ao Mundo, numa pessoa que, se quiser obter respeito, tem que ser digna de tal, nas palavras de um Tom Cruise: “Você tem que mostrar algo”. Aqui é o esclarecimento de um mistério, no fim de um romance policial, no modo como a luz sempre vence as trevas, na Galadriel iluminada esmagando a Laracna obscura, no poder de Tolkien em nos trazer tal atemporalidade de conceitos, num escritor tão universal, falando da fraqueza do caráter humano em termos de obtenção de poder mundano. Neste quadro vemos uma vila, uma habitação, numa vizinhança, na questão do convívio, como no seriado Chaves, que fala sobre tal convívio, em personagens que tem que saber como lidar com o vizinho, na máxima popular: “Parente ou vizinho não se escolhe; têm-se”. Aqui vemos um jogo complexo de janelas e passagens, como num labirinto, numa pessoa existencialmente perdida, sem saber que atitude tomar, desnorteada, em um universo fútil de meros sinais auspiciosos, como nas entediantes áreas vips de boates, na ilusão de que a pessoa vip está acima dos que não estão em tal área – tudo acaba se revelando um joguinho tolo e sem sentido. Os braços e pernas articulados são a capacidade de uma pessoa em se articular numa comunidade, como meu querido bisavô Joaquim Pedro Lisboa, o qual articulou a comunidade de Caxias do Sul em torno da Festa da Uva, num momento de construção de cultura popular, quando a comunidade se vê projetada na figura de uma rainha, a qual faz metáfora com a beleza de uma terra. Aqui há um desafio metafísico às leis da gravidade, na expressão espírita “volitar”, que é quando o espírito voa e plaina em deliciosa liberdade, numa sensação de prazer que só existe na liberdade, no modo como o comunismo soviético “caiu de podre”, num século XX tão marcado por tal Guerra Fira, nos tempos que em que a comunidade capitalista mundial temia que o Brasil pudesse se tornar uma URSS ensolarada.

 


Acima, Parceiro. 1923. Aqui remete à capa de um recente álbum de Cher, no qual a cantora faz tributo à banda norueguesa Abba, com duas Chers – uma de peruca loira e outra de peruca morena, em alusão às vocalistas, numa banda tão icônica, cujo legado pulsa até hoje atravessando gerações. Vemos alguns números, que são a fria e formidável lógica matemática, num conselho sábio: Não ousa só o coração, mas ouça a mente, pois o coração pode ser traiçoeiro, como num filme em que Gwyneth Paltrow interpreta uma moça que definitivamente faz suas escolhas sem ouvir o traiçoeiro coração, excitando e rejeitando um rapaz humilde e pobre. Vemos aqui tranças soltas ao vento, como uma pessoa que vive de tal forma errática, aleatória, sem os pés no chão, numa pessoa com dificuldade em se centrar, vagando sem rumo como um saco plástico na Rua, ao sabor do vento, numa pessoa que nada faz e nada constrói, sendo um inferno a vida de uma pessoa improdutiva, como na enfadonha vida de princesa de Grace Kelly, a artista excelente e brilhante que abandonou tal áurea carreira para se tornar uma mera artesã de arranjos flores secas, decepcionando seus colegas em Hollywood. As melenas soltas são os ímpetos artísticos, num diretor sonhador, sonhando em fazer uma bela película, sonhando em trabalhar com atores famosos e consagrados, disposto a bajular ao máximo tais artistas, nesse aspecto indigesto do Showbusiness, pois é duro enxergar quem é mais patético – quem aceita a bajulação ou quem oferece a bajulação, num meio em que correm soltas as massagens de ego e as paparicadas. Aqui vemos um trato e um diálogo, numa concórdia, na capacidade nobre de um homem em sentar cordialmente para conversar e negociar, sempre rejeitando a possibilidade de conflito, num polido diplomata, nobre ao representar todo um povo, na dignidade de regência, num espírito o qual, mesmo tendo sido rei numa encarnação anterior, reencarna em outro corpo, mas mantendo a majestade, no poder de representar as pessoas, em talentos estadistas de uma Rainha Virgem, transformando um país pobre em um país rico e militarmente poderoso, dando toda a matiz para a altivez britânica, em colônias britânicas ao redor do Mundo, na máxima: O Sol nunca se põe nas terras de Sua Real Majestade. Aqui é um momento vibrante e colorido de festa, na capacidade de um designer em produzir estilo e moda, num poder desbravador de Freud, abrindo portas e trilhando caminhos inéditos, no modo como não há mérito em trilhar caminhos que já foram criados, na questão da originalidade e do ineditismo, num artista o qual, mesmo tendo um estilo próprio, sempre se esforça para ser criativo e inédito, numa pessoa que tem a força para virar as páginas e encarar novos desafios, ao contrário dos anos 1980, uma década tão rica de artista os quais, depois dessa época, não souberam se manter – é uma lástima. Vemos aqui uma truncagem cubista, com linhas tensas e nuances de sobreposições, em pontos de vista se entremeando, numa autoria grupal, num sharing, num compartilhamento, como num conceito de venda numa agência de Propaganda, um trabalho que ocupa todos na firma de Publicidade, ao contrário do artista sozinho e exclusivo renascentista, o qual não suportava interferências. Aqui temos duas pessoas se complementando, num grau de intimidade, num amigo de verdade, que faz com que nos sintamos acompanhados existencialmente, num amigo que, mesmo estando nós há décadas sem vê-lo, quando o vemos parece que a última vez em que o vimos foi ontem! Aqui os olhos estão despertos, conscientes, como nos olhos conscientes da famosa máscara mortuária de do rei Tut, numa pessoa que está com a consciência que desencarnou, abraçando a readaptação ao Plano Metafísico, nosso lar de verdade, o lugar onde percebemos que precisamos continuar produtivos, no Éden para os que têm tesão pela Vida. O pescoço aqui é firme, como Nefertiti, a mulher que obteve tanto poder em um Egito de homens, no esforço feminista para vermos que os gêneros pouco falam sobre a pessoa. Aqui temos um acompanhamento, como numa sessão de Psicoterapia.

