quarta-feira, 29 de abril de 2020

Calejado pela Arte (Parte 2)



Volto a falar sobre o artista plástico paulista Guilherme Callegari. O seu site, repito, é rico, com imagens em excelente resolução. Os textos e análises semióticas a seguir são inteiramente meus. Boa leitura!


Acima, Eye. Temos aqui um clichê, uma repetição, um carimbo, como num passaporte rodado, cheio de registros de viagens, num espírito que já passou por várias experiências, várias encarnações, várias etapas e várias vicissitudes. É como no divertido termo “penteadeira de puta”, com o perdão do termo, para classificar a Linha do Tempo no Facebook, como num artista, com décadas de carreira, assumindo vários papéis, vários alteregos, numa estrada, numa trajetória, como numa mala, com vários carimbos, adesivos, selos, narrando por onde o viajante já passou, no modo como, ao Desencarne, a pessoa se depara com um “filme” de sua própria vida, mostrando as partes mais importantes, nas quais a pessoa mais aprendeu, no modo como um artista tem que ter muita, muita força para virar as páginas e continuar tocando a Vida, a lida, luta, pois quem “se atira nas cordas”, desaparece... Aqui, temos uma folha de papel cheia de quadriculações e linhas de referência, na forma racional do Design, impondo Ordem e Harmonia a uma obra, manifestando uma prova do intelecto humano, fazendo do Pensamento o centro de tudo, rechaçando os tolos sinais auspiciosos do Mundo Material. Em inglês, eye quer dizer olho, e aqui temos dois olhos, como os olhos do antigo egípcio, na maquiagem que traçava uma linha explícita ao lado de cada olho, dando ao olho um aspecto de peixe, na liberdade da expressão artística, num artista que tem que ser livre imaginar suas coisas, na miséria que é a vida de um artista a serviço de um estado totalitário e opressor. Aqui, o termo eye tem um aspecto de arroba, no modo como minha geração ainda testemunhou a transição do Analógico para o Digital, ao contrário da geração de meu sobrinho, que nasceu em 2003, numa geração totalmente digital, para a qual nada significa um telefone de gancho, com o disco para discar, no modo como as tecnologias vêm para libertar e simplificar, fazendo da Preguiça, um pecado capital, a Mãe de todas as grandes invenções da Humanidade, como o Elevador, na preguiça de tomar as escadas; como a Roda, na preguiça de carregar algo; como o Telefone, na preguiça de sair de minha casa para falar com outra pessoa etc. Aqui, temos uma mão vigorosa, e essas arrobas se destacam, predominando no quadro, como num filme, com atores protagonistas e atores coadjuvantes, na hierarquia do Showbusiness, onde há atores estelares e atores sodidos, no modo como corre solta uma indigesta bajulação em tal meio, pois o Ser Humano, infelizmente, coloca o Ego no centro de tudo, aceitando bajulações, num Mundo meio nojento, o qual jamais mudará... Aqui, a raiz de tal contraste cromático nasce do preto das arrobas com o amarelado no fundo, como em linhas sinalizadoras dentro de garagens, com a função de alertar e chamar a atenção, fazendo do Carinho, da Cautela, uma virtude que sempre precisa ser praticada, pois a falta de Amor traz só degradação e destruição, como num cenário de Guerra, com irmão derramando o sangue de irmão, na ancestral e imutável crueldade humana, num Mundo com meios sórdidos para a obtenção de poder, sempre poder, como num poderoso e infeliz homem, apegado ao mundano ao ponto de querer se suicidar para não ser destituído de tal poder, numa ilusão, pois, no Umbral, o Vale dos Suicidas segue cheio de espírito infelizes, arrastando-se por escuras poças de lama, na metáfora de Matrix: “O que um homem poderoso quer? Mais poder”. Então, essa sede anestesia a pessoa das coisas que importam mais, como viver a Vida com simplicidade. Aqui, temos uma sinalização, um aviso, como num anúncio publicitário bem produzido, bem conduzido, cumprindo a intenção de interpelar o consumidor, como os nerds de The Big Bang Theory, os quais, apesar de inteligentíssimos, são vítimas dos marqueteiros de produtos com temáticas de super heróis, como uma jarra de biscoitos do Batman ou uma espada que imita o sabre de luz de Star Wars.


