quarta-feira, 24 de março de 2021

Feliz Talento

 

 

Caxiense de 1964, Felix Bressan se formou em Artes pela UFRGS, é fã de Duchamp, produziu cenários e figurinos para Teatro, foi professor de Modelagem Industrial e criou o Prêmio Multicultural Estadão, em São Paulo. Uma das obras de FB foi capa de uma edição da revista Casa Vogue Brasil. Chic. Os textos e análises semióticas a seguir são inteiramente meus. Boa leitura!

 


Acima, Espartilho. Coleção Gilberto Chateaubriand. Aqui é como um esqueleto, uma sobra, um vestígio, atraindo as aves carniceiras. É como uma estrutura de prédio, pronta para ser preenchida de carne a vísceras. É como um escritor concebendo uma trama, fazendo tal esqueleto e depois preenchendo com uma trama descrita. Estas formas remetem um pouco aos filmes de terror de Hellraiser, a entidade do Inferno, cheio de correntes e ganchos doloridos, numa pessoa vagando pelo Umbral, levando uma vida pior do que vida de mendigo, com espíritos bondosos que passam pelo Umbral, querendo salvar seus entes queridos, seus irmãos, estendendo a mão, exigindo que a pessoa seja humilde e aceite que precisa de uma ajudinha, na concepção da Caridade, a qual não é dar esmolas, mas dar um empurrãozinho para quem precisa, como no título de um centro espírita caxiense: “Fora da Caridade não há salvação”. Bressan leva a cabo a função do artista plástico, que é associar elementos dissociados e produzir coisas novas, conquistando o respeito das pessoas, neste grande desafio que é ir ao Mundo e procurar ser visto, amado e respeitado, como o homem de Tao, um líder excessivamente polido, um bruxo de uma tribo, um príncipe com P maiúsculo. Estas formas exóticas de Feliz remetem ao assustador e maravilhoso ser da franquia Alien, numa raça feroz, agressiva, espalhando terror por naves espaciais, alimentando-se vorazmente de seres humanos, com seu sangue ácido, feroz, como nos homens que entram num ringue para lutar, no fascínio que as competições exercem sobre o Ser Humano: dois homens entram; só um homem sai. Aqui é como um fóssil de dinossauro, numa era tão distante, com estes seres assustadores e maravilhosos, na comoção global de um filme sobre um parque com dinossauros recriados a partir de material genético de um mosquito pré histórico preso num âmbar, nas ficções científicas: poderemos algum dia recriar animais há muito extintos? Este alien é sedento, nos artistas sedentos por se realizar e ser considerados pessoas sérias e dignas de respeito, no desafio de uma pessoa que nunca se viu muito respeitada, tendo que partir em busca do preenchimento desta lacuna, como no homem de Tao, o qual trata o Mundo com todo o respeito, cumprimentando as pessoas na Rua, tratando de tratar todos com igualdade, desde de um presidente até um gari varrendo uma calçada. Aqui é como um bicho de vários braços, como num deus hindu, cheio de atributos, na questão de chamar Deus por “Vós”. É como uma flor carnívora, aprisionando ardilosamente um inseto desavisado, processando lentamente o seu lanche do dia, como no divertido filme dos anos 80, com gigantescas e famintas plantas carnívoras numa loja, nesta fome do artista em se realizar, encarando com seriedade e disciplina a lida necessária para se alcançar tais metas existenciais, na questão da pessoa se encontrar e se descobrir uma pessoa especial, muito amada pela Divina Providência, esta força governamental que, de tão poderosa, mal é percebida na Terra, tendo o homem de Tao um representante desta força sobrenatural, com hierarquias nunca impostas brutalmente, ao contrário do eterno modo humano em impor tudo da força mais cruel e violenta possível... Aqui é como um espartilho, na crueldade dos padrões de beleza, atingindo em cheio a autoestima da Mulher, com manequins numa vitrine, beirando a Anorexia, naquela magreza em que nota o relevo de costelas na parte superior do peito – que horror. Aqui é como um exame de raio x, com aparelhos detectando drogas ilícitas em aeroportos. É a capacidade de uma pessoa em observar o Mundo da forma mais realista possível, entendendo que o Mundo não muda; o que muda é o modo da pessoa de observar tal Mundo, num pensamento encorajador.

