quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

Sônia Supersônica

 

 

Paulistana de 1953, Sônia Menna Barreto foi, em 2002, a primeira brasileira com trabalho a entrar para a Royal Collection, fundação da Família Real Britânica. Sônia acumula 71 participações, entre salões de Artes Plásticas e mostras individuais no Brasil, EUA, Argentina, Portugal e Rússia. Eu era piá, mas me lembro de uma mostra dela em Caxias do Sul nos anos 1990. Os textos e análises semióticas a seguir são inteiramente meus. Boa leitura!

 


Acima, A Torre de Babel. Temos aqui um pouco de Escher, apesar de Escher tão pouco trabalhar com cores. O balão nas alturas são os sonhos, num artista sonhando em ser compreendido e valorizado, ou como numa menininha caxiense, que quer ser, desde pequena, Rainha da Festa da Uva, para acenar para o povo num lindo carro alegórico. A torre aqui está sendo (re)construída, num paciente trabalho de formiguinha. Isto me remete àquele filme sobre a Bíblia, no qual a torre, por ira divina, foi destruída, na arrogância do Ser Humano em querer ser Deus. A Torre é a diversidade, com as inúmeras línguas que povoam a Terra, no prazer que é ter nascido e criado falando Português, este idioma lindo e complexo. O dia aqui é primaveril e agradável, digno de céus renascentistas, como nas temperaturas deliciosas metafísicas, nunca nos flagelando com frio ou calor, com dias agradáveis e noites amenas, num lugar sem os impiedosos ritmos das estações, no prazer das estações indo e vindo, como as azuis hortênsias todo fim de ano – que pena que não é o ano todo. O balão é o esforço, o avanço científico e tecnológico, numa Humanidade urgentemente ávida por uma vacina contra a Covid, nas brilhantes mentes científicas, nossas elites, nossos irmãos de descomunal inteligência, inspirando-nos a crescer e a atingir altos graus de depuração espiritual e moral, pois a estagnação é o caminho ilógico, visto que Tao está sempre criando, com suas teias perfeitas, deixando perplexos até o espírito mais elevado, como num fã, que espera avidamente pelo novo álbum de seu cantor preferido – o agora, o hoje, é o melhor momento sempre, pois traz o máximo de depuração que um espírito pode produzir. Aqui vemos mares e lagos majestosos, com os navios, que são o ímpeto exploratório, na sede humana incessante por Conhecimento, sempre querendo desvendar os indesvendáveis segredos do Cosmos, como no ímpeto das Navegações, deparando-se com as selvagens terras americanas, num choque de civilizações, resultando em massacres, como a eterna vocação do Ser Humano para a discórdia sangrenta, com caprichos de crueldade, como queimar uma pessoa vida – irmão não faz isso com irmão. A torre aqui, com suas subtorres, ergue-se altiva e ambiciosa, como no desenvolvimento imobiliário de Balneário Camboriú, como torres gêmeas de oitenta andares cada, deixando o Homem perplexo com seu próprio desenvolvimento, na competição fálica para ver de quem é o mais alto prédio do Mundo, numa competição de guris apostando corrida, nas comoções que geram os grandes jogos, as grandes lutas e as grandes competições, num espírito competitivo, pois, no frigir dos ovos, artista acaba competindo com artista, mas com todo o cavalheirismo, na elegância no fio do bigode. Vales verdes e férteis se estendem, como nas cheias do Nilo, fertilizando a terra e abastecendo todos os quilômetros de extensão do Antigo Egito. Um homem pequenino assina a obra, num alterego, como se Sônia estivesse sendo representada por alguém, como um artista é representado por seu empresário ou um curador. Podemos sentir aqui uma brisa com o delicioso cheiro de Mar, a grande mãe que, num dado dia, nos chama para o regresso ao Lar, às terras metafísicas de Paz e Irmandade. E os navios se perdem no fundo do Mar, como num menininho que, antes de se tornar cientista, passava horas contemplando as estrelas no Céu noturno. Cascatas límpidas cortam a torre, como no lindo lugar Valfenda, de Tolkien, onde moram os belos e mágicos elfos. Apesar de estar claramente inacabada, a torre é bela, com seus arcos clássicos, ventilados, numa sala de estar ao ar livre, recebendo convidados, queridos amigos os quais jamais saem de nossa mente.

 


Acima, A Última Parada. O trem é o progresso. A fumaça é o terrível hábito tabagista, remetendo a uma época em que fumar era sinônimo de saúde, elegância, charme e sensualidade. O trem é o ímpeto, numa pessoa com a coragem de desafiar o Mundo, jamais deixando que este dite a esta pessoa como esta deve viver, ou seja, mostrar o dedo do meio. A lâmpada é o esclarecimento, numa pessoa focada, num cientista debruçado pro seu escopo, desejando se tornar um expert no assunto, como num aluno fazendo uma conclusão de curso universitário, no esforço científico de relacionar tudo com o escopo, como numa composição cromática, na qual predomina um determinado tom ou cor. O trem corta o túnel vaginal, e o espírito cumpre seu trajeto e desencarna, voltando ao Imaculado Útero de Nossa Senhora, no escândalo que foi a atitude protestante de desprezar a Virgem Maria, sendo esta um dos pilares de todos os ramos cristãos, numa metáfora que busca fazer com que o Ser Humano entenda a glória da libertação metafísica, numa encarnação que vai mostrando à pessoa o valor da Disciplina. Os livros são a erudição, como num filme que vi certa vez, no qual o Ser Humano retrocede e passa a ignorar todo o Conhecimento adquiro pela Humanidade. O trem aqui é o êxito, sendo encontrada uma saída para uma situação complicada, como numa pessoa que superou os terríveis meandros da Depressão, esta doença perniciosa que destrói a autoestima da pessoa depressiva, e a autoestima é tão importante. O trem é o sucesso, com frutos doces que podem não ser eternos, no modo como as páginas, doces ou amargas, têm que ser viradas sempre – o Insucesso é irmão do Sucesso... Este gabinete é o momento de estudo e dedicação, como num Tolkien, cujo hobby se tornou um monstro da Literatura da Língua Inglesa. É claro que podemos ouvir aqui o impetuoso e sonoro apito do trem, anunciando sua chegada, na sua dignidade levar e trazer pessoas, nas demandas eternamente crescentes das grandes urbes, cidades vibrantes em constante processo de crescimento, nas noções civilizatórias trazidas, dizem os ufólogos, por alienígenas no passado da Humanidade, neste “empurrãozinho” civilizatório. Na porção superior do quadro, vemos que se trata de um cartaz rusticamente colado, com imperfeições que nos dizem que a Vida é assim mesmo, imperfeita, como na cozinheira inglesa Nigella, uma pessoa sem obsessões ou pretensões perfeccionistas. Este cartaz aqui ameaça cair e parece estar colado a muito tempo, num descuido. É como num painel de outdoor, com um anúncio sendo colado em cima do outro, como na incessante cascata de informações no Facebook, um site no qual não podemos ter uma atitude preciosista, pois o Face é esta infindável cascata, com informação sendo soterrada por mais informação – é frenético. A biblioteca é o silêncio, no momento de concentração, na sabedoria que é encontrar Paz dentro de casa, numa pessoa discreta e reservada, conquistando o respeito de outrem, pois como posso ser respeitado se sou um exibicionista sem conteúdo? O carro inicial do trem, com a chaminé, é a força motriz, trazendo todo o resto engatado, numa pessoa que conseguiu organizar a própria vida, hierarquizando seus sentimentos, como numa mandala, girando em torno do mesmo centro. O carro inicial é o Amor, pois, depois deste, vêm valores como Liberdade, Inteligência, Humildade e todas as outras coisas boas da Vida, como uma pessoa humilde, a qual, apesar de brilhar frente ao Mundo, opta por uma vida pacata, na simplicidade de ir à cozinha para preparar um chá, pois a Vida é boa quando simples, longe das tempestades de Ego e Vaidade, esta narcisismo que faz com que a pessoa se exponha ao perigo, pois a Arrogância precede a queda. Este trem vem de terras belas, com elegantes pinheiros, no prazer de se viajar pela Rota do Sul, na Serra Gaúcha, e ver tantas matas virgens de araucária, este pinheiro altivo que se ergue retilíneo e elegante.

