quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Keep the Faith (Mantenha a Fé)

 

 

Americana de 1930, Faith Ringgold nasceu no bairro negro do Harlem, Nova York. Foi aluna e professora de Arte. Politizada, aderiu a movimentos feministas e antirracistas. Sua carreira acumula setenta prêmios e honrarias. Os textos e análises semióticas a seguir são inteiramente meus. Boa leitura!

 


Acima, American People Series n. 15: Hide Little Children (Séries Povo Americano n. 15: Criancinhas Escondidas). 1966. As crianças aqui aderem ao bioma, tornando-se parte de um organismo maior e supremo, na sabedoria da pessoa se curvar, ser humilde e procurar aderir ao sistema, para que, assim, esta pessoa acabe triunfando – quem começa se curvando, acaba vencendo, ao contrário do arrogante, o qual acaba quebrando a própria cara. As crianças aqui são os frutos, na esperança de uma família, porque o que seria de nós sem as crianças que nos sucederão? Podemos ouvir aqui o cricri dos grilos, insetos que se calam nas frias noites de Inverno. As crianças são como ovinhos de Páscoa, tornando-se tal tesouro para os pais, com crianças envoltas em cuidados, numa pessoa que, ao ter filhos, teve que aprender, na marra, a ter responsabilidade, como uma pessoa de minha família, tendo que encarar a dureza da Vida, como me disse certa vez uma pessoa querida: “Se tu tiveres filho(s), tua vida nunca mais será a mesma. Nunca”. Aqui temos uma camuflagem, numa pessoa que quer se reservar e ficar implícita, no poder das mensagens subjetivas, as quais resultam em objetivas, ao contrário das mensagens primordialmente objetivas, as quais acabam se perdendo – de novo, curva-te e reinarás. Podemos ouvir o farfalhar das plantas, na canção Summer Wind, na sensualidade dos processos perenes, num Universo em constante processo de mudança, de evolução, pois a estagnação não é sexy, pois é como se fosse uma fétida água parada, cheia de bactérias nocivas. Aqui temos discrição, como num Luis Fernando Veríssimo, meu escritor preferido desde minha adolescência, um senhor que, quando eu estava há anos num shopping em Porto Alegre, Veríssimo lá estava passeando com a esposa, mas eu não o interpelei para tirar uma selfie – eu respeitei o momento de lazer do cidadão, na questão taoista da pessoa conquistar o respeito secreto das pessoas. As folhas são a força da Natureza, como numa antiga abertura do televisivo Fantástico, da Globo, com as forças da Natureza, vibrantes, implacáveis, fascinantes, com os quatro elementos se revelando, dando uma ínfima amostrinha do poder de Tao, a grande tempestade que acaba nos fazendo tanto bem, como um remédio amargo que cura, com frutos sendo colhidos após um árduo plantio. Aqui temos um pudor, uma reserva, numa pessoa que aprendeu que a Indiscrição prejudica a própria pessoa indiscreta, como uma pessoa desagalhasada num gélido dia invernal, entrando aqui a questão da autoestima, do amor por si mesmo, sem narcisismos, como diz uma canção: “Aprenda a amar a si mesmo, pois isto é um grande, grande sentimento”. Aqui o novo vai se revelando, com as gerações passando, com artistas emblemáticos que se tornam poderosos ícones de uma geração inteira, como num Sinatra, na decepção de meu pai, o qual, em Nova York, indo assistir a um show de Frank, deparou-se com um aviso da bilheteria: “O senhor Sinatra está gripado e afônico. Logo, não se apresentará esta noite”. É como a minha geração, a geração Marisa Monte, no topo da MPB, com artistas sofisticados, dignos de obter o respeito de intelectuais, empresários, médicos, advogados etc., ou seja, a Inteligência, numa Elis Regina, absolutamente criteriosa na hora de selecionar repertório – é a questão de respeitar a inteligência de outrem. Aqui, a hera vai lentamente se entremeando, apoderando-se gradualmente, despercebida, subestimada, até dar seu bote, como numa Gisele, nos píncaros de popularidade capazes de fazer seus ondulados cabelos virarem moda global – todas querem ser Gisele, numa raiva inconsciente, tentando “arrancar” de Gisele a estrela que a supermodelo tem. Aqui é uma plantação pronta para a colheita, como na vindima, no desafio de colher a fruta no ponto certo – nem muito verde e azeda, nem muito passada.

 


Acima, Black Light Series n. 12: Party Time (Séries Luz Negra n. 12: Hora de Festa). 1969. Aqui temos uma movimentação cíclica, como num clipe das Spice Girls, no qual cada uma personificava um dos quatro elementos primordiais, num conjunto que teve que levar adiante após o desligamento voluntário da quinta spice girl. As bandas são como casamentos sem Sexo, e é duro manter um grupo coeso depois de décadas de carreira – precisa haver diálogo e paciência. É como numa firma, num organismo em que cada órgão tem sua dignidade. Aqui é a beleza das Quatro Estações, numa Nova York, com um Verão tão tórrido e abafado e um Inverso tão gélido. É como a fronteira entre quatro nações, nos controles alfandegários, na fiscalização buscando por drogas, na promessa populista de Trump em construir um descomunal muro dividindo as duas nações – quanto mais regras você inventa, mas as pessoas desejarão transgredi-las. Aqui é como uma divertida pista de dança, no prazer de suar na pista, deixando de lado, ao menos por um momento, as exigências sociais em relação à aprumação e formalidade, como num bom baile, indo até o raiar do dia, com os coloridos vestidos das moças brilhando no mágico amanhecer de gala, com a beleza da Estrela da Manhã, na promessa da terra metafísica da Beleza e da sensação de alto pertencimento, como numa estrela de Cinema com uma carreira absolutamente nos trilhos, deslanchada. Aqui é num curioso fluxo de pista de dança carnavalesca num salão, com os foliões dançando em ciclos anti-horários, com água escorrendo ralo abaixo, nos poderes magnéticos da Terra, com a água escorrendo no sentido anti-horário num hemisfério e no sentido horário no hemisfério posto, no senso de humor de Tao, dando para uns o Verão e, para outros, o oposto – observando tudo de um modo amplo e abrangente, a Vida não deixa de ser engraçada. Aqui é um vibrante círculo de mulheres conversando, como nas mulheres da minha família por parte de mãe, as quais, quando reunidas, conversam em um volume auditivo que beira a gritaria – é divertido. Aqui é uma se colocando no lugar da outra, na questão da compaixão, da comiseração, pois amar não é pieguice, mas se colocar nos sapatos do outro e entender como o outro se sente. Aqui são as renovações democráticas, numa certa alternância no Poder, como nos EUA, numa dança de cadeiras que reveza Democratas e Republicanos, na saudável renovação no Poder, pois, ao final do mandato, acaba o baile de Cinderela, a qual tem que se retirar, como num produto com prazo de validade. Aqui é como mulheres se divertindo num shopping, fazendo não só compras, como também uma peregrinação exaustiva pelas lojas, no prazer de tocar nos produtos, ou seja, curtir ao máximo o momento de recreio consumista. Aqui são como irmãs na mesma família, umas emprestando as coisas para as outras, como batons, brincos, esmaltes etc. Aqui são como quatro vizinhas, fazendo suas saudáveis fofocas, como no filmão O Clube das Desquitadas, com mulheres se unindo para encurralar os seus próprios maridos ingratos. Aqui, temos dois quadros claros e dois escuros, na alternância entre dia e noite, vendo aqui também o senso de humor de Tao, dando a uns o dia e a outros a noite, como num colégio que nunca para de funcionar, com alunos em todos os turnos, no título novaiorquino de A Cidade que Nunca Dorme. Nos quadros azulados temos um sensual luar, numa luz mais discreta, que não revela muito; nos quadros restantes, temos ideias mais claras e definidas, no jogo entre claro e escuro, como na Pintura Barroca, com seus fundos negros e suas formas terrivelmente claras, no poder chamativo dos contrastes, como num farol listrado querendo atrair a atenção dos navegadores, como nos antigos moldes sociais baianos: ou você era um rico branco ou você era um pobre negro, fadado a trabalhar para o branco – como são cruéis os abismos sociais! E são abismos que, ao Desencarne, dissipam-se invariavelmente, só restando a hierarquia em termos de apuro moral.