 


Acima, sem título (1). As vassouras são a limpeza, como numa pessoa muito limpa, que varre a casa diariamente, nos rituais de limpeza que buscam fazer com que nos aproximemos da impecável limpeza metafísica, a dimensão onde não há uma só felpa de pó, num lugar onde estamos sempre limpos e perfumados. Podemos ouvir o som das vassouras passando, na árdua vida de gari, “enxugando gelo”, num trabalho que nunca cessa. As cerdas das vassouras são louras, no desejo de tantas morenas em ser louras, como numa Evita, querendo se parecer com uma mulher europeia. É como um comercial de escova dental, com aqueles dentes perfeitos e maravilhosos, ultrassaudáveis, muito longe das imperfeições do Plano Material, com cáries, placa bacteriana, tratamentos de canal, escurecimento do dente etc., na eterna mentira publicitária de que um produto mero resolverá todos os nossos problemas – como é duro ser ético! Aqui é como a escravidão de uma dona de casa, doando-se ao máximo para manter uma casa limpa e organizada, num trabalho que não é reconhecido. Aqui temos uma metalinguagem, pois é trabalho falando de trabalho – o trabalho da dona de casa e o trabalho do artista plástico. Aqui é como uma dama arrastando seu vestido por um pomposo baile, num momento de interação social no qual tentamos entender a rica agenda social metafísica, com bailes maravilhosos e pessoas depuradas, civilizadas e bondosas. Estas cerdas são como o enigmático cãozinho de Cebolinha, um bicho no qual não podemos dizer onde é o focinho e onde é o rabo, como ficamos quando confrontamos Tao, o enigma eterno – enfrente a frente e não verá rosto; enfrente a traseira e não verá traseira, pois o Cebolinha sobre o qual podemos falar não é o verdadeiro Cebolinha... E existe algo mais poderoso do que algo que sempre ficará em maravilhoso e instigante mistério? Vemos aqui arcos, como numa pessoa numa posição social vulnerável, pobre, como uma faxineira, passando os dias de sua vida limpando as casas de outrem, no modo como a Vida pode ser tão dura. Nesta estrutura de Felix Bressan, vemos arcos, como arcos romanos, na forma geométrica da humildade, sempre se curvando, nunca sendo insuportavelmente arrogante, como no esplêndido Papa Francisco, um homem que passa longe da arrogância, num grande líder clemente, que trata todos como seus irmãos – não é sempre que nos deparamos com homens de tamanha humildade. Estes arcos são a flexibilidade, numa pessoa que vai se adaptando, acostumando-se, como água escorrendo até o ponto mais baixo, na esperteza de sobrevivência de um camaleão, sempre discreto, sempre vindo imperceptivelmente para atacar um gafanhoto como lanche, e Tao é assim, invisível, imperceptível, como se soubesse que há perigo em exposições desnecessárias, atendo-se limpamente ao que é realmente necessário e vital, rechaçando sujas desnecessidades, como numa pessoa preguiçosa, que só faz o essencial. Aqui é como uma faxineira varrendo o chão de um supermercado, sempre ignorada pelos clientes – o que custa cumprimentar esta faxineira? A limpeza das vassouras é o critério, a exigência, como numa Elis Regina, altamente exigente na hora de selecionar repertório, numa pessoa que não se contenta com coisas simplórias ou medíocres. Estes cabos curvos são como se derretidos por um dia escaldante, em dias cariocas tão tórridos que os ovos cozinham sem ir ao forno! São os relógios derretidos de Dalí, no tempo se distorcendo entre dimensões, mostrando insignificantes, em termos cósmicos, as medidas humanas de Tempo, pois no Universo não há ontem, hoje ou amanhã. As vassouras são como um séquito de aias, rondando uma princesa, nas tentativas humanas em ver nas dinastias mundanas uma amostra ínfima da glória metafísica que nos aguarda, numa dimensão onde nos sentimos absolutamente especiais, num Pai que nunca faz diferença entre os filhos. O toque das vassouras é aveludado e macio, no modo como é sempre melhor optar pelo tato delicado diplomático, numa sala de negociações, havendo nas guerras o rompimento de tal polidez cavalheiresca – Tao nada tem a ver com conflitos.

