quarta-feira, 2 de abril de 2025

Cassatt é do cacete (Parte 3 de 6)

 

 

Falo pela terceira vez sobre a pintora impressionista americana Mary Cassatt. Os textos e análises semióticas a seguir são inteiramente meus. Boa leitura!

 


Acima, Crianças na praia. Aqui são as doces lembranças de infância na orla, na sensação deliciosa de liberdade na praia, na magia de castelinhos de areia, algo inusitado para crianças da cidade, da selva de pedra, como minhas doces lembranças de acampamentos com meus pais e parentes, no cheiro de bosta ao ar livre, cheiro de campo, de espaço aberto, como em mágicas matas virgens de araucárias, cheias dos pinhões no outono, os quais ficam deliciosos cozidos, servidos quentinhos, algo que deve ter sido importante alimentarmente para as populações indígenas que precederam os italianos na Serra Gaúcha, indígenas que hoje têm descendentes miseráveis, pedindo moedinhas na Rua, na agressividade do homem branco europeu, invadindo as Américas e destruindo os indígenas, no lema capital do Ser Humano: Quanto mais cruel, melhor. No fundo vemos barquinhos, em versos de Bossa Nova: “Um barquinho a deslizar no profundo azul do mar!”, numa época em que o artista brasileiro tinha que ser muito sutil e capcioso para driblar a insana censura, algo que acabou sequelando as geração de meus pais, os quais foram jovens na ditadura, numa época em que as coisas eram simples: Se não quiser se expor ao perigo, não cutuque o tigre com a vara curta, remetendo a um certo senhor, o qual, em martírio de si mesmo, partiu em busca de problemas com os militares, numa pessoa que decide pegar tão pesado, numa época em que os calabouços cruéis da ditadura não eram vistos ou detectados. Aqui as crianças estão completamente entretidas, divertindo-se, na magia de um brinquedo na noite de Natal, no momento mágico em que os presentes são distribuídos, na recompensa da criança que se comportou no decorrer do ano, no modo como pode ser estressante uma criancinha, num pai ou mãe que tem que ter uma paciência enorme para dar conta de tais demandas, no termo “pentelho”, ou seja, exigindo de nós a paciência para tirar os pelos do sabonete, no termo usual do pai ao filho: Paciência tem limite! Aqui é uma época em que as roupas de banho eram recatadas, muito longe dos trajes de banho de hoje em dia, com tantas mulheres com o indiscreto fio dental, como numa marchinha de Carnaval exaltando a beleza da modelo Monique Evans: “Monique, estou passando mal! Eu vi você na praia de fio dental!”, numa inevitável dubiedade dialética: Estou aqui elogiando ou menosprezando? É na noção taoista dos opostos, com tudo trazendo em si sua própria contradição, no casamento entre razão e loucura, no jogo de sedução, num certo cantor dizendo: “Cansei de tentar entender as mulheres! As mulheres são loucas!”. É na magia dos ciclos lunares menstruais, numa mulher que está “naqueles dias”, em espasmos cólicos insuportáveis, algo de que tenho uma certa ideia quando algum alimento que comi me dá dor de barriga, no modo como não me canso de repetir: Como é duro ser mulher! O mar aqui é plácido, num lugar administrado, pacífico, com praças nas quais nos sentamos e sentimos o prazer de tal paz, num plano em que a verdade impera, e ninguém quer enganar ninguém, como um certo senhor uma vez, o qual me enganou, vendendo-me um produto usado, num senhor dizendo, mentindo que tal produto era novo, um senhor cuja cabeça, sinto em dizer, não vai além da esquina, pois a palavra de um homem vale mais do que dinheiro, na importância do apuro moral, pois a vida da pessoa imoral é um inferno, numa espécie de amostra grátis do Umbral, a dimensão dos que realmente acham que o Mal é mais válido do que o Bem, em espíritos revoltados, que não querem sair de tal penúria escura e atroz, como uma sociopata que vi hoje na Rua, a qual, definitivamente, não pode me enganar, pois já sei da podridão no coração dela, como um certo outro sociopata, com o qual não me relacionarei nem que a vaca tussa, evocando aqui o termo popular. As criancinhas são bem saudáveis, gorduchas e coradas, vindas de um lar privilegiado, no qual há comida e todos os privilégios de famílias que tinham grana para bancar os serviços de Cassatt. Aqui, a brincadeira ajuda a crescer, preparando a criança para a construção da Vida, da carreira, do objetivo, como num paciente trabalho de formiguinha, como construir um prédio, nas vicissitudes materiais.