 


Acima, Redondo. 1925. Aqui remete a pinturas rupestres, na aurora de produção artística, fazendo da Arte algo que tanto no diferencia dos outros animais, no fato de que macacos não são capazes de produzir Arte. Aqui vemos um baile, num mágico momento de interação social, no momento de festa em que a pessoa se esforça para estar no ápice de sua aparência, como cavalheiros em cabelos domados por gel e moças em deslumbrantes vestidos, tudo na tentativa de nos parecermos ao máximo com os espíritos desencarnados, no ápice de suas aparências, na universalidade da beleza e do momento de gala, de festa. Aqui vemos uma ironia, com suásticas lutando contra estrelas de Davi, na perseguição nazista aos judeus, em filmes tão contundentes como A Lista de Schindler, na insanidade do extermínio de minorias, tudo arquitetado por uma mente diabólica a qual, se Deus quiser, jamais voltará a encarnar na Terra, num momento histórico em que seres humanos foram tratados como não se trata um animal selvagem, no delírio insano de purificação étnica, como uma pessoa que conheci, a qual, no auge de sua loucura, simpatizava com as ideias de Hitler – é um horror. Aqui vemos o choque entre judaísmo e nazismo, no delírio fascista de limpeza racial, num Hitler o qual, em jogos olímpicos, se recusou a aplaudir atletas negros, no mesmo absurdo de se dizer que dobermann não é cachorro, num fascismo de se reduzir um ser humano a um mero e impessoal tijolo na construção de um muro, num homem o qual, de tão mentiroso, acabou rejeitado e desprezado, trazendo vergonha à própria família, ao ponto de seus descendentes pararem de usar tal sobrenome, numa desgraça a uma família inteira, no fato de que hoje descendentes de Hitler usam outro sobrenome, tal a vergonha. Aqui as pessoas andam de mãos dadas, numa comunhão, num momento de engajamento comunitário em que as pessoas se unem em torno de um momento comunitário, na construção de Cultura Popular, uma cultura que tanto fascinava Ariano Suassuna, numa celebração que vem do povo a este pertence, no momento em que a comunidade se vê projetada e representada. Ao topo do quadro vemos um Sol vermelho, ardente, como no majestoso sol nascente da bandeira nacional japonesa, nascendo triunfante das brumas e trazendo um novo amanhã, uma nova chance, uma nova encarnação, no caminho de depuração espiritual, numa pessoa que passou a observar a necessidade de aquisição de apuro moral, num espírito de luz e verdade, que brilha como um diamante, num artista que brilha em seu talento, no poder unificador da Arte, atraindo fãs ao redor do Mundo, em fãclubes ao redor do Globo, na prova da universalidade do Ser Humano, como numa Whitney Houston, num videoclipe com mais de um bilhão de acessos no Youtube, fazendo da Arte algo tão peculiarmente humano, diferenciando-nos das demais raças alienígenas no Universo. Aqui temos uma nobre atitude de Alejandro Xul Solar, tentando pacificar a Humanidade, trazendo uma trégua na guerra entre suásticas e estrelas de Davi, no talento de uma pessoa em semear a Paz, ao contrário do sociopata, o qual nada mais faz do que semear a discórdia entre os seres humanos, como colocar os homens contra as mulheres, sociopatas os quais infelizmente são ouvidos tão frequentemente. Aqui é um momento raro e nobre de agregação mundial, como no dia de primeiro de janeiro, num momento em que o Ser Humano percebe sua própria universalidade, como em torneios mundiais, nos quais a competitividade pincela tais traços universais, como num concurso de Miss Universo, na busca humana por beleza. Aqui as figuras humanas estão em movimento e articulação, buscando uma solução para os problemas da Humanidade, como em articulações diplomáticas, sempre em busca da harmonia. É como uma família se unificando, talvez na morte de um ente querido ou no nascimento de uma criança, como uma família pode se reunificar a partir de um acidente de carro, por exemplo. Aqui as diferenças tentam ser esquecidas em prol do bem coletivo.

