O artista plástico Vik Muniz
nasceu Vicente José de Oliveira Muniz, paulistano de 1961, e encontra-se
radicado nos EUA. Chegou a estudar Publicidade e Propaganda. Vik Muniz é
conhecido por usar materiais como lixo, restos de demolição e alimentos, sendo
também dedicado a ações de Caridade. Há um catatau de informações sobre Muniz
no site do novaiorquino MoMA. Há anos eu estava no MASP, e vi uma obra de
Muniz, numa Elizabeth Taylor formada por pequenos diamantes, numa tripla metalinguagem
– brilho da pedra falando de brilho de Liz, falando de brilho de Muniz. Os
textos e análises semióticas a seguir são inteiramente meus. Boa leitura!
Acima, Barack Obama. Como você pode ver, esta obra de Muniz ganhou a capa
da revista Time, numa metalinguagem – grande homem falando de grande homem. O
célebre líder olha para fundo no horizonte, como uma pessoa que sabe enxergar
além de pequenices e ninharias, num dos maiores presidentes da História dos
EUA, num carisma arrebatador, mostrando a evolução de uma nação que antes foi
escravocrata. As obras de Muniz nos convidam a olhar bem de perto, para vermos
cada “célula” de seus quadros, para, depois, vermos no conjunto, na totalidade,
num impressionante trabalho de minuciosidade e paciência, como me disse certa
vez uma grande artista: É necessária paciência para se construir um personagem.
Aqui, temos um homem que nada tem a esconder, como num fálico obelisco, numa
total revelação. Um homem simples, que consegue mandar sem ser um mala pedante,
no termo em Inglês: “Gets cocky without being a dick”, ou seja, um homem que
tem o discernimento, ciente da elevação do cargo que ocupa, num homem
imponente, o qual, ao dar uma entrevista coletiva na Casa Branca e ser
interrompido por um jornalista, Obama disse a este: “Você está na MINHA casa”,
sendo o presidente, naquele momento, aplaudido por todos no salão – carisma.
Aqui, Obama está preparado para mais um dia de trabalho, devidamente barbeado e
engravatado, com alguém com pulso firme, mandando, sem dó nem piedade, executar
oficialmente Osama Bin Laden, provocando uma onda de celebração por todos os
EUA. É como uma funcionária numa máquina de raio x em um aeroporto, barrando
produtos como facas ou garfos – gentil, porém firme. Imaginamos quantas horas,
dias ou semanas Muniz levou para constituir esta obra. Aqui, ao redor do líder,
vemos um céu azul e aberto, iluminando toda a extensão de um vasto país, numa
difícil missão de reger um país tão grande e heterogêneo, formando por vários
pequenos países, como no Brasil, com abismais diferenças entre a Bahia e o Rio
Grande do Sul, por exemplo. Aqui, sua camisa está impecavelmente branca, como
se tivesse sido lavada e passada pela devota primeira dama. Podemos sentir o
odor de loção pós barba, num cavalheiro, que se apruma, preparando-se para o
momento de interação social. Podemos ouvir o brado das multidões aclamando o
presidente, num fenômeno de popularidade, como numa Elizabeth II, dando a volta
por cima da morte de uma figura tão avassaladora como Di. Aqui, temos uma capa
de um veículo de comunicação de massa, como muitos e muitos exemplares sendo
impressos e distribuídos ao redor do país americano, no modo como é um raro
privilégio ser uma pessoa digna de tal honraria, no modo como as grandes
pessoas são minorias, pois não há livro ou faculdade que ensine a ser grande...
Aqui, temos ainda um Obama jovial, sem muitos cabelos brancos, no modo como, ao
decorrer do estresse de vários anos de governo, Obama começou a adquirir seus
grisalhos, num homem que, apesar de não mais ser um gurizão, é ainda jovem. A
boca de Obama aqui está ligeiramente aberta, receptiva, num homem discreto, que
até fez uma formidável aparição no famoso televisivo cômico americano Saturday Night Live. Realmente, é uma
evolução uma família negra morando na Casa Branca. Os poderosos EUA seguem
paradigmáticos, servindo de exemplo ao Mundo. Temos um Vik Muniz completamente
adaptado com seu país adotivo, num artista que conquistou respeito, num grande
brasileiro. Os ouvidos do líder estão atentos às demandas do país, num
presidente que teria enfrentado com muita força a Covid-19.
