Graduado em Engenharia Química,
Éder Roolt nasceu em Santo
André, SP, em 1977 – pertence à minha geração –, e reside em
Mauá, no mesmo estado, tendo já exposto diversas vezes. Pintor autodidata, Éder
Roolt em 2010 teve um bom momento, pois venceu o Salão de Artes Plásticas do
Mapa Cultural Paulista e foi indicado ao respeitado Prêmio Pipa. Os textos e
análises semióticas a seguir são inteiramente meus. Boa leitura!
Acima, Festa Anticonformista. Aqui, temos uma intervenção, uma violação,
um vandalismo, com pinceladas furiosas, querendo, avidamente, deixar sua marca
no Mundo. A parede branca foi agredida, desvirginada, estuprada, e o vermelho
sangue é o sangue que pulsa nas mãos de um artista esfomeado, querendo fazer
sua arte, num estômago que nunca está cheio ou acomodado. Palavras emblemáticas
são pintadas, como num poeta, querendo se fazer ver em um mundo tão
indiferente, tão insensível, num mundo que nunca pergunta à pessoa se esta está
de fato feliz, como num casamento pomposo, no qual, talvez, não haja lá muito
Amor entre os nubentes, como numa noiva sem brilho nos olhos, sem tesão, sem
querer ser extremamente feliz, em casamentos relâmpago, que duram pouco, como
fogo de palha. Aqui, é como se tivesse passado Jesus para ser crucificado, deixando
seu rastro de sangue nobre, o registro de sua paixão, de seu sofrimento, como
canções sertanejas de sofrência, de corações arrasados e agredidos, no modo
como, infelizmente, quando uma pessoa se apaixona, esta se ferra. Aqui, uma das
letras A serve ao emblema do Anarquismo, no modo como a Arte tem que ter um
pouco dessa anarquia, dessa liberdade, sendo horrível para um artista ser
censurado e proibido, no modo como deve ter sido dura a Ditadura Militar para
os artistas brasileiros, pois o corte de censura é uma castração, uma
delimitação, uma grande frustração, como um homem apaixonado, que leva um pé na
bunda, com o perdão do termo chulo. Aqui, é um pintor de paredes que se
rebelou, pintando as coisas da forma como lhe vier na cabeça, num artista que
se cansou de ficar correspondendo a expectativas, no modo como ninguém merece
virar um refém daquilo que o Mundo espera desse mesmo indivíduo, pois como
posso ser feliz se não tenho o controle de minha própria vida? Aqui, temos em
Roolt um cenário agressivo, de transgressão, como num vândalo furioso, cheio de
raiva no coração, num vândalo que, definitivamente, não saber enxergar o seu próprio
lugar no Mundo, no modo como é amargo o gosto de despertencimento, de uma
pessoa que não sabe o que fazer da Vida, uma pessoa jogada nas entranhas de um
labirinto, sem Norte, sem alguém para dar um auxílio. Aqui, “a curiosidade é
herdada da infância”, como uma criança ávida por informações, querendo saber
como são o Céu e o Inferno, na curiosidade científica, num cientista da NASA
olhando para os confins do Cosmos, querendo sempre saber, sempre registrar, num
Ser Humano que se depara com um Universo tão vasto que chega a ser inútil
tentar contar todas as estrelas que existem em tal Cosmos, tal o
tamanho do mistério que nos cerca, num Ser Humano ainda tão bebê, tão novo, tão
infantil – grandes dias virão. Dando seguimento à frase pintada por Roolt, “a
curiosidade é mantida por irresponsáveis que insistem em serem artistas”, ou
seja, o artista bom e humilde, que tem talento mas não se envaidece
narcisisticamente, sente-se como uma tesoura cega, pois quando me sinto como um
afiadíssimo bisturi, é porque estou sendo arrogante, ou seja, estou “saindo da
casinha”, e quando alguém sai de tal casinha, o caminho de retorno ao chão é
doloroso, como dedos numa tomada elétrica, ou seja, mantenha-se humilde, pois,
desse modo, você irá longe. E Tao nunca se envaidece, apesar de ser o centro de
tudo. As frases derretem como tinta fresca, como num poeta anônimo, escrevendo
seus versos em beiras de praia, na areia, num trabalho fadado ao esquecimento.