Acima, Hoosier. Aqui, temos uma predominância do dourado, como num belo amanhecer, quando parece que o Mundo é feito de ouro, como nos tesouros da tumba do rei Tut, numa majestosa máscara mortuária de ouro, no modo como as tradições dão a impressão de que o Tempo não passa, na tentativa humana de apreender e imitar a imutabilidade da Dimensão Metafísica, o plano onde o Tempo não existe, como na cerimônia de coroação de Elizabeth II, dando-nos a impressão de que estamos, de fato, em tal plano atemporal, conquistando a confiança de um povo, o qual se sente bem sendo governado por tal cetro atemporal, no inevitável modo como tudo na Terra gira em torno da dimensão acima, numa hierarquia interdimensional. Aqui, temos uma sobreposição de logomarcas que remetem a marcas de carro ou a postos de gasolina, algo recorrente na obra de Callegari, talvez num artista aficionado pelo Mundo Automobilístico, na trágica morte de Senna, o brasileiro que trazia para o Brasil este gostinho dourado metafísico, numa vitória fazendo metáfora com a Vitória Metafísica, quando a espírito desencarnado goza de plena liberdade dourada. Callegari gosta de usar letras e números, num jogo vibrante e complexo, quase confuso, e rico, com vários carimbos sobrepostos, como numa harmonia rítmica complexa, africana, aquosa e, ainda assim, de frieza matemática, revelando a majestade do Pensamento Racional, na exatidão rítmica, com repetições que se estendem com perfeição. Aqui, escudos podem ser vistos, e os escudos são a defesa, o impenetrável, num guerreiro todo blindado no campo de batalha, rechaçando as flechas inimigas, como numa vacina que dá imunidade, ou como num site seguro, livre de vírus ardilosos. É a armadura de uma pessoa que sabe da importância de dizer NÃO, numa pessoa que decidiu assumir as rédeas de sua própria vida, não mais se sujeitando a andar de “cadeira de rodas”, como num homem que está farto de ser menino, no modo como os filhos não são criados para os respectivos pais; são criados para o Mundo. Aqui, vemos a conchinha da logomarca da Shell, fazendo alusão aos recursos fósseis, como na riqueza do petróleo brasileiro, no modo como os barões do petróleo estão temerosos com a quarentena do Coronavírus, com cada vez menos carros transitando pelas ruas, pois “castelos” podem ruir, como numa poderosa agência publicitária portoalegrense, uma instituição que entrou em colapso, ou como o ator americano Charlie Sheen, o qual, antes o ator mais bem pago da TV americana, perdeu tudo, e hoje está no fundo do poço, num momento em que a pessoa tem que empreender um esforço ENORME para se reerguer. Aqui, Callegari se diverte com todos esses carimbos, esses clichês, num artista que encontrou prazer no que faz, trazendo-nos uma produtividade notável, num site tão vibrante. Esta concha da Shell é a concha da Vênus de Botticelli, saindo das entranhas misteriosas dos oceanos, trazendo o cheiro de peixe fresquinho, como num bom restaurante de sushi, ao contrário de certos estabelecimentos, que me serviram peixe não tão fresquinho, o que me deu cólica... É como a bela atriz Uma Thurman, interpretando tal Vênus em um filme, numa deusa séria, triste e maravilhosa, na magia das estrelas matutina e vespertina, estimulando a imaginação humana, numa Humanidade que, desde cedo, viu-se obrigada a explicar o Mundo ao seu redor, seja por Mito, seja por Ciência. Aqui, é como um mural de recados que já foi usado por muita gente, numa mensagem complexa, talvez numa competitividade, numa pessoa querendo ser mais marcante do que a outra, na inevitável competitividade, que já começa cedo, na escola. Aqui, temos um quadro quente, como na etérea luz solar da Argentina, um país que tem tal charme cromático, seduzindo o Mundo com o charme de Evita, a pessoa argentina mais famosa da História, superando até o próprio marido, em um mundo patriarcal, onde elas estão sempre abaixo deles. Aqui, são como anúncios publicitários concorrendo entre si, como numa Times Square, nos apelos que buscam distinção e diferenciação, no termo formidável “por um lugar ao Sol”.