Acima, Catherine Deneuve. A grande diva francesa superou o Tempo, pois
envelheceu permanecendo bela, ao contrário de outra certa artista, que virou
uma “bruxa”. A diva não olha para o espectador, e parece estar distraída com
outra coisa. Ela parece estar entediada, talvez entediada com o bobinho jogo de
celebridades, como num Woody Allen, que expressa desprezo por tal establishment
no ótimo longa Celebridades – para
Allen, com exceções, a mulher celebridade é geralmente uma mulher vulgar.
Deneuve não é de badalações pela Mídia, sendo discreta e, ainda assim, famosa e
amada. Aqui, os cabelos de CD estão alinhados à moda contemporânea, nos cabelos
ondulados de Gisele, no tesão que são as modas, as vogues mundiais, na
necessidade que o Ser Humano sente em seguir tendências contemporâneas
mundiais, ou como num infeliz, que é pego tentando fazer tráfico internacional
de drogas. Aqui, as inúmeras pedrinhas estão dispostas fragilmente, e parece
que qualquer brisa vai decompor o quadro, numa fragilidade, numa mulher que,
apesar de delicada e feminina, é forte para ter a persistência de continuar
persistindo numa carreira, num espírito guerreiro, pois quem para de lutar,
desaparece... É uma pena. É o caso de uma pessoa perfeitamente ativa como
Fernanda Montenegro, na prova de que aposentar-se não é exatamente uma boa.
Deneuve tem um maxilar forte, num rosto belo. Podemos sentir a diva exalando o
perfume de uma Maison Chanel, no charme francês que arrebata o Mundo, com
tantas e tantas pessoas desejosas em visitar Paris e ver a ultracélebre torre da
cidade. Este quadro é uma densa constelação, no encanto de uma mulher com um
vestido de paetês, numa estrela que dá gosto de observar num tapete vermelho,
num mundo tão competitivo, em que uma quer estar mais deslumbrante do que a
outra, como no Mercado Fonográfico Mundial, povoado de divas cantoras que
competem pela atenção do público, numa espécie de arena de gladiadores, na
necessidade do desenvolvimento de agressividade, mantendo sempre uma “fome” de
vencer, pois a Vida tem que ter tesão, meu amigo. Aqui, CD está muito séria, e
realmente, analisando as fotos da diva, raramente a vemos sorrindo, e, como
disse um jornalista certa vez, Deneuve parece sempre estar no meio de uma
virose gripal, numa aparência um tanto blasé, entediada, talvez rechaçando
bajulações, as quase correm soltas e promíscuas no meio artístico, num jogo de
status, em que as pessoas estão o tempo todo comparando, entre si, o tamanho dos
seus “pênis” – quem tem o maior, ganha o jogo. É um mundo hierarquizado.
Imaginamos Deneuve chique, arrumada, perfumada, talvez comprando uma baguete,
com um guardachuva, em um dia de garoa parisiense, e ouvimos ao fundo o som de La Vie en Rose, numa civilização tão poderosa
quanto a francesa, com um museu que é uma indecência de rico e inesgotável.
Muniz se curva perante tal charme, tal imponência, e coloca cada pedrinha com
paciência, como no atencioso Tao, o qual se dedica integralmente na hora de
conceber algo, como conceber seus filhos, ou seja, você e eu. CD aqui parece
estar tão alheia aos flashes fotográficos, e parece que pisa no tapete vermelho
por obrigação, e não por prazer, numa discrição, como numa Meryl Streep,
rejeitando o mundano e abraçando o simples virtuoso, distanciando-se desses jogos
de celebridades de Big Brother, num mundo em que tudo pode ser descartável, num
público o qual, simplesmente, vai esquecendo de tais pseudocelebridades. Aqui,
Deneuve respira um ar mais elevado, e podemos imaginá-la tomando uma taça de
vinho em um por do Sol parisiense, num charmoso apê com vista para a Eiffel. É
como diz Tao: É claro que você tem que ter uma certa agressividade, mas
mantenha-se mais delicado dentro de si mesmo, ou seja, não perca a simplicidade
de cozinhar uma jantinha para o(a) namorado(a), compartilhando um momento de
paz e aconchego.
