quarta-feira, 8 de abril de 2020

Vitória da Arte Munida



O artista plástico Vik Muniz nasceu Vicente José de Oliveira Muniz, paulistano de 1961, e encontra-se radicado nos EUA. Chegou a estudar Publicidade e Propaganda. Vik Muniz é conhecido por usar materiais como lixo, restos de demolição e alimentos, sendo também dedicado a ações de Caridade. Há um catatau de informações sobre Muniz no site do novaiorquino MoMA. Há anos eu estava no MASP, e vi uma obra de Muniz, numa Elizabeth Taylor formada por pequenos diamantes, numa tripla metalinguagem – brilho da pedra falando de brilho de Liz, falando de brilho de Muniz. Os textos e análises semióticas a seguir são inteiramente meus. Boa leitura!


Acima, Barack Obama. Como você pode ver, esta obra de Muniz ganhou a capa da revista Time, numa metalinguagem – grande homem falando de grande homem. O célebre líder olha para fundo no horizonte, como uma pessoa que sabe enxergar além de pequenices e ninharias, num dos maiores presidentes da História dos EUA, num carisma arrebatador, mostrando a evolução de uma nação que antes foi escravocrata. As obras de Muniz nos convidam a olhar bem de perto, para vermos cada “célula” de seus quadros, para, depois, vermos no conjunto, na totalidade, num impressionante trabalho de minuciosidade e paciência, como me disse certa vez uma grande artista: É necessária paciência para se construir um personagem. Aqui, temos um homem que nada tem a esconder, como num fálico obelisco, numa total revelação. Um homem simples, que consegue mandar sem ser um mala pedante, no termo em Inglês: “Gets cocky without being a dick”, ou seja, um homem que tem o discernimento, ciente da elevação do cargo que ocupa, num homem imponente, o qual, ao dar uma entrevista coletiva na Casa Branca e ser interrompido por um jornalista, Obama disse a este: “Você está na MINHA casa”, sendo o presidente, naquele momento, aplaudido por todos no salão – carisma. Aqui, Obama está preparado para mais um dia de trabalho, devidamente barbeado e engravatado, com alguém com pulso firme, mandando, sem dó nem piedade, executar oficialmente Osama Bin Laden, provocando uma onda de celebração por todos os EUA. É como uma funcionária numa máquina de raio x em um aeroporto, barrando produtos como facas ou garfos – gentil, porém firme. Imaginamos quantas horas, dias ou semanas Muniz levou para constituir esta obra. Aqui, ao redor do líder, vemos um céu azul e aberto, iluminando toda a extensão de um vasto país, numa difícil missão de reger um país tão grande e heterogêneo, formando por vários pequenos países, como no Brasil, com abismais diferenças entre a Bahia e o Rio Grande do Sul, por exemplo. Aqui, sua camisa está impecavelmente branca, como se tivesse sido lavada e passada pela devota primeira dama. Podemos sentir o odor de loção pós barba, num cavalheiro, que se apruma, preparando-se para o momento de interação social. Podemos ouvir o brado das multidões aclamando o presidente, num fenômeno de popularidade, como numa Elizabeth II, dando a volta por cima da morte de uma figura tão avassaladora como Di. Aqui, temos uma capa de um veículo de comunicação de massa, como muitos e muitos exemplares sendo impressos e distribuídos ao redor do país americano, no modo como é um raro privilégio ser uma pessoa digna de tal honraria, no modo como as grandes pessoas são minorias, pois não há livro ou faculdade que ensine a ser grande... Aqui, temos ainda um Obama jovial, sem muitos cabelos brancos, no modo como, ao decorrer do estresse de vários anos de governo, Obama começou a adquirir seus grisalhos, num homem que, apesar de não mais ser um gurizão, é ainda jovem. A boca de Obama aqui está ligeiramente aberta, receptiva, num homem discreto, que até fez uma formidável aparição no famoso televisivo cômico americano Saturday Night Live. Realmente, é uma evolução uma família negra morando na Casa Branca. Os poderosos EUA seguem paradigmáticos, servindo de exemplo ao Mundo. Temos um Vik Muniz completamente adaptado com seu país adotivo, num artista que conquistou respeito, num grande brasileiro. Os ouvidos do líder estão atentos às demandas do país, num presidente que teria enfrentado com muita força a Covid-19.