Acima, IMG-7492. Temos aqui um pouco de Basquiat, com traços cândidos de Infância, numa simplicidade, num aconchego rústico, no modo como não devemos querer obter perfeição – as perfeições são ilusões. Vemos aqui três formas negras que parecem ser olhos fechados, numa criatura mística, com três olhos, um acima do outro. É um sono, um repouso, num momento que entorpece, que droga, talvez numa pessoa anestesiada, que se cerca de puxassacos, pois estes anestesiam as percepções da pessoa bajulada. Aqui, é como uma zebra mística, com seu pelo que tem a função de camuflar, preservando-se dos predadores, na irrefutável teoria da Seleção Natural – os mais espertos e mais discretos salvam-se; preservam-se. É um grande desafio – ser famoso e, ainda assim, retirado, como na atitude de vida de uma Meryl Streep, uma pessoa que, apesar da glória profissional e da fama, leva uma vida simples, pois a Vida só é boa quando é simples, como um amigo que tenho, que fica alguns dias da semana retirado em seu sítio, no prazer de estar em casa, num lugar onde as pretensões do Mundo ficam lá, longe, do lado de fora. Callegari gosta de usar numerais e letras em seus trabalhos, numa transmissão de informações, como no confuso mundo do filme Blade Runner, com uma proposta sobrecarregada de anúncios publicitários, numa concorrência atroz, no modo como foi feita, há tempos, uma limpeza visual na Avenida Paulista, proibindo anúncios de qualquer natureza, cortando um pouco aquele tesão das grandes campanhas, de suntuosos anúncios que desafiam o espectador, interpelando o consumidor da forma mais grandiosa possível. Hoje, tal avenida é impessoal, árida, sem aquela grandiosidade que esperamos na maior cidade da América Latina – como é bom passear por Sampa! Aqui, o fundo é branco, vago, vazio, no modo como Streep – ó ela de novo! – disse que ser um bom ator é ser uma página em branco, na qual o personagem deve escrever, na tarefa do ator, que é desaparecer perante o personagem, fazendo com que esqueçamos que é um ator que está li na tela ou no palco. Por todo o quadro, vemos vários círculos negros vazios, como numa massa de pastel arregaçada na mesa, cortada por um mesmo prato ou copo, fazendo as massas individuais de pastel, na delícia que são programas televisivos de culinária, num trabalho interessante, podendo ser desempenhado até por pessoas esnobes como a personagem Dona Florinda, a personagem mexicana que odeia pobres. Aqui, é como uma tela de TV, e os anúncios vão passando, concorrendo para permanecer na lembrança do consumidor, no termo recall, ou seja, lembrança, no modo como as poderosas campanhas publicitárias são raras, campanhas que causam comoções federais, como na associação de Guaraná Antártica com pipoca salgada, fazendo com que as mensagens mais simples sejam as mais poderosas, no desafio de se diferenciar simplicidade de pobreza, numa linha tênue, a qual é frequentemente perdida, como num jornal, um espaço visualmente saturado – onde não é texto, há imagens –, pois quanto mais limpo é o anúncio, melhor. E então vem a questão da limpeza, do banho bem tomado, de dentes bem escovados, de Saúde, no modo como a Dimensão Metafísica é mais do que limpa – é higiênica. E aí vem a questão de Tao, o limpo, como numa mulher limpa e perfumada, ou como num homem sem frescuras, sem afetações, simples. Os círculos são como bolhas de espumante, na gloriosa sensação cremosa que o espumante causa na boca do consumidor, preparando o estômago para a refeição. Callegari gosta de carregar com rabiscos, com ensaios, numa criança na Escola, que está aprendendo as lições básicas de Vida, na magia do primeiro dia de aula do ano letivo, no reencontro com os amigos e no desafio de novas lições a ser aprendidas, no modo como a pessoa encarnada tem que encontrar esse tesão, essa vontade de viver. Aqui é uma festa, na questão da diversidade, a qual deve ser respeitada, pois Tao nunca faz dois filhos iguais, dotando-nos de singularidade.