 


Acima, Back to Holland. O chão em xadrez é a ludicidade, o espírito brincalhão, na jovialidade que jamais devemos abandonar. É um jogo que exige de nossa inteligência. O quadro aqui está todo embrulhado, talvez uma encomenda para ser entregue, como numa pessoa rica que encomenda um quadro, como num Andy Warhol, que passou a receber inúmeras encomendas, no namoro da Arte com o Dinheiro, numa Nova York que, apesar de tão rica em termos de Arte, é a pura ambição financeira do Tio Sam. A Arte nos mostra como o Ser Humano é universal, não? No canto esquerdo inferior vemos um plástico bolha, no prazer violador de estourar as bolhas, como um leão faminto fincando as presas num antílope desavisado, virando almoço. É o prazer transgressor, num artista que se sente preso e que quer se libertar o quanto antes, no modo como as ditaduras aprisionam o artista em nome de ideologias obcecadas em Poder. Aqui as cordas contêm o quadro, e são como ardilosas teias de aranha. Vemos aqui senhores numa divertida conversa regada a vinho, com suas golas elizabetanas, no modo como o boom renascentista inspira artistas até hoje, na universalidade imortal de Shakespeare. É um clube exclusivo, onde só entra quem tiver grana para a mensalidade, como numa boate esnobe, numa celebração óbvia e tediosa de Poder representado pelos pretensiosos frequentadores. Ao fundo um balão se eleva, em ambições sonhadas, pois qual o artista que não quer obter sucesso? Vemos aqui uma bela piazza italiana com seus prédios delicados, nas cores do Carnaval Veneziano, nas fantasias que acabaram por influenciar amplamente o Carnaval Brasileiro. As pessoas passeiam no momento de interação social, talvez depois de uma missa numa cidade pequena, no momento de flerte em que pretendentes são ambicionados. O céu aqui está meio aberto, meio nublado, com duas faces – uma divertida e uma séria. O cinza é essa sisudez discreta, e vemos uma poltrona, um pufe e uma luminária, no momento de curtir o lar e ler um livro, num estilo de vida reservado, longe das loucuras de massagens de Ego, massagens que, no Nível Metafísico, dissipam-se, pois se tenho certeza de que sou especial, por que meu Ego tem que ser massageado? Vemos um garçom careca carregando uma bandeja com vinho – a calvície é a carência financeira, num senhor pobre que tem que trabalhar nas casas dos senhores ricos, como nos moldes de estratificação social baiano, respirando ares coloniais – ou é branco rico ou é preto pobre. Aqui o vinho deixa-nos corados e alegres, num etilismo que saboreia cada gole, ao contrário do alcoólatra, que somente quer injetar álcool no próprio organismo. Este quadro é como um presente violentamente aberto e violado, no prazer de um ato de destruição, como comer uma comida, pois a Culinária é uma arte feita para ser destruída. No extremo direito superior, vemos um selo, e o quadro parece ter sido enviado pelo correio. O selo é emblemático, icônico, como numa Elizabeth II nos selos britânicos. O selo é a garantia e a autenticidade, com um carimbo confirmativo, atestando a autenticidade do envio, na credibilidade dos Correios no Brasil. Aqui vemos uma violação, um estupro, na Arte sendo devorada pelos olhos do espectador. Ao lado da poltrona, vemos um quadro com cabeças saindo dele – é a abundância; é a Arte se libertando da moldura e entrando na mente do espectador; é a força da Vida, sempre prosperando, sempre crescendo, no trabalho periódico de cortar as unhas ou de tirar o pó de uma casa, num cuidado que nunca cessa. Esta confortável a acolhedora poltrona é o prazer de estar pacatamente em casa, longe da fogueira de vaidades do Mundo lá fora. A poltrona é banhada pela luz do Sol, numa casa arejada e iluminada, num momento plácido em que tudo o que temos que fazer é ouvir os pássaros e o farfalhar das folhas nos galhos de árvore. Aqui temos uma violação que traz uma revelação, como num Gisele sendo revelada para o Mundo inteiro, ou numa Diana, que amava aparecer nos televisores do globo inteiro.