 


Acima, Dama na mesa de chá. A dama aqui é digníssima, tradicional, respeitável, como na Perpétua de Tieta do Agreste, do amadíssimo Jorge Amado, numa Perpétua rígida, recatadíssima, preocupada em ser a mais decente possível, em contraste com a exuberante Tieta, a qual é colorida, cheia de vida, como um arco-íris, enchendo a cidade pacata de vida e beleza, numa explosão de cores de um cristal fino, no símbolo da bandeira gay, a qual traz a alegria do rapaz homossexual, num termo “gay” que, antigamente, não era remissivo a homossexualidade, mas a alegria mesmo, remetendo a um certo jogador americano de Basquete, de sobrenome Gay, um rapaz que, seguidamente, tem que mostrar que é macho barbaridade, não admitindo um só deboche por causa de tal sobrenome, como uma certa pessoa, cujo sobrenome é propício para deboche, uma pessoa que fica possessa se alguém debochar de tal sobrenome, na questão de que respeito é como pizza – todo mundo gosta, só havendo exceções masoquistas. O aparelho de chá aqui é chic, sofisticado, digno de rainha da Inglaterra, na ironia seguinte: No passado, a Inglaterra foi o berço da Revolução Industrial, e, hoje,  é um país desindustrializado, com quase tudo sendo fabricado da ultracompetitiva China, como o famoso chá inglês Twinings sendo fabricado naquele país oriental, no termo paradoxal “socialismo de mercado”: Por um lado, a China é uma ditadura comunista, sem partido de oposição, sem eleições diretas a presidente; por outro lado, o cidadão chinês é absolutamente livre para empreender. O preto aqui é a profunda discrição, como a senhora minha bisavó Antonieta, a qual, ao enviuvar, passou o resto de seus dias só vestindo roupas pretas, mesmo após o período de luto, naquelas senhoras digníssimas, carismáticas, recebendo muitas visitas em sua casa, numa era em Caxias do Sul em que as casas podiam ficar escancaradas, sem medo de assaltos. O cabelo aqui é pudicamente coberto, como em culturas em que a mulher precisa estar sempre com o cabelo coberto, no modo patriarcal de tolher a mulher, resultando nas furiosas feministas, querendo libertar a mulher de tais flagelos, no modo da lésbica em odiar se maquiar, num comportamento masculino que tem que ser respeitado, mas numa lástima, pois, na carreira pública, quanto mais a pessoa se arrumar, melhor, como na política Simone Tebet, com os cabelos sempre impecavelmente tingidos, num ditado um tanto conservador: “Cabelo branco, no homem, é sabedoria; na mulher, é desleixo!”. Aqui é em figuras tão tradicionais como a rainha inglesa Victoria, numa era em que sexo anal era crime, ou seja, uma Victoria que era fiscal do fiofó alheio, como ainda hoje no Mundo há países em que homossexualidade é crime – é um horror medieval. Os dedos aqui são delgados e elegantes, no paradigma de beleza feminina contemporâneo, na crueldade de só considerar sexy uma mulher que esteja na antessala da Anorexia, um padrão esmagador que atinge em cheio a autoestima feminina. Aqui é um quadro de uma certa solidão, como num filme com a monstruosa e maravilhosa Bette Davis, uma sociopata que acaba sendo abandonada pelo Mundo, vivendo como pária, como um certo senhor, o qual foi inocentado da acusação de assassinato, vivendo, assim depois, como um pária, no modo como nada escapa dos olhos da Divina Providência, a qual está sempre exigindo que tenhamos impecável apuro moral, na vitória da verdade sobre a mentira, no modo como no Mundo haja tantas pessoas de raso apuro moral, chegando a um ponto decisivo, em que a pessoa começa a odiar mentir. Os anéis nos dedos da dama são o status social, o privilégio, como numa pessoa rica, com condições de fazer encomenda a Andy Warhol, havendo dois tipos de artista: O reconhecido em vida e o reconhecido postumamente, como no triste Oscar póstumo de Heath Ledger, um homem que nos deixou; um homem da flor da idade. O cabelo aqui é nobre e sedoso, disciplinado, arrumado para a pose perante Cassatt, num trabalho de paciência, como num ator ficando horas e horas numa cadeira de maquiador, num esforço de dedicação.