 


Acima, Coming to Jones Road n. 4: Under A Blood Red Sky (Vindo para a Estrada Jones n. 4: Sob um Céu cor Sangue). 2000. As figurinhas humanas são como um exército de formigas, sempre trabalhando pelo grupo, pela coletividade, no talento de um líder, que se coloca a serviço da comunidade, merecendo respeito. Um formigueiro agredido sangra como um escândalo revelado, desvelado, como numa reviravolta na vida de alguém, sacudindo a poeira e ganhando vida nova, numa pessoa que entendeu que o autoencontro é dentro de si, nunca fora de si. A densa floresta é o mistério, com coisas que nunca são reveladas antes da hora, no modo como não existe bola de cristal, e as surpresas nos aguardam – quanto mais humilde sou, menos sofro com surpresas negativas. As árvores aqui são a proteção do lar, o acalento, numa mãe zelosa, num filho que, pela primeira vez vivendo sozinho, sem a mãe, dá valor ao zelo que então recebia – dou-me conta do que perdi depois da perda em si, ou seja, devo me dar conta das bênçãos para não as perder. O vermelho é um céu que sangra, como na estrela rubra, um rubi belo no céu, no sangue de um brutal campo de batalha, como o Aragorn de Tolkien encorajando os homens no campo de batalha, gritando: “Que venha um dia vermelho!”. Aqui é uma colcha de Faith, numa avó zelosa cobrindo o neto numa noite fria de Inverno. A colcha é o acalento do lar, da família, no modo como os vínculos de família sobrevivem ao Desencarne, havendo na Eternidade o tempo de superação de todas as desavenças – você nunca vai deixar de ter família! Os troncos da árvores são a firmeza, a garantia, numa pessoa que entendeu a credibilidade de um homem de Tao, um homem que nunca ambiciona dinheiro ou pedras preciosas; um homem que tem a noção da ilusão que é a possessão material, rechaçando as ilusões materialistas. As árvores são a Vida, a força da Vida, sempre lutando para sobreviver, vestindo roupas maravilhosas, mais luxuriantes do que qualquer obra de um estilista de Moda. Os troncos brilham no escuro como neon azul, nas mágicas florestas coloridas de Avatar, numa mata paradisíaca, cheia de água fresca e perfumes vegetais, como na magia floresta Lothlórien de Tolkien, num mundo mágico, como nas atrações turísticas de Gramado, sempre visando encantar o turista, como no complexo de parques de Orlando, EUA, apelando para a memória afetiva da pessoa, vendendo produtos que emocionam, no talento mercadológico americano em vender, como numa competitiva China, exportando para o Mundo. O vermelho é um poente ardendo em vermelho, anunciando um dia seco e ensolarado, nos dias gloriosos de Sol nos quais temos o prazer de olhar para um céu limpo e encher nossos pulmões de ar, na dádiva que é ter Saúde, pois nunca ouvimos que tendo Saúde é o que importa? Então, tudo gira em torno da Saúde inabalável do Plano Metafísico, o lugar onde terminam nossos problemas terrenos, fazendo com que abracemos a Simplicidade maravilhosa da dimensão acima, um plano em que tudo que temos que fazer é arranjar algum trabalho, num plano em há empregos (bons) para todos, longe das vicissitudes de falta de empregos na Terra. Esta obra é muito bem emoldurada, na questão de uma moldura só ajuda se estiver emoldurando um quadro bom, ou seja, de que adianta eu fazer um anúncio publicitário maravilhoso para um produto de baixa qualidade, deixando, assim, de fidelizar o cliente? Esta moldura traz estrelas, numa pessoa em momento de contemplação, sonhando e olhando para as estrelas, sonhando com uma vida maravilhosa, desapegada, bela, poética, querendo sair um pouco do Mundo de vicissitudes, querendo sobreviver a tal Mundo. As estrelas são os deuses, os espíritos evoluídos, de perfeição moral, como nas noções civilizatórias da tábua dos Dez Mandamentos, inspirando a Humanidade a evoluir e fazer da Terra um extensão do Mundo acima, do Mundo pleno e espiritual. Por fim, vemos uma discreta luz branca, na magia dos ciclos da Natureza, sempre voltando ao ponto inicial, no eterno recomeço.

 


Acima, The American People Series n. 18: The Flag is Bleeding (Séries Povo Americano n. 18: A bandeira está Sangrando). 1967. Os EUA têm lá suas questões sociais e raciais, numa contradição para um país que se diz o paladino baluarte democrático da Igualdade. Vemos aqui um manifesto antirracista, com cidadão de pele branca e negra, longe das profundas miscigenações brasileiras. Aqui é um país de todos, sabemos, mas mesmo assim as tensões são grandes, como na massiva campanha do Black Lives Matter, ou seja, Vidas Negras Importam. Aqui, o homem negro segura uma sanguinolenta faca, ferindo a si mesmo, num país que tanto evoluiu, com um presidente negro reeleito, em contraste com os grupos de supremacia branca que apoiam Trump – que horror e que fútil é o Preconceito. As listras vermelhas sangram, como no sangue africano escravizado, dando heranças sociais a descendentes negros pobres, numa Faith que vem de um bairro que é quase um gueto, num bairro violento, como negros trancados numa senzala, condenados ao labor incessante. E Faith nasceu e cresceu neste contexto, trazendo em sua arte tal manifesto social, tal protesto. Aqui, a mulher, apesar de estar no centro, está diminuta, abaixo dos homens que a cercam, no machismo eterno que faz da mulher um mero útero reprodutor, como numa esposa de príncipe, tornando-se um útero reprodutor a serviço de uma coroa. As listras são como barras numa prisão, com tantos negros americanos presidiários, vindos de um contexto social pobre e violento. As três figuras aqui estão engajadas, de braços dados, numa união, como num protesto na Rua, num país que garante ao cidadão o direito de manifestação e protesto, desde que forma civilizada e pacífica. A mulher aqui é frágil, numa magreza extrema, como numa pobreza extrema, tendo que ser escoltada pelos dois homens. A mulher é a fragilidade da Paz, esta força tão interrompida por conflitos e guerras. A mulher é a esperança de união, no modo como o Desencarne mostra ao indivíduo a superficialidade das diferenças raciais, como numa peça teatral que chega ao fim, revelando o elenco, que se curva para os aplausos. As estrelas são como a roupa da Mulher Maravilha, num símbolo feminista, numa mulher forte e com superpoderes, mas, a nível patriarcal, sempre abaixo do Super-Homem, nunca sendo tão boa quanto este – é o pesadelo das diferenças de gênero, num pesadelo que chega ao fim no Desencarne, no fato de que Tao nunca faz filhos menos ou mais amados do que outros. As listras são a elegância aristocrática, num país que se separou da Coroa Inglesa, tendo para si seus próprios mitos, como a família Kennedy – cada sociedade constrói para si o seu próprio sangue azul, o sangue que faz metáfora com a glória metafísica, na qual somos todos frutos de Imaculada Conceição, ou seja, somos maravilhosos, mas infelizmente nem todos veem isso. Aqui é como Madonna cantando o clássico Fever, ladeada por dois corpulentos homens, como guardacostas, como dois dobermanns guardando algo precioso. A faca é a ameaça, como uma amiga minha sendo assaltada, com o bandido mirando a arma para o coração desta amiga. Aqui temos um país que tenta se unir, enfrentando sua própria heterogeneidade, num país que busca por uma identidade, num Mundo que busca evoluir moralmente, como na possibilidade de o próximo 007 ser interpretado por um ator negro. A mulher aqui é uma frágil boneca, como na fragilidade da Paz, esta força frágil e, ao mesmo tempo, tão poderosa, no fato de que é só na harmonia que há felicidade e prosperidade, fazendo da Guerra um vício humano – não há Guerra no maravilhoso Plano Metafísico. O homem branco está engravatado, como um presidente na Casa Branca, num homem impositivo, como num Obama, o qual, ao ser interrompido por um jornalista numa entrevista coletiva na Casa Branca, “puxou a orelha” do jornalista dizendo: “Você está na minha casa”, sendo aplaudido pelos outros na sala – que homem, que líder, que carisma.

 


Acima, The American People Series n. 20: Die. (Séries Povo Americano n. 20: Morte). 1967. Quando Tao é perdido, o Caos reina, e ninguém sabe o que está acontecendo. É na completa insanidade, como um filho matando o próprio pai a machadadas, numa ardilosa Suzane Von Richtofen, tramando o brutal assassinato dos próprios inocentes pais, no modo como a Psicopatia pode trazer uma tenebrosa amostra do hálito do Umbral, a dimensão ociosa e grosseira em que a pessoa definitivamente não se vê como um filho especial e amado de Tao. Aqui é como o famoso painel de Picasso sobre a Guerra Civil Espanhola, como animais brigando, sendo perdida toda e qualquer civilidade ou polidez, num momento em que a Diplomacia não mais é capaz de evitar a Guerra, com diplomatas sendo expulsos de suas próprias embaixadas, no filmão Argo, uma trama tensa na qual um perverso sistema ditatorial tem que ser burlado para salvar vidas de americanos inocentes. Aqui, todos estão insanos e em pânico, com toda a civilidade perdida. Eles querem se defender atacando, na tenebrosa frase: “O ataque é a melhor defesa”, ou seja, por que a Paz se podemos brigar? É o talento humano para o Mal, na crueldade de uma guerra, espalhando fome de destruição. Aqui são como lobos trancados numa cela, cada um querendo se impor, numa concorrência, para ver quem é o macho alfa, no poder patriarcal em obter tensões entre reinos vizinhos, num rei ambicioso, que só quer anexar mais e mais territórios para si, na insanidade do descontentamento – se o que tenho creio que é insuficiente, então nunca terei o suficiente. Então, a pessoa, num processo existencial, vai se dando conta de que é possível ser feliz com pouco, sem ter obsessões por palácios de ouro maciço, os quais são cópias grotescas e materialistas das gloriosas cidades espirituais. Aqui, o sangue reina, e é derramado, como pessoas derramando o sangue do homem mais evoluído que já existiu na Terra, na incapacidade humana em entender o Metafísico. Aqui, vemos crianças inocentes sendo esfaqueadas, numa catarse de Faith Ringgold, como nos bebês mortos no naufrágio do Titanic. Aqui, não temos noção de Tempo ou Espaço, e a confusão reina. Não sabemos de que modo podemos dispor a obra na parede. É o modo como as noções humanas são tão ínfimas em relação ao Universo, num cosmos sem Norte ou Sul, sem Hoje ou Amanhã, na pequenez humana e, ainda assim, num ser que busca em referências como Jesus a compreensão do plano acima, rejeitando toda a imensidão material cósmica, nesse universo que, de tão infinito, faz com que seja inútil querermos contar e catalogar estrelas – é grande demais. Aqui é na comédia Os Sete Suspeitos, num mistério policial, com vários suspeitos numa casa dantesca, num desafio de Agatha Christie para que possamos adivinhar quem é o assassino. Aqui, as pessoas estão em grande pânico, com os olhos arregalados, horrorizados, incrédulos perante a capacidade desarmônica humana, com nas tramas palacianas num Antigo Egito, para ver quem será o próximo rei, neste jogo de tronos no qual a Bondade e o Amor nada, nada significam – é a insana sede por Poder. Aqui é um momento de susto. Vemos duas criancinhas abraçadas, desalentadas, torcendo para que tudo passe e que elas possam brincar em Paz novamente, como na crueldade de A Escolha de Sofia, num sistema governamental que pouco de importa com a felicidade das pessoas – é o caminho da Loucura. Podemos ouvir aqui os gritos ensandecidos e os tiros de revólver, numa manifestação sendo brutalmente reprimida, com tanques esmagando os manifestantes, num sistema em que o cidadão simplesmente não tem o direito de pensar; num sistema que submete a Arte a ideologias, numa escravidão ideológica. Aqui, irmão derrama sangue de irmão, e Tao observa tudo lamentosamente, como no filmão Dogma, com um Deus muito sentido com o caos bélico, restaurando tudo ao final, devolvendo o Ser Humano à pacífica e deliciosa vizinhança metafísica. O fundo aqui é cinza, incerto, num dia dúbio, em que não sabemos se há preto ou branco. É a dúvida existencial.