Acima, Che Guevara de Feijão. Parece um vômito, no modo como as catarses
são vômitos absolutamente saudáveis, renovando a alma de um artista, numa
sensação de alívio e descarrego. Aqui, o ícone político Che olha fundo para o
horizonte, vislumbrando possibilidade, num homem que tinha lá seus sonhos, mas
sonhos que foram frustrados com a simples execução do controverso homem. Aqui,
ele se parece um pouco com o mestre das quadras Guga Kuerten, num espírito
sedento por luta e vitória, causando admiração em meio Mundo, mas, em
compensação, um Che causando asco e rejeição, numa época em que o Comunismo
ainda era uma ameaça real ao Bloco Capitalista, com reflexos diretos no Brasil,
por meio de uma ditadura militar. Aqui, as ideias de Che buscam ser nutritivas
e deliciosas como feijão, no que me remete aos deliciosos feijões que minha mãe
e minha avó materna faziam, chegando eu faminto do colégio, hipoglicêmico, devorando
avidamente a refeição feita pela mãe. Aqui, é como se cada feijão fosse um
apoiador de Che, num ato de união, na capacidade que certos homens têm em
reunir as pessoas em torno de um ideal coletivo, como no grande brasileiro que
foi o diretor Fabio Barreto, uma pessoa que inspirou muitas pessoas no
empreendimento para se produzir um filme no interior do RS. Aqui, temos a
construção de um mito, num homem que ambicionava ter poder, muito poder, sendo
frustrado com seu próprio assassinato, talvez num Che temido, num Che que
ameaçava ter muito poder, tornando-se ameaçador, amedrontador, num homem que
viveu ao sabor do vento, sem construir algo de fato, apenas construindo um mito
comunista, sobrevivendo nas mentes de pessoas simpatizantes com o Socialismo, nos
ecos de herança de Marx, cujo pensamento estabelecia um estado supremo e
absoluto, provendo tudo a todos, mas numa ideia que foi apodrecendo, resultando
numa China: na teoria, comunista; na prática, capitalista. Aqui, é como um
covil de cobras, ou como rãs na água, numa vida que brota com força, num ser
vivo lutando para (sobre)viver, num Che guerreiro, num homem que, apesar do
verniz carismático, era rígido e sério na hora de adquirir aliados. Aqui, é um
acaso, como uma criança deixando cair no chão um prato de feijão, sendo
repreendida pela mãe, numa criança que tem que aprender a ter cautela e
responsabilidade, como numa criança que, desde cedo na Vida, foi escalada para
ajudar a criar os irmãos mais novos, talvez um espírito que, em uma vida
anterior, não desenvolveu muita responsabilidade, querendo, por meio de uma
nova encarnação, partir em busca do tempo perdido, como uma pessoa que,
abandonando os estudos numa faculdade, volta a esta decidida a se formar e
concluir o que começou, no modo como são tristes as histórias de vida de
pessoas que abandonaram os estudos, como numa transa que jamais tem orgasmo.
Muniz toca em nosso subconsciente, apresentando-nos charadas, como é o livro de
Tao, uma doutrina que exige que a entendamos de forma instintiva, no modo como
a Fé está além de qualquer exigência científica. Aqui, o feijão tem prazo de
validade, assim como nossos corpos carnais, numa espécie de contagem
regressiva, num prazo de validade, um prazo que, cedo ou tarde, chega, e cada
um tem que decidir o que fazer com este prato vazio, e Vik Muniz o faz,
enchendo de nutritivo “feijão” sua própria vida, num artista que é muito feliz,
pois foi reconhecido ainda em vida, ao contrário de artistas que, ou foram
reconhecidos postumamente, ou nunca foram reconhecidos, na dureza inevitável da
Vida. Aqui, é como no jogo de adivinhação, numa pessoa olhando para nuvens e
buscando ver nestas formas familiares, como um cachorro, ou um rosto humano. Os
feijões brotam como jabuticabas, na forma incessante da Vida, sempre respirando,
sempre lutando, como num lutador, que entra no octógono para vencer, abrindo
aqui o termo “atirar-se nas cordas”, ou seja, pobre daquele que parou de lutar
pela Vida. Aqui, temos uma bomba de carisma, mas no fato de que as unanimidades
são existem, como numa Evita, amada por uns; odiada por outros.