 


Acima, sem título (2). Um emaranhado, uma confusão, assim como o caos que vem quando Tao é perdido, numa perda de relações diplomáticas, de casa de diálogo. É como uma explosão de lombrigas, conspirando contra a saúde de um organismo. É como no momento de uma explosão, numa granada, no modo como todo artista quer ser tal granada, tal estrela, tal supernova explodindo e deslumbrando o Mundo, como na revelação de uma Gisele, a top mais bem sucedida de toda a História, mas uma pessoa que não soube deslanchar como atriz – cada um com sua cruz. Aqui é como uma discussão acalorada, num debate político, no qual pode rolar baixaria e falta de respeito, como num Collor dizendo-se socialmente abaixo de Lula, buscando atacar este. Esta galeria, este espaço, é um beco, um corredor, uma passagem, na complicada função de se preencher um ambiente, na busca por tal expressão, por tal brilho, numa pessoa que prova ao Mundo ter talento, esta palavrinha mágica tão abstrata, num dom que simplesmente nasce com a pessoa – nenhum livro ou faculdade ensina como brilhar, infelizmente. Aqui são como teias de aranha preenchendo um espaço, na minha memória de Infância, com a empregada com uma vassoura de longo cabo, tirando as teias de alturas inalcançáveis aos braços uma pessoa. Aqui é um organismo complexo, num computador que só pode ser mexido por experts. É como o labirinto interior de um formigueiro. É como algo que foi, aos poucos, conquistando seu espaço, como hera, alastrando-se silenciosa e lentamente, sempre imperceptível, sempre subestimada, pegando todos de surpresa, como a Estrela Vespertina, anunciando um novo momento, no modo como os subestimados acabam sempre surpreendendo, como num Jô Soares, uma pessoa que se revelou um monstro entrevistador, algo que ninguém antes previra, nessas guinadas, nessas viradas de mesa, num Ronald Reagan, que de ator medíocre foi a monstro político, sendo uma das caras dos anos 1980. Aqui é uma farra, uma festa acontecendo, como uma festa proibida em tempos de pandemia, dando aquele gostinho de subversão aos participantes, como num fruto proibido, um fruto tão belo e doce. Aqui é como uma pessoa perdida, estilhaçada, em frangalhos por dentro, num processo de empobrecimento existencial, de derrocada, como numa Britney Spears, enfrentando um surto psicótico seguido de um tombo na carreira, numa Vida que exige que a pessoa tenha uma força enorme para devolver a si a estabilidade. Esta obra exige fisicamente do espectador, pois este tem que saber passear por este emaranhado de múltiplas opiniões, nesta confusão. É algo interativo, como nas geniais instalações digitais da artista plástica Diana Domingues, uma artista e curadora de uma imponência enorme, marcante. Aqui é como uma explosão de bomba, desconstruindo um organismo, analisando-o. Aqui é um complexo de direções, num adolescente que, ainda muito jovem e imaturo, tem que fazer a escolha de sua Vida, optando por algum curso universitário – ter dúvidas é humano, cair é humano e reerguer-se é humano. Aqui é este trabalho de reconstrução, paciente, na canção cantada por Simone: “Começar de novo. Vai valer a pena ter amanhecido”. Como um aluno que repete de ano e tem que encarar tudo de novo, numa experiência dura, exigente, quase humilhante. Aqui é como um emaranhado de fios de cabelo, caóticos, pedindo por um pente ou uma escova. Como em alguma parte da casa que há muito não é limpa, na acumulação de ressentimentos e dores, esta acumulação que é tão tóxica como reter sujeira para si. Aqui é um feliz momento de criatividade, como num artista que resolve dar uma guinada na carreira, fazendo coisas as quais as pessoa jamais esperariam de tal artista, fazendo de Tao este vazio sensual, este vazio tão útil e tão subestimado. Aqui é como uma casa cheia, com filhos, netos e visitas, na capacidade de um anfitrião em bem receber, num ato de generosidade.