 


Acima, Bêbada. A vitrine é a exposição, como num escândalo provocado por uma pessoa rebelde e transgressora, com a coragem para lidar com a exposição decorrente da transgressão. Os vidros aqui são tortuosos, e distorcem a realidade, como numa pessoa confusa, perdida, com dificuldade em observar o Mundo do jeito que este é. É como a teoria astronômica da Matéria Escura, que seria uma “cola” invisível que mantém o Cosmos unido, fazendo metáfora com Tao, o invisível, o discreto, o humilde, sempre subestimado em sua forma reservada de agir, nunca com as ambições de Ego em querer ser o suprassumo do Mundo. Aqui é um cenário meio desolado e solitário, e vemos um homem solitário de bicicleta, talvez um carteiro fazendo entregas, num trabalho solitário, na terrível sensação de se sentir tão abandonado, tão ignorado, na capacidade do Submundo em fazer com que a pessoa se sinta tão deslocada e tão longe de encontrar um sinal verdadeiro e não meramente auspicioso. Aqui são como os relógios derretidos de Dalí, como num dia tórrido carioca, digno de amolecer o asfalto, como numa crônica de Luis Fernando Verissimo, na qual a Rio derretia ao ponto de derreter os fios da fiação elétrica! A rolha aqui está empenhada em evitar desperdícios, buscando vedar ao máximo a garrafa. Essa garrafa é como um artigo de elaborado artesanato, fugindo do clichê industrial perfeccionista. É aquosa, fluindo sempre, num rio vivo, sempre fluindo a alimentando vales, carregando peixes, Vida, na capacidade em Tao ser uma cachorra amamentando a ninhada, num trabalho de dedicação instintiva, numa mãe que se sacrifica para dar o melhor aos filhos, talvez uma mãe que, numa encarnação anterior, tenha levado um estilo de vida egoísta, buscando na nova chance, na nova encarnação, ser alguém mais dedicado às necessidades do Mundo. A garrafa se contorce sensualmente, como uma gata no auge do cio, enlouquecida, enrolando-se no chão, como no boom de hormônios da Adolescência, na época em que a pessoa se vê “escrava” de sua própria sede por Sexo, como ouvi numa palestra de Marta Suplicy: “A Adolescência é uma época em que se masturbar dez vezes por dia é perfeitamente normal!”, impactando e arrebatando a plateia de adolescentes, numa Marta imponente, muito longe de ser simplória. Aqui a rua está quase deserta, no cenário de desolação do filmão Vanilla Sky, numa pessoa que simplesmente está sozinha no Mundo, numa Nova York apocalíptica, desolada, deserta, árida, sem consolo algum – é o Umbral, o lar daqueles que não aceitam o seu próprio Desencarne. O vidro tortuoso aqui traz uma pitada de irreverência à sisudez do Mundo, como retilíneos azulejos distorcidos pela água na piscina, nas delícias de Verão com os amigos em torno de uma piscina ou orla. Aqui, a toalha sob a garrafa “barroca”, por assim dizer, está casual, desarrumada, como numa mulher de jeans e camiseta num salão de beleza. É como na esmagadora moda jovem dos anos 80, uma época em que a Juventude, de algum misterioso meio de propagação de Cultura Popular, encontrou uma força jovial, colorida e irreverente de ser jovem, como já ouvi: “Precisamos ver mais Juventude no tapete vermelho”. Num minúsculo detalhe, vemos um insetinho aderido ao vidro da vitrine, solitário, perdido dos seus, desamparado, numa artista catarseando um sentimento de solidão. O título Bêbada é porque as distorções vítreas trazem o efeito de embriaguez, como numa pessoa irresponsável que vai dirigir embriagada, trazendo perigo aos outros condutores, no modo como a Vida é algo tão sério, tão sisudo, que exige tanto desenvolvimento de discernimento e responsabilidade adulta. O Álcool vai desorientando, e certa vez um homem na Rua, visivelmente embriagado, pediu-me dinheiro para comprar pinga... Aqui é como uma pessoa que vai adormecendo, entregando-se à aquosidade de Morfeu, como num barco que vai fluindo lentamente, como nos braços de ninar de uma zelosa mãe. Aqui a água parece estar viva, pulsante, numa fonte inesgotável. É como uma água viva no Mar, defendendo-se com seus membros cáusticos, num ato de autoproteção que faz com que a espécie siga firme no processo intermitente de Seleção Natural.

 


Acima, Canaletto. A prateleira é a organização, numa pessoa que chegou à conclusão de que Disciplina é altamente necessária, sendo esta a única coisa que pode organizar a vida de qualquer pessoa. Um pequeno folião do Carnaval de Veneza se balança numa corda, num cipó, como o pêndulo de relógio, marcando o e Tempo, com horários disciplinados na rotina de alguém, na inevitável passagem de Tempo, no modo como os corpos carnais de cada um de nós possui prazo de validade – nada mais natural do que morrer. Vemos uma elegante e imponente coluna clássica, nos primórdios do Pensamento Ocidental, na aquosidade de ideias que une o Ser Humano em universalidade, como as ideias taoistas são atemporais e universais, podendo ser aplicadas até em tempos de Tecnologia Digital. A coluna é a força, o sustentáculo, como numa Scarlet O’hara, que teve que angariar forças do fundo d’alma, contornando as nefastas consequências da Guerra, sendo estas agentes de disseminação de Fome e Destruição – a Guerra é fraca; só há força na Harmonia. Aqui temos uma ilusão de ótica tipo Escher, pois um quadro pequeno acaba se revelando a paisagem atrás, na brincadeira entre os limites espaciais, pregando divertidas peças nos olhos do espectador. A vela é a vida frágil, tentando persistir num mundo tão duro e insensível, um mundo que pouco se importa se estou feliz ou deixo de estar, sendo assim, portanto, necessário mostrar o dedo do meio a este mesmo mundo. A vela é a fé religiosa, num desafio de se acreditar que paira acima de nós uma dimensão melhor e mais perfeita, fazendo da Terra uma escola na qual tanto aprendemos e da qual “escaparemos” cedo ou tarde. Na base da obra vemos uma chavezinha dependurada – é o segredo, a meta, numa pessoa que se encontrou neste sentido, “abrindo a porta” e passando a observar o Mundo sem filtros ou idealizações, num realismo, visto que não é o Mundo o que muda, mas o modo de eu observar e lidar com este. A gaveta aqui está aberta, numa pessoa de coração aberto ao Mundo. É uma revelação, um tesouro sendo descoberto, como no túmulo do rei Tut, deslumbrando o Mundo com a riqueza cultural do Antigo Egito, fazendo das civilizações uma prova irrefutável da evolução humana, num Ser Humano que olha para o Céu e quer saber o porquê disso tudo. Vemos quedas d’água, que são a consequência, aquilo que vem naturalmente, como num esforço sendo reconhecido por alguma honraria ou prêmio, como num Oscar, que pode ser uma bênção ou uma maldição, no modo como o sucesso e o insucesso são ambos complicados, como numa Whitney Houston, uma voz devastada pelas drogas. Vemos aqui uma cena veneziana, como numa Madonna vestida de noiva pós moderna numa gôndola do clipe de Like a Virgin, numa ironia, numa estrela sendo “desvirginada” pela atenção do público. Podemos ouvir o tradicional canto dos remadores das gôndolas, encantando turistas em meio a todo o charme italiano, este país herdeiro da majestade dos césares. Aqui a gaveta fica inundada pela água que cai, como na crença dos antigos navegadores, sem a noção da Terra ser redonda, crendo haver abismos imensos no fim dos confins marítimos. Neste lago da gaveta, uma gôndola é guiada, nas tradições que encantam o turista, como nas luzes sedutoras no Natal Luz de Gramado. Aqui a paisagem veneziana se estende ao fundo, numa cidade vasta e rica, charmosa, num Sol majestoso ao fundo, no poder de Áton, o disco solar herege que escandalizou o Egito numa reforma religiosa de um faraó tido como insano. O dia aqui se encerra majestoso, na hora de desafrouxar as gravatas e tomar um trago. O céu é de um azul promissor, no céu deslumbrante das Colônias Espirituais, essas cidades limpas e bem administradas, muito longe da patética dança de egos na Terra, como celebridades que tranquilamente aceitam toda a bajulação e a massagem de Ego, ao contrário de um Woody Allen, que despreza as vaidades das celebridades. Os livros aqui são acúmulo de conhecimento, na música de Djavan: “Um dia frio; um bom lugar para ler um livro”.