 


Acima, The Judson n. 3 (O Judson n. 3). 1970. Aqui, a bandeira americana está subvertida, parecendo-se com um país ditatorial, comunista, como numa Cuba, num líder irresponsável ao ponto de colocar sempre a culpa nos “imperialistas norteamericanos”. É um líder que trouxe miséria a seu país, num líder de clara e observável incompetência – se eu me acho perfeito, o fracasso é culpa de outrem, sempre. Aqui grandes barras de prisão aprisionam o quadro. As barras são a prisão de carne que é nosso corpo, num presidiário que sonha em se libertar, sonhando com o glorioso momento em que será desconectado de todas as vicissitudes relativas à Matéria, indo para um mundo onde tudo é pensamento, nunca pedras preciosas. Estas listras impiedosas são como vetos governamentais a textos considerados subversivos, como na Ditadura Militar do Brasil, numa época em que nem no Exterior era possível vir a público falando mal do governo brasileiro, como numa Elis Regina, a qual falou mal do governo em Paris, fazendo com que a Embaixada Brasileira naquela cidade mandasse o texto para Brasília... É um modo artificial de se ter Paz, fazendo com que um Estado se torne uma prisão. As barras negras são agourentas, escuras como agourentos urubus cercando uma carniça. São tarjas que censuram partes de textos, na frustração de um artista em ser censurado, como na censura em relação à Viúva Porcina de Betty Faria – os ditadores morrem de medo dos próprios cidadãos, numa covardia opressora. Aqui é como uma propaganda comunista, numa Faith que testemunhou toda a Guerra Fria, numa época em que o Comunismo assustava o Capitalismo, insinuando-se sobre o Brasil, talvez querendo anexar este à URSS. É como no jogo de tabuleiro War, com territórios sendo cobiçados e anexados, fazendo com que exércitos se tornem massa de manobra a serviço da vaidade de um líder ambicioso. Estas barras impedem, censuram e sufocam, como num truculento Trump, infantil ao ponto de não reconhecer devidamente a derrota – é o apego ao Poder. Aqui temos um sistema doente, num arremedo precário de Estados Unidos, com estados opressores que gostariam de ser tão ricos e desenvolvidos como inimigo americano, numa atitude de inveja, pois Amor e Liberdade andam de mãos dadas, como Tao, o qual nunca se impõe brutalmente, na hierarquia baseada não em Poder, mas em apuro moral – os mais elegantes servem de exemplo aos menos elegantes. O ditador dá um tiro no próprio pé aqui, um homem que pode ser temido, mas nunca respeitado de fato, no modo como o homem de Tao é secretamente respeitado pelas pessoas, num voto de confiança, como votar com gosto em algum candidato num cargo eletivo. Aqui são como barras num campo de concentração, tratando seres humanos como não se trataria um animal. Aqui são como códigos de barra que reduzem um cidadão a uma mercadoria, sempre a serviço de um ditador em soberba, enviando soldados para a morte certa num campo de batalha, transformando seres humanos em meros peões num tabuleiro de vaidades. Aqui as estrelas estão sufocadas, e o ditador jura que é um líder amado, respeitado e admirado, como se o ditador fosse uma coisa a qual definitivamente não é – um homem de Tao. Aqui, vemos uma guerra entre linhas horizontais e verticais, e as verticais se impõem da forma mais brutal e cruel possível, na questão: “Quem é o vencedor na Guerra?”. Esta bandeira está dura, sem tremular, num marasmo entediante, numa propaganda governamental que insiste em vender o ditador como um anjo apolíneo, num país em que o cidadão sequer pode ter o cabelo do jeito que quiser, trazendo aqui Adam Smith: Cada homem é livre e responsável por si mesmo, no respeito às diferenças. Ao contrário de Marx, que acha a espiritualidade uma piada, num cidadão escravo de um Estado Paternal. Aqui, a frase impositiva assusta o cidadão, mas, na verdade, o ditador é quem teme o cidadão.

 

Referências bibliográficas:

 

About Faith. Disponível em: <www.faithringgold.com>. Acesso em: 11 nov. 2020.

Art. Disponível em: <www.faithringgold.com>. Acesso em: 11 nov. 2020.

Faith Ringgold. Disponível em: <www.en.wikipedia.org>. Acesso em: 11 nov. 2020.

quarta-feira, 11 de novembro de 2020

Toshiko está Chique

 

 

Japonesa de 1940, Toshiko Horiuchi MacAdam se encontra radicada no Canadá. É conhecida por suas instalações-playgrounds, convidando o espectador a brincar e interagir. Toshiko tece tudo a mão, num trabalho de formiguinha. Os textos e análises semióticas a seguir são inteiramente meus. Boa leitura!

 


Acima, sem título (1). Temos aqui uma artista generosa, uma boa anfitriã, deixando que as crianças brinquem em seu playground têxtil, remetendo-me ao meu vizinho em Jurerê, SC, o senhor Cabreira, que permitia que as crianças da vizinhança brincassem no parquinho que Cabreira tinha em seu quintal – a generosidade é um dom. Podemos ouvir a gritaria enlouquecida da gurizada, num momento de pura diversão e de nenhuma obrigação, como na hora do recreio na Escola, remetendo à difícil infância de Michael Jackson, um menino que, em nome da precoce carreira, simplesmente não podia brincar com as outras crianças no parquinho, uma privação que foi estourar na idade adulta do astro. Aqui, as crianças, ao trepar na estrutura, influenciam umas às outras, num corpo dinâmico e flexível, balançando, mexendo-se, como numa empresa, no convívio em que as influências mútuas ficam inevitáveis. As cores são alegres, diversificadas, numa Toshiko que jamais perdeu a alegria de viver, a candura infantil, mesmo já sendo uma senhora de idade avançada – manter-se jovial é uma dádiva, como num Leonardo da Vinci, uma pessoa brincalhona, ou como na divertida apresentadora americana Ellen Degeneres, cujo passatempo é pregar hilários sustos nos outros, numa manteiga que nunca fica rançosa. Aqui, temos um grande sucesso de popularidade, e o tempo voa para as crianças que estão brincando, no modo como a criança tem uma energia frenética a qual um adulto não pode acompanhar. Aqui são as cores do arcoíris depois de uma tenebrosa tempestade, dando um sinal de esperança, de ressurreição, de renascimento, na alegre diversidade das cores, num Mundo tão duro, tão inflexível em relação às inevitáveis diferenças, fazendo com que os adultos aprendam muito com as crianças, pois a Infância é uma fase simples, sem as sisudas exigências adultas. Aqui são como microorganismos dentro de um corpo, na multiplicação por mitose, como bactérias avançando num processo de decomposição orgânica. Aqui são como vários espermatozoides soltos num útero, procurando obsessivamente pelo cobiçado óvulo, nas concorrências da Vida, como numa eleição municipal, com centenas, até milhares de candidatos a vereador, com poucas vagas para muitos pretendentes, no modo como o pleito eleitoral é uma carnificina, distribuindo terríveis frustrações aos sonhos dos ambiciosos candidatos. Aqui é como uma Grande Mãe, recebendo seus filhos em seu imaculado útero, no verde e alegre Jardim da Infância, fazendo metáfora com os jardins metafísicos, onde todos somos crianças novamente, numa Virgem Maria de braços abertos, numa Rainha da Festa da Uva convidando todos para participar da vindima, num doce momento de Verão, de festa, de doces frutos, na compensação de muito trabalho e disciplina, no sonho do imigrante italiano, na fartura das mesas de galeteria ou de café colonial. Aqui é como uma distribuição de terras, de fartas terras devolutas, sendo desbravadas pelos bandeirantes, no desafio europeu em trazer noções civilizatórias às selvagens e desregradas terras americanas, com primitivos índios canibais, num selvagem hábito tão distante da depuração moral exigida espiritualmente de cada pessoa – a Humanidade está em constante processo de evolução e depuração, com as noções morais de objetos como a tábua dos Dez Mandamentos. Aqui é como um programa infantil de Xuxa, numa apresentadora de carisma, chegando à Terra em seu doce disco voador cor de rosa, encantando as crianças com seus jogos, desenhos animados e canções infantis, numa das maiores estrelas da História do Brasil. Aqui é a alegria de ser guiados pelas mãos de um homem de Tao, um homem sábio, o qual é visto, amado e respeitado, como num Renato Aragão, no divino dom de saber interpelar as crianças, fazendo do senso de humor uma das maiores virtudes humanas.

