quarta-feira, 15 de abril de 2020

O Éter da Arte



Graduado em Engenharia Química, Éder Roolt nasceu em Santo André, SP, em 1977 – pertence à minha geração –, e reside em Mauá, no mesmo estado, tendo já exposto diversas vezes. Pintor autodidata, Éder Roolt em 2010 teve um bom momento, pois venceu o Salão de Artes Plásticas do Mapa Cultural Paulista e foi indicado ao respeitado Prêmio Pipa. Os textos e análises semióticas a seguir são inteiramente meus. Boa leitura!


Acima, Festa Anticonformista. Aqui, temos uma intervenção, uma violação, um vandalismo, com pinceladas furiosas, querendo, avidamente, deixar sua marca no Mundo. A parede branca foi agredida, desvirginada, estuprada, e o vermelho sangue é o sangue que pulsa nas mãos de um artista esfomeado, querendo fazer sua arte, num estômago que nunca está cheio ou acomodado. Palavras emblemáticas são pintadas, como num poeta, querendo se fazer ver em um mundo tão indiferente, tão insensível, num mundo que nunca pergunta à pessoa se esta está de fato feliz, como num casamento pomposo, no qual, talvez, não haja lá muito Amor entre os nubentes, como numa noiva sem brilho nos olhos, sem tesão, sem querer ser extremamente feliz, em casamentos relâmpago, que duram pouco, como fogo de palha. Aqui, é como se tivesse passado Jesus para ser crucificado, deixando seu rastro de sangue nobre, o registro de sua paixão, de seu sofrimento, como canções sertanejas de sofrência, de corações arrasados e agredidos, no modo como, infelizmente, quando uma pessoa se apaixona, esta se ferra. Aqui, uma das letras A serve ao emblema do Anarquismo, no modo como a Arte tem que ter um pouco dessa anarquia, dessa liberdade, sendo horrível para um artista ser censurado e proibido, no modo como deve ter sido dura a Ditadura Militar para os artistas brasileiros, pois o corte de censura é uma castração, uma delimitação, uma grande frustração, como um homem apaixonado, que leva um pé na bunda, com o perdão do termo chulo. Aqui, é um pintor de paredes que se rebelou, pintando as coisas da forma como lhe vier na cabeça, num artista que se cansou de ficar correspondendo a expectativas, no modo como ninguém merece virar um refém daquilo que o Mundo espera desse mesmo indivíduo, pois como posso ser feliz se não tenho o controle de minha própria vida? Aqui, temos em Roolt um cenário agressivo, de transgressão, como num vândalo furioso, cheio de raiva no coração, num vândalo que, definitivamente, não saber enxergar o seu próprio lugar no Mundo, no modo como é amargo o gosto de despertencimento, de uma pessoa que não sabe o que fazer da Vida, uma pessoa jogada nas entranhas de um labirinto, sem Norte, sem alguém para dar um auxílio. Aqui, “a curiosidade é herdada da infância”, como uma criança ávida por informações, querendo saber como são o Céu e o Inferno, na curiosidade científica, num cientista da NASA olhando para os confins do Cosmos, querendo sempre saber, sempre registrar, num Ser Humano que se depara com um Universo tão vasto que chega a ser inútil tentar contar todas as estrelas que existem em tal Cosmos, tal o tamanho do mistério que nos cerca, num Ser Humano ainda tão bebê, tão novo, tão infantil – grandes dias virão. Dando seguimento à frase pintada por Roolt, “a curiosidade é mantida por irresponsáveis que insistem em serem artistas”, ou seja, o artista bom e humilde, que tem talento mas não se envaidece narcisisticamente, sente-se como uma tesoura cega, pois quando me sinto como um afiadíssimo bisturi, é porque estou sendo arrogante, ou seja, estou “saindo da casinha”, e quando alguém sai de tal casinha, o caminho de retorno ao chão é doloroso, como dedos numa tomada elétrica, ou seja, mantenha-se humilde, pois, desse modo, você irá longe. E Tao nunca se envaidece, apesar de ser o centro de tudo. As frases derretem como tinta fresca, como num poeta anônimo, escrevendo seus versos em beiras de praia, na areia, num trabalho fadado ao esquecimento. Nesta obra, vemos a singela e pequena foto de uma criança, que é a porção infantil de Roolt, no modo como ninguém deve deixar totalmente para trás tal candura, numa criança com óculos escuros, que são o resguardo, a proteção, numa pessoa que aprendeu que a Discrição é o que salva o camaleão dos predadores...