 


Acima, Carta de Sully. A leve pena remete a um anúncio que vi certa vez do filmão Os Pássaros, com uma simples pena e o nome do filme estampado sobre a pena, num anúncio leve e formidável, com sugestão sutil, nunca óbvia. A pena é o vestígio da passagem de um pássaro. Vemos aqui no quadro vários pássaros, tanto voando quando nadando, e os pássaros voando são originados pelas gotas de tinta da pena, utilizada para escrever à moda antiga, num traço que, mais uma vez, mostra a influência de Escher sobre Sônia Menna Barreto, num desejo de libertação. A pena é o poder da Escrita, da Civilização, dos registros de fatos históricos que geram a trajetória de um povo, na icônica Pedra da Roseta, que possibilitou traduzir os hieróglifos dos faraós, no poder da Escrita, esta forma de expressão que gerou a Intelectualidade, a Cultura Erudita, a qual inicia nos bancos escolares, na formação de nossas elites, como alunos excepcionais, que conquistaram o respeito de um professor exigente como o saudoso Tatata Pimentel, da PUCRS. Aqui, fotos de cartão postal remetendo a algum lugar belo, digno de receber turistas. Os cisnes fluem de um cartão para o outro, como num apolíneo balé, com os impecáveis pés ultradisciplinados das bailarinas, nas ambições de se tornar a primma ballerina. Aqui vemos um castelo digno de contos de fadas. O castelo é a fortificação, a defesa, a resistência a intempéries, numa pessoa que foi se tornando forte a partir de duros episódios de vicissitudes existenciais, no termo: “Sou como bolo – quanto mais me batem, mais cresço”. O castelo me remete ao consultório de minha odontopediatra, num quadro de quebracabeça montado pelo filho da doutora, formando uma imagem de algum castelo europeu – é o trabalho de paciência, de seguir um caminho lógico e juntar as peças para, assim, desvendar um mistério de Agatha Christie. Os cisnes aqui são a placidez e a estabilidade, num silêncio tão plácido, numa pessoa que amadureceu ao ponto de desejar nada além do que Paz, pois como posso ser feliz se luto contra o Mundo e contra mim mesmo? As torres aqui são agressivas e abrasivas, como pontas de pirâmides, como no formato de injeção de um Empire State Building, dando recados subjetivos e ainda assim, claros: Não se meta com esse cara... Aqui a água é plácida, como um espelho, no símbolo da Feminilidade, como no espelho da Galadriel de Tolkien, num personagem supremo e arrebatador, sábio, terrível e belo, tornando-se símbolo da Mulher, num feminismo, pois Galadriel é o ser mais depurado da Terra Média de Tolkien. Aqui são fotos de alguma lembrança, nas facilidades digitais de se conversar tranquilamente, em tempo real, com alguém que está na Alemanha, no frenético galgar das Tecnologias – até onde vai o Ser Humano? Vemos um selo de um místico unicórnio, com seu corno fálico, cortante, penetrante, num símbolo do Império Britânico, fazendo da tradição esta magia, com tradições que nos mostram que a passagem do Tempo é uma ilusão, com televisores do Mundo inteiro acompanhando a coroação de um monarca britânico, num ato que busca nos expressar a riqueza (não mundana) do Plano Metafísico, o lugar onde todos sabemos que somos estrelas. O fundo aqui é um discreto marrom amadeirado, no perfume de lustramóveis pairando no ar, na delícia de se entrar num cômodo limpo e perfumado, como acordar numa cama com lençóis suavemente perfumados. Esta carta é libertadora, com pássaros voando para onde bem entendem, na Lei do Livre Arbítrio, na dádiva de países que deixam o próprio cidadão livre para ser o que este quiser ser. Aqui o castelo é esta maravilhosa morada, mas nunca com tesouros físicos em seus sofres, na charada metafísica – ser rico e pobre ao mesmo tempo! Aqui ouvimos o relaxante som da plácida água, discreta, como se massageasse nossos ouvidos. A carta fala de um lugar maravilhoso, numa pessoa que não mais está de corpo presente na Terra. Na porção inferior do quadro, a água vasa e invade o espectador, num maremoto do Bem, com ideias e conceitos civilizatórios sendo disseminados, numa vida rica e abundante.