 


Acima, Enfermeira lendo para uma criança. Aqui é o zelo da profissão, numa pessoa que se dedica ao máximo para ganhar seu salário no fim do mês, como no “périplo” que é se formar numa faculdade, com anos seguidos de esforço, num catatau de trabalhos, leituras e provas, isso sem falar no esforço de se locomover para o campus – dê-lhe carro, ônibus e lotação, e isso sem falar nos custos de mensalidade e nos custos de locomoção, no modo como é triste a história de vida da pessoa que abandonou uma faculdade, parando em um ponto do ciclo, empacando como mula, subestimando a importância de fechar um ciclo, como um certo senhor, o qual abandonou o curso de Direito para fazer absolutamente nada no lugar, mergulhando numa vida improdutiva e vazia, pobre, ficando o dia inteiro dentro de casa e perguntando a si mesmo: “Por que será que nada acontece na minha vida?”, no orgulho de um pai ver o filho numa formatura, remetendo a um tenebroso assassinato de um rapaz de boa índole, gente boa, o qual foi covardemente assassinado na semana de sua formatura, e tudo que peço é que este assassino se arrepende e tenha noção do que fez, um espírito andarilho do Umbral, a dimensão dos que não veem a importância da Vida. O livro aqui aberto é a libertação da mente, no modo como um livro pode ser uma companhia, no esforço de um pai ou mãe em incutir, desde cedo, o gosto pela leitura no filho, levando este, desde pequeno, a uma livraria, na seção infantil, dizendo para o filho escolher um livro, na capacidade do escritor infantil de saber interpelar a criança, no esforço do professor de educar a criança, impondo disciplina, no modo como tudo o que é demais, enjoa, remetendo a uma certa pessoa, a qual sempre foi muito aplicada nos estudos, dedicada, estudiosa, mas uma pessoa que é certinha demais, não se permitindo ser de fato feliz, na importância de mandarmos o Mundo se foder, com o perdão do termo chulo, pois não posso viver prisioneiro das expectativas de outrem, na importância de eu adquirir as rédeas de minha vida, num Mundo que não tem a mínima sensibilidade de perguntar a nós se estamos, de fato, felizes, como um certo pomposo casamento, considerado o casamento no ano, num rapaz, o noivo, que, no fundo, não está absolutamente feliz, abraçando uma vida de sacrifício – você não faz ideia a que estado ficam reduzidas espiritualmente as pessoas que são consideradas felizes na Terra, como, por exemplo, os ganhadores da loto, no modo como o dinheiro traz tudo de bom e conveniente, menos o que importa, que é felicidade, como uma grande amiga minha, a qual fez escolhas visando a felicidade, vivendo feliz ao lado do marido, no modo como aprendi que, para sermos felizes, podemos sê-lo com pouco, pois a Vida é boa quando é simples, como em Cidadão Kane, no homem que morreu suspirando o nome de seu trenó de infância, o Rosebud, numa época em que a Vida era simples, na simplicidade da vida de infância, na qual só precisamos estudar e brincar. O gramado aqui é verde, de verão, agradável, na cor da Natureza, do Partido Verde, em deliciosas lembranças de verão na praia e na piscina, na delícia do compartilhamento – de nada adianta termos as coisas se não podemos compartilhar, como duas certas pessoas, as quais interromperam um relacionamento, jogando fora, assim, a delícia que reside no compartilhamento. A menininha aqui é bem jovem, sem saber ler ainda, precisando do auxílio de um adulto, como Carrie em Sex and the City lendo para sua afilhada pequena, dizendo para esta não acreditar em príncipes perfeitos, como nessas boybands assediadas por tietes histéricas, na época da vida de menininha, a qual idealiza os rapazes bonitos, achando estes indefectíveis, maravilhosos, arrastando multidões em shows Mundo afora. A menininha é bem ruiva, ardente, na cor do sangue que tanto seduz o vampiro, o qual existe, sugando almas ao invés de sugar sangue – proteja-se do sociopatas, meu irmão! Aqui é um trabalho de paciência, na paciência que precisamos ter com as crianças, sabendo que estas são o futuro, nas gerações “passando a tocha” para os mais jovens.