Acima, IMG-7820. Callegari tem uma paixão por logomarcas, e vemos novamente aqui a Shell e a Volkswagen, no poder e no dinheiro do Oriente Médio, no teor econômico e petroleiro que foi a Guerra do Golfo, nuns EUA xerifões, que se sentem responsáveis pela Paz no Mundo, no auge de grandes impérios, como no Egito, que no passado foi uma potência e hoje é apenas um sítio arqueológico, pois o Tempo passa, as pessoas morrem e as culturas se perdem. Parece eu temos aqui uma prancha de desenho, de exercício gráfico, num desenhista fazendo vários ensaios, tentativas e brincadeiras, almejando a excelência, o aprimoramento, no sentido de que o Sentido da Vida é o aprimoramento moral, numa pessoa que reconhece que, em encarnações anteriores, perdeu tempo enganando e passando os outros para trás, na eterna nova chance, no novo recomeço que é uma nova reencarnação, na questão do eterno perdão, num Pai absolutamente paciente, que sabe que novas oportunidades devem ser dadas. Callegari usa letterings simples, sem serifa, ou seja, usa a fonte Arial, que é simples e elegante, num artista sem afetações pernósticas, querendo se expressar da forma mais clara e simples possível, pois Simplicidade quer dizer Limpeza, e não é o Umbral um lugar feio, escuro, fedorento e imundo? É como uma pessoa jogada numa poça de lama, aguardando que um anjo venha e a salve, num momento em que o espírito, no Umbral, tem que reconhecer amplamente que precisa de uma ajuda, pois todos precisamos de ajuda na Vida, como as pessoas, os queridos amigos de Facebook que permitem que eu divulgue meu blog em seus murais na rede social – o que seria de mim sem tais ajudas? É como um colunista jornalístico, que recentemente me ajudou, divulgando meu trabalho. Aqui, temos bastante movimento, como uma escola de Samba passando vibrantemente por uma avenida, no modo como o Carnaval Brasileiro é o maior espetáculo da Terra. Vemos aqui letras maciças e letras vazadas, no sensual jogo entre vazio e preenchimento, nos movimentos cósmicos que unem os opostos, como rei e rainha, em torno do mesmo propósito, que é a Vida, a Evolução, o Aprimoramento, pois qual seria o sentido da Vida se não o Crescimento? De que serviria uma vida inútil, sem lições? Que professor seria esse, que não exige dos aluninhos? Em um primeiro plano aqui, vemos letras grandes em tons de rosa, como na cor do universo perfeito de Barbie, a boneca mais famosa do Mundo. É um universo perfeito, perfumado, numa trégua, numa Paz, numa pessoa que pode se deitar e dormir profundamente, no prazer de se despir e deitar-se em meio a lençóis suavemente perfumados, na sensação de lar, de segurança, de útero, de invólucro, sentindo-se seguro, como em um condomínio de alta segurança, muito, muito longe de criminosos ou de pessoas malintencionadas. Aqui, a concha está de cabeça para baixo, no ato engraçado que é observar um céu estrelado, só que de cabeça para baixo, na imensidão cósmica na qual não sabemos o que é acima, o que é abaixo; o que é norte, ou que é sul; o que é ontem, o que é hoje. É um útero infinito, pois, se é finito, não é Tao, o nobre presente de aniversário; um presente que dura para sempre, como o dom da Melodia, por exemplo. De dentro de tal concha, vem a pérola barroca, imperfeita, rústica, acolhedora, no empenho que um psicopata tem em ter uma aparência acima de qualquer suspeita; um psicopata que quer que acreditemos que este é perfeito, numa cilada, tal qual teia de aranha capturando moscas desavisadas. O fundo dourado, aqui, sofre então várias interferências, mas segue predominante, num quadro que, apesar de tantos elementos complexos e confusos, segue firme no sustento de tal obra, como num incansável Atlas, sustentando o Mundo, ou num pai herói, que sempre proporcionou tudo de bom e de melhor para os próprios filhos. Aqui, é como um átomo sendo cortado e analisado, numa explosão de frenesi científico, nas grandes mentes empenhadas em desvendar o Universo. Aqui, são como várias camadas, como nas páginas plásticas da famosa Enciclopédia Barsa, com folhas delgadas mostrando cada camada do Corpo Humano.