 

Referência bibliográfica:

 

Sônia Menna Barreto. Disponível em: <www.galeriandre.com.br>. Acesso em: 29 nov. 2020.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

É do Édouard

 

 

Volto a falar sobre o pintor francês Édouard Vuillard. Os textos e análises semióticas a seguir são inteiramente meus. Boa leitura!

 


Acima, Argila e gerânio numa mesa azul. A argila é o poder transformador das mãos de um artista, pegando algo e produzindo algo novo, num atelier produtivo, na prova de que artista não é vagabundo. As flores são a fertilidade da mente criadora, sempre elocubrando e imaginando. As flores são a delicadeza e a cautela, na função de sentinela de pés de roseira nos vinhedos, com uma flor sensível, sinalizando de antemão se alguma praga está se insinuando no vinhedo, como um leal cachorro, que defende um lar. A mesa é o artista debruçado no labor, com as costas arqueadas, calejadas, com as mãos curtidas pelo manuseio do barro, imitando Tao, que transformou barro em homem, sendo Tao este grande artesão, este trabalhador, mostrando-nos que a vida espiritual de desencarnado está longe de anjinhos dourados tocando harpas – a vida metafísica exige labor, sempre, numa carreira que nunca finda, pois qual seria o sentido de tudo se não houvesse a inimaginável dádiva da Eternidade? A janela dá para um jardim ensolarado, na dádiva que é encontrar Paz em nossos dias na Terra, numa rua tranquila, arborizada, com o elixir para os ouvidos que é o canto dos pássaros, numa sinfonia de Paz, trazendo-nos um contentamento enorme. A terra no vaso é as entranhas da Terra, com os vegetais nascendo, servindo de comida aos veganos, que servem de comida aos carnívoros, no sendo de humor que é a cadeia alimentar, com tudo se rendendo às bactérias, as quais reiniciam o ciclo da Vida, num ritmo aquoso de eterno recomeço. Aqui temos o divino silêncio da quietude, numa pessoa que descobriu que o segredo da Vida é encontrar Paz da forma mais fácil e simples possível. O livro aberto é uma pessoa receptiva, que vive de coração aberto para o Mundo, como me disse uma grande amiga psicóloga: “O Amor é o segredo da Vida”. É como no gesto de, ao recebermos o passe espiritual num centro espírita, termos que posicionar as palmas das mãos para cima, para receber a energia de luz e bondade que nossos entes queridos desencarnados nos enviam, no maravilhoso modo como, ao desencarnar, encontramos não só entes queridos que conhecemos na Terra, como também entes como bisavós, no divino modo como os vínculos de família sobrevivem ao Desencarne, pois, no frigir dos ovos, somos todos da mesma família, um fato que, infelizmente, é tão ignorado e subestimado na Terra, com as guerras de insanidade, ou seja, irmão derramando sangue de irmão – o Ser Humano tem MUITO a evoluir. Uma luz suave entra neste cômodo, nos ambientes intimistas de Vuillard, num momento de introspecção, como num momento de insight num consultório de Psicologia, no momento em que o silêncio reservado do consultório se torna um momento de debruçamento para si mesmo, com o terapeuta mostrando as portas que podem ser cruzadas, num guia espiritual. Vemos aqui várias obras, numa demanda, e numa ironia metalinguística – Arte falando de Arte. Então o atelier vai produzindo tal qual cabelo crescendo, ou capim, e as obras têm que ser destinadas, doadas ou vendidas, como uma amiga minha, uma artista plástica que me deu um quadro de uma figura de gueixa, o qual me apraz muito, na minha paixão pela Cultura Japonesa, na universalidade humana, na busca humana por um sentido nobre, que valha a pena, que justifique nossa vinda a este mundo duro que é a Terra. Vemos uma cesta vazia no chão, uma serventia, uma utilidade, esperando ansiosamente para servir, como num jogador de Futebol no banco de reservas, louco para pisar no gramado e jogar, rezando para que o técnico o chame, nesta força de vontade que faz com que a pessoa não tenha medo de lutar, pois a Vida não é luta? Vemos mais outras flores no quadro, na delicadeza feminina, no poder dos perfumes, do olor delicado, como narram que o médium Chico Xavier expelia um perfume espiritual irresistível, no modo como o Bem é agradável, lógico, no único caminho que Tao imaginou para nós, seus nobres filhos.

 