 


Acima, sem título (2). Aqui são como poros, deixando a pele respirar, como numa pessoa sábia e ponderada, sabendo respirar, sempre com a humildade para entender que o Homem é infinitamente inferior a Tao, o insuperável. Aqui é uma sala de estar democrática, com os sofás dispostos em forma de U, com a abertura para fora – entra quem quer; sai quem quer. É a Lei do Livre Arbítrio, fazendo metáfora com as asas dos anjos, esses maravilhosos espíritos desencarnados, na crença espírita de que os anjos da guarda existem, sendo simplesmente espíritos desencarnados evoluídos, sempre querendo colocar no melhor caminho a pessoa guardada, no reconfortante modo como ninguém está sozinho, havendo uma ilusão no sentimento de solidão – não há almas desassistidas. Aqui, é uma paciente aranha, tecendo instintivamente esperando que uma mosca desavisada caia na cilada, assim como um sociopata ardiloso e imoral, tecendo suas teias para enganar e explorar alguém, quando não matar. Imagina-se o tempo de trabalho que levou para Toshiko fazer tal obra. Aqui são como vários ovos, de sapo, rã ou peixe, na força da Vida, sempre lutando para respirar, num animal cujo instinto impede que o bicho se atire nas cordas e deixe de lutar pela Vida. Aqui são como as ovas de salmão, fluindo rio abaixo, crescendo, virando peixes que sobem rio acima, fazendo uma nova desova, nos ciclos da Natureza. Aqui é uma divertida colcha de retalhos, aproveitando as sobras e produzindo algo novo, nas mágicas mãos transformadoras de um artista plástico, sempre manipulando as coisas e criando coisas novas. Este tecido gigante me remete às comadres que se reúnem num café de Caxias do Sul, à tarde, para tricotar nos dois sentidos – literal e figurado, num trabalho paciente, como numa paciente formiga reconstruindo o formigueiro após algum colapso, no modo como eu optei por recomeçar do zero ao ingressar no curso de Comunicação Social na Universidade de Caxias do Sul, na canção Começar de Novo, como eu cantava com minha colega de Ensino Médio, pois ambos fomos reprovados no último ano do Ensino Médio, e fomos juntos recomeçar numa escola pública, nas maravilhosas chances de eterno recomeço, remetendo à canção de Jazz: “Você pode estar cansado de tudo isso, mas você vai ser um homem, meu filho”. Ou seja, hora de batalhar e de ter disciplina – não existe segredo para uma vida ficar organizada. Esta festa de cores me remete a uma mostra do talentoso artista plástico brasileiro Jorge Menna Barreto, com vários tapetes multicoloridos dispostos uns ao lado dos outros, num conjunto vibrante, dinâmico, como num vestido de paetês coruscante, parecendo que é um conjunto de luzes de Natal, vibrando, lutando para viver e sobreviver, pois verás que filho teu não foge à luta. Aqui é como água borbulhando, num ponto em que a pessoa se dá conta de que não existe piloto automático na Vida, na necessidade do “barco” ter que ser sempre tocado adiante – não existe segredo. Existe aqui uma aceitação, pois diferentes raças convivem em Paz, sem a cruel superficialidade do Racismo, esta força malévola que faz com que nos esqueçamos de que somos todos príncipes, filhos do mesmo Rei, havendo, na Dimensão Metafísica o perecimento desse preconceito, pois na dimensão acima existe civilidade, delicadeza, polidez e, acima de tudo, Amor, pois como posso construir algo se tenho Ódio em meu coração? Aqui, estamos todos unidos, como no momento de votação democrática, no qual nossas diferenças nada valem, estando igualados no momento do pipipi da urna eletrônica. Aqui é um jogo, com pessoas surgindo e desaparecendo por esses poros, como no fluxo de estudantes numa universidade, com alunos em momentos diferentes de seus respectivos cursos. É uma grande bandeira tremulando, num país que busca respeitar a individualidade da pessoa, ao contrário das ditaduras, as quais esmagam o próprio cidadão – o Amor liberta. Aqui é uma grande rede de pesca, nas delícias dos frutos do Mar, como disse uma certa personagem: “Comer é a melhor coisa que existe”.

 


Acima, sem título (3). Um momento de montagem e preparação. Uma lânguida rede para repouso, no divertido modo como, em Portugal, existe um folclore de piadas que coloca o brasileiro como um ser extremamente preguiçoso, na metáfora com o bicho preguiça, uma relíquia biológica brasileira. Estas rendas de Toshiko são como peneiras, filtrando, purificando, como no preparo de um bolo, no qual a farinha tem que ser peneirada para evitar que embolote. É um receptáculo, como nos infames focos do mosquito da Dengue, no modo como a força da Vida encontra prosperidade nos mínimos recursos, nesta doença brasileira, que deixa o enfermo ficar duas semanas inteiras na cama, imprestável. É o modo indígena de repousar, num modo de Vida tão exótico, como na noite de bodas de um casamento, com o casal copulando em frente aos olhos de todos na tribo, inclusive crianças, havendo nas bodas um apelo tão universal, no deus Eros juntando os opostos, no padre que diz: “O que Deus une o Homem não separa”. Toshiko traz uma alegria cromática, num apelo doce que atrai as crianças, as quais brincam ensandecidas em suas instalações têxteis. Aqui é um receptáculo, numa pessoa que vive de braços abertos, pois, como dizia Confúncio, aonde quer que vá, vá com todo o seu coração. Aqui é um pêndulo marcando a passagem de Tempo, nos modos humanos de organizar uma Vida e um Mundo tão caótico e desregrado, no modo exclusivamente humano de marcar tais medidas, num modo que, nas extremamente vastas medidas cósmicas, nada significa, como nos relógios derretidos de Dalí, na languidez que derrete tudo e nos mistura, na deliciosa sensação de Liberdade nas Experiências Extracorporais, no momento breve em que o espírito, ainda encarnado, tem uma amostra da glória metafísica de libertação, num espírito livre, como um anjo, emoldurado por uma luz, na vitória do Nobre Pensamento sobre a Maliciosa Matéria, na icônica imagem da serpente do Éden sendo esmagada pelos alvos pés de Maria, colocando fora toda a malícia de frívolas fofocas, que são um veneno que atinge quem o profere – como é desinteressante uma pessoa fofoqueira! Estas rendas de Toshiko respiram, deixando o ar circular, na capacidade de Tao em deixar que respiremos, nas inesgotáveis reservas de ar em nossa atmosfera, numa generosidade, como numa nonna italiana fazendo um pratão de polenta para a família em torno de uma mesa, no prazer de agregar, num Natal com todos reunidos em torno da fartura de uma mesa, cada um levando um prato de delícias para o banquete. Aqui é como se balançar numa rede, na deliciosa sensação de vaivém, num pêndulo vivo, pulsante, numa inocente jugular atraindo a cobiça de um vampiro sociopata, esses amigos falsos que não são amigos de fato de pessoa alguma – por isso há o Umbral. Aqui é como uma farta rede de pescadores, tirando do Mar a recompensa do dia, agradecendo a Iemanjá pela fartura, na generosidade dos mares, no milagre cristão da multiplicação dos peixes, trazendo a imagem de Nossa Senhora Aparecida, negra, falando dos horrores escravocratas – o Mundo está evoluindo lentamente, pois, como diz o intelectual Harari, estamos vendo cada vez menos guerras ao redor do Mundo. Aqui é como uma lona sendo retirada de uma piscina, inaugurando o doce período de Verão, na diversão de crianças que passaram o ano todo em meio à sisudez dos estudos e da cobrança dos professores, encontrando um pequeno intervalo em meio a uma Vida tão disciplinada e rígida. A rede de Toshiko captura nossos olhares, e ela nos recebe em seu útero abstrato, na ensandecida gritaria de criança na hora do recreio, no modo como, após o (absolutamente inevitável) Desencarne, há um período de férias e descanso, para depois o espírito desencarnado procurar um trabalho e continuar tocando a Vida para frente – a Vida continua. Então, a teia capta a nós crianças, deixando-nos “aprisionados” em meio a um talento tão singular e inconfundível.