Acima, Latas. As latas aqui dialogam, cada uma em uma extremidade, como duas pessoas diferentes, opostas, que encontraram um ponto de diálogo e conciliação, no modo como é difícil para o Ser Humano colocar as diferenças de lado, num mundo constantemente aguerrido, onde há as nobres intenções diplomáticas das pessoas neutras. As latas transbordaram, talvez de alegria, ou como na fúria de um vulcão, nas forças naturais que constituem vicissitudes, como um vírus, por exemplo. As latas transbordam como está quase transbordando a caixa de gordura no prédio onde moro, estando temporariamente impossível mandar limpar, por causa das paralisações de serviços e comércio por causa do infamíssimo Coronavírus. Aqui, o artista mostra os elementos com os quais trabalha, talvez querendo nos receber em seu atelier, nessa bagunça organizada que são os ateliers, numa organização em meio à qual apenar o próprio artista consegue se encontrar, como fazer compras frequentemente em um certo supermercado, onde sabemos encontrar cada mercadoria, num aspecto de familiaridade, de conforto. O azul nobre é da cor do Céu, do misterioso lar metafísico, um lugar onde o trabalho e o estudo continuam sendo necessários, ao contrário desta imagem de Céu ocioso e indolente que muitas pessoas erroneamente têm. A azul é a cor discreta da masculinidade, num Céu de Brigadeiro de pinturas renascentistas, remetendo a uma dimensão onde a Beleza impera sem interrupções, sem cortes impeditivos, no modo como a Beleza flui impetuosa, implacável, numa avalanche de coisas lindas e perfumadas, numa Vênus brotando irrefreavelmente dos mares, revelando-se por completo, na magia da Terra da Estrela da Manhã, o lar onde nada se perde; onde nada escapa pelo esquecimento. Já, o preto é a cor do luto, como em minha bisavó, a qual, ao enviuvar, passou a só vestir roupas pretas, até o fim da vida. É como certa vez fui a um funeral, e eu não estava propriamente de preto, mas em tons de azul e verde, e uma senhora disse à outra: “Tudo bem que não precisa vir todo de preto, mas olha só esse de azul...”. São as diferenças culturais, como na Índia, onde as pessoas vestem roupas coloridas para os funerais. Aqui, o suporte é o virgem branco, num anfitrião pronto para receber as tintas, num ator que se deixa pintar pelo personagem, numa atuação tão impecável que simplesmente esquecemos que é um ator que está naquela tela de Cinema, no modo como a Academia de Hollywood ama atores que se desfiguram para os papéis, no caminho posto da Vaidade, pois, já sabemos, Beleza não põe à mesa, num mundo que exige tanto Yang do indivíduo, tanta ausência de frescura. Aqui, as latas choram suas lágrimas, como se estivessem uma contanto suas mágoas para a outra, como duas comadres, ou como numa sessão de psicoterapia, num momento de intimidade, em que sentimentos são abertos e analisados, na busca pelo bálsamo para a Dor. Aqui, a implacável chuva transborda, talvez em lugares próprios para as ovas do mosquito da Dengue, numa doença endêmica que faz com que a pessoa fique duas semanas inteiras de cama, no modo como o artista quer ser uma doença do Bem, afetando as pessoas, excitando o Corpo Social, como num ator teatral recebendo um teatro cheio de espectadores, no prazer de palmas esfuziantes ao término da encenação, no tesão que é pisar num palco de Teatro. Aqui, apesar de cores diferentes, as latas têm algo em comum, no modo como, apesar de sermos tão diferentes, há em nós algo em comum, que é Tao, na questão do “reconheço o Deus em você”. Nesse transbordamento, temos fartura, num artista sempre ativo, sempre criando, tendo que dar vazão às obras acumuladas em seu atelier, como um sapo fêmea desovando, no poder implacável da Vida. Aqui, as latas choram por razões diferentes, e uma se identifica com a outra, num momento em que me entrego de uma forma que o dinheiro nunca comprará.