Acima, Série Lixo Extraordinário. Esta foi uma das imagens que formaram a
abertura da novela Passione, da Rede
Globo. A imagem remete à diva da MPB Marisa Monte, uma estrela reservada,
discreta, criteriosa, de bom gosto, representando a Inteligência, a classe, a
nobreza brasileira. Aqui, a mulher tem um olhar sonhador, como a Tereza no
longa O Quatrilho, observando o céu
estrelado da noite, querendo ter uma vida mais interessante, mais urbana,
perguntando-se dos mistérios do Universo, e o porquê do brilho das estrelas ser
tão belo, talvez numa Tereza querendo se tornar uma estrela ela própria, numa
pessoa sensível, alheia à árdua vida de camponesa, numa Tereza fugindo com o
amante, partindo em busca da felicidade – Tereza não é uma vilã de Disney. Aqui,
é como um Narciso, hipnotizado por si mesmo, caindo na água e afogando-se nas
profundezas da vaidade, como uma pessoa que passa por um momento narcisista,
tendo que levar um choque de realidade para colocar os pezinhos de volta ao
chão, no caminho da humildade, no modo como não é muito bom a pessoa se achar
perfeita, pois se tenho consciência de minhas limitações, não serei arrogante,
pois a Arrogância precede a queda. Podemos ouvir aqui a voz cristalina de
Marisa, fina como puro cristal, num rico prisma, nos encantos transparentes da
Discrição, numa pessoa que aprendeu a se preservar e a ser invisível desse
modo, pois quanto mais invisível sou, a menos pressões me submetem, ao
contrário de numa Whitney Houston, a qual passou a sofrer pressões esmagadoras
com o megassucesso O Guardacostas, na
triste história de uma pessoa que teve tudo e tudo perdeu, tudo por causa das
malditas drogas, substâncias que destroem almas e dilaceram vidas, como num
senhor que conheço, o qual está condenado a uma prisão perpétua, tendo que
passar o resto de seus dias numa clínica psiquiátrica, tudo por casa de cocaína.
Aqui, Vik Muniz faz do lixo um luxo, num trabalho minucioso, de formiguinha, de
passinhos de bebê, catando pacientemente o lixo e compondo o quadro, como se o
lixo tivesse sido subestimando por quem o descartou, numa riqueza de uma
caixaforte de Tio Patinhas, na abundância de Tao, o tesouro metafísico, o
tesouro psíquico da Dimensão Metafísica, com suas mansões, no modo como somos
todos queridinhos de Tao, o generoso Pai, na revolução do pensamento de Jesus
Cristo, trazendo o Amor como a única coisa que vale a pena, pois como podemos
ser irmãos se não nos amamos? Como o Cosmos poderá ficar unido? Várias
rodelinhas formam o cabelo desta Marisa, talvez azeitonas pretas fatiadas, como
várias células formando um organismo, com vários pontinhos formando o rosto
sonhador, no modo como nunca se é velho demais para sonhar, e todos temos o
direito de sonhar, de querer fazer algo a mais da Vida, pois ninguém é obrigado
a ser apenas uma dona de casa, como me disse uma grande amiga psicóloga: “É tão
desinteressante uma pessoa que é só dona de casa...”, pois tudo que temos que
mostrar é Inteligência, com tantas pessoas que desperdiçam seus próprios
talentos, pessoas com amarras, que não conseguem “quebrar a casca do ovo”,
talvez num espírito que, na próxima encarnação, tratará de não perder tempo
mais – todos temos direito e uma nova chance, no perdão de Tao, o Pai que nunca
perde a fé nos filhos. Esta Marisa é pálida como o luar, como no luar que vi
ontem de minha sacada, na fraca luz lunar, suave, discreta. Aqui, Vik Muniz
leva a sério a função do artista plástico, que é associar coisas dissociadas,
formando, assim, coisas novas, numa pessoa de ampla visão, que vê futuro no que
os outros descartaram, como numa Elis Regina, que tinha um afiado faro para
detectar grandes canções, regravando Como
Nossos Pais, anteriormente gravada por Belchior, sem obter muita atenção do
público na primeira versão. É a questão do critério, numa Marisa Monte cheia de
critério, no modo como podemos avaliar uma pessoa por meio das escolhas desta,
como num Leonardo DiCaprio, que escolhe filmes fortes e contundentes para
fazer. Aqui, temos uma espécie de acumulador compulsivo, mas numa acumulação
positiva, saudável. Num dos detalhes, um relógio, marcando o tempo de nossas
vidas na Terra, nosso lar provisório. Aqui, o lixo é o Patinho Feio, na
“vingança” daquele que um dia foi subestimado.