 

Referências bibliográficas:

 

Alejandro Xul Solar. Disponível em: <www.coleccion.malba.org.ar>. Acesso em: 27 jul. 2022.

Alejandro Xul Solar. Disponível em: <www.en.wikipedia.org>. Acesso em: 27 jul. 2022.

Alejandro Xul Solar. Disponível em: <www.pt.wikipedia.org>. Acesso em: 27 jul. 2022.

quarta-feira, 10 de agosto de 2022

Xul é show! (Parte 1 de 3)

 

 

O argentino Alejandro Xul Solar (1887 – 1963) foi para Paris em 1924, onde se aproximou do Cubismo, Surrealismo e Expressionismo. Inteligentíssimo, foi poliglota e muito amigo de outro monstro as Artes, que é Emilio Pettoruti. Multimídia, foi também poeta, escritor e músico. Pertence ao acervo de vários museus, inclusive o Malba, de Buenos Aires, cujas obras integram estas três postagens sobre Xul Solar. AXS fez vinte mostras entre 1920 e 2013, várias, é óbvio, póstumas. Os textos e análises semióticas a seguir são inteiramente meus. Boa leitura!

 


Acima, Eu, o oitenta. 1923. Os olhos estão invertidos, como nas metades de bola no Congresso em Brasília, em uma oposição, num equilíbrio, no modo como cada um de nós tem dois olhos: um avançado e outro conservador, como na transgressão da pirâmide de vidro no Louvre, numa advertência: O tempo passa, meu amigo. Aqui é um rosto sério, melindroso, como num certo astro, cujo nome não mencionarei, um homem que simplesmente nunca foi visto sorrindo em público, como outra certa popstar, uma mulher a qual, mesmo sorrindo, tem os olhos tristes. O nariz aqui é uma flecha incisiva, exata, racional, abreviando estradas e vendo o Mundo do jeitinho que este Mundo é, no modo como a Filosofia não muda o Mundo, pois, no frigir dos ovos, continua tudo a mesma merda, com o perdão do termo chulo, e isso é um pensamento encorajador, pois a onda, aos olhos do surfista, sempre terá o mesmo tesão e desafio, na questão da pessoa encontrar tal tesão pela Vida, numa árvore que se esforça para ter seu lugar ao Sol, nas palavras de uma certa médium espírita: Deus não quer que nos “atiremos nas cordas”, nas palavras de Dercy: “A Vida é luta!”. A boca aqui tem tal simetria, tal equilíbrio, e está fechada, numa renúncia, como na disciplina de uma pessoa que quer perder peso, no termo “fechar a boca”, nas palavras de Tao, que é “fechar a boca”, no exemplo de um certo ator o qual, muitos anos atrás, expôs-se muito em uma entrevista para a revista Veja, causando ao ator um desgaste público enorme, como nas palavras de um Eminem, que disse que o Pop é um estilo musical para bichas, o que não é verdade, Eminem. Aqui temos uma truncagem de formas com arestas, como numa tensa negociação, como a extensa e desgastante negociação para Marília Gabriela entrevistar Madonna, como se esta estivesse testando a paciência da entrevistadora, na estrela impondo vários embargos até decidir dar tal entrevista, numa dificuldade, num trabalho árduo, no modo como um Leonardo DiCaprio teve que trabalhar tanto na carreira até ganhar seu merecido Oscar, numa Hollywood tão bela e tão dura, com muitos atores que, vendidos como grandes promessas, acabam malogrando. Na porção esquerda do quadro vemos uma torre, uma flecha, no guardachuva fálico no final de Uma Linda Mulher, na donzela sendo libertada de sua torre pelo paladino príncipe fálico, um homem que faz uma sólida proposta de casamento a uma mulher, digno de ganhar o respeito dos sogros, talvez um homem muito pragmático, não muito romântico, num Sexo que começou a se tornar mecânico, numa mulher sensível, que quer romantismo, como sedutores lençóis de cetim. O rosto estilizado aqui tem uma leve vermelhidão, na vermelhidão da pudica Vênus de Botticelli, tapando seu sexo com suas longas melenas de Gisele, a mulher monstruosa que simplesmente se tornou um mestre do Universo, numa menina comum que adquiriu carisma de princesa. O pescoço aqui é firme, ao contrário da aparência frágil do busto famoso de Nefertiti, parecendo que está prestes a quebrar, na feminilidade sutil contra a clareza fálica, numa mulher fálica, revelada, numa mulher que obteve tanto poder num misógino Egito de homens, no mito em torno de grandes nomes como Jaqueline Onassis, a mulher mais notável da História dos EUA, uma rainha no frigir dos ovos, apesar de não ter sangue que remete à realeza de Versalhes. Aqui é um papel dobrado sendo desdobrado, numa análise científica, na resolução de um mistério de Agatha Christie, num dia amanhecendo e anulando assombrações, na dimensão ligeiramente acima da nossa, a maravilhosa e eterna terra da Estrela da Manhã, o lugar que nos mostra que, encarnados ou desencarnados, o Trabalho continua sendo altamente necessário, sem, é claro, sermos workaholics.