Acima, sem título (1). O rosa pink é a Feminilidade, a cor do universo de Barbie. Podemos sentir o perfume tuttifrutti, nos encantos femininos de coisas agradáveis, num momento em que o Yang se entrega, podendo relaxar, esquecendo das competitividades do Mundo lá fora, como Marte adormecendo aos braços de Vênus, num momento de aconchego do lar, como cozinhar uma gostosa jantinha, no conforto de se calçar chinelo ou pantufa, nas simples vestes despretensiosas de dentro de casa, num momento longe das exigências de convívio social, como se arrumar antes de sair de casa. Aqui, temos um vitral, e a peça tem um dinamismo, parecendo um efeito psicodélico, com as formas mudando de cor e de forma, como num balé, num contágio, como na obrigação coletiva de reclusão por causa de um ameaçador vírus mundial – sim, você sabe do que falo. Aqui, é uma colcha de retalhos, num cenário colorido e diversificado, num artesanato que nasceu de uma forma simples, de uma forma a não se jogar fora um pedaço de tecido, do modo como tantas coisas boas nasceram da simplicidade, como a bruschetta italiana, que nasceu como um modo de não se desperdiçar um pão dormido. Aqui, é uma parede de tijolos de vidro, mas tijolos coloridos, iluminando o interior de um templo, na magia das cores, dando uma pequena amostra da alegria e da limpeza da Dimensão Metafísica, o lar de todos nós, absolutamente todos, apesar de haver tantos espíritos vagando pelos corredores infernais do Umbral – são os nossos irmãos, que sofrem, do modo como, quando a pessoa desencarna, ela senta com calma e faz uma lista de todos os psicopatas que conheceu em vida, visitando cada um destes no escuro e árido Umbral, tentando ajudá-los a sair de tal situação degradante. Aqui, são como várias televisões expostas numa vitrine de loja de eletrônicos, e todas estão sintonizadas no mesmo canal, numa sintonia, num ato de harmonia coletiva, como nos movimentos artísticos, e lembro muito bem do que uma professora de Educação Artística me disse: Todos temos que dançar no mesmo ritmo, fazendo de tais movimentos vogues que têm a função de unir as pessoas, como na febre renascentista, quando a Europa se deparou com todo o frescor de uma nova onda de se fazer Arte, e as novidades sempre vêm, sempre brotam, e as coisas são renovadas, na transgressão, por exemplo, do Impressionismo – é a questão do tesão internacional, de se conectar com o Cosmos, num orgasmo coletivo, no poder catártico em depurar e purificar, como dizia Dalí: “Feliz daquele que provoca o escândalo”. Aqui, é como papel desdobrado, que foi dobrado várias vezes, num ato de organização, de ordem, impondo lógica a um Mundo tão caótico, cheio de terremotos, vulcões, poluição e violência, querendo imitar a inabalável Paz metafísica, na mortificação matemática que faz com que a pessoa pare de acreditar em “Papai Noel”, por assim dizer, pois o Mundo não pertence àqueles que têm os pés no chão? Uma das melhores coisas da Vida é ver esta com clareza, não? As ilusões são doenças, e as crises são positivas, pois estas assinalam tal renovação na cabeça da pessoa desiludida. Aqui, é como uma travessa de polenta, com vários quadrados sendo cortados para que sejam grelhados na chapa, na famosa polenta brustolada, que surgiu como uma forma de não se jogar fora a polenta mole que sobrou de ontem. Aqui, é como um tabuleiro, num ambiente técnico, que exige raciocínio e concentração do jogador, num ambiente técnico, absolutamente desprovido de glamour, de feminilidade, num ambiente frio e matemático, em que as batidas contagiantes de um ritmo adquirem tal lógica matemática de repetição, no modo como apolíneo e dionisíaco são faces da mesma esfera, pois o Cosmos é um só, e Tao é um só, ou seja, todos temos inabalável individualidade, pois qual seria a lógica de Tao criar duas pessoas iguais? Aqui, é como dividir um país em estados, em zonas, em regiões, no modo humano de impor Ordem ao Caos, na mensagem positivista da Bandeira Nacional Brasileira, na ironia de que macho e fêmea são uma coisa só.