Nesta obra, vemos a singela e pequena foto de uma criança, que é a porção
infantil de Roolt, no modo como ninguém deve deixar totalmente para trás tal
candura, numa criança com óculos escuros, que são o resguardo, a proteção, numa
pessoa que aprendeu que a Discrição é o que salva o camaleão dos predadores...
Acima, Latas. As latas aqui dialogam, cada uma em uma extremidade, como
duas pessoas diferentes, opostas, que encontraram um ponto de diálogo e
conciliação, no modo como é difícil para o Ser Humano colocar as diferenças de
lado, num mundo constantemente aguerrido, onde há as nobres intenções
diplomáticas das pessoas neutras. As latas transbordaram, talvez de alegria, ou
como na fúria de um vulcão, nas forças naturais que constituem vicissitudes,
como um vírus, por exemplo. As latas transbordam como está quase transbordando
a caixa de gordura no prédio onde moro, estando temporariamente impossível mandar
limpar, por causa das paralisações de serviços e comércio por causa do
infamíssimo Coronavírus. Aqui, o artista mostra os elementos com os quais
trabalha, talvez querendo nos receber em seu atelier, nessa bagunça organizada
que são os ateliers, numa organização em meio à qual apenar o próprio artista
consegue se encontrar, como fazer compras frequentemente em um certo
supermercado, onde sabemos encontrar cada mercadoria, num aspecto de
familiaridade, de conforto. O azul nobre é da cor do Céu, do misterioso lar
metafísico, um lugar onde o trabalho e o estudo continuam sendo necessários, ao
contrário desta imagem de Céu ocioso e indolente que muitas pessoas
erroneamente têm. A azul é a cor discreta da masculinidade, num Céu de
Brigadeiro de pinturas renascentistas, remetendo a uma dimensão onde a Beleza
impera sem interrupções, sem cortes impeditivos, no modo como a Beleza flui
impetuosa, implacável, numa avalanche de coisas lindas e perfumadas, numa Vênus
brotando irrefreavelmente dos mares, revelando-se por completo, na magia da
Terra da Estrela da Manhã, o lar onde nada se perde; onde nada escapa pelo
esquecimento. Já, o preto é a cor do luto, como em minha bisavó, a qual, ao
enviuvar, passou a só vestir roupas pretas, até o fim da vida. É como certa vez
fui a um funeral, e eu não estava propriamente de preto, mas em tons de azul e
verde, e uma senhora disse à outra: “Tudo bem que não precisa vir todo de
preto, mas olha só esse de azul...”. São as diferenças culturais, como na
Índia, onde as pessoas vestem roupas coloridas para os funerais. Aqui, o
suporte é o virgem branco, num anfitrião pronto para receber as tintas, num
ator que se deixa pintar pelo personagem, numa atuação tão impecável que
simplesmente esquecemos que é um ator que está naquela tela de Cinema, no modo
como a Academia de Hollywood ama atores que se desfiguram para os papéis, no
caminho posto da Vaidade, pois, já sabemos, Beleza não põe à mesa, num mundo que
exige tanto Yang do indivíduo, tanta ausência de frescura. Aqui, as latas
choram suas lágrimas, como se estivessem uma contanto suas mágoas para a outra,
como duas comadres, ou como numa sessão de psicoterapia, num momento de
intimidade, em que sentimentos são abertos e analisados, na busca pelo bálsamo
para a Dor. Aqui, a implacável chuva transborda, talvez em lugares próprios
para as ovas do mosquito da Dengue, numa doença endêmica que faz com que a
pessoa fique duas semanas inteiras de cama, no modo como o artista quer ser uma
doença do Bem, afetando as pessoas, excitando o Corpo Social, como num ator
teatral recebendo um teatro cheio de espectadores, no prazer de palmas
esfuziantes ao término da encenação, no tesão que é pisar num palco de Teatro.
Aqui, apesar de cores diferentes, as latas têm algo em comum, no modo como,
apesar de sermos tão diferentes, há em nós algo em comum, que é Tao, na questão
do “reconheço o Deus em você”. Nesse transbordamento, temos fartura, num
artista sempre ativo, sempre criando, tendo que dar vazão às obras acumuladas
em seu atelier, como um sapo fêmea desovando, no poder implacável da Vida. Aqui,
as latas choram por razões diferentes, e uma se identifica com a outra, num
momento em que me entrego de uma forma que o dinheiro nunca comprará.