Acima, Atriz Yvonne Printemps em uma poltrona. A atriz está confortável, lânguida e relaxada, no modo como a Preguiça foi o que gerou as maiores invenções da Humanidade, como a Roda, o Telefone e o Elevador. Ela segura uma rosa, talvez um presente de um admirador, talvez cobrindo a atriz no final de uma peça, no modo como Fernanda Montenegro ganhou o título de Grande Dama do Teatro Brasileiro, na dura vida de ator, o qual, depois dos esfuziantes aplausos ao fim do espetáculo, vê o Teatro voltar a um silêncio denso, com a casa, antes cheia, ficando vazia, no eterno recomeço, como num ator que sabe a hora certa de agradecer e sair do palco, assim que os aplausos dão a sutil impressão de estar cessando, chegando ao fim, como Marília Pêra interpretando Maria Callas, numa metalinguagem – deusa falando de deusa: ao receber os aplausos, fique o mais imóvel possível, pois, assim, os aplausos duram mais tempo, como no monstro Bette Davis, que sabia a hora de sair de cena, no modo como, já ouvi de uma comediante, o Ego dos atores é monstruoso, mergulhando num mundinho fútil de bajulação, no qual o tratamento de estrela seduz a pessoa bajulada, com o diretor chegando de manhã cedo no set dizendo: “Como vai, minha estrela?”. Aqui a atriz olha para Vuillard desafiando-o, e parece que o olhar da diva fura o quadro, numa pessoa que mostrou ter o instinto para brilhar, um instinto que nenhum livro ou faculdade é capaz de ensinar. Seus olhos azuis são penetrantes, e fazem o Tempo parar. É o segredo da Fotogenia, num dom que faz com que pessoas horrorosas apareçam muito bem numa foto ou filmagem, ao contrário de pessoas pessoalmente belas, as quais não conseguem fotografar muito bem... A poltrona aqui tem a dignidade de um trono, e a atriz o ocupa como uma rainha, com o público aos seus pés, na fogueira de vaidades das celebridades, num mundo meio nojento, no qual tudo gira em torno do status, de eu ser quem eu sou no mercado de showbusiness, numa atriz bajulada, a qual realmente crê que pertence a um Olimpo maravilhoso, pairando sobre os reles mortais, como na genialidade de Woody Allen, o qual despreza o stablishment das celebridades. Temos aqui algo frequente em Vuillard, que são as flores e as estampas floreadas, e podemos aqui sentir o perfume da diva, como nas celebridades que lançam fragrâncias internacionais, num mercado concorrido, no qual todos e todas querem ser deuses intocáveis e adulados, tais quais rituais de sacrifícios a deuses pagãos. Ao fundo vemos uma luminária, que é a lucidez, o esclarecimento, uma pessoa que se encontrou muito bem no que faz, na dádiva que é encontrar prazer no labor, abraçando as duas faces do trabalho – a fácil e a difícil, ou seja, o liso feminino e o áspero masculino. As duas luminárias são como dois cães de guarda que guardam a estrela, como numa princesa que nasceu em meio a privilégios de corte, sendo cuidadosamente criada para ser desposada pura e casta, numa doce virgem casada com um príncipe de um reino vizinho, fazendo do Casamento uma ferramenta estatal de Diplomacia, como numa Maria Antonieta, destinada a ser rainha da França e a se tornar um útero reprodutor a serviço de uma linhagem de sangue azul – difícil imaginar vida mais enfadonha. A atriz aqui é uma mulher chique e sofisticada, com um precioso bracelete e um lindo anel coruscante, talvez num presente de um admirador, no modo como as celebridades mimadas gostam desse mundinho de bajulação e paparicação, numa corrupção ativa ou passiva – não sei qual das duas me dá mais ânsia de vômito. A atriz aqui faz um esforço mínimo, tendo que simplesmente ter a paciência para ficar horas ali posando, como na atriz Michelle Pfeiffer, a qual, num determinado filme, teve que ficar por seis horas seguidas numa cadeira de maquiador, pois quando se perde a Paciência, perde-se tudo, não? O ambiente aqui é luxuoso, talvez num camarim digno de estrela, de diva, no modo como o artista tem a áurea função de nos guiar, de algum modo, a Tao, a finalidade de tudo. Os cabelos encaracolados da atriz são rebeldes, no momento em que o artista se sente livre para se expressar.

 


Acima, Concerto matinal em Vintimille. É claro que podemos ouvir aqui o som do ensaio, com todo o esforço da Disciplina, como uma dançarina profissional que conheci, uma pessoa que, realmente, ensina os outros a ter toda essa Disciplina. Aqui é como uma Elis Regina ensaiando, a qual, ao ser atrapalhada num ensaio, disse bravamente: “Vocês não veem que eu estou ensaiando?”. Aqui é a dedicação, como num atleta, que exige o máximo do próprio corpo, talvez adquirindo algum problema de Saúde em meio a tal empenho e dedicação. Aqui, a cor cinza é da Discrição, num dúbio dia nublado, na dúvida encarnatória, como o Castelo de Grayskull, disputado pelas forças do Bem e do Mal, num limiar decisivo que se torna uma linha divisória clara, definindo vilões e mocinhos, como nos desenhos animados, educando as crianças para que estas tenham a noção de discernir o Bem do Mal, ou seja, a Virtude da Malícia, na icônica imagem de Nossa Senhora esmagando implacavelmente a Serpente da Malícia. Aqui é a produção de Cultura Erudita, a qual inicia nos bancos escolares e segue rígidos parâmetros, numa hierarquia vertical, como no Exército, com uma rígida estrutura hierárquica, obrigando o indivíduo a ter respeito pelos que estão acima, como num irmão mais velho, o qual acaba se tornando um cuidador dos mais novos. Realmente, Vuillard gosta de intimistas ambientes fechados, nos momentos de Insight num consultório de Psicoterapia, com o paciente abrindo todas as gavetas de sua mente ao terapeuta, num gesto de entrega e confiança, como já ouvi de duas pessoas diferentes: “Todos deveriam se submeter à Psicoterapia”, sendo como cuidar de uma ferida, banhando o ferimento com Mertiolate e trocando os curativos diariamente, no modo como a pessoa só pode ser feliz se, antes de mais nada, tiver autoestima, pois se não sou eu quem vai amar a mim mesmo, que outra pessoa amará? Aqui não podemos ver os rostos dos três músicos, com se eles estivessem tímidos perante o olhar de Vuillard, numa reserva, como vinhos reservados numa adega, envelhecendo vagarosamente, na virtude que é ter a paciência para esperar, só que sem criar expectativas, pois quem tem expectativas acaba se frustrando invariavelmente, como um senhor que conheci, que se frustrou na carreira de ator e acabou se tornando advogado – todos temos o direito de “dar uma sacudida na poeira” em nossas próprias vidas, pois como diz o jargão da chef Rita Lobo: “Você é livre, meu amor!”. Aqui vemos uma grande pintura sem moldura, numa carência, num abandono, como se estivesse recém concebida, esperando pela moldura, pelo respaldo, pelo apoio de aliados poderosos, respeitados. A falta de moldura é esta sensação de abandono, numa pessoa que está solitária e perdida, como num labirinto traiçoeiro, cheio de truques que confundem quem vaga por tais meandros traiçoeiros, na dádiva decisiva que é o autoencontro, o qual acontece sempre dentro de si, nunca fora, como na personagem Olenska, de Michelle Pfeiffer, personagem a qual acreditava que se mudar de cidade mudaria radicalmente sua vida – a Vida é dura em qualquer lugar, não? As partituras aqui são como um caminho existencial, o qual deve ser trilhado passo a passo, pacientemente, sem o desejo de pular etapas, pois, como eu já disse, na Vida não há controle remoto, e quando tenho todo um trajeto existencial a trilhar, não há Cristo que possa intervir. Aqui é o esforço e a dedicação, numa pessoa que descobriu que não se pode viver ao sabor do vento, sem os pés no chão, numa questão muito simples que um psicólogo me ensinou: O que é melhor – viver erraticamente ao sabor das aventuras ou ter os pés no chão, vivendo uma vida com responsabilidade? E, aqui, a cor cinza é este juízo, esta seriedade, numa pessoa que vê que não há Esperança para a pessoa que não produz – que Vida é esta? Aqui vemos quadros emoldurados, apadrinhados, abraçados, cuidados, dando inveja ao quadro sem moldura, no modo como admiração e raiva andam juntas, mesmo que a nível inconsciente, como imitar o cabelo de Gisele, numa mulher que quer “arrancar” de Gisele aquilo que a topmodel tem de tão extraordinário.