 


Acima, sem título (3). Coleção Justo Werlang. Uma divertida obra, estranha, maravilhosa, fruto de uma imaginação tão feliz. Aqui temos uma “labirintite”, pois não sabemos onde é o Norte, no talento de um artista em associar objetos e produzir algo tão novo e inusitado, abrindo os olhos do Mundo para a perspectiva artística, no termo de uma canção de Carly Simon: “Deixe os sonhadores acordar a nação”. É uma obra leve, sem sedimentação, sustentada por um fio discreto, dando a impressão de que tal peso é sutilmente sustentado por uma das rodas de bicicleta. A cadeira é a sedimentação, o acomodamento, numa pessoa que decidiu ter disciplina, sentar e produzir, organizando sua própria Vida, como se soubesse que o caos ocioso nada produz de bom. As cadeiras remetem a um tradicional restaurante do Mercado Público de Porto Alegre, como uma cadeira antiga do estabelecimento pendurada na parede, como se desafiando a Lei da Gravidade, nesta distorção que mexe com a cabeça do espectador, estabelecendo esta conexão entre duas mentes – quem faz e quem assiste. As rodas são a locomoção, o movimento, nos ciclos da Vida, como numa roda gigante, desafiando quem tem medo de altura. As rodas são a natureza cíclica das estações do ano, este baile como em cidades de clima temperado, com verões tórridos e invernos gélidos, numa espécie de bipolaridade climática. A Roda é uma das maiores invenções da Humanidade, deslizando, servindo para quem tem a preguiça de carregar coisas nas costas, fazendo da Preguiça a mãe de tantas maravilhosas invenções. A roda é a placidez deslizando, suavemente, nas ambições de se construir um carro que nada de barulho faça ao funcionar, como na imbatível suavidade dos transportes metafísicos, deslizando pelo ar tais quais gaivotas plainando, na sensação de liberdade do espírito desencarnado, abraçando novamente a plena e maravilhosa vida metafísica, esta vida em que temos a certeza de que somos príncipes filhos do mesmo Rei, na infinita família metafísica, fazendo com que as dinastias mundanas sejam só cópias, promessas de um amanhã bem melhor. Aqui é como um motoqueiro exibido, showman, fazendo manobras para chamar a atenção, numa carência, numa pessoa que pouco, de fato, tem a mostrar. Que bela invenção a bicicleta! As cadeiras são o descanso, as férias, a aposentadoria, a pausa, no fato de que ninguém, nem os idosos, devem parar de produzir, pois a dignidade não existe no ócio. A roda é o caminho da Vida, numa estrada sendo percorrida, solitária, no modo como cada um tem que saber conviver consigo mesmo. E como posso ter Paz se não me gosto nem me curto? Aí entra a importância da autoestima. Aqui é uma bicicleta estranha, maravilhosa, alienígena, como nas estranhas gravações sonoras do vento de Marte, fazendo da Terra um lugar tão único e farto em Vida. As cadeiras são um artista sentado, pensando no que vai fazer, como num cantor, selecionando repertório e entrando em estúdio para gravar, pensando no visual da próxima turnê de shows, num eterno recomeço, tendo a força para virar as páginas e abraçar uma nova página em branco, no caminho da Humildade, de quem sabe de que a Perfeição não é alcançável, ao menos por enquanto. Aqui é como se fosse a fotografia de um acidente de carro, remetendo-me ao terrível acidente rodoviário que sofri com minha família, num momento em que tudo, de modo repentino, muda na vida de alguém, num grande susto. As rodas são como relógios, como em civilizações antigas fazendo relógios de Sol, na eterna tentativa humana em medir o Tempo e trazer um pouco de ordem ao caos atemporal. As rodas giram como galáxias, como água indo ralo abaixo, como mecanismos tão complexos, tão além da compreensão humana. A roda girando é um mecanismo funcionando, como numa empresa harmônica, na qual todos trabalham felizes, compenetrados em suas próprias funções específicas, como num ecossistema. Como é feliz o artista que traz o novo, a novidade, o frescor, o inusitado. Como são felizes as mãos transformadoras.