 


Acima, Os quatro. 1921. Uma assembléia ordenada, numa reunião de empresa, com cada pessoa na sua função, num organismo que assim funciona. Aqui é como na assembleia de artistas vanguardistas na Arte Moderna Brasileira, o momento de tanta saudável transgressão, num movimento o qual, apesar de neste ano estar completando um século, não teve comemorações à altura, o que é uma pena, pois aos brasileiros cabe cultuar o Brasil, na intensa busca do Cinema Brasileiro em busca de uma identidade própria, livre dos paradigmas hollywoodianos. A enumeração aqui é a ordem civil, com cada cidadão com sua digital e seu número de registro de identidade, nas terríveis e cruéis tatuagens em judeus prisioneiros de campos de concentração, ou como no filme O Último Imperador, com o monarca absolutamente despojado de todos os seus privilégios de realeza, sendo reduzido a um mero número, um mero cidadão comum, na revolução que assassinou os Romanov, inclusive crianças, fazendo com que os comunistas merecessem o termo “devoradores de criancinhas”, nessa ancestral capacidade humana para com a crueldade, como numa bomba atômica, causando sequela terrível ao homem que detonou tal armistício, no modo como ficam psiquicamente sequelados os rapazes que prestam serviço militar, num Brasil onde o indivíduo já nasce prisioneiro de um estado, fazendo das ditaduras cópias MUITO grotescas do homem de Tao, o qual nunca recorre à crueldade. Aqui vemos um sol iluminando a cena, como na representação do disco solar Áton, a transgressão monoteísta que tanto desafiou o paradigma pagão politeísta do Egito Antigo, na capacidade de alguém em se tornar um indivíduo, livre em seu pensamento, ao contrário da estupidez ditatorial em queimar livros e bibliotecas, no modo como o ditador, como covarde, tem medo da liberdade de pensamento, pois tal liberdade colocaria em risco a ditadura cruel – é um horror. O Sol aqui é tal representação de um Deus que simplesmente não tem face, no mistério de Tao, o sem face, na heresia que é retratar Alá como uma figura, mesmo sendo uma conservadora figura patriarcal, remetendo a uma palestra de uma certa médium espírita: “Temos aquela imagem de um Deus duro, desconfiado, o que não é verdade, pois Deus é amor, é amizade, é respeito”. Os homens aqui estão despertos e conscientes, num rei ciente dos problemas de seu reino, debruçado sobre as necessidades do povo, como estradas, escolas e hospitais, ao contrário de uma certa nação miserável, com um déspota que só pensa em armistício, no ancestral e universal egoísmo humano: Nos olhos dos outros, pimenta é colírio. O Sol aqui é tal esclarecimento, na ironia do nome do artista, “Solar”, nesse astro que nutre toda a sua família, naquele pai zeloso, que nunca deixou faltar algo dentro de casa, trabalhando de Sol a Sol para nutrir um lar, uma casa, alimentando bocas todos os dias. Os raios de Sol são tal retilinidade, tal simplicidade, nas linhas simples de casas de arquitetura modernista, casas que, apesar de terem cem anos de idade, parece que foram construídas hoje, em 2022, como em letras simples, sem serifas, sem frescuras, letras modernas, em colunas simples da Antiguidade Clássica, na apolínea morada dos deuses, o modo do antigo grego em classificar as cidades metafísicas invisíveis, que pairam acima de nós, na força imaterial do pensamento, na máxima espírita: matéria é nada; pensamento é tudo. A reunião aqui é séria e sisuda, na sisuda Elizabeth II, a rainha que se viu acuada e confrontada no momento do óbito de uma mulher de esmagador carisma, nas figuras carismáticas em que as pessoas depositam suas esperanças e sua fé, como num carismático Obama, um grande homem, sem dúvidas, ao contrário de um certo senhor, que é uma pessoa ABSOLUTAMENTE deselegante. Cada um dos homens aqui tem seu código, como numa lista de chamada na Escola, o ambiente em que começa a competitividade da Vida em Sociedade, tudo para ver quem tira as notas maiores, numa inevitável hierarquia de apuro intelectual, na formação de nossas elites, as quais pensam acima da média.