 


Acima, Festa no barco. O bebê aqui é ainda jovem, talvez sem ter lembranças de tal momento, em todos os zelos ao redor de um bebê, na sabedoria popular de que ser mãe é padecer no paraíso. O homem aqui é o chefe de família, remando, sustentando um lar, como um amigo meu, trabalhando de Sol a Sol para prover um ótimo nível de vida para sua família, morando num belo prédio e dirigindo belos carros, tudo construído com muito trabalho e dedicação, no sacrifício que temos que fazer ao sair da cama todos os dias, na sedução da preguicinha, tentando-nos e ficar mais tempo na cama do que o necessário, no modo como podem ser sedutores os braços de Morfeu, nas palavras da senhora minha mãe de manhã cedo: “Hora de acordar e encarar a Vida!”. O homem aqui, apesar de ser o macho alfa, está de costas, discreto, no valor da discrição, na metáfora do camaleão, discreto, invisível, escondendo-se de presas e predadores, na noção taoista de discrição: Subestime ninguém; seja subestimando por todos. É como ontem vi na TV um showzão da estrela Alanis Morissette, a qual, antes de encabeçar o sucesso esmagador do superálbum Jaged little pill, amargou um retumbante fracasso, não desistindo assim, nas sábias palavras de uma ótima professora que tive: “Nunca deixe o fracasso lhe subir à cabeça!”. Neste quadro, temos a conveniência mundana do casamento, na mulher fazendo uma parte do trabalho e no homem fazendo a outra parte, como um senhor que conheço, o qual foi rejeitado pela própria esposa, resultando num amargo divórcio, num homem o qual, subitamente, viu-se “nu”, sem casa, nem família, nem cônjuge, nem prole, tendo que se esforçar para dar a volta por cima e arranjar uma nova companheira, no modo como homem hétero precisa de mulher e mulher hétero precisa de homem, num enlace que se desfaz com o Desencarne, nas palavras do sacerdote no púlpito: “Até que a morte os separe!”. Aqui temos uma ondulação deliciosa, aquosa, relaxante, remetendo ao conforto uterino, quieto, quentinho, uma delícia, como relaxar numa banheira quentinha, no trauma do nascimento, em um choque térmico, em todos os sentidos, literal e figurado, no nenê chorando enquanto todos riem para receber tal criança no Mundo, havendo oposto no desencarne: Enquanto todos choram pela minha morte, eu rio em tal momento glorioso de libertação. Aqui é para ser um prazeroso passeio, mas o homem está em pleno labor, como num filme clássico com os remadores escravos num barco, nos horrores escravocratas, tratando seres humanos como animais, com pessoas sendo jogadas numa senzala como cachorros, como no manifesto social da telenovela Sinhá Moça, nos anos 1980, em sequelas sociais que vivem até hoje no Brasil, no preto pobre na favela, em contraste com o branco rico, como na Bahia, onde preto trabalha para branco. Aqui é como um pai conduzindo o carro para transportar a família, num encargo sisudo, na poderosa figura patriarcal do macho alfa, na figura do Rei Leão, o rei da selva, fazendo da mulher um mero útero reprodutor, como uma certa pessoa, a qual se tornou um útero reprodutor a serviço de uma coroa, ou no triste exemplo de Grace Kelly, abandonando uma carreira brilhante, no machismo da mulher adotar o sobrenome do marido, vivendo na sombra deste, no modo como, sinto em dizer, a própria mulher é machista. Aqui é um momento extraordinário, de lazer, longe do dia a dia, como num veraneio, como meus verões com minha família em Jurerê, SC, na época em que meus pais eram bem jovens, tendo vigor para fazer tais “aventuras”, viajando muitas centenas de quilômetros até o famoso balneário, numa terra exótica, estranha, intrigante, na deliciosa sensação de liberdade que a praia nos traz. O homem aqui sente o peso do encargo, da responsabilidade, naqueles pais zelosos, que nada deixam faltar em casa, como numa comédia com o ator Chevy Chase, em que um pai é capaz de roubar para prover a própria família, ou como na mãe de Esqueceram de Mim, disposta a vender a alma ao Diabo para ver como estava o filho esquecido Kevin. Cassatt gosta de modelos assim, aprumados, elegantes, aristocráticos, privilegiados.