 


Acima, sem título (4). Acervo do Museu de Arte de Brasília. Um carrinho de supermercado ou uma cadeira de rodas. As rodas são a fluidez, o líquido, como numa energia fluindo, na capacidade de certas pessoas em produzir tal aura, tal it, tal charme. Bressan gosta de estruturas nuas, esqueletos, como numa radiografia, atendo-se ao que é estritamente necessário e importante, como é Tao, limpo em sua ação minimalista – quando você precisa tomar ação, faça só o que é necessário. Aqui é como um sisudo e rígido quadriculado subvertido em aquosidade, como a distorção gráfica de azulejos debaixo da água, numa piscina, no modo como a Água é esta coisa engraçada, divertida, agradável, incolor como Tao, o invisível que, subestimado, pode agir, como uma pessoa que evita exposições desnecessárias na Mídia, sendo o oposto do exposto, do narcisista que ama se ver – a Arrogância é insuportável, como um cafezinho queimado, horrivelmente intragável. Aqui são como curvas de uma modelo, como no frasco do perfume de Shakira, imitando as curvas do corpo latinoamericano da diva pop, uma artista que foi galgando seu caminho lenta e humildemente: iniciou na Colômbia, foi para a América Latina e depois, num terceiro momento, para o Mundo, no modo como a Vida exige que trabalhemos e sejamos produtivos, sem esperança para os desocupados. Aqui é um corpo maleável, manipulável, como divertida massinha de modelar, despertando a imaginação da Criança, inspirando a vocação de artista plástico, com mãos transformadoras. Aqui é como um robô pós moderno, avançadíssimo, digno de Ficção Científica, como no delgado andróide C3PO, numa inteligência artificial, num mordomo eletrônico, nos privilégios de se ter uma faxineira para limpar o apartamento ou a casa. Aqui vemos divisões, como em fases, em dias ordenados, na capacidade de uma pessoa disciplinada em regrar seu dia, exigindo de sua própria mente, numa fase de cada vez, na sabedoria de uma pessoa de que nem o Universo foi feito em um só dia, tendo Ele descansado no sétimo dia, como no workaholic imigrante italiano no RS, um colono que só não trabalhava nos domingos porque o padre e a religião não permitiam, fazendo do Domingo este lerdo dia interminável de indolência, no modo como Trabalho pode ser vicioso se mal dosado. Aqui são como próteses ósseas, na tentativa humana em imitar o inimitável, que é Tao, o Grande Engenheiro, pois o que Ele faz, o Ser Humano arremeda grotescamente, mesmo em plenos dias de plenitude digital. Aqui é como uma cadeira, uma poltrona esquelética, empenhada, com suas curvas, em acolher a pessoa que senta, num merecido descanso depois de um trabalho árduo de esforço e dedicação, no termo happy hour, ou seja, a hora feliz; a hora do descanso depois do labor, com gravatas afrouxadas, no merecido descanso metafísico após uma encarnação tão dura e exigente, no modo como nomes de clubes como “Juvenil” ou “Recreio da Juventude” fazem forte metáfora com o Plano Metafísico, em que somos todos jovens, belos, divertidos e produtivos – a luta não para, ou seja, nunca se aposente completamente. Aqui é como uma cobra da água, prendendo a respiração em busca de comida na água, no modo como tantas civilizações associavam a serpente à fertilidade e à sensualidade, muito longe do mito do Éden, colocando a serpente como a malícia, trazendo o Pomo da Discórdia, nesse misógino mito que coloca a Mulher como a raiz de todos os males, havendo no mito de Nossa Senhora o modo como o Mundo impede que a Mulher seja feliz sexualmente, num ícone feminista como Madonna, uma mulher que paga o (alto) preço por ser uma mulher num mundo de homens. Aqui é como um prédio abalado num terremoto, desse desejo do artista em ser uma “força da Natureza”, sendo o “olho do furacão”, fazendo da Arte este instrumento de transformação social, abrindo os olhos do Mundo, inspirando-nos a ser mais modernos e não tão integralmente patriarcais.