 


Acima, Lucie Belin. O véu cobre a modelo misteriosamente, com tantos mistérios que seguem desafiando a sede científica por Conhecimento. Vuillard tem essa pincelada tímida, oculta, nunca revelando por completo, como a Encarnação é isso, fazendo com que enxerguemos através de uma lente opaca, ocultando tantas coisas de nossa mente humana, como no agente Mulder de Arquivo X, com aquele olhar de cão curioso, ávido por desvendar os mistérios que cercam a Humanidade – há Vida, e inteligente, fora da Terra? É num jogo sensual de mostrar e ocultar. Lucie aqui come um petisco, talvez um croissant parisiense, na cena de Audrey Hepburn comendo um croissant vendo uma vitrine de sedutoras joias, pois, como dizia Monroe, os diamantes são os melhores amigos de uma garota. É o charme de Paris, esta cidade que, mesmo frente à pujança americana de Nova York, segue sendo o epicentro do Mundo Ocidental, com as galerias infindáveis do Louvre, um lugar indesvendável, misterioso mesmo se eu passasse minha vida inteira lá dentro. Lucie aqui é discreta, como se recusasse o olhar do retratista, no talento impressionista em revelar sugestivamente, sinuosamente, apelando para a Inteligência Emocional do espectador, como num pôster que vi certa vez, o qual, só depois de algum tempo, fui capaz de ver que se tratava de um retrato do Arco do Triunfo – olhe Paris aqui novamente! Lucie, de roupas escuras, pode estar de luto, num stress pós traumático, como o stress de um acidente de carro que sofri com minha família certa vez – é um baque, como receber uma notícia de falecimento. Lucie é cercada de rabiscos, talvez exercícios de depuração técnica, num artista que tem que se dedicar para, enfim, produzir Arte respeitável, à prova de críticas ferrenhas, impondo respeito perante os olhos do Mundo. O véu de Lucie é como o véu da diva decadente de Sunset Boulevard, na história triste da diva que se desligou dos estúdios hollywoodianos e que, com todas as suas forças, queria muito voltar à ativa, encarando um percalço enorme para tal, escondendo-se abaixo de um véu narcisista para disfarçar a própria loucura, vivendo num mundo à parte. Lucie aqui é muito elegante, num traje simples e impecável, num quadro predominantemente cinzento, na discrição de Vuillard. O véu é a reserva, o recato, numa pessoa como Meryl Streep, a qual, apesar de ser toda a estrela que é, opta por uma pacata vida reservada, pois a Vida é bom quando é simples, rechaçando as intempéries de Ego, da bajulação e do puxassaquismo. Lucie é delgada, sexy, ficando em pé som os próprios pés, numa mulher que, apesar de casada, continua tendo uma carreira, pois ser apenas dona de casa não vai dizer a essa dona quem esta é. Lucie está num belo perfil, como a Rainha da Inglaterra em moedas ou selos de correios, numa vida extremamente pública, desde quando Elizabeth sequer tinha saído da barriga da mãe, nos rituais humanos em torno de gênero, num claro preconceito patriarcal: menina tem que ser pura e casta; menino, o falo alfa. Lucie aqui está reservada num elegante chapéu, e pouco podemos ver seus cabelos, num confinamento autoimposto, como no estilo de vida retirado do genial Luis Fernando Verissimo, o qual, em entrevista, assinalou o divertido fato de que a pessoa tímida é uma Elke Maravilha, atraindo as atenções para si, numa divertida contradição. Uma das mãos de Lucie está coberta por uma luva, num retiro, num recato, num ocultamento, pouco revelando de si; a outra mão está nua, exposta, na contradição de que uma pessoa, no seu próprio trabalho, pode ser transgressora, mas, dentro de si, é extremamente careta. É o senso de humor de Tao, nos mostrando piadas as quais, se observadas de modo amplo e geral, acabam se revelando hilárias, como dizer que boogie é woogie  e que woogie é boogie – as dolorosas vicissitudes não deixam de ser engraçadas. E o véu segue neste trabalho de ocultamento e reserva, uma timidez, pois quanto mais misterioso algo é, mais tesão dará aos cientistas. É uma provocação, fazendo com que uma obra sofra inúmeras interpretações.

 