 


Acima, Jovem de verde. Este quadro é um dos indicativos do talento impressionista de Cassatt, com furiosas pinceladas incertas que revelam a imagem. A moça aqui é séria, bem séria, talvez se esbarrando com as durezas naturais da Vida, as quais acabam por nos fazer evoluir como espírito, visto que nenhuma encarnação é em vão – ninguém está na Terra a passeio, e você não concorda que a Vida vai fazendo de nós pessoas melhores? É como num aluno crescendo num curso universitário, na noção dialética de que pode haver um encadeamento de processos, ou seja, cresço espiritualmente e cresço numa faculdade também, e, além disso, vem o adulto que um dia foi criança. A moça aqui tem a paciência para posar, como na paciência para se sentar numa cadeira de cabeleireiro, ou como um ator por horas numa cadeira de maquiador, como numa cena que foi extirpara pelo diretor da edição final da comédia A morte lhe cai bem, numa cena em que Maryl Streep teve que ficar horas numa cadeira para fazer uma maquiagem de cadáver congelado, o que foi deixado de fora do corte final, causando, é claro, uma grande frustração a Streep, vendo trabalho sendo jogado fora, no modo como as extirpações são inevitáveis na Sétima Arte, num ator que não pode reclamar dos cortes, tendo que acatar a decisão soberana do diretor, um diretor que se vê forçado a fazer escolhas muito duras, como o fez certa vez o diretor Fabio Barreto, extirpando totalmente a participação de um ator em O Quatrilho, um ator o qual, é claro, ficou absolutamente frustrado, nas frustrações naturais da Vida, nas palavras de Barbra num show: “Você pode sobreviver aos desapontamentos da Vida!”. A luz aqui entra majestosa, penetrando no fino chapéu, em competentes diretores de fotografia, embelezando películas. A moça aqui está despojada, sem adereços, joias, uma nudez de simplicidade, a qual é a maior forma de sofisticação, na forma que a pessoa precisa ser, de fato, autodidata, pois não há livro ou faculdade que nos ensine a brilhar, numa pessoa que vai trilhando instintivamente seus caminhos, na capacidade de uma pessoa se vender, como na transcendental Diana, superando a realeza daquele país, tornando-se um ícone de popularidade esmagadora, numa devoção quase religiosa, em píncaros de fama, como na devoção brasileira ao redor do carismático cantor Leonardo, lotando shows Brasil afora, num ídolo que podemos receber em nossas casas e servir-lhe um café, como em carismas como Papa Francisco, um senhor que podemos receber em nossas casas, num carisma de rei, num papa simples, humilde e clemente, que quer agregar as pessoas e não excluir, ao contrário de outro certo senhor, o qual não era tão benevolente assim, como na sucessão de rainhas da Festa da Uva – algumas meninas marcam muito bem marcado seu próprio reinado; outras, nem tanto. A rainha em questão tem que ter alma de diva, de artista, como a querida Elizabeth Menetrier, rainha da Festa de 1969, uma rainha marcante, respeitável, apreciada, carismática, maravilhosa. O pescoço aqui é firme, sólido, como um pilar sustentando algo, como no mito de Atlas segurando o Mundo, num homem sustentando uma família, em pesos de responsabilidade dupla: sustentar materialmente uma criança e, ao mesmo tempo, incutir valores nobres na cabeça de tal infante. Neste quadro podemos sentir um delicado olor de flores, no fascínio das fragrâncias, bens de consumo cobiçados ao ponto de pessoas tentando furtá-los de freeshops em aeroportos, no modo como o incenso indiano ganhou a Europa, num perfume que nos dá a sensação de limpeza, remetendo à absoluta limpeza do Plano Superior, o qual é livre das vicissitudes de sujeiras terrenas, em rituais tão revigorantes como um banho bom, saindo renovado, como cortar o cabelo, numa renovação, girando em torno do frescor eterno metafísico, em cidades espirituais limpíssimas, remetendo a nossos garis, pessoas que levam uma vida muito dura, varrendo para cima e para baixo as ruas de uma cidade.