Acima, IMG-9907. Temos aqui uma camiseta dependurada, como num varal, mas com manchas, talvez num sabão que frustrou a promessa de remover tais máculas, no modo como as experiências de Vida vão se acumulando, até chegar a um ponto em que a pessoa fica mortificada, desprovida de ilusões e idealizações, no caminho do Pensamento Racional, numa pessoa que tem que parar de “acreditar em Papai Noel”, deixando de perseguir totalmente sinais auspiciosos, como áreas vips de boates. Esta camiseta conta uma história, uma proveniência, como num vinho que vem do Vale dos Vinhedos, por exemplo. Aqui, é como a roupa de um soldado abatido no campo de batalha, na insanidade bélica de príncipe matar príncipe. Aqui, temos um campo de batalha, e os escudos automobilísticos se enfileiram como escudos na batalha, vedando, bloqueando a passagem do time opositor. É como os soldados bradando, batendo as espadas contra os escudos, numa forma de amedrontar o campo inimigo, como num certo estádio, cujo vestiário para times visitantes era pintado de cor de rosa, a cor da Feminilidade, com o intuito que fazer com que os opositores se sentissem acuados pela virilidade do oponente, mas é uma moeda de duas faces, pois tudo tem duas leituras, sendo uma a contradição da outra: na contramão, o tal vestiário pode ser interpretado como a feminilidade do time anfitrião, ou seja, num tiro que sai pela culatra... Aqui, são como vários guardachuvas amontoados em uma São Paulo de garoa, numa certa característica, numa identidade local para o Mundo, como nos tradicionais anúncios da vodca Absolut, sendo que, em um destes, São Paulo era mostrada como tal terra de umidade. Por todo o quadro há respingos, como numa tábua de testes de algum atelier, em experimentações, exercícios, num artista examinando possibilidades, como na força de vontade do próprio Callegari, o qual se empenhou em fazer um site exemplar, dando-se ao trabalho de fotografar inúmeras obras, no termo “batalhar”, numa pessoa que tem que se dar conta de que não existe autossuficiência, e de que todo mundo precisa de uma ajudinha, quebrando o mito egoísta do “eu sou o máximo, logo, de ninguém preciso”. Aqui, são como escamas de peixe, de réptil, numa armadura, numa blindagem, como no busto blindado de Mulher Maravilha, combinando beleza feminina com dureza áspera masculina, como na flor metálica em Buenos Aires, homenageando os mortos no conflito das Malvinas, talvez numa menção à Dama de Ferro, Thatcher, combinando um visual chique e feminino com um punho de ferro patriarcal, no modo como cada um de nós tem, dentro de si, um lado masculino e outro feminino, e cada um tem que partir em busca, dentro de si, de tal equilíbrio, sem projetar em outrem o seu Yin ou o seu Yang. Esta camiseta maculada é como um pano usado para secar pincéis no atelier, e aqui temos uma ironia de metalinguagem – atelier falando de atelier, ou seja, numa metáfora, como no termo “A Aurora do Homem” em 2001, num plano fazendo metáfora com a aurora de um dia pré histórico. As obras de Callegari têm esses rabiscos, essas imperfeições, talvez numa pessoa sábia, que sabe que, no Plano Físico, as perfeições são impossíveis e inacessíveis, fazendo do Plano Metafísico o lar imaculado onde a Saúde reina plena, num plano em que os que amam trabalhar e estudar se sentem num paraíso total e absoluto. Estes múltiplos escudos não são todos iguais, e cada um tem uma identidade cromática, como filhos que vieram da mesma barriga e que foram criados debaixo do mesmo teto, sob os mesmos valores – cada um sai a seu modo em particular. Aqui, os sisudos escudos bélicos têm uma alegria carnavalesca, num salão colorido, com finos cristais emanando o seu fascínio multicolorido, como límpidas estrelas no Céu noturno, no modo humano de construir panteões, fazendo metáfora com os espíritos evoluídos, que habitam uma esfera superior, para o qual todos voltamos, cedo ou tarde, ou seja, uma vez cumprida a missão, hora de voltar para casa.