Acima, Catherine Deneuve. A grande diva francesa superou o Tempo, pois envelheceu permanecendo bela, ao contrário de outra certa artista, que virou uma “bruxa”. A diva não olha para o espectador, e parece estar distraída com outra coisa. Ela parece estar entediada, talvez entediada com o bobinho jogo de celebridades, como num Woody Allen, que expressa desprezo por tal establishment no ótimo longa Celebridades – para Allen, com exceções, a mulher celebridade é geralmente uma mulher vulgar. Deneuve não é de badalações pela Mídia, sendo discreta e, ainda assim, famosa e amada. Aqui, os cabelos de CD estão alinhados à moda contemporânea, nos cabelos ondulados de Gisele, no tesão que são as modas, as vogues mundiais, na necessidade que o Ser Humano sente em seguir tendências contemporâneas mundiais, ou como num infeliz, que é pego tentando fazer tráfico internacional de drogas. Aqui, as inúmeras pedrinhas estão dispostas fragilmente, e parece que qualquer brisa vai decompor o quadro, numa fragilidade, numa mulher que, apesar de delicada e feminina, é forte para ter a persistência de continuar persistindo numa carreira, num espírito guerreiro, pois quem para de lutar, desaparece... É uma pena. É o caso de uma pessoa perfeitamente ativa como Fernanda Montenegro, na prova de que aposentar-se não é exatamente uma boa. Deneuve tem um maxilar forte, num rosto belo. Podemos sentir a diva exalando o perfume de uma Maison Chanel, no charme francês que arrebata o Mundo, com tantas e tantas pessoas desejosas em visitar Paris e ver a ultracélebre torre da cidade. Este quadro é uma densa constelação, no encanto de uma mulher com um vestido de paetês, numa estrela que dá gosto de observar num tapete vermelho, num mundo tão competitivo, em que uma quer estar mais deslumbrante do que a outra, como no Mercado Fonográfico Mundial, povoado de divas cantoras que competem pela atenção do público, numa espécie de arena de gladiadores, na necessidade do desenvolvimento de agressividade, mantendo sempre uma “fome” de vencer, pois a Vida tem que ter tesão, meu amigo. Aqui, CD está muito séria, e realmente, analisando as fotos da diva, raramente a vemos sorrindo, e, como disse um jornalista certa vez, Deneuve parece sempre estar no meio de uma virose gripal, numa aparência um tanto blasé, entediada, talvez rechaçando bajulações, as quase correm soltas e promíscuas no meio artístico, num jogo de status, em que as pessoas estão o tempo todo comparando, entre si, o tamanho dos seus “pênis” – quem tem o maior, ganha o jogo. É um mundo hierarquizado. Imaginamos Deneuve chique, arrumada, perfumada, talvez comprando uma baguete, com um guardachuva, em um dia de garoa parisiense, e ouvimos ao fundo o som de La Vie en Rose, numa civilização tão poderosa quanto a francesa, com um museu que é uma indecência de rico e inesgotável. Muniz se curva perante tal charme, tal imponência, e coloca cada pedrinha com paciência, como no atencioso Tao, o qual se dedica integralmente na hora de conceber algo, como conceber seus filhos, ou seja, você e eu. CD aqui parece estar tão alheia aos flashes fotográficos, e parece que pisa no tapete vermelho por obrigação, e não por prazer, numa discrição, como numa Meryl Streep, rejeitando o mundano e abraçando o simples virtuoso, distanciando-se desses jogos de celebridades de Big Brother, num mundo em que tudo pode ser descartável, num público o qual, simplesmente, vai esquecendo de tais pseudocelebridades. Aqui, Deneuve respira um ar mais elevado, e podemos imaginá-la tomando uma taça de vinho em um por do Sol parisiense, num charmoso apê com vista para a Eiffel. É como diz Tao: É claro que você tem que ter uma certa agressividade, mas mantenha-se mais delicado dentro de si mesmo, ou seja, não perca a simplicidade de cozinhar uma jantinha para o(a) namorado(a), compartilhando um momento de paz e aconchego.