 


Acima, Os três. 1923. Na parte superior do quadro, vemos uma altiva flecha, que é a autoridade e a hierarquia, nas rígidas hierarquias militares. É a obsessão de uma pessoa em adquirir controle, no malévolo Sauron de Tolkien, o senhor do Mal que quer manter todo e todos sob controle, como num estado totalitário, opressor, que vê um cidadão não como um indivíduo livre, mas como um mero tijolo impessoal em uma parede de propaganda ideológica, na infelicidade dos países que degustam de tal hierarquia insana, numa fome napoleônica por poder – quanto mais Tao você tem, menos poder e menos controle você que adquirir, pois poder e controle são uma ilusão, como refugiados nortecoreanos indo para a vizinha liberal democrática Coreia do Sul, refugiados estes que têm que passar por uma desinfecção ideológica, em refugiados educados a entender os Direitos Humanos, nos quais o indivíduo nasce livre, adquirindo o controle de sua própria vida, num estado mínimo, que interfere minimamente na Economia, no sonho liberal de Smith do Estado Zero, algo que não é lá muito viável, ao menos não de forma tão radical, no caminho budista do meio, do equilíbrio e da ponderação, nunca recorrendo aos opostos da “corda”, pois, apesar de Comunismo e Fascismo serem sistemas diferentes, eles são, no frigir dos ovos, meras ditaduras – os opostos se assemelham. Aqui vemos imagens truncadas, com linhas tensas de comunicação entre indivíduos e países, na aurora da Internet, esta tecnologia sem a qual o Mundo simplesmente não poderia funcionar, no modo como nos anos 1990 era chic dizer que mandou ou recebeu um e-mail, no modo como, para as novas gerações da Era Digital, tai avanços não causam tanto perplexo como causam aos que foram crianças ou adolescentes nos anos 1980. Vemos aqui pessoas voando, pairando, desdobrando-se como um origami, em linhas tensas oblíquas, em pontes de comunicação, fazendo metáfora gráfica com a Internet, essas linhas digitais que nos unem ao redor do Mundo, numa universalização técnica que faz com que sejam desnecessários correspondentes brasileiros no Exterior. A flecha aqui é tal incisão, numa certa dor, nas inevitáveis dores existenciais, na opção do indivíduo: Devo ou não devo sofrer por tal dor? A vida não dói em todos nós encarnados? Não somos todos prisioneiros, com um dia glorioso de soltura que certamente vai chegar? Aqui são os sons de uma obra, de um prédio sendo incorporado, num trabalho paciente que leva anos para se desdobrar, na paciência de tal incorporador, que sabe que a pressa é insana, numa pessoa adulta que sabe esperar, sem esperar demais, é claro, como me disse uma sábia e elegante senhora: “Espere para se encontrar, mas não espere demais!”, como uma pessoa que conheço, a qual esperou demais – tome ação, meu irmão! Aqui é um desafio cerebral de um quebracabeça, num início amargo e duro, mas num final doce e redentor, como aquelas catarses em filmes, fazendo com que saiamos leves e felizes da sala de Cinema ao término da exibição, ao contrário de filmes horríveis como A Bruxa de Blair, na recomendação de uma certa psicóloga: “Pessoas muito sensíveis não podem assistir a filmes de terror”, e ela está certa. Os olhos aqui estão despertos, como monitores de computador, numa pessoa adquirindo o controle de sua própria vida, observando o Mundo ao redor, na necessidade suma do Yang, que é adquirir virilidade, como numa pessoa que se deu conta de que ser uma mera dona de casa não trará identidade a tal mulher – não seja a cadela de alguém! Aqui estamos no meio de um processo construtivo, ou de um processo de desconstrução e análise, num escopo científico, numa tese de conclusão de graduação universitária, no valor de um professor exigente, que acaba causando um grande crescimento ao estudante, num mestre que vale cada centavo da mensalidade. Aqui, tudo é processo e transformação, no caminho eterno de Vida, no imenso poder de Tao, que faz com que nunca findemos – é muito poder!