Acima, Mona Lisa de manteiga de amendoim e Mona Lisa de geleia de uva. VM
tem um pé na Pop Art, na menção da Cultura de Massa. É como um clichê
industrial, uma esteira de produção, como se fosse um carimbo, numa sopa
enlatada vendida em várias e várias unidades. Aqui, temos um Vik Muniz que sabe
comer bem, delicioso em sua arte, como numa fatia de pão recebendo geleias e
pasta de amendoim, e podemos sentir o perfume da comida, da uva em geleia, do
doce sabor do amendoim. Aqui, são como duas irmãs gêmeas, as quais, apesar de
ser univitelinas, têm características próprias, pois há aspectos da pessoa que
correspondem ao espírito, e não à genética, no caminho da individualidade, como
irmãos que vieram dos mesmos pais, da mesma barriga, criados debaixo do mesmo
teto, sob os mesmos valores, e cada filho sai de um jeito. Aqui, Muniz preserva
o enigmático sorriso de Monalisa, marcante como uma boa campanha publicitária,
num Vik que já pensou em ser publicitário, no amargo fato de Propaganda não é
Arte – é técnica de venda, sendo natural um artista se desinteressar pela vida
de publicitário. Aqui, temos uma metalinguagem, com artista falando de artista,
como uma atriz num filme, interpretando outra atriz, no modo como as
influências são inevitáveis, num artista buscando referências, fazendo com que
um grande artista faça escola, servindo de inspiração a muitos outros artistas,
no fato de que não existe livro ou faculdade que ensine talento ou potencial.
Aqui, temos uma dobra bem no meio da obra, num discernimento, onde acaba minha
casa e começa a casa do meu vizinho, no discernimento do que é meu e do que é
de outrem, no modo como é pouquíssimo nobre não respeitar o espaço do
cocidadão, como pessoas que, apesar de ser recebidas com honras em casa de
outrem, não são gratas e nem dão valor a tal acolhida, como numa certa
doutrina, cujo nome não revelarei, uma doutrina que prega o desrespeito para
com o que é do outro, uma doutrina que nada mais fez do que resultar em
ditaduras, os governos fakes que querem obter Paz por meio da opressão do cidadão
comum, e esse desrespeito não é Tao, pois este sabe o valor da Liberdade, do
bem estar, do conforto, como um músico, guardando cuidadosamente o seu
instrumento musical, num ato de zelo, de Amor, fazendo das guerras a total
perda de Tao, num contexto amargo em que sequer o diálogo diplomático é
mantido, e quando se perde a diplomacia, qual é a esperança? Aqui, temos um Vik
fazendo duas tentativas, dois testes, dois empreendimentos, explorando
possibilidades. É como um cartão de Natal dobrado ao meio, exigindo que o
espectador tenha o instinto para perceber tal metalinguagem, numa linha tênue
entre imitar e inspirar-se, pois o artista aqui não quer ser alguém além dele
próprio, apesar de estar buscando referência em uma das maiores mentes que já
encarnaram na Terra - Leonardo. Aqui, há uma certa simplicidade, pois não há
vários e vários tons, ao contrário da Monalisa de da Vinci, cheia de nuances.
Aqui há a simplicidade de apenas o branco sendo pintado de bordô ou pardo, numa
releitura pós moderna de uma obra clássica, como num músico contemporâneo
regravando Cole Porter, na junção de música pop com cenários clássicos, no
diálogo entre ontem e hoje, como no transgressor tênis no longa Maria Antonieta, numa pitada de
irreverência jovial em meio a um contexto tão sisudo e sério, como na logomarca
da MTV, com uma pichação, num jovem querendo encontrar o seu lugar no Mundo,
neste duro Mundo de adultos, sendo uma virtude uma pessoa conseguir se manter
jovial e bem humorada em meio a uma vida que exige tanto juízo do cidadão.
Aqui, é como a Gastronomia, uma arte que foi feita para ser destruída, assim
como um artista tem que produzir sempre, nunca parando no tempo, nunca se
atirando nas cordas do ringue da Vida.