Acima, sem título (1). O
rosa pink é a Feminilidade, a cor do universo de Barbie. Podemos sentir o
perfume tuttifrutti, nos encantos femininos de coisas agradáveis, num momento
em que o Yang se entrega, podendo relaxar, esquecendo das competitividades do
Mundo lá fora, como Marte adormecendo aos braços de Vênus, num momento de
aconchego do lar, como cozinhar uma gostosa jantinha, no conforto de se calçar
chinelo ou pantufa, nas simples vestes despretensiosas de dentro de casa, num
momento longe das exigências de convívio social, como se arrumar antes de sair
de casa. Aqui, temos um vitral, e a peça tem um dinamismo, parecendo um efeito
psicodélico, com as formas mudando de cor e de forma, como num balé, num
contágio, como na obrigação coletiva de reclusão por causa de um ameaçador
vírus mundial – sim, você sabe do que falo. Aqui, é uma colcha de retalhos, num
cenário colorido e diversificado, num artesanato que nasceu de uma forma
simples, de uma forma a não se jogar fora um pedaço de tecido, do modo como
tantas coisas boas nasceram da simplicidade, como a bruschetta italiana, que
nasceu como um modo de não se desperdiçar um pão dormido. Aqui, é uma parede de
tijolos de vidro, mas tijolos coloridos, iluminando o interior de um templo, na
magia das cores, dando uma pequena amostra da alegria e da limpeza da Dimensão
Metafísica, o lar de todos nós, absolutamente todos, apesar de haver tantos
espíritos vagando pelos corredores infernais do Umbral – são os nossos irmãos,
que sofrem, do modo como, quando a pessoa desencarna, ela senta com calma e faz
uma lista de todos os psicopatas que conheceu em vida, visitando cada um destes
no escuro e árido Umbral, tentando ajudá-los a sair de tal situação degradante.
Aqui, são como várias televisões expostas numa vitrine de loja de eletrônicos,
e todas estão sintonizadas no mesmo canal, numa sintonia, num ato de harmonia
coletiva, como nos movimentos artísticos, e lembro muito bem do que uma
professora de Educação Artística me disse: Todos temos que dançar no mesmo
ritmo, fazendo de tais movimentos vogues que têm a função de unir as pessoas,
como na febre renascentista, quando a Europa se deparou com todo o frescor de
uma nova onda de se fazer Arte, e as novidades sempre vêm, sempre brotam, e as
coisas são renovadas, na transgressão, por exemplo, do Impressionismo – é a
questão do tesão internacional, de se conectar com o Cosmos, num orgasmo
coletivo, no poder catártico em depurar e purificar, como dizia Dalí: “Feliz
daquele que provoca o escândalo”. Aqui, é como papel desdobrado, que foi
dobrado várias vezes, num ato de organização, de ordem, impondo lógica a um
Mundo tão caótico, cheio de terremotos, vulcões, poluição e violência, querendo
imitar a inabalável Paz metafísica, na mortificação matemática que faz com que
a pessoa pare de acreditar em “Papai Noel”, por assim dizer, pois o Mundo não
pertence àqueles que têm os pés no chão? Uma das melhores coisas da Vida é ver
esta com clareza, não? As ilusões são doenças, e as crises são positivas, pois
estas assinalam tal renovação na cabeça da pessoa desiludida. Aqui, é como uma
travessa de polenta, com vários quadrados sendo cortados para que sejam
grelhados na chapa, na famosa polenta brustolada, que surgiu como uma forma de
não se jogar fora a polenta mole que sobrou de ontem. Aqui, é como um
tabuleiro, num ambiente técnico, que exige raciocínio e concentração do jogador,
num ambiente técnico, absolutamente desprovido de glamour, de feminilidade, num
ambiente frio e matemático, em que as batidas contagiantes de um ritmo adquirem
tal lógica matemática de repetição, no modo como apolíneo e dionisíaco são
faces da mesma esfera, pois o Cosmos é um só, e Tao é um só, ou seja, todos
temos inabalável individualidade, pois qual seria a lógica de Tao criar duas
pessoas iguais? Aqui, é como dividir um país em estados, em zonas, em regiões,
no modo humano de impor Ordem ao Caos, na mensagem positivista da Bandeira
Nacional Brasileira, na ironia de que macho e fêmea são uma coisa só.
Acima, sem título (2). Temos
aqui curativos, como numa pessoa que passou por uma decepção amorosa, ficando
com o coração agredido, na metáfora católica do coração cercado de espinhos,
nas dores inevitáveis da Vida, numa pessoa que tem que aprender a conviver com
a Dor, num coração vigoroso, com vontade ardente de viver, no modo como
Agressividade é isso, é tesão de vencer, fome de vencer, ter vontade de viver.