 


Acima, Santa dança. 1925. Os seios das mulheres são a fartura, num país rico e farto, que conseguiu se desenvolver. É na deliciosa sensação de se mamar numa caixinha de leite condensado, no modo mamífero de suprir as crias, no modo como os vínculos de família mão se dissolvem com o desencarne, na imortalidade de tais vínculos, diferente do restante dos animais mamíferos, com um filhote que, ao desmamar e crescer, separa-se da própria mãe. Aqui é uma cena de baile e de diversão, talvez de boemia, talvez num bordel, num cabaré, num momento de festa em que é deixada de lado, momentaneamente, a seriedade cinzenta da Vida, nas cores de um carnaval, numa festa tão brasileira, cheia de matizes africanas de tambores, nesse blend, nessa mistura brasileira, um país de tanta miscigenação, no modo como a Cultura Brasileira é tão riquíssima e única, remetendo à recente morte de Jô Soares, uma das maiores cabeças do Brasil, um formidável palhaço que passou pelos duros anos de chumbo ditatoriais, na ilusão ditatorial de que é possível controlar a Vida. Aqui podemos ouvir a música, no casamento inevitável de Música e Dança, no modo como, não canso de dizer, as Artes estão interligadas num só corpo, que é a manifestação humana – nada mais humano do que produzir Arte. Aqui temos a união das veias e artérias que são as serpentinas nos unificando no salão, num momento de comunhão na pista de dança, no final do filme Elizabeth, com a monarca entrando na sala do trono, unindo o povo num só ritmo, na magia de um Rei Momo, na nação em um só ritmo de união, num talento de estadista, no fato de que foi uma mulher quem dividiu em duas a História da Inglaterra, num clamor feminista – o Sexo é uma ilusão, pois o Desencarne faz com que deixemos para trás tal fado, na metáfora da cobra trocando de pele, como na carreira de um ator, desempenhando diversos papéis, diversas encarnações, na construção da divina carreira espiritual, fazendo da Terra tal maravilhosa universidade, na qual tanto aprendemos e crescemos, pois o crescimento é o sentido da Vida. Aqui vemos estrelas como num sedutor céu estrelado, no modo como, no campo, longe das luzes da cidade, o céu noturno é tal espetáculo de luzes, na incrível vastidão do Cosmos: Há mais estrelas no Universo do que grãos de areia na Terra – você já se deparou com quantos grãos de areia existem só na ilha de Florianópolis? Algumas dessas estrelas são judaicas, no pesadelo hitleriano dos campos de concentração, remetendo a uma miserável sociopata que conheci, a qual, implicitamente, louvava Hitler – é um horror, nesse poder de manipulação que os sociopatas possuem. Essa estrela de seis pontas remete ao filme espírita Nosso Lar, na cidade espiritual metafísica cujas ruas se entrecruzam para formar tal estrela, na construção do Monoteísmo, rompendo com o paganismo politeísta, num conceito de simplicidade: Há um só caminho e um só Senhor no Universo, com todos colocados na mesma cesta de ninhada, num poder invisível que mantém unidas todas as dimensões do Universo, nas noções morais norteadoras dos Dez Mandamentos, num código de conduta como o Código de Hamurabi, com o falo patriarcal causando quase medo ao cidadão comum, num aviso: Ande na linha e nada de mal acontecerá a você. Aqui as pessoas dançam de mãos dadas, no engajamento comunitário, no modo como a Cultura Popular une as pessoas da comunidade em torno de algo em comum, como numa Festa da Uva, no momento em que a própria comunidade se vê projetada, representada e simbolizada, no arquétipo da rainha virgem, o Útero Imaculado que nos tem de forma eternamente especial, na metáfora entre virgindade e distância do Plano Material, sendo este uma ilusão. Os corpos aqui são como de bonecos, numa candura de Arte Modernista, com seus desenhos simples, como numa candura infantil de um Basquiat, no rompimento definitivo com a Arte Tradicional Acadêmica, no sopro de renovação renascentista.