 


Acima, sem título (4). Como as crianças se divertem com tanta simplicidade! Aqui é como um carrossel, girando, respirando, no ciclo das estações climáticas. Aqui são como testículos, na autocastração voluntária de um homem que sonha, com todas as suas forças, em ser mulher. Aqui são como gotas pingando, dando amostras de Tao, aquele o qual podemos perceber em tudo que é bom, positivo e pacífico. Aqui, essas bolas em pêndulos são sustentadas por um frágil fio, no termo “estar por um fio”, numa pessoa que não percebe em si tal fragilidade, só se dando conta desta fragilidade depois do momento derradeiro em que o último e mínimo fiozinho é cortado e castrado. Aqui é como na brincadeira de balanço, nos sons de engrenagens num parquinho, no som de Infância, fazendo com que a criança interaja com o Mundo e aprenda a se relacionar com este, no iniciozinho da Vida Social, no modo como a criança aprende a ter discernimento entre espaço privado e espaço público, convidando os amiguinhos para sua festa de aniversário, nas minhas doces lembranças de Infância, recebendo em minha casa toda minha turminha de Colégio. Aqui é o termo “cada macaco no seu galho”, na criança que começa a perceber que tem que respeitar tudo e todos, pois, do contrário, o Corpo Social, naturalmente, puni-la-á. Aqui, as crianças influenciam umas às outras, num corpo dinâmico, num só pulso, como numa pista de dança, o momento mágico em que as pessoas e unem em torno da música, no prazer da comunhão, da coletividade, como uma comunidade se unindo em torno da Festa da Uva, com os comerciantes enfeitando tematicamente suas vitrines, com a Mídia expondo ao máximo a menina coroada, fazendo metáfora com os espíritos evoluídos de desencarnados, obtendo trabalhos de suma importância no Plano Metafísico, o lugar em que as ambições mundanas perecem, só havendo espaço para a nobreza de ações, absolutamente fora das ambições mundanas por Dinheiro e Poder – tudo gira em torno da dimensão acima da nossa, ironicamente cidades suspensas nos Céus, mas cidades feitas de Pensamento, não de tijolos ou asfalto – é a intangibilidade de Tao, aquele que é indesvendável, no mistério eterno da Vida Perene. Aqui é como um liquidificador misturando as pessoas, no nome de uma boate portoalegrense, a Liquid, cuja logomarca era um liquidificador misturando as pessoas, os frequentadores, como num formidável momento em uma pista de dança, quando é tocada uma música de alta popularidade, unindo as pessoas em torno da Arte, esta forma de manifestação humana tão singular, tão humana, tão nobre – será que existem formas de Arte sendo desenvolvidas por seres racionais alienígenas? Será o Ser Humano tão único? Aqui, a Arte se torna diversão, como assistir a uma boa comédia, provocando o riso, esta manifestação tão formidável que é o Senso de Humor, na capacidade humana em encontrar ironias em meio a coisas aparentemente sem graça. Aqui as crianças são como abelhinhas em torno de flores, produzindo essa substância tão formidável como o Mel, na metáfora da recompensa doce após um esforço enorme. Aqui temos um coração de avó, tricotando meias de lã para que os netos não passem frio no Inverno, na universalidade do Artesanato, com bens sendo produzidos para um fim, uma utilidade, como vasos e cestas, no prazer das mãos que se veem úteis ao Mundo, no gigantesco esforço para se criar um filho, mas um esforço que vale a pena, no termo popular: “Ser mãe á padecer no Paraíso”. Aqui é como uma onda do Mar arrastando inúmeros surfistas, esses aventureiros que fazem como Tao o faz, surfando, engajando-se, aproveitando uma oportunidade de brilhar, no modo da pessoa sábia em saber surfar nestas “ondas”, no minimalismo comportamental de Tao, o surfista, fazendo da preguiça a força limpa que só se atém ao que é importante. Neste parquinho não há restrições, e meninos e meninas, ricos e pobres, brancos e negros, divertem-se juntos, na inocência infantil que não entende o porquê de atos frívolos como o antissemitismo – tudo o que a criança quer é ser feliz e divertir-se com os amiguinhos.

 


Acima, sem título (5). É como se a rede tivesse capturado essas esferas, não as deixando passar, no modo como há coisas que são difíceis de ser superadas, com questões que a pessoa leva para o túmulo, só depois do Desencarne se recobrando do trauma – há tempo eterno para o Perdão, pois este liberta, pois rezamos: “Assim como nós perdoamos a quem nos tenha ofendido”. Espécies de pneus repousam no chão, como numa boia, remetendo-me ao maravilhoso parque temático americano de piscinas Typhoon Lagoon, nesta capacidade que o povo americano tem em divertir e entreter, numa nação tão rica e vibrante. Aqui podemos observar a obra sem as crianças brincando, num raro momento de Paz e silêncio, e parece que os pêndulos estão absolutamente estáticos, sem qualquer vibração, no poder da Paz, esta força que nos une em um só clã – a Guerra é fraca. Parecem gotas gosmentas, por um fio, pingando, como num sorvete derretendo, como um homem de Tao, derretendo lentamente, desprendendo-se gradualmente dos excessos mundanos, um homem cada vez mais próximo na simplicidade limpa de Tao. São gotas de orvalho, úmidas, brilhando douradas sob a luz de Eos, a deusa da Aurora. É como no interior úmido de uma caverna, com seus lagos secretos, numa Natureza que por vezes se oculta, recusando-se a revelar seus enigmas, no desafio científico de observar, cogitar, provar e desvendar. Aqui é o termo “estar por um fio”, num aspecto de fragilidade, mas, ao mesmo tempo, de força, suportando as criancinhas que se balançam na obra-playground, no modo como os parques temáticos como a Disneylândia fazem com que os adultos sejam crianças novamente, sentindo-se dentro de um conto de fadas, com tantas atrações divertidas, como num genial simulador de voo espacial de Star Wars, com experiências que mexem com a emoção da pessoa que passa por tal momento mágico, na habilidade americana em vender, fazendo com que, no calor momentâneo do impulso, compremos coisas as quais, de cabeça fria, jamais compraríamos. Aqui são lágrimas caindo, remetendo-me à minha mãe, a qual, quando eu era criança, dizia para eu ir lavar o rosto depois de uma choradeira infantil, no modo como é difícil para uma criança receber limites e advertências, pois quem gosta de ser tolhido? Aqui são como sinos balançando enigmaticamente, em meio à brisa, no modo como tudo é processo, tudo é transformação, num espírito crescendo, ficando cada vez mais próximo de Tao, o agente da Vida Eterna, esta força que simplesmente não cabe na cabeça de um simples ser humano – existe poder maior do que a Eternidade? Aqui cada pêndulo escolhe sua própria identidade cromática, numa liberdade, num país livre, feliz, com o cidadão sendo livre para pintar o próprio cabelo como bem entender, entrando em harmonia com a divina Lei do Livre Arbítrio, encontrando nas democracias esses moldes de regência nobre e gentil, como num agradável dia de meia estação – o Amor é sempre agradável; o Ódio, desagradável, pois este causa sofrimento. Aqui são como doces balas, remetendo-me às saudosas balas Soft, num pacote multicolorido, cheio de sabores de frutas, na magia de uma caixa de bombons sendo aberta, como num tesouro sendo descoberto, como no descobrimento da tumba intacta do rei Tut, numa revelação, no modo como, após o Desencarne, o grande plano divino para conosco é revelado, num Pai que quer o melhor para seus filhos, na glória libertadora, como no último dia de aula do ano, num dia de pura brincadeira, nas doces brincadeiras de Verão na beira da piscina, com memórias de amigos. Aqui, estes pneus estão dissociados da obra, emancipados, livres, como se seus fios de sustentação já tivessem sido cortados, com elementos livres, desencarnados, na frase: “Seus problemas acabaram!”. São como rosquinhas de donuts, fofinhas, deliciosas, no fascínio dos doces, no divertido modo como, no Nível Metafísico, há maravilhosas confeitarias, enfrentando o sisudo pecado capital da Gula – nada de errado em ter prazer, portanto, não tenha culpa.