Acima, sem título (2). Temos aqui curativos, como numa pessoa que passou por uma decepção amorosa, ficando com o coração agredido, na metáfora católica do coração cercado de espinhos, nas dores inevitáveis da Vida, numa pessoa que tem que aprender a conviver com a Dor, num coração vigoroso, com vontade ardente de viver, no modo como Agressividade é isso, é tesão de vencer, fome de vencer, ter vontade de viver. Neste asséptico ambiente hospitalar, na limpeza do branco, temos etiquetas coloridas, talvez querendo trazer um pouco de alegria a um tão sério ambiente hospitalar, como li certa vez que o médico tem que aprender a fazer “bilo” no paciente, ou seja, brincar um pouco com o paciente para que este não veja a internação hospitalar como um cárcere dolorido. As etiquetas vermelhas são o sangue, são as mortes inevitáveis, no modo como um médico tem que aprender a lidar com a Morte. É um espírito que desencarna e acorda em um hospital da cidade metafísica, num momento de transição, de mudança de endereço, num indivíduo que tem que ter a plena consciência que desencarnou e que o corpo físico já não mais lhe pertence, na metáfora do “vão-se os anéis; ficam os dedos”, pois o que é mais importante: O Corpo ou a Mente? A Imagem ou a Alma? Parecer feliz ou ser feliz de fato? A etiqueta rubra é a Fraternidade da Revolução Francesa, no maravilhoso fato de que somos todos irmãos, na insistência heróica do padre na missa, sempre querendo nos lembrar de que somos bebês do mesmo útero, do Imaculado Útero Metafísico, à Virgem Santíssima que nos concebeu de forma pura, mental, limpa. As etiquetas amarelas são a esperança de uma nova aurora, de um raio dourado de luz que entra no caixão e liberta a pessoa, numa terra tão bela, tão abençoada, onde tudo reluz como ouro, mas não é ouro; é melhor do que ouro, pois é metafísico, ou seja, é eterno, e por mais longeva que pode ser uma pedra preciosa, não é eterna, no modo como a Matéria e o Físico, são uma ilusões, pois tudo que é material está fadado à danação, à ruína, a decadência, ao desaparecimento, só permanecendo o pensamento, o metafísico, as ideias, a Razão. É como tomar café da manhã em uma iluminada copa, de frente para o Leste, recebendo os primeiros raios do dia, num dia que promete ser muito produtivo e divertido, no modo como o Reino dos Céus não é um plano ocioso e hedonista, mas um paraíso para quem ama trabalhar e estudar, numa vida produtiva, como num artista com uma carreira atribulada, rica, farta, com várias apolíneas tarefas a realizar no dia, como no prazer do labor de um diplomata, sempre trabalhando em prol da Paz e da Harmonia, ao contrário da feiura da Guerra, a qual traz só Ódio e destruição. Aqui, são dois amigos conversando, pois eles têm algo em comum, apesar de, por outro lado, terem lá suas diferenças, como numa amizade sincera, de décadas, naquele amigo que, se você ficou décadas sem conversar, e vê tal amigo na Rua, parece que a última vez em que você falou com ele foi ontem, tal o poder da intimidade de dois irmãos que se relacionam metafisicamente, numa espécie de telepatia, com duas pessoas íntimas, numa espécie de telefone cósmico, no modo como nunca perdemos o contato com pessoas importantes em nossas vidas, pois o Cosmos é assim, interligado, na sensualidade da continuidade cósmica, numa profundeza vasta, imensa, pois, como dizem os islâmicos, Alá é grande, na universalidade do Pensamento Humano. Aqui, as etiquetas têm esta aderência, esta força tenaz, numa pessoa que encontra tesão na Vida, como num tenista que entra na quadra para vencer, e não só para competir, como numa colega que tive no Ensino Média, uma pessoa que só tirava notas altíssimas, ou como um fisiculturista, que exige o máximo do próprio corpo. Aqui, são dois cadernos, dois registros, como numa pessoa infeliz, que leva vida dupla, como um psicopata, que é um lobo disfarçado de cordeiro, enganado meio Mundo. Aqui, são duas pessoas passando por momentos de dor similares, só que por causas diferentes, nas perfeições das teias tecidas pela Divina Providência, com irmãos fazendo amizade, na eternidade das amizades profundas e sinceras.