 


Acima, Troncos. 1919. Os espinhos são o sofrimento de Jesus, o redentor o qual, em seu tempo, foi considerado bandido, lixo e escória, sendo brutalmente executado, nessa capacidade humana em ser o mais cruel possível, como queimar pessoas vivas numa fogueira, numa Mary Tudor a qual agia dizendo ser em nome de Jesus, fazendo algo que Jesus, em seu poderoso e infinito amor fraternal, jamais faria. Os espinhos são a travessia existencial, no modo como a Vida dói em todos nós, nas eternas palavras de Caetano: “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. Os espinhos são uma crise, as quais são positivas, pois assinalam um momento de renovação e desilusão na vida da pessoa em crise, e as desilusões acarretam em uma mortificação, até a pessoa chegar a um ponto clarividente de que “Papai Noel não existe”, nas palavras de Alanis: “Obrigada, desilusão!”. Dois círculos aqui são como olhos, numa pessoa observando a si mesma, observando sua própria vida, vendo a suma necessidade da pessoa assumir as rédeas de sua própria vida, não mais se colocando nas mãos de outrem: Ser apenas uma dona de casa não vai dizer a tal mulher quem ela é, ou seja, não seja a bitch de alguém, ou seja, a cadela. O pássaro é tal libertação, como as desilusões nos libertam, como num feitiço sendo dissolvido, num desencanto, como num jogo de Futebol, num time reagindo a fazendo o gol de abertura da partida, dando a impressão de que um encanto se dissipou, no anjo livre em suas asas de livre arbítrio, no respeito das democracias em tal liberdade, em nações nas quais o indivíduo nasce livre, dono de si mesmo, nunca submetido ao falo patriarcal de terror, como no vilão Esqueleto, o qual executava cruelmente os subalternos que falhavam em suas missões, como num Saddam Hussein, o qual, mesmo despojado de seus poderes mundanos, continuava crente de que era o dono do Mundo, dizendo aos subalternos: “Eu não estou pedindo; eu estou mandando!”. O pássaro é tal beleza, tal amor pela vida e pela liberdade, na tragédia que foi a Revolução Farroupilha, a tragédia que construiu a identidade gaúcha, como num prédio em Brasília com a placa: “Embaixada do Rio Grande em Brasília”, na altivez do laçador gaúcho, aspirando liberdade, como em Coração Valente, num homem dando sua vida pela liberdade, num carismático Che Guevara, executado por ser considerando perigoso demais, na construção de mitos ideológicos, como Lula, tendo como ídolo um ditador, que é Fidel Castro, sem querer aqui falar mal de Lula. Vemos duas serpentes, as quais trazem curvas liquidiscentes ao quadro, desafiando as linhas duras e objetivas, numa sensualidade feminina, numa Cleópatra seduzindo grandes homens, na serpente que vai escorrendo como água, num bicho tão minimalista e elegante como um homem com cabelo penteado com gel, como num cavalheiro se aprumando para um baile de gala, no qual temos que estar no auge de nossas aparências, ao contrário de uma atriz displicente, a qual vai ao Oscar desarrumada, como se a cerimônia fosse uma reunião de condomínio – não é fundamental a autoestima? O céu azul é tal clareza, numa pessoa que encontrou paz e produtividade em seus dias, agindo com calma, respeitando a si mesma, ao contrário de uma mulher workaholic que conheci, a qual simplesmente não se dava ao respeito, podendo até ficar 48 horas sem dormir, tudo em nome da firma – é muito degradante! Aqui os espinhos são as consequências da seleção natural, da luta pela vida, com as roseiras cheias de espinhos, certificando-se de que um inseto, ao querer devorar as flores, fique crucificado em tais espinhos, na crueldade da coroa de espinho em Jesus, no deboche: “Não és um rei? Então eis tua coroa!”. Como um rapaz que conheci, o qual sofreu uma grande agressão na Escola, obrigado por malévolos colegas e vestir uma faixa com termos degradantes, no deboche cruel: “Não és um príncipe sangue azul? Então eis tua faixa!”. É muita crueldade, meus senhores. Os espinhos são as vicissitudes, os obstáculos, os quais devem ser encarados com altivez olímpica, na força do crescimento e da superação. Os espinhos são a obrigação do psicoterapeuta, que é “dar espetadas” no paciente e confrontar este com a realidade. Ai!