Acima, Por Junto Aproximar-se. Aqui, temos algo mondriânico, com blocos assimétricos, desafiando os padrões clássicos de Simetria. Temos uma espécie de desordem organizada. Os quadros foram aqui reunidos, associados, na básica tarefa do artista plástico em geral, que é combinar elementos dissociados e, associando-os, criar coisas novas. Aqui, é algo lúdico, com movimentos, parecendo que os quadros estão constantemente se reorganizando, como placas tectônicas, acomodando-se sempre, trazendo todos os transtornos do Plano Material, num Ser Humano sempre subjugado aos caprichos da Natureza, na promessa de que, na Dimensão Metafísica, tais vicissitudes se perdem por completo, num plano em que a Ordem reina absoluta. Aqui, é um jogo irônico, como numa pessoa que, querendo alcançar a perfeição, está o tempo todo reajustando tais placas, e sempre há um defeitinho aqui ou ali, como na Vida, quando, ao finalizarmos uma tarefa organizacional, uma nova desordem se desdobra ante nossos olhos, no grande piadista que é Tao, como num arquiteto fazendo uma diagramação de espaço – sempre haverá um defeitinho, como uma manchinha preta sobre um majestoso Sol, ou seja, quando alguma dor acaba em meu corpo, outra dor aparece, na constante tarefa de se organizar um lar, pois sempre há algo a ser feito, como numa pessoa que, diariamente, cuida de alguma coisinha diariamente, dentro de casa. Aqui, é como se as placas estivessem querendo se libertar, cada uma migrando para um lado diferente, como numa família, na qual, depois de tirada a fotinho, cada um vai par ao seu lado, só havendo uma harmonia de família, de fato, no Metafísico, pois os vínculos de família são importantes ao ponto de serem mais fortes do que o Desencarne, a inevitável morte do Corpo Físico. Neste jogo de quadrados e retângulos, temos algumas linhas diagonais, como ouvi certa vez: a Cultura de Massa vai pela horizontal; a Erudita vai pela vertical; a Popular vai pela diagonal, como na paixão de Ariano Suassuna pela Cultura Popular Brasileira, num plano em que tal cultura vem do Povo e a este pertence, no modo como os caxienses são os verdadeiros donos da Festa da Uva, nunca sendo esta pertencente a alguma agência publicitária... Aqui, temos pitadas de verde água, no fascínio que as entranhas oceânicas exercem, como nos mitos de séculos atrás, quando acreditávamos que a Terra era plana e que, nas bordas de fim de Mundo, havia monstros que devoravam embarcações, no modo como a Ciência veio para rechaçar tais mitos, mas numa Ciência que ainda não conseguiu apreender a Fé em uma dimensão melhor do que a dimensão da Terra. Vemos aqui uns toques de rosa pink, num perfume de frutas vermelhas, no fascínio que as fragrâncias exercem sobre as pessoas, como num colega que tive no colégio, um colega que há anos se suicidou – não sei se ele ainda está no Umbral, no Vale dos Suicidas, mas ele compartilha comigo o gosto por perfumes, pois este colega adorava chegar perfumadíssimo nos lugares, fazendo metáfora com o perfume comportamental dos espíritos moralmente evoluídos, sendo que os perfumes têm a ver com a essência limpa de Tao, o essencial. Temos aqui também alguns traços negros, como carvão em churrasqueiras, na magia de domingos com o meu pai assando churrasco, na memória que tenho de minha mãe adorar a carne com cebola, assando o vegetal junto com a carne na brasa. O preto aqui são as sujeirinhas inevitáveis, no prazer de se tomar um banho depois de um dia de transpiração, nos irresistíveis rituais de purificação e renovação em torno de água saindo pelos buraquinhos de um chuveiro. Em dos cantos desta obra de Callegari, vemos bolinhas azuis amontoadas, como bolinhas de uvas, só que dissociadas do cacho e organizadas, no modo humano de impor Ordem ao Caos, como numa dona de casa zelosa, deixando a casa na mais completa ordem, zelando por uma família, no fato de que ser apenas uma dona de casa não vai te dizer quem tu és... Ou seja, seja mais do que só o cuidador de um lar. Livre-se as amarras e ouse colocar ao Mundo tua própria inteligência, sempre sabendo que ninguém faz tudinho sozinho.

Referências bibliográficas:

Guilherme Callegari. Disponível em: <www.guilhermecallegari.com>. Acesso em: 15 abr. 2020.

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