Neste asséptico ambiente hospitalar, na limpeza do branco, temos etiquetas
coloridas, talvez querendo trazer um pouco de alegria a um tão sério ambiente
hospitalar, como li certa vez que o médico tem que aprender a fazer “bilo” no
paciente, ou seja, brincar um pouco com o paciente para que este não veja a
internação hospitalar como um cárcere dolorido. As etiquetas vermelhas são o
sangue, são as mortes inevitáveis, no modo como um médico tem que aprender a
lidar com a Morte. É um espírito que desencarna e acorda em um hospital da
cidade metafísica, num momento de transição, de mudança de endereço, num
indivíduo que tem que ter a plena consciência que desencarnou e que o corpo físico
já não mais lhe pertence, na metáfora do “vão-se os anéis; ficam os dedos”,
pois o que é mais importante: O Corpo ou a Mente? A Imagem ou a Alma? Parecer
feliz ou ser feliz de fato? A etiqueta rubra é a Fraternidade da Revolução
Francesa, no maravilhoso fato de que somos todos irmãos, na insistência heróica
do padre na missa, sempre querendo nos lembrar de que somos bebês do mesmo
útero, do Imaculado Útero Metafísico, à Virgem Santíssima que nos concebeu de
forma pura, mental, limpa. As etiquetas amarelas são a esperança de uma nova
aurora, de um raio dourado de luz que entra no caixão e liberta a pessoa, numa
terra tão bela, tão abençoada, onde tudo reluz como ouro, mas não é ouro; é
melhor do que ouro, pois é metafísico, ou seja, é eterno, e por mais longeva
que pode ser uma pedra preciosa, não é eterna, no modo como a Matéria e o
Físico, são uma ilusões, pois tudo que é material está fadado à danação, à
ruína, a decadência, ao desaparecimento, só permanecendo o pensamento, o
metafísico, as ideias, a Razão. É como tomar café da manhã em uma iluminada
copa, de frente para o Leste, recebendo os primeiros raios do dia, num dia que
promete ser muito produtivo e divertido, no modo como o Reino dos Céus não é um
plano ocioso e hedonista, mas um paraíso para quem ama trabalhar e estudar,
numa vida produtiva, como num artista com uma carreira atribulada, rica, farta,
com várias apolíneas tarefas a realizar no dia, como no prazer do labor de um
diplomata, sempre trabalhando em prol da Paz e da Harmonia, ao contrário da
feiura da Guerra, a qual traz só Ódio e destruição. Aqui, são dois amigos
conversando, pois eles têm algo em comum, apesar de, por outro lado, terem lá
suas diferenças, como numa amizade sincera, de décadas, naquele amigo que, se
você ficou décadas sem conversar, e vê tal amigo na Rua, parece que a última
vez em que você falou com ele foi ontem, tal o poder da intimidade de dois
irmãos que se relacionam metafisicamente, numa espécie de telepatia, com duas
pessoas íntimas, numa espécie de telefone cósmico, no modo como nunca perdemos
o contato com pessoas importantes em nossas vidas, pois o Cosmos é assim,
interligado, na sensualidade da continuidade cósmica, numa profundeza vasta,
imensa, pois, como dizem os islâmicos, Alá é grande, na universalidade do
Pensamento Humano. Aqui, as etiquetas têm esta aderência, esta força tenaz,
numa pessoa que encontra tesão na Vida, como num tenista que entra na quadra
para vencer, e não só para competir, como numa colega que tive no Ensino Média,
uma pessoa que só tirava notas altíssimas, ou como um fisiculturista, que exige
o máximo do próprio corpo. Aqui, são dois cadernos, dois registros, como numa
pessoa infeliz, que leva vida dupla, como um psicopata, que é um lobo
disfarçado de cordeiro, enganado meio Mundo. Aqui, são duas pessoas passando
por momentos de dor similares, só que por causas diferentes, nas perfeições das
teias tecidas pela Divina Providência, com irmãos fazendo amizade, na
eternidade das amizades profundas e sinceras.