 


Acima, sem título (6). Como redes numa cancha esportiva, no modo como uma pessoa com personalidade atlética simplesmente assim nasce. As redes são o filtro, a depuração, a filtragem que barra tudo o que é sujo e desnecessário, havendo em Tao esta renovação, atendo-se somente ao que é essencial, ao que importa. Aqui são vários arcos num castelo, numa noção de profundidade, nas maravilhosas mansões da Vida Eterna, esta aposentadoria que exige que permaneçamos ativos e produtivos. Aqui são as teias de uma aranha habilidosa e ardilosa, como se soubesse que, cedo ou tarde, alguma mosquinha desavisada cairá na armadilha, como numa pessoa obcecada com vingança, incapaz de superar ou perdoar. Aqui, tudo respira pelas brechas das redes, como numa roupa de algodão puro, ao contrário de tecidos sintéticos, os quais não deixam o suor passar, e assim é Tao, sempre nos dando a Vida, sempre nos permitindo respirar e viver, ao contrário de ambientes tóxicos de trabalho, nos quais há assédio moral e desrespeito, num lugar doloroso, sem Vida, afetando a felicidade da pessoa que ali trabalha – a Vida não é só Labor. Aqui são como arcos numa igreja, talvez góticos, com seus vitrais coloridos, enchendo de cor e alegria os olhos do fiel, tentando aproximar este da felicidade mental, esta felicidade que pouco se importa com pedras preciosas, pois quanto mais compro, mais vazio me sinto... Aqui é como se fosse uma gosma branca, talvez num cupinzeiro, num organismo harmônico onde cada agente tem seu lugar e sua função, na tristeza que acomete aquele que não sabe qual o seu próprio lugar no Mundo, como na condessa Olenska de A Época da Inocência, deprimida, deslocada, desmotivada, frustrada com um casamento infeliz, vendo que, ao final da história, não existe fugir dos problemas – a Vida exige que encaremos esta. Aqui é como um tear, na revolução que foi a produção de tecidos, deixando para trás os tempos primitivos em que as roupas eram peles de animais. São os destinos sendo tecidos pela Divina Providência, com vidas se entremeando, como num desencarnado fazendo seu plano de reencarnação, como numa matrícula de faculdade, escolhendo os desafios os quais irá enfrentar corajosamente, numa grande provação à Fé, numa vicissitude que se tornará depuração e evolução moral. Aqui são as mãos mágicas de um artista, transformando objetos, como nas grandiosas instalações do famoso casal Christo e Jeanne-Claude, fazendo da Arte tal deslumbre, tal desafio a limites, tal pulverização de mediocridades, num artista que decidiu ter mérito e ser digno de respeito, provando gravitar acima de mesquinharias mundanas. Aqui é uma profundidade com uma atração gravitacional, e estamos assim entrando na mente de Toshiko, a qual se torna uma anfitriã, fazendo da Arte tal entretenimento e tal catarse, como num grande filme blockbuster, causando comoções universais, desafiando o niilismo e trazendo significado à Vida, na luta entre Virtude e Vulgaridade. Aqui é como se fosse um túnel do tempo, numa vida com décadas de trajetória, numa existência que vai acumulando experiências e crescimento, pois o crescimento é o único sentido da Vida – como posso ser feliz se me sinto estagnado? Aqui são as várias etapas de um processo, como passar pelas cadeiras de uma faculdade, num aluno que tem que fazer muitos trabalhos para merecer seu diploma no final do trajeto, no papel enrolado que é o falo da liberdade e do êxito. Este tecido aqui é bem leve, deixando o ar passar, como num pai que, apesar de se preocupar com a integridade do filho, tem que deixar este seguir seu caminho e suas escolhas, no termo “pai coruja”, o qual não consegue dormir direito enquanto o filho não chega da balada. À medida que o espectador vai penetrando neste túnel de Toshiko, sua percepção vai evoluindo, no termo vulgar “meter o pau”, num pesquisador que vai fundo ao fazer um estudo, buscando toda e qualquer informação pertinente, como num trabalho de conclusão de curso, fechando com chave de ouro um processo de esforço e disciplina, com tantas horas dentro de um carro ou ônibus para ir à aula.

 

Referências bibliográficas:

 

QUIRK, Vanessa. Conheça a artista por trás desses surpreendentes playgrounds. Disponível em: <www.archdaily.com.br>. Acesso em: 2 nov. 2020.

Toshiko Horiuchi MacAdam. Disponível em: <www.en.wikipedia.org>. Acesso em: 2 nov. 2020.

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

Décio Nota Dez (Parte 2)

 

 

Volto a falar sobre o pintor carioca Décio Vieira. Os textos e análises semióticas a seguir são inteiramente meus. Boa leitura!

 


Acima, sem título (1). Um quadro bem limpo, um tanto singular na obra de DV. Remete ao painel de fundo dos programas da Globonews, com delgadas linhas sutilmente engordado e emagrecendo, nos altos e baixos da Vida, na liquidiscência que tanto nos coloca lá em cima quanto lá em baixo, pois, não canso de dizer, o Sucesso é um amante (altamente) infiel. Aqui temos elegância, na elegância fria da razão dos números, no único caminho válido, que é a Lógica, na ironia de Tao nos números, como nos números primos, os quais existem por toda a Eternidade dos números, no senso de humor de Tao, o lógico. Aqui temos limpeza, no modo, logo antes de redigir aqui, dei uma geral no meu apê, na sensação gloriosa de, ao final de tal esforço, estar num ambiente limpo e perfumado, aproximando-nos da impecável limpeza das casas metafísicas, casas sequer com uma única bactéria, como cidades limpas e bem administradas, num prefeito amoroso e competente, que faz jus aos votos que recebeu no pleito, ao contrário do ambicioso, que só quer o Poder pelo Poder, e não para apresentar propostas concretas e realistas. As linhas mínimas são o minimalismo japonês, numa civilização tão polida, tão limpa, numa bandeira nacional tão simples e impecável, no poder das mensagens sucintas de um anúncio publicitário, como num outdoor – quanto mais informações são dispostas, menos será absorvido pelo receptor, no lema clássico: “Menos é mais”. Aqui são como placas tectônicas, acomodando-se e causando tantos transtornos, na inevitável imperfeição da Matéria, num mundo duro, no qual é um capital desafio manter a Fé em um plano superior melhor, numa verdadeira provação para um espírito encarnado, evitando se tornar uma pessoa amarga e embrutecida, no modo como a chegada de netos pode quebrar um pouco com a sisudez dos avós, como numa querida prima minha, faceira com a chegada recente do netinho. Aqui é como uma rachadura, num objeto que luta para se manter uno, como num país heterogêneo como o Brasil, com tantas subculturas distintas, no desafio que é manter uma unidade nacional, por meio de aspectos culturais como o Samba, o Churrasco ou o Futebol. Aqui temos a impecável disciplina de linhas retas e exatas, resistindo às tortuosidades de uma coluna barroca, na imposição de Ordem Racional ao Caos, como no símbolo da Medicina, com a serpente da Malícia sendo domada pelo bastão fálico, num mundo patriarcal, no qual o homem sempre vem na frente... Aqui é o branco de uma bandeira que clama por Paz, nos incansáveis esforços diplomáticos para a manutenção da Paz no Globo Terrestre, no modo como é difícil para o Ser Humano observar que a universalidade nos une em uma só raça, uma só família, em nobres esforços como os Jogos Olímpicos, deixando muito claro este laço universal que nos une. Aqui é uma impecável lição de Geometria, no modo como, hoje, percebo a importância do ensino de Matemática, apesar de eu, em então idade escolar, subestimar e desprezar o valor do raciocínio lógico, na fria beleza dos números, como no gelado córrego de entrada para a floresta mágica de Lothlórien, de Tolkien, numa água que, apesar de tão gelada, traz a cura, como numa pessoa passando por um processo importante de desilusão, passando a observar o Mundo do jeitinho que este é. Aqui é como a perfeição dos encaixes pétreos incas, no mistério arqueológico – como diabos eles faziam isso, sendo tão avançados em uma era tão primitiva? Aqui são como os fatos se encaixando, mostrando a lógica final na resolução de um crime num romance policial, num dia que vai amanhecendo, trazendo a glória esclarecedora de Eos, a deusa da Aurora, com terras abençoadas e nobres, banhados da luz dourada, na impressão de que tudo está na mais perfeita ordem. Aqui é como um trabalho de historiador, encaixando vestígios e tentando fazer uma remontagem de um tempo que não voltará.

 


Acima, sem título (2). Aqui temos uma cena bélica, com um exército sendo cercado e rendido pelas forças inimigas, como na tática russa de derrotar Napoleão, atraindo as tropas deste para dentro das terras geladas russas, acabando por derrotar o inimigo pelo cansaço, como numa força gravitacional, que acaba influenciando toda a matéria para o ponto mais baixo. Essas arestas remetem às raras fotos feitas da superfície de Vênus, esta esfera tão inóspita, tão quente, tão escura na superfície, nas características singulares de cada planeta que forma nosso sistema, como numa família com vários filhos, cada um com suas peculiaridades de personalidade, no modo como Tao nunca faz um filho igual ao outro, sempre dotando de singularidade cada um de seus filhos, pois não haveria lógica ou sentido em se fazer duas pessoas idênticas, como no amor de um Chico Anysio na construção de sua riquíssima galeria de personagens, distintos, com pouquíssimo a ver uns com os outros, como num panteão de deuses, com cada divindade com seus traços, com suas responsabilidades, no majestoso Coliseu, com seus compartimentos em arco, cada um para abrigar um deus romano em especial, no modo como o politeísmo é universal, como nas divindades tupiguaranis. Aqui as arestas arranham uma às outras, num jogo tenso, como num embate marcial, na competitividade para ver quem é superior, na diversão lúdica que a criança conhece desde cedo, com seus joguinhos de disputas, como videogames. Aqui temos uma rosa dos ventos atordoada, apontando aleatoriamente, sem noção, como numa pessoa num labirinto existencial, com uma visão turva, sem noção alguma do que deve fazer ou pensar. Aqui é um cenário tenso, de um escopo científico sendo definido, como na hora da residência no curso de Medicina, onde o aluno escolhe qual especialidade quer ter, indo cada um para um lado, no modo como os adeus são inevitáveis, e não há rede social capaz de amenizar ou neutralizar os goodbyes, os adeus, havendo na Dimensão Metafísica o ponto de reencontro com velhos bons amigos, numa dimensão onde todos voltam a se relacionar intensamente, mas com a leveza fresquinha espiritual, pois ninguém é obrigado a ser gêmeo siamês de alguém, havendo espiritualmente tal desprendimento, em oposição ao amor apegado e obsessivo, numa pessoa fixada em outra pessoa, num amor condicional, doente, obsessivo, remetendo a uma velha canção de Dance Music: “Eu vou te proporcionar minha obsessão. Eu vou te ter. Você será meu”. E a Obsessão é inimiga da Paz. No centro do quadro temos um triângulo cinza, neste quadro rico em triângulos. As cinzas são os vestígios do dia anterior, no trabalho de rotina de se limpar a lareira, como num cigarro consumido, no vício, pois um novo cigarro sempre tem que ser aceso – isso não é Saúde; isso não é sexy. A superfície deste quadro tem um aspecto escovado, desgastado, lixado, como num aço escovado, num efeito de desgaste, como jeans rasgados, como numa roupa surrada, desgastada pela Encarnação, no modo como, ao Desencarne, temos que tirar tal “roupa” e devolvê-la, entrando nu neste “chuveiro”, neste passo de depuração, deixando no Mundo tudo de mundano – não se levam joias ou pedras preciosas para o Plano Metafísico, numa espécie de filtro, de depuração, inspirando a pessoa a abraçar o plano das ideias, dos conceitos, no modo como disse uma política: “A Política não é um lugar para se ganhar dinheiro, mas para se discutir ideias”. Aqui são como bactérias se reproduzindo irrefreavelmente, na força da Vida, como um artista que começou a fazer sucesso, sabendo surfar na onda e sabendo sobreviver a tal sucesso, sendo este uma provação enorme, sempre se certificando se a pessoa tem os pés no chão, pois, do contrário, tal artista não sobreviverá, no modo como houve tantos e tantos artista de talento que não sobreviveram aos anos 1980, por exemplo. Aqui é como Trinity extraindo um pernicioso robô do intestino do herói Neo, em Matrix, remetendo-me à vez em minha infância em que o médico teve que extrair de meu dedo um bicho de pé, num momento de dor, mas também de cura.