Acima, sem título (3). A imagem remete às festas de aniversário da Infância, com o cheiro de látex dos balões, somado com o cheiro das guloseimas dispostas em uma mesa colorida, com uma toalha ilustrada de super heróis, no prazer de receber em casa os coleguinhas do colégio, todos arrumadinhos, sem os usuais uniformes do colégio, numa ocasião especial, de homenagem, num cesto cheio de presentes, num dia em que a criança aniversariante se sente a pessoa mais importante do Mundo. Aqui, são como jujubas coloridas, doces, no encanto das guloseimas coloridas, despertando o gostoso pecadinho da Gula, no modo como as crianças adoram comer porcarias, muito distantes de um adulto que se cuida para comer saudavelmente, pois a Infância é simples, fazendo metáfora com a Infância Metafísica, no berço primordial, com espíritos ainda aprendendo as lições mais elementares, como Amor e Caridade, ou como primar pela Verdade, como super heróis, que tomam conta do Mundo, protegendo este dos perniciosos vilões mentirosos e traidores, no modo como, desde cedo, a criança precisa aprender tais discernimentos. Aqui, são como aqueles vendedores de balões na Rua, fazendo balões em forma de espada, ou de cachorro, enchendo os olhos das crianças, as quais imploram aos pais que comprem o artesanato de vida curta, num pai que, apesar de ter o impulso de dar tudo ao filho, tem que acostumar este com a ideia de que, na Vida, nunca se pode ter tudo, ou seja, ninguém consegue fazer tudo o que quer fazer, num exercício de paciência. Aqui, é como um palhaço, remetendo-me ao genial Jô Soares, o qual, ao ver pessoas na plateia com nariz de palhaço, disse que estas estavam fantasiadas de brasileiros! Podemos ouvir aqui o potente e agressivo som de balão estourando, num momento de ruptura, de choque, num momento em que a realidade revela a si mesma de uma forma forte e contundente, como uma pessoa que, de um momento para o outro, enfrenta um episódio de internação hospitalar, no termo da Psicologia: “Colocar o dedo na tomada”. Mas, por mais amargo que possa ser o remédio, como este faz bem! Podemos ouvir aqui o som de atrito entre os balões, num atrito difícil, truncado, onde as coisas não fluem muito bem, como no Umbral, um lugar infernal que abriga aqueles que não aceitam a morte do corpo físico, no caminho da loucura, pois o que podemos dizer de um prisioneiro que não quer sair da prisão, mesmo tendo chegado a sua data de soltura? Aqui, são como vísceras reveladas, talvez numa aula de Anatomia, na memória que tenho ao visitar os cadáveres em formol na Unisinos, num passeio do colégio, um ambiente terrível para quem tem sensibilidade, na memória horrenda de eu ver um braço de uma mulher, com as unhas pintadas de vermelho... Falando em vermelho, vemos balões dessa cor, na cor da Vida, do vigor, da vontade de viver, seduzindo os vampiros, os quais, ao invés de sangue, sugam almas, buscando escravos masoquistas, como certa vez um psicopata tentou controlar minha vida! Sai pra lá, vampiro! Aqui, temos uma luz dura, forte, que invade frontalmente o quadro, num flash fotográfico, na tentativa humana em eternizar momentos, no modo como, no Plano Metafísico, nada se perde, e os desperdícios não existem. Aqui, é como um intestino revelado, nas imagens sobre os ferimentos de faca num presidente da República. São intestinos em trabalho, em labor, digerindo e processando alimentos, ou intestinos cheios de cápsulas de drogas, transportadas por “mulas”, pessoas aliciadas pelo Tráfico para traficar internacionalmente, num ato de desespero, numa pessoa atraída pelo dinheiro fácil, na eterna sedução que as riquezas mundanas exercem sobre o Ser Humano, sendo que tudo no Físico gira em torno do Metafísico, na hierarquia entre as dimensões, fazendo com que as dinastias mundanas façam metáfora com o modo como, no Metafísico, somos todos sangue azul, pois temos um Pai em comum. Somos a Suprema Realeza.