Acima, sem título (3). A
imagem remete às festas de aniversário da Infância, com o cheiro de látex dos
balões, somado com o cheiro das guloseimas dispostas em uma mesa colorida, com
uma toalha ilustrada de super heróis, no prazer de receber em casa os
coleguinhas do colégio, todos arrumadinhos, sem os usuais uniformes do colégio,
numa ocasião especial, de homenagem, num cesto cheio de presentes, num dia em
que a criança aniversariante se sente a pessoa mais importante do Mundo. Aqui,
são como jujubas coloridas, doces, no encanto das guloseimas coloridas,
despertando o gostoso pecadinho da Gula, no modo como as crianças adoram comer
porcarias, muito distantes de um adulto que se cuida para comer saudavelmente,
pois a Infância é simples, fazendo metáfora com a Infância Metafísica, no berço
primordial, com espíritos ainda aprendendo as lições mais elementares, como
Amor e Caridade, ou como primar pela Verdade, como super heróis, que tomam
conta do Mundo, protegendo este dos perniciosos vilões mentirosos e traidores,
no modo como, desde cedo, a criança precisa aprender tais discernimentos. Aqui,
são como aqueles vendedores de balões na Rua, fazendo balões em forma de
espada, ou de cachorro, enchendo os olhos das crianças, as quais imploram aos
pais que comprem o artesanato de vida curta, num pai que, apesar de ter o
impulso de dar tudo ao filho, tem que acostumar este com a ideia de que, na
Vida, nunca se pode ter tudo, ou seja, ninguém consegue fazer tudo o que quer
fazer, num exercício de paciência. Aqui, é como um palhaço, remetendo-me ao
genial Jô Soares, o qual, ao ver pessoas na plateia com nariz de palhaço, disse
que estas estavam fantasiadas de brasileiros! Podemos ouvir aqui o potente e
agressivo som de balão estourando, num momento de ruptura, de choque, num
momento em que a realidade revela a si mesma de uma forma forte e contundente,
como uma pessoa que, de um momento para o outro, enfrenta um episódio de
internação hospitalar, no termo da Psicologia: “Colocar o dedo na tomada”. Mas,
por mais amargo que possa ser o remédio, como este faz bem! Podemos ouvir aqui
o som de atrito entre os balões, num atrito difícil, truncado, onde as coisas
não fluem muito bem, como no Umbral, um lugar infernal que abriga aqueles que
não aceitam a morte do corpo físico, no caminho da loucura, pois o que podemos
dizer de um prisioneiro que não quer sair da prisão, mesmo tendo chegado a sua
data de soltura? Aqui, são como vísceras reveladas, talvez numa aula de
Anatomia, na memória que tenho ao visitar os cadáveres em formol na Unisinos,
num passeio do colégio, um ambiente terrível para quem tem sensibilidade, na
memória horrenda de eu ver um braço de uma mulher, com as unhas pintadas de
vermelho... Falando em vermelho, vemos balões dessa cor, na cor da Vida, do
vigor, da vontade de viver, seduzindo os vampiros, os quais, ao invés de
sangue, sugam almas, buscando escravos masoquistas, como certa vez um psicopata
tentou controlar minha vida! Sai pra lá, vampiro! Aqui, temos uma luz dura,
forte, que invade frontalmente o quadro, num flash fotográfico, na tentativa
humana em eternizar momentos, no modo como, no Plano Metafísico, nada se perde,
e os desperdícios não existem. Aqui, é como um intestino revelado, nas imagens
sobre os ferimentos de faca num presidente da República. São intestinos em
trabalho, em labor, digerindo e processando alimentos, ou intestinos cheios de
cápsulas de drogas, transportadas por “mulas”, pessoas aliciadas pelo Tráfico
para traficar internacionalmente, num ato de desespero, numa pessoa atraída
pelo dinheiro fácil, na eterna sedução que as riquezas mundanas exercem sobre o
Ser Humano, sendo que tudo no Físico gira em torno do Metafísico, na hierarquia
entre as dimensões, fazendo com que as dinastias mundanas façam metáfora com o
modo como, no Metafísico, somos todos sangue azul, pois temos um Pai em comum. Somos a
Suprema Realeza.