Acima, Lucy Hessel num sofá. Um lânguido e prazeroso momento de relaxamento, com o sorriso de prazer na modelo. É como na deliciosa sensação de liberdade na Experiência Extracorporal espírita, quando a pessoa, em relaxamento, tem a sensação do espírito estar se descolando do corpo momentaneamente, no conforto uterino, como mergulhar numa acolhedora piscina térmica. Parece aqui que uma piada foi recém contada, e que o senso de humor paira no ambiente, como no prazer de estar cercado de amigos, como nas colônias espirituais, onde só moram pessoa que lá merecem morar, ou seja, pessoas basicamente boas, antipsicopatas. O sofá aqui é como um divã de psiquiatra, convidando o paciente a relaxar e a abrir par ao terapeuta todas as gavetas da mente deste paciente, num momento agradável de intimidade com uma comadre, nos desabafos necessários, quando a pessoa fica aliviada ao compartilhar algum sentimento ou angústia, na missão do terapeuta em fazer que o paciente saia do consultório se sentindo bem e leve. Aqui é uma Cleópatra em seu divã, no dramático momento do suicídio, como num Getúlio Vargas, provas de que o Poder não traz necessariamente felicidade à pessoa poderosa, mas sim uma sobrecarga existencial, como uma pessoa que ganha na loto, passando a ficar cercada de amigos interesseiros, e não de amigos carinhosos, que amam o ganhador apesar da conta bancária deste. A mulher é bela e elegante, e seu sorriso é plácido, nunca exagerado. O sorriso é o contentamento, numa pessoa que decidiu estar feliz com o que tem, na contradição do consumista fazendo compras desnecessárias num shoppping – quanto mais adquiro, mais vazio vou me sentindo... As pernas de Lucy estão sensualmente dobradas, com a modelo se dobrando sobre si mesma, como encontrar uma posição confortável na cama, este móvel sedutor, que apela para o nosso Id, o impulso inconsciente de prazer, na dureza que é o momento do despertador tocando, com a Disciplina diária se impondo, avisando que é hora de sair dos sedutores braços de Morfeu. Aqui é uma prazerosa visita, num velho amigo, o qual não vejo há anos, no modo como os amigos íntimos resistem à passagem do Tempo, pois quando olhamos nos olhos deles, parece que foi ontem a última vez em que os vimos. É no delicioso reencontro com amigos no Plano Metafísico, como numa festa de retorno ao Lar, com os nossos avós e bisavós nos esperando, todos belos, jovens, vigorosos e produtivos, num Mundo que nos mostra que a Disciplina continua – não é irônico? Aqui é um momento de Harmonia e Concórdia, e Lucy concorda plenamente com nossas colocações, encontrando algo em comum com a visita, muito longe de uma visita incômoda, a qual nos dá vontade de colocar a vassoura atrás da porta! Lucy aqui nos ouve atentamente, e ficamos confortáveis em seu acolhedor sofá, numa sala de estar limpa e perfumada, que nos recebe de braços abertos, num talento de anfitrião, ou de um patriarca, inspirando a união e a integração, no modo como o homem de Tao tem a capacidade de unir as pessoas, nunca forçando, nunca sendo estúpido, nunca sendo opressor – o homem de Tao é naturalmente respeitado, pois não é um homem ambicioso, obcecado em anexar, por guerra, reinos vizinhos. O sofá aqui é de um tom terroso, na simplicidade da base, do chão, da referência, numa base sobre a qual a pessoa se sustenta, na magia biológica de sementinhas sendo plantadas e trazendo plantas, trazendo Vida, nas generosas entranhas da Mãe Terra, a mãe generosa, farta, como numa gorda e adorável nonna italiana, reunindo a família em torno da polenta. Aqui é um momento engraçado, muito engraçado, e a piada paira no ar como perfume, pois, apesar de ser muito séria, a Vida tem que nos trazer um pouco de ironia, graça e comédia, até que aprendamos a observar as inevitáveis contradições da Vida, fazendo que possamos enxergar o Mundo num plano geral e abrangente, na dádiva que é observar o Mundo com nitidez, sem lentes opacas de idealizações simplórias, como acreditar que minha vida mudará radicalmente se eu apenas me mudar de cidade.

 


Acima, Misia Natanson sentada numa poltrona. Vuillard adora esses momentos de languidez feminina, com suas musas sentadas e relaxadas. Misia está num trono, como um regente exausto com os problemas do próprio reino, no modo como a coroa pesa sobre a cabeça coroada, no modo como deve ser complicado ser uma pessoa tão pública. A poltrona aristocrática é a dignidade, numa posição social privilegiada, num móvel fino, um tanto pretensioso, indo contra as linhas modernistas simples e limpas, como na simplicidade do templo construído pela faraó feminista Hatshepsut, com rampas simples e limpas, talvez inspirando as rampas limpas da Brasília de Oscar Niemeyer, na prova de que menos é mais, e que os exageros acabam se revelando sujeira e desnecessidade, como água usada numa lavadora de roupas, indo ralo abaixo, desprezada após cumprir sua função. As pinceladas aqui são dúbias, e Misia parece estar deprimida, desmotivada, no modo como a pessoa deprimida sequer tem vontade de conversar, numa pessoa que está passando por uma excruciante decepção generalizada, decepcionada com a Vida num modo geral, numa pessoa cujas expectativas foram sendo fuziladas, uma a uma, pois quem não tem expectativas não se frustra, apesar do Ser Humano tem esta grande tendência em construir expectativas. Misia parece estar com uma coberta sobre as pernas, talvez numa pessoa doente, no meio de uma forte virose gripal, nas evoluções farmacêuticas, trazendo medicamentos nunca antes sonhados na História da Humanidade. A coberta é o resguardo, a reserva, os cuidados num hospital; a coberta é o aconchego do lar no “choque térmico” de um jovem que saiu de casa para morar sozinho para estudar em outra cidade, deparando-se com a falta dos cuidados maternais, os quais cercaram este jovem desde sempre; a coberta remete à minha falecida avó, a qual dizia: “O dia em que vocês me virem com um cobertor sobre as pernas é porque estarei extremamente velha!”. A cabeça de Misia pende de um lado para o outro, talvez num momento difícil, que está custando para passar, no modo como os eventos da Vida vão passando, fazendo com que a pessoa aprenda que é necessário ter Disciplina, nunca crendo que anjinhos dourados me tirarão milagrosamente de tal momento duro – tenho que ser dono de mim mesmo. Aqui, temos tons desmaiados e esmaecidos, tal qual a languidez da modelo, a qual mal tem vontade ou paciência para posar, e esconde um pouco o próprio rosto, num resguardo tímido e reservado, numa pessoa discreta, que sabe do fato de que a pessoa exibicionista nunca é secretamente respeitada por outrem. Misia é pálida e fraca, num momento de recuperação, com a Vida vagarosamente voltando, como numa pessoa que baixa numa instituição psiquiátrica, como num psicótico, tendo que ser contido antes que faça mal a outrem ou a si mesmo. Misia está cética, descrente, e nada do que dizem a ela é capaz de a reconfortar. A cadeira chic denota riqueza, privilégio social, num retrato que mostra que as riquezas mundanas não trazem felicidade ou preenchimento existencial, como uma senhora que conheço, uma pessoa extremamente apegada às riquezas mundanas, materialistas, no modo como a Matéria é uma ilusão, pois, ao Desencarne, “vão-se os anéis  ficam os dedos”. Os tons aqui são desmaiados e doentes, longe de um vermelho vibrante, com vontade de viver, como numa feiticeira que conheci certa vez, uma estonteante mulher de vestido vermelho, maravilhosa, na beleza da Juventude Eterna, como um jardim de vigorosa hera, forte, entranhando-se, com vontade de viver seus dias na Terra, ao contrário do desmotivado, que se prostra nas cordas do ringue da Vida – o Mundo é dos guerreiros, mas guerreiros do Bem, sem ambições mundanas. Misia aqui não quer posar, e está relutante, como se estivesse dizendo: “Chega. Cansei. Vá embora”, no modo como a Paciência é uma virtude.

 

Referência bibliográfica:

 

Édouard Vuillard. Disponível em: <www.en.wikipedia.org>. Acesso em: 18 nov. 2020.