 


Acima, Jovem mãe costurando. Aqui é uma paciência dupla – costurar e tomar conta de uma criança. O vaso com flores é a beleza, a exuberância, como no impacto de Carmen Miranda, encantando com cores e alegria um Mundo tão cinzento por causa da terrível II Guerra Mundial, fazendo com que as pessoas ficassem, por algum tempo numa sala de Cinema, longe dos terrores de morte, violência e destruição, como em Caxias do Sul, na qual, nesse período bélico, não houve Festas da Uva, no modo como, naquela época, não havia clima para festa nem animação, no modo como a geração de meus avós saiu azarada por passar por tal período. A mãe está com o cabelo aprumado, recatado, disciplinado, no pudor de uma mulher em público, ao contrário de hoje em dia, quando uma mulher tem toda a liberdade para sair na Rua com os cabelos soltos ao vento, em movimentos libertários como Coco Chanel, ousando com inovações, numa CC dizendo certa vez numa entrevista que os jovens não têm coragem de transgredir, numa estilista que virou sinônimo de feminilidade e sofisticação, trazendo a transgressão do cabelo estilo Chanel, derivando, posteriormente, a mulheres com o cabelo bem curtinho, estilo joãozinho, na praticidade de se ter cabelo curto, como Xuxa Meneghel atualmente, com o cabelo bem curtinho, neste ícone que marcou para sempre minha geração, que foi criança nos anos 1980, em plena Era Analógica, com o televisor de tubo sem controle remoto e só com canais de TV aberta, o telefone de gancho e disco e a carta pelo correio, diferente na meninada de hoje em dia, a qual vive em plena Era Digital, sem fazer ideia de como foi o paradigma analógico, no caminho inevitável das modernizações, chegando a um ponto em que será possível mandar o Homem para Marte, numa corrida espacial como na competição para ver qual país tem a torre mais alta do Mundo. A menininha aqui está bem à vontade, com o cabelo revolto e desgrenhado, livre, como se brincando numa piscina, na sensação de liberdade de regimes democráticos, com um cidadão nascendo livre, sem obrigação de votar ou de se apresentar para o Exército, ao contrário de Israel, país no qual o jovem é obrigado a prestar tal serviço, no modo é só a liberdade o que nos dá uma sensação de prazer e amor, de bem estar, como na deliciosa sensação de se nadar nu no mar, na nudez sem malícia. Provavelmente a menininha aqui seguirá os passos da mãe, enveredando para o caminho óbvio de ser mãe, esposa e dona de casa, um trabalho que não vai dizer à mulher quem ela própria é, no processo de identidade da pessoa, como no preconceito misógino que Margareth Thatcher sofreu no início da carreira política, ouvindo pessoas indagando-a: “Quem vai cuidar de seus filhos? Quem vai manter a casa limpa, organizada e abastecida, com comida feita na mesa?”, numa mulher que enfrentou com vitória tais preconceitos, no caminho feminista da libertação, como a irreverente Cássia Eller, no palco do Rock in Rio, mostrando, brevemente, seus seios para a plateia, numa mulher moleque, a qual, em sua simplicidade, só queria se divertir, na força feminista de ir contra os ventos fortes do patriarcado, os quais também prejudicam os homens, dos quais é cobrado o êxito mundano – o homem que não obtém sucesso se sente um lixo. Aqui é uma mulher do lar, aprisionada em tarefas do lar, como na ilustração do cartaz da peça cômica Pois é, vizinha, fazendo dos chinelos de ficar em casa uma prisão de correntes, numa vida dura de Maria, “matando-se” para deixar tudo em ordem perene, em gritos enérgicos de mães tendo que colocar ordem na casa, mostrando quem é que manda ali dentro. Aqui é a paixão por roupas, fazendo da Moda e do Estilo excelentes meios de autoexpressão, como vi recentemente num shopping um grupo de meninas ALTAMENTE estilosas, singulares, cosmopolitas, arrebatadoras, ousadas, joviais, causando impacto em quem as visse, no modo como há muitas pessoas jovens já com “teias de aranha” na cabeça. A camisa listrada é a elegância ereta, como no monólito de 2001, num formato de dispositivo móvel, nos avanços infinitos.

 

Referências bibliográficas:

 

Mary Cassatt. Disponível em: <www.en.wikipedia.org>. Acesso em: 12 mar. 2025.

Mary Cassatt. Disponível em: <www.pt.wikipedia.org>. Acesso em: 12 mar. 2025.

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