Acima, sem título (4). Aqui,
temos um quadro de vergonha, de pudor, numa pessoa que quer se esconder, num
constrangimento, com algo que quer ser ocultado, como num aspecto de feiura,
querendo ser escondido, como numa pessoa reservada, que não quer que sua vida íntima
sofra exposições públicas, como numa reservada Meryl Streep, reclusa em
Connecticut, longe dos auspiciosos holofotes que assediam as celebridades, como
num Woody Allen, que despreza as celebridades. Aqui, é como se a caixa tivesse
caído em cima de um jovem de tênis e calça jeans, nocauteando o jovem, naquelas
surpresas que a Vida nos reserva, como me disse certa vez uma senhora: “A Vida
nos apronta cada uma...”. Na caixa, está escrito Cuidado – Frágil, na fragilidade do Ser Humano, com vidas dentro de
um carro, sendo ceifadas em um acidente, como dizia certa vez a vinheta de um
programa de Rádio: “Acidentes acontecem”. É a fragilidade dos sentimentos, com
tantas pessoas empedernidas, que construíram em torno de si mesmas muros e
cercas de arame farpado, com muito medo de sofrer com paixões, como uma velha
amiga minha, que se subtraiu de meu Facebook só por causa de uma bobagem sobre
Política. Aqui, frágil não é o interior da caixa; frágil é o rapaz esmagado,
reprimido, talvez numa pessoa que vinha caminhando na Rua, distraidamente,
contemplando flores em árvores e, de repente, sua Vida mudou radicalmente, e de
uma forma repentina teve que encarar uma nova verdade, nas surpresas que as
esquinas da Vida nos reservam, pois pobre daquele que acha que já aprendeu
tudo, tendo o indivíduo que construir tal humildade, sempre aceitando uma nova
missão, um novo desafio, num espírito olímpico, vencendo percalços
elegantemente, na vitória do Pensamento Humano, da sofisticação intelectual, do
brilho inteligente. O rapaz está encaixotado, talvez perdido numa zona de carga
de um aeroporto, talvez numa pessoa querendo fugir, querendo se refugiar em um
outro mundo, como uma pessoa que quer fugir da seriedade da Vida, embarcar num
tapete mágico e passear por um mundo colorido, nas cores cinzentas da
Realidade, num mundo que exige tanto juízo e tanto realismo da parte do
indivíduo. É como a doce moça do telegrama musical sendo assassinada em Os Sete Suspeitos. O rapaz aqui está abalado,
inconsciente, tentando se recobrar do choque, mal sabendo o que aconteceu, num
acidente tão contundente e repentino. Talvez ele esteja morto, com o espírito
se descolando do corpo, tendo uma experiência extracorporal, com a alma que “boia”
para fora do corpo, assistindo a tudo de cima, como num camarote, numa pessoa
que não está entendendo direito o que está acontecendo, no modo como só a
passagem do Tempo pode mostrar tudo com clareza, pois nunca ouvimos que a
Verdade vem à tona? Podemos ouvir o som da porrada que acometeu o jovem, no
modo como é interessante que a pessoa, por mais velha e sábia tenha se tornado, saiba manter uma
certa jovialidade, um espírito irreverente, pois o senso de humor é muito
importante, apesar da Vida ser algo tão sério e sisudo. Este jovem precisa de
ajuda para se recobrar, e está tonto, atordoado, e podemos ouvir o som da
ambulância chegando, num ato que precisa ser ágil e rápido, para que a pessoa
possa sobreviver a tal golpe, como vi certa vez um acidente de moto, com duas
moças, sendo que uma delas morreu, e a outra gritou chorando: “Eu vou morrer!”.
Aqui, a sola do sapato é vermelha, como no pequeno córrego de sangue vindo de
corpos num tenebroso acidente da companhia aérea Tam. É a cor do tapete
vermelho, do luxo, da Vida, numa pessoa que é carinhosamente recebida numa
festa de boas vindas, de retorno ao lar, sendo recebida por muitos amigos
outrora desencarnados – nós não vamos para o Céu; nós voltamos para o Céu. O jovem aqui foi desencaixotado, como num
produto sendo aberto, no prazer de uma criança em rasgar o papel de presente,
revelando o regalo, na magia de um brinquedo trazido pelo Papai Noel. Esta obra
de Éder Rootl nos chama a atenção para a fragilidade da Vida, e de como temos
que ser cuidadosos uns com os outros.
Referências bibliográficas:
Éder Roolt. Disponível
em: <www.premiopipa.com/pag/artistas/eder-roolt/>. Acesso em: 8 abr. 2020.
Obras.
Disponível em: <www.ederroolt.com>. Acesso em: 8 abr. 2020.
Sobre.
Disponível em: <www.ederroolt.com>. Acesso em: 8 abr. 2020.





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