 


Acima, sem título (3). Num dos setores vemos um efeito de granito, gelado, como na frieza de um sociopata, uma pessoa sem qualquer sinal de remorso. O granito é a solidez, como numa pessoa que organizou a própria vida, sabendo que se deve centrar no trabalho, na atividade, no modo como não há preenchimento existencial para os improdutivos, muitos dos quais, para preencher os vazios de suas próprias existências, tornam-se fofoqueiros, ou seja, fiscais do fiofó alheio, com o perdão do terminho chulo. Aqui uma discreta linha vermelha cruza verticalmente, talvez na noção entre público e privado, com uma pessoa que tem sua vida social mas, ao mesmo tempo, tem um ombro amigo para falar de tristezas, no mágico momento redentor de se colocar para o outro, para o amado, num momento de entrega sentimental que nenhum, nenhum dinheiro pode pensar em comprar – o melhor da Vida é de graça. Esta linha rubra é como um raio de raio x, fazendo mapas tridimensionais de múmias, no modo como a Egiptologia é um plano inesgotável. Esta linha quer dividir, numa festa, os homens das mulheres, como nas reuniões dançantes de infância e adolescência, com a menina tendo o papel passivo, esperando que o menino a tire para dançar, no misógino patriarcalismo, no qual uma mulher JAMAIS pode ter personalidade e independência, sendo inaceitável a menina tirar o menino para dançar, sendo esta rotulada de puta, com o perdão do termo chulo. Aqui o azul é discreto e sisudo, como numa pessoa que conheço, extremamente discreta, no modo de se vestir e de falar, havendo na Discrição uma certa defesa, numa invisibilidade, resguardando-se de “predadores”. Temos aqui um quadrado todo negro, como num quarto escuro, na toca malévola de Laracna de Tolkien, o lugar onde as luzes da Esperança desaparecem, num cenário de miséria existencial enorme, numa janela para o nada, sem finalidade ou lógica, longe da fria e bela limpeza matemática do Pensamento Racional, do falo iluminado de Galadriel, o oposto do sombrio monstro Laracna. A linha vermelha é uma canetada de professor, sempre chamando a atenção do aluno, colocando os pés deste no chão, chegando momentos em que o professor tem que deixar bem claro que, dentro da sala de aula, quem manda é sempre o professor, nas hierarquias verticais de Cultura Erudita, ou como no Exército. O triângulo azul é como uma rampa, uma escada, como uma pirâmide servindo de ponte para o Céu, esta misteriosa dimensão onde somos todos belos, jovens, produtivos e divertidos, numa bela festa de volta ao Lar, com entes queridos, até com uma bisavó, a qual, apesar de não termos conhecido na Terra, cobre-nos de Amor lá do Plano Imaterial – é a maravilhosa afeição estelar, puramente espiritual. Vemos aqui também uma linha vertical mais clara e mais grossa, com num intervalo, num sino tocando para anunciar o recreio e o fim deste, como no consultório de Psiquiatria, com a sessão acabando disciplinadamente no momento do fim do tempo da consulta. É como um enorme prédio desafiando as Leis da Física, tentando ao máximo imitar os inimagináveis sonhos de Engenharia dos prédios metafísicos, estruturas não submetidas à implacável Lei da Gravidade, combinando fatores como luz, luxo e leveza, como numa Cinderela da Disney, repleta exclusivamente de coisas boas, encantando as crianças para ensinar a estas e linha divisória decisiva entre Bem e Mal, num trabalho de discernimento. O retângulo azul é como um livro, numa capa honesta, que não busca seduzir, no modo como não podemos julgar uma pessoa sem antes conhecê-la de fato, rechaçando assim fofocas e focando-se no que importa, que é o espírito. Este azul é como um céu de Lua Cheia, banhando jardins tropicais, com os enamorados se beijando à luz do luar, com os grilos cantando e uma brisa deliciosa passando pelos apaixonados. O trapézio azul é o espetáculo circense, que entretém, como numa jovem Dercy Gonçalves, resolvendo fugir de casa para se juntar a uma trupe de circo, neste espírito errante de mambembe, na beleza arrebatadora e comovente da Arte, esta forma de tocar as pessoas, de Ser Humano para Ser Humano.

 


Acima, sem título (4). O preto traz a base para cores. O preto é a discrição do luto, na cor dos misteriosos confins do Universo, com galáxias tão distantes que sua luz ainda não chegou na Terra, às nossas retinas. O preto é o termo “lista negra”, num rol de pessoas não bem vindas, na eterna capacidade humana em proporcionar inimizades e incômodos, como uma amiga minha, amiga de décadas, que me excluiu de seu Face só por causa de uma tola divergência sobre Política, na incapacidade humana em respeitar o próximo. Os triângulos aqui formam os tetos de indústrias, como em Caxias do Sul, a terra das indústrias, com um parque industrial arrojado, gerando empregos e renda. É a magia de produtos sendo feitos e distribuídos, na obsessão materialista humana, no fetiche do objeto, do palpável, com obsessão por pedras preciosas, esses belos sinais auspiciosos que perecem no momento da transição interdimensional, pois nunca ouvimos que, deste Mundo, nada se leva? Ou seja, o que se leva é o espiritual apenas. Vemos um grande círculo verde, como numa vista aérea de alguma floresta, num Mundo preocupado com as queimadas em solo brasileiro, numa floresta tão vasta e misteriosa, como na Terra Média de Tolkien, o mundo mágico cheio de bruxos e criaturas fantásticas, como na terrível e mágica Galadriel, com seu espelho, o arquétipo de Feminilidade, estranha, quase assustadora, maravilhosa, intimidadora. É o Sol de algum sistema exótico, estranho aos olhos humanos. É como um molho ao pesto, verde, aromático, na magia de deliciosas receitas. É um olho que observa o Mundo, sem construir expectativas em relação a este, pois quanto mais Tao tenho, menos espero, ou seja, mais Paz tenho. É uma esmeralda redonda, na diversidade de cores na Natureza, no fascínio de lustres de cristal, com suas luzes finas, mágicas, na promessa de um Mundo bem melhor, mais fino, mais polido, mais amoroso, na promessa cristã do Reino dos Céus, no conceito inédito de Amor e de Perdão, indo contra ao conceito do “Olho por olho, dente por dente”. É um buraco pelo qual podemos observar o interior de uma tumba egípcia, com o imensurável trabalho e esforço para se escavar a dura rocha e formar câmaras mortuárias no Vale do Reis e no Vale das Rainhas, nos rituais fúnebres humanos, sempre querendo saber o que é que vem depois da morte do corpo carnal, nas malfadadas tentativas humanas em burlar a Morte, pois o que Tao fez, o Homem não faz tão bem. Vemos uma porção de um azul discreto, marinho, nas entranhas aquáticas que geraram a Vida, numa evolução que culminou com os mamíferos. É o pescador que vai à lida diária, pescando seus frutos do Mar, no prazer de se comer um belo camarão crocante, neste hábito de tanto prazer, que é a Alimentação. Vemos aqui um grande triângulo que é formado por dois pequenos, como aliados, pessoas que se juntaram numa sociedade, como num casamento, o qual é uma sociedade – eu faço uma parte do labor, você faz a outra. Uma delgada e discreta linha branca divide estes dois triângulos, num vão estreito, disciplinado, num artista que nunca quer aparecer mais do que a própria obra, como num bom ator, o qual desaparece frente ao personagem, como na genial Meryl Streep, fazendo-nos esquecer de que é ela quem está ali, na tela, na sabedoria de Tao, o invisível, aquele que é feito puramente de Pensamento, na ilusão material de que podemos possuir algo, na ganância, como na caixaforte do Tio Patinhas, neste apego tão grande por riquezas mundanas, como no gigantesco tesouro de um dragão de Tolkien, nos abismos sociais brasileiros entre ricos condomínios e modestas favelas. Aqui são objetos estranhos uns aos outros, como no início de um ano letivo, no qual a criança tem que fazer novos amigos, entrosando-se, sentindo-se bem, entre amigos. O vermelho aqui é um rubro Sol poente, jorrando sangue nos Céus, nos primitivos rituais de sacrifício humano, numa Humanidade que busca evoluir e rechaçar a ignorância da barbárie.