 


Acima, Uma brincadeira. 1923. Aqui é como um sanduíche, com várias camadas, como nas camadas de sabor de uma receita complexa, com vários temperos e sabores, na sedução que a Índia, com suas especiarias, exerceu sobre a Europa, em sabores mágicos como a canela, na universalidade do gostoso pecadinho da Gula – permita-se ter algum prazer, sem culpa religiosa. Quase ao centro do quadro vemos um olho, ou um peixe, num olho livre, fluindo pelas percepções, como nos olhos de pinturas egípcias, no paradigma artístico que tantos milênios durou, brevemente desafiado pelo faraó transgressor Aquenáton, lançando este um padrão realista de Arte, algo tão inusitado para a época. O olho é a liberdade de expressão, num feliz país onde o cidadão tem tal reconforto de liberdade, nos versos de uma certa canção pop: “Sem amor, não há liberdade! Sem liberdade, não há amor!”, no modo como blogueiros, por exemplo, não são bem vindos em estados tão terríveis como a Coreia do Norte, no medo que o ditador tem em relação a cidadãos esclarecidos e inteligentes, como jornalistas de alto senso crítico, numa revista Veja que tanto adora das alfinetadas, na recomendação de um certo petista: “Não leiam a Veja”, fazendo, assim, propaganda positiva da Veja para quem é antipetista – dois lados para casa moeda. Aqui é uma sedimentação, em camadas geológicas, ou camadas de pintura num prédio, numa história e numa trajetória, numa carreira, como o chocalho da cascavel: Quanto mais extenso o chocalho, mais longa é a Vida e a peregrinação, no modo como a Sociedade Patriarcal acha charmoso, num homem, rugas, sinais de expressão, cabelos grisalhos e cicatrizes, ao contrário da mulher, a qual sofre pressão para ser, em sua aparência, a mais imaculada possível, no mito de Nossa Senhora, a mulher sem história; a mulher à qual foi negado ter vida sexual, no mito da embalagem de Leite Moça, em caras de santa como Evita, a qual, na realidade, de virgem e santa nada tinha. Neste organismo vemos várias mangueiras, dutos ou veias, numa alimentação, na demandas de urbes desenvolvidas, numa São Paulo de trânsito caótico em dias úteis, como num Jamie Oliver, o qual, ao dirigir uma scooter, evitava os percalços do caótico trânsito londrino – é um problema universal, até mesmo em cidades como Gramado, a meca turística que tanto encanta o visitante (e tanto dinheiro arranca deste!). As veias são intercomunicações, como canais de comunicação, na revolução do Telefone, no modo como grandes invenções nasceram do gostoso pecadinho da Preguiça: Por que sair de minha casa para falar com o fulano se posso telefonar para este no conforto de meu lar? Aqui é um acúmulo de riqueza, ou cultura, numa coleção, como meu falecido cunhado, o qual tinha uma vasta coleção de objetos de Arte, colecionados ao longo de décadas. Aqui é uma pessoa trabalhando duro para acumular dinheiro, podendo assim realizar sonhos de consumo, como um carro ou uma reforma na casa, numa pessoa que busca mudar de vida com uma reforma em sua casa, na capacidade humana em se equivocar, querendo encontrar a si mesma com uma reforma, quando que o autoencontro é sempre dentro da pessoa, com ou sem reforma na casa. Aqui são como livros numa biblioteca, no lamentável incêndio que destruiu a Biblioteca da Alexandria, no Egito Antigo, remetendo ao novo deslumbrante Grande Museu do Cairo, fazendo jus à grandiosidade da Era dos Faraós, como se quisesse competir com o Louvre. Aqui são páginas de um livro, numa cultura sendo assimilada e digerida, numa pessoa quieta no seu canto, lendo, deixando lá fora as inevitáveis vicissitudes do Mundo, na pessoa que aprendeu a força do Yang, mas descobriu que, dentro de si mesma, tem que ser mais Yin, no termo carioca “muvuca”, que é o conforto do lar, na pessoa de pés descalços, sem formalidades sociais, no poder da simplicidade: A Vida é boa quando é simples. Aqui é um acúmulo da passagem do Tempo, numa carreira, em fases e épocas passando, como num artista sempre se reinventando, nas expectativas dos fãs: O que será que tal artista vai aprontar desta vez?

 

Referências bibliográficas:

 

Alexandro Xul Solar. Disponível em: <www.coleccion.malba.org.ar>. Acesso em: 27 jul. 2022.

Alexandro Xul Solar. Disponível em: <www.en.wikipedia.org>. Acesso em: 27 jul. 2022.

Alexandro Xul Solar. Disponível em: <www.pt.wikipedia.org>. Acesso em: 27 jul. 2022.