Acima, Sarah Bernhadt depois de Nadar. Obra da série Retratos de Revistas, com a grande atriz que viria a se transformar
em personagem em romance policial de Jô Soares. Apesar de parecer estar com
vestes de rainha, a estrela está simplesmente enrolada numa coberta, na questão
de que Beleza vem de dentro. Ela toma totalmente conta do quadro, como uma
estrela de Cinema, fazendo com que a tela pegue fogo, numa grande e estonteante
presença, como numa Sophia Loren, numa pessoa que, de forma autodidata,
aprendeu a brilhar, como numa Gisele, uma pessoa que foi instintivamente
desbravando o seu caminho. Um zeloso e dedicado Vik Muniz cata seus pequenos
objetos, reconstituindo fotos ou pinturas, num esforço de releitura. Podemos
ouvir aqui o farfalhar da coberta que veste Sarah, num silencioso estúdio, num
momento de intimidade entre a atriz e o fotógrafo, no modo como eu adorei ter
feito um ensaio fotográfico com uma fotógrafa caxiense, no ido ano de 1995, e,
para haver uma boa química, modelo e fotógrafo têm que atirar um nos braços do
outro, numa questão de química, como numa genial Meryl Streep, que faz com que
qualquer coator tenha boa química com a própria MS. A musa se apóia num pilar,
num sólido pilar, no modo como a pessoa tem que encontrar seu próprio pilar,
sua base de apoio, como num relacionamento amoroso, num ato de entrega, em que
um fala de suas tristezas para o outro, num momento de redenção o qual nenhum
dinheiro é capaz de pagar, pois as melhores coisas da Vida são de graça. Sarah,
aqui, indaga e desafia o espectador, fitando este impiedosamente, como no olhar
de uma Monalisa, numa Sarah autossuficiente, segura de si e de sua carreira.
Aqui, temos um sorriso discretíssimo, quase imperceptível, como se a diva
estivesse entediada, querendo se despir e ir para casa, no Yin que é o conforto
do lar, longe das exigências Yang do Mundo lá fora, voltando aqui a mencionar
Streep, uma pessoa reservada, alheia ao glamour dos tapetes vermelhos, numa
pessoa pacata, que sabe o valor do momento de se preparar um chá no conforto do
lar, pois as pressões do Mundo lá fora podem avassaladoras, fazendo com que a
pessoa saiba mostrar, para este mesmo Mundo, o dedo do meio... Aqui, Sarah é
como um furacão, um tsunami, uma galáxia girando intermitentemente, como água
indo ralo abaixo, nos poderes das forças naturais, fazendo com que o artista
seja este “deus”, esta força natural, este terremoto, na missão do artista:
Virar o Mundo de cabeça para baixo. Aqui, Sarah e suas vestes são pálidas, como
uma folha em branco, pronta para ser desvirginada, marcada, como no prazer de
se ver o próprio material escolar um dia antes das aulas começarem, na promessa
desafiadora de mais um ano de estudos. Os cabelos de Sarah quase se fundem ao
fundo, numa relação de continuidade, no modo como tudo no Cosmos gira em torno
do mesmo Tao, como esferas circundando o Sol. Os cabelos de Sarah são uma
moldura, emoldurando o que interessa, que é o instinto do artista, no modo como
as molduras não surtem efeito se emoldurarem um quadro pobre ou medíocre, do
mesmo modo como não há campanha publicitária maravilhosa que salve um produto
de baixa qualidade. Aqui, Sarah está completamente relaxada, quase adormecendo,
no prazerzinho da Preguiça, de se ficar mais um tempinho na cama, deixando para
lá as exigências espartanas do Mundo, num discernimento entre Público e
Privado, na bipolaridade entre Smith e Marx, ou seja, entre o estado
inexistente e o estado onipresente. Aqui, temos uma Sarah que aprendeu a lição
da simplicidade, como numa Monroe, causando comoções em uma carreira vibrante e
genial, deslumbrando o Mundo ao dizer que tudo o que usava para dormir eram
duas gotas de Chanel número cinco. Sarah deixa para trás afetações e frescuras,
fazendo da Arte esta base despretensiosa, uma Arte que sempre convida o
espectador a participar, no nome da banda U2, ou seja, “você também”. Seu
decote provoca, e provavelmente está nua debaixo desta coberta, sentindo-se
confortável em sua própria pele. E não é feliz quem aceita numa boa a si mesmo?
Referências bibliográficas:
Vik Muniz.
Disponível em: <www.historiadasartes.com/prazer-em-conhecer/vik-muniz/>.
Acesso em: 25 mar. 2020.
Vik Muniz.
Disponível em: <www.leilaodearte.com>. Acesso em: 25 mar. 2020.
Vik Muniz.
Disponível em: <www.pinterest.ca>. Acesso em: 25 mar. 2020.
Vik Muniz.
Disponível em: <www.pt.wikipedia.org>. Acesso em: 25 mar. 2020.






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