 


Acima, sem título (5). A forma oval dá um realce ao quadro, como num professor caneteando com a cor vermelha, buscando chamar a atenção ao erro. O ovo é a Vida, o milagre da Vida, na celebração pascal, celebrando a ressurreição do espírito, no milagre do Desencarne, a tão esperada data de soltura, como num presidiário, contando os segundos para se ver livre. O quadro é riscado por delgadas linhas, elegantes, discretas e impecáveis no seu polimento, no caminho contrário do showman, do exibidinho, aquele que, no fundo, não é respeitado pelos outros, pois o homem de Tao é secretamente respeitado pelas pessoas, numa inteligência ímpar, acima da média, conquistando o respeito de intelectuais, como um grande professor universitário que tive, o inesquecível Tatata Pimentel, o qual só respeitada exceções na sala de aula, e quando um aluno assim falava na aula, o mestre dizia aos demais: “Calem a boca – a elite vai falar”. É um quadro aquoso, da cor do Mar, como num banheiro perfumado, na divertida canção de Rita Lee: “Que tal nós dois numa banheira de espuma?”. E então o banho ganha todo um poder simbólico, entrando em harmonia com a eterna limpeza e perfume dos espíritos felizes desencarnados, num plano onde sempre paira no ar um perfume tão fino, tão irresistível e delicioso, como um certo colega que tive, o qual amava andar sempre perfumado. O ovo é como uma Lua cheia, na cor prateada que banha os lobisomens, na canção: “A Lua me chama – eu tenho que ir para a Rua”. A Lua é o regente das marés, guiando doloroso sangramento do útero, no modo como as mulheres toleram mais dor que os homens toleram, fazendo do chamado sexo frágil o sexo forte de fato, na canção: “Sexo frágil não foge à luta”. Aqui é o pontinho azul como a Terra é vista de outros confins do sistema solar, esta esfera que tanto precisa ser cuidada para evitar um colapso ambiental, pois se a Terra ficar destruída, para onde vamos? No centro do quadro vemos a forma de um cachorro, este fiel companheiro que desde muito acompanha o Homem no Mundo, num animal que se tornou símbolo de fidelidade e amizade. Então, o lobo uiva para a Lua, assustando quem está sozinho na floresta à noite, como nos seres lupinos de Tolkien, com seus uivos cruéis, como num Drácula amando os uivos de lobos em seu cruel e horroroso castelo, fazendo metáfora com os psicopatas ardilosos, cruéis, manipuladores e vampiros, sugando almas, fazendo escravos, querem dar um nó homérico nas mentes de pessoas desavisadas ou ingênuas. Aqui é como um cachorrinho com fome, pegando com a boca o potinho vazio de ração para que o dono ali coloque o tão esperado pão do dia. Quase ao centro do quadro vemos um quadrado, como numa cidade planejada, com ruas que perfeitamente cortam de Norte a Sul e de Leste a Oeste, com quadras regulares, como em Manhattan, a cidade frenética que, em sua pequenez, abriga o a equivalente a dois Uruguais juntos – se você tiver a oportunidade (privilegiada) de ir a Nova York, vá aos museus desta, que são o topo da pirâmide cultural da vibrante urbe. O triângulo vermelho tem aqui os laços de sangue de família, os quais sobrevivem ao Desencarne, como nossas bisavós, as quais, apesar de não terem nos conhecido em pessoa na Terra, seguem nos abençoando do Céu, no amor imortal metafísico, no plano maravilhoso que nos espera com uma vida produtiva, numa carreira brilhante – produzir é tudo. O cão aqui tem patinhas elegantes, que tocam o mínimo possível no chão, na limpeza impecável de Tao, o imperceptível, como nos laços perfeitos tecidos pela Divina Providência, sempre fazendo com que nos deparemos com uma vida de crescimento e depuração moral, numa forma de governo que é tão poderosa que mal é percebida aqui da Terra, havendo no homem de Tao um autêntico representante de tal poder, num poder que respeita a Lei do Livre Arbítrio, como num psicoterapeuta, cuja função é mostrar portas, mas nunca forçar alguém a cruzá-las. Tao, o chic.

 


Acima, sem título (6). Uma altiva pirâmide se ergue rumo à depuração celestial. A pirâmide é a apolínea promessa de um mundo melhor, sem todas as inúmeras vicissitudes materiais, num plano em que a pessoa vê que, apesar de desencarnada, a Vida continua. Este quadro tem um centro do qual linhas divergem, numa discordância saudável e democrática, com vários caminhos distintos que levam ao mesmo destino, que é Tao, o que importa. Neste quadro temos uma sutil predominância do azul celestial, na amarga ironia do massacre que se fez na Praça da Paz Celestial, num evento que de pacífico nada teve, na capacidade dos sistemas ditatoriais em esmagar qualquer discordância, numa certa infantilidade, do tipo: “Eu gosto do Homem Aranha mas o Fulano não gosta, logo, o Fulano é inválido”. Este quadro tem este expressivo ponto central, como no centro de uma trama num romance ou num filme, no esqueleto da ação, preenchido como queijo e presunto num sanduíche, na questão de que, numa galeteria, o centro da ação é o galeto, cercado de luas, de atores coadjuvantes, como a polenta ou a massa. Este é um quadro elegante, rígido, como rígida disciplina, sem espaço para insinuações curvilíneas, como modelos rebolando na passarela, no andar da Garota de Ipanema, numa expressão de agradável liquidiscência feminina, como na bacia mágica de Galadriel, o espelho que mostrava coisas do passado, do presente e do futuro, como no espelho de Chitara, a única heroína dos desenhos inesquecíveis dos Thundercats. É como a jovem Ana Terra, interpretada por Pires, olhando-se no reflexo do rio, ou como num belo comercial de TV com Gisele numa tribo amazônica, com uma bacia sendo enchida de água da chuva, tudo para a estrela se enxergar no reflexo. É como o espelho de Rose sendo resgatado do Titanic afundado, no contraste entre a Rose jovem e idosa. Aqui é o apuro arquitetônico do Antigo Egito, com suas linhas simples e limpas, como nas futuristas linhas de Teotihuacán, a Cidade dos Deuses, alimentando a imaginação dos que creem na possibilidade da Humanidade ter dado uma guinada evolutiva a partir de uma forte influência colonizadora alienígena. A pirâmide é um símbolo de poder, numa ameaça – não chegue perto demais, pois, do contrário, machucar-te-ás, num belicoso Egito imperial, sempre querendo anexar novos territórios, na incessante fome humana por Poder, este ópio que faz com que a pessoa nunca esteja satisfeita com os seus próprios domínios. Este quadro tem uma certa textura, como num estilo provençal, com um charmoso desgaste, ou como na atual moda dos jeans rasgados e esfarrapados, pois é a absoluta contramão do Estilo achar que você só pode estar elegante e bonito se vestir roupas caras – Elegância vem de dentro. Aqui é como se o quadro tivesse sido lixado, como ao se preparar uma superfície para uma repintura. É uma textura de aspecto rochoso, remetendo novamente ao Antigo Egito, numa terra tão árida e inóspita, cuja prosperidade se deve exclusivamente ao Rio Nilo, esta veia sem a qual nenhum faraó teria se erguido altivamente como o faziam os faraós. Aqui é como um planejamento de um arquiteto, como nas linhas elegantes e brasileiras de Brasília, num estilo tão próprio, tão diferente das clássicas arquiteturas de Washington DC, nos EUA. Linhas elegantes trazem os tons de Mar e Céu, como nas casas brancas gregas à beira do Mar grego azul, na elegância aristocrática de disciplinadas listras azuis sobre tecido branco, nos mundanos sangues azuis, pois, a nível metafísico, a pessoa se dá conta, antes ou depois do Desencarne, de que somos todos de sangue nobre, fazendo das dinastias mundanas cópias grotescas da glória metafísica. Este quadro é um ponto dúbio entre luz e dia, na etapa do dia em que estamos numa espécie de penumbra, numa dúbia luz lunar, neste prato de prata que nos hipnotiza, como no majestoso quadro A Noite, de Pedro Américo – pesquise no Google Imagens, pois você não vai se arrepender de contemplar uma das maiores obras da Pintura Acadêmica Brasileira. Deslumbrante.

 

Referência bibliográfica:

 

Décio Vieira. Disponível em: <www.bolsadearte.com>. Acesso em: 18 out. 2020.