Acima, sem título (4). Aqui, temos um quadro de vergonha, de pudor, numa pessoa que quer se esconder, num constrangimento, com algo que quer ser ocultado, como num aspecto de feiura, querendo ser escondido, como numa pessoa reservada, que não quer que sua vida íntima sofra exposições públicas, como numa reservada Meryl Streep, reclusa em Connecticut, longe dos auspiciosos holofotes que assediam as celebridades, como num Woody Allen, que despreza as celebridades. Aqui, é como se a caixa tivesse caído em cima de um jovem de tênis e calça jeans, nocauteando o jovem, naquelas surpresas que a Vida nos reserva, como me disse certa vez uma senhora: “A Vida nos apronta cada uma...”. Na caixa, está escrito Cuidado – Frágil, na fragilidade do Ser Humano, com vidas dentro de um carro, sendo ceifadas em um acidente, como dizia certa vez a vinheta de um programa de Rádio: “Acidentes acontecem”. É a fragilidade dos sentimentos, com tantas pessoas empedernidas, que construíram em torno de si mesmas muros e cercas de arame farpado, com muito medo de sofrer com paixões, como uma velha amiga minha, que se subtraiu de meu Facebook só por causa de uma bobagem sobre Política. Aqui, frágil não é o interior da caixa; frágil é o rapaz esmagado, reprimido, talvez numa pessoa que vinha caminhando na Rua, distraidamente, contemplando flores em árvores e, de repente, sua Vida mudou radicalmente, e de uma forma repentina teve que encarar uma nova verdade, nas surpresas que as esquinas da Vida nos reservam, pois pobre daquele que acha que já aprendeu tudo, tendo o indivíduo que construir tal humildade, sempre aceitando uma nova missão, um novo desafio, num espírito olímpico, vencendo percalços elegantemente, na vitória do Pensamento Humano, da sofisticação intelectual, do brilho inteligente. O rapaz está encaixotado, talvez perdido numa zona de carga de um aeroporto, talvez numa pessoa querendo fugir, querendo se refugiar em um outro mundo, como uma pessoa que quer fugir da seriedade da Vida, embarcar num tapete mágico e passear por um mundo colorido, nas cores cinzentas da Realidade, num mundo que exige tanto juízo e tanto realismo da parte do indivíduo. É como a doce moça do telegrama musical sendo assassinada em Os Sete Suspeitos. O rapaz aqui está abalado, inconsciente, tentando se recobrar do choque, mal sabendo o que aconteceu, num acidente tão contundente e repentino. Talvez ele esteja morto, com o espírito se descolando do corpo, tendo uma experiência extracorporal, com a alma que “boia” para fora do corpo, assistindo a tudo de cima, como num camarote, numa pessoa que não está entendendo direito o que está acontecendo, no modo como só a passagem do Tempo pode mostrar tudo com clareza, pois nunca ouvimos que a Verdade vem à tona? Podemos ouvir o som da porrada que acometeu o jovem, no modo como é interessante que a pessoa, por mais velha  e sábia tenha se tornado, saiba manter uma certa jovialidade, um espírito irreverente, pois o senso de humor é muito importante, apesar da Vida ser algo tão sério e sisudo. Este jovem precisa de ajuda para se recobrar, e está tonto, atordoado, e podemos ouvir o som da ambulância chegando, num ato que precisa ser ágil e rápido, para que a pessoa possa sobreviver a tal golpe, como vi certa vez um acidente de moto, com duas moças, sendo que uma delas morreu, e a outra gritou chorando: “Eu vou morrer!”. Aqui, a sola do sapato é vermelha, como no pequeno córrego de sangue vindo de corpos num tenebroso acidente da companhia aérea Tam. É a cor do tapete vermelho, do luxo, da Vida, numa pessoa que é carinhosamente recebida numa festa de boas vindas, de retorno ao lar, sendo recebida por muitos amigos outrora desencarnados – nós não vamos para o Céu; nós voltamos para o Céu. O jovem aqui foi desencaixotado, como num produto sendo aberto, no prazer de uma criança em rasgar o papel de presente, revelando o regalo, na magia de um brinquedo trazido pelo Papai Noel. Esta obra de Éder Rootl nos chama a atenção para a fragilidade da Vida, e de como temos que ser cuidadosos uns com os outros.

Referências bibliográficas:

Éder Roolt. Disponível em: <www.premiopipa.com/pag/artistas/eder-roolt/>. Acesso em: 8 abr. 2020.
Obras. Disponível em: <www.ederroolt.com>. Acesso em: 8 abr. 2020.
Sobre. Disponível em: <www.ederroolt.com>. Acesso em: 8 abr. 2020.

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