 


Acima, sem título (5). Série O Corpo Ausente. O fascínio da forma feminina, com tantos transexuais que passam por um doloroso processo de transição para ter corpo aparentemente de mulher. Aqui é como uma armadura, blindada, numa Joana D’Arc guerreira, ou numa Elizabeth I no campo de guerra, na famosa vitória inglesa sobre a Invencível Armada Espanhola. É a armadura da Mulher Maravilha, forte e blindada como um carroforte, combinando Beleza e Feminilidade com superforça, numa dosagem entre Yin e Yang. Aqui é como um modelo, como roupas feitas sob medida para uma mulher, em épocas em que lojas de roupas não existiam. Abaixo deste tronco feminino de estruturas que parecem ser rodas, temos uma talentosa modelo desfilando e deslizando na passarela, num caminhar digno de deusa, como numa Naomi Campbell, no mistério de um sino tocando no campo na fluidez do Tempo. É a “vitória” do Feminino sobre o Masculino, como num Marte de Botticelli entorpecido em frente a uma lúcida Vênus, no termo da marca feminina Victoria’s Secret, o segredo de tal vitória de uma stripper enfeitiçando o homem espectador, fazendo este “babar”. Vemos aqui este arame de linhas delgadas, na fineza de um anfitrião tão polido, que faz com que nos sintamos numa maravilhosa sala metafísica, cheia de espíritos belos e elegantes, na vitória do fino sobre o grosso, indo na contramão do brutal e tosco método humano, o qual impõe as coisas à força, numa hierarquia terrível, muito longe da irresistível hierarquia espiritual, a qual se impõe suavemente, sempre deixando brechas de liberdade ao espírito moralmente inferior. Aqui são como linhas de costureira, bordando os destinos do Ser Humano, com vidas passando umas pelas outras, com lições de suma importância existencial, na perfeição das teias da Divina Providência, este forma de governo tão poderosa que mal é percebida na Terra, havendo no homem sábio de Tao um representante de carne e osso de tal poder metafísico, num príncipe digno de respeito, deixando de ser um príncipe apenas na teoria, como feiticeiros numa tribo, os brujos, cuja energia nos deixa perplexos. Aqui é como a estrutura de um vestido antigo, como na França do Rei Sol, numa nobreza indolente e frívola, aprisionada dentro de suas bolhas de privilégio enquanto o povo se revoltava com o preço do pão, pois o líder que mal se importa com o próprio Povo deixa de ser líder. Aqui é como um prédio “oco”, pronto para ser habitado, no paciente trabalho incorporador, construindo por anos um empreendimento imobiliário, numa cidade que vai sendo moldada, como numa Nova York, a qual, no passado, era uma mera cidade para, depois, ser a Capital do Mundo, com seus museus primorosos, pulsando Arte e sensibilidade, na sofisticação da ilha de Manhattan. Esta mulher aqui é dura, impenetrável, e exige que a observemos de longe, sendo arisca ao toque. É oca como um ovo de Páscoa, sendo aberto por uma criança ávida, hipnotizada pelas cores e pelos sabores de um ninho de chocolates, na magia de um Domingo de Páscoa, procurando pela casa o ninho escondido pelo coelho, com dias felizes de Infância, na promessa de dias metafísicos, nos quais nos aceitamos integralmente, numa autoestima suprema, longe das dúbias cores cinzentas da Encarnação. Vemos aqui algo como um espartilho, com suas rigorosas fitas apertadas, numa vida disciplinada, em que a pessoa sabe se organizar, sabendo que o Ócio é oficina do Diabo, no desperdício de uma pessoa talentosa que não produz, um desperdício como jogar fora pelo ralo um espumante de quinhentos reais, como uma certa atriz de TV e Cinema, a qual, até hoje, não tem as pelotas para pisar num palco, pois um ator deve explorar todos os meios de expressão. Imaginamos o trabalho de Bressan em levar todas essas obras para ser fotografadas num estúdio, num artista que foi conquistando o seu espaço. Aqui é como um papel pronto para ser assumido por um ator, preenchendo o personagem e desaparecendo perante este, pois ator bom é este ator invisível, que some perante o texto, esvaziando-se de vaidades e narcisismos, rechaçando bajulações auspiciosas, como se soubesse que estas podem corromper um caráter.

 

Referências bibliográficas:

 

BRESSAN, Felix. Visão Geral. Disponível em: <www.felixbressan.blogspot.com.br>. Acesso em: 14 mar. 2021.

Felix Bressan. Disponível em: <www.escritoriodearte.com>. Acesso em: 14 mar. 2021.

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