Acima, Che Guevara de Feijão. Parece um vômito, no modo como as catarses são vômitos absolutamente saudáveis, renovando a alma de um artista, numa sensação de alívio e descarrego. Aqui, o ícone político Che olha fundo para o horizonte, vislumbrando possibilidade, num homem que tinha lá seus sonhos, mas sonhos que foram frustrados com a simples execução do controverso homem. Aqui, ele se parece um pouco com o mestre das quadras Guga Kuerten, num espírito sedento por luta e vitória, causando admiração em meio Mundo, mas, em compensação, um Che causando asco e rejeição, numa época em que o Comunismo ainda era uma ameaça real ao Bloco Capitalista, com reflexos diretos no Brasil, por meio de uma ditadura militar. Aqui, as ideias de Che buscam ser nutritivas e deliciosas como feijão, no que me remete aos deliciosos feijões que minha mãe e minha avó materna faziam, chegando eu faminto do colégio, hipoglicêmico, devorando avidamente a refeição feita pela mãe. Aqui, é como se cada feijão fosse um apoiador de Che, num ato de união, na capacidade que certos homens têm em reunir as pessoas em torno de um ideal coletivo, como no grande brasileiro que foi o diretor Fabio Barreto, uma pessoa que inspirou muitas pessoas no empreendimento para se produzir um filme no interior do RS. Aqui, temos a construção de um mito, num homem que ambicionava ter poder, muito poder, sendo frustrado com seu próprio assassinato, talvez num Che temido, num Che que ameaçava ter muito poder, tornando-se ameaçador, amedrontador, num homem que viveu ao sabor do vento, sem construir algo de fato, apenas construindo um mito comunista, sobrevivendo nas mentes de pessoas simpatizantes com o Socialismo, nos ecos de herança de Marx, cujo pensamento estabelecia um estado supremo e absoluto, provendo tudo a todos, mas numa ideia que foi apodrecendo, resultando numa China: na teoria, comunista; na prática, capitalista. Aqui, é como um covil de cobras, ou como rãs na água, numa vida que brota com força, num ser vivo lutando para (sobre)viver, num Che guerreiro, num homem que, apesar do verniz carismático, era rígido e sério na hora de adquirir aliados. Aqui, é um acaso, como uma criança deixando cair no chão um prato de feijão, sendo repreendida pela mãe, numa criança que tem que aprender a ter cautela e responsabilidade, como numa criança que, desde cedo na Vida, foi escalada para ajudar a criar os irmãos mais novos, talvez um espírito que, em uma vida anterior, não desenvolveu muita responsabilidade, querendo, por meio de uma nova encarnação, partir em busca do tempo perdido, como uma pessoa que, abandonando os estudos numa faculdade, volta a esta decidida a se formar e concluir o que começou, no modo como são tristes as histórias de vida de pessoas que abandonaram os estudos, como numa transa que jamais tem orgasmo. Muniz toca em nosso subconsciente, apresentando-nos charadas, como é o livro de Tao, uma doutrina que exige que a entendamos de forma instintiva, no modo como a Fé está além de qualquer exigência científica. Aqui, o feijão tem prazo de validade, assim como nossos corpos carnais, numa espécie de contagem regressiva, num prazo de validade, um prazo que, cedo ou tarde, chega, e cada um tem que decidir o que fazer com este prato vazio, e Vik Muniz o faz, enchendo de nutritivo “feijão” sua própria vida, num artista que é muito feliz, pois foi reconhecido ainda em vida, ao contrário de artistas que, ou foram reconhecidos postumamente, ou nunca foram reconhecidos, na dureza inevitável da Vida. Aqui, é como no jogo de adivinhação, numa pessoa olhando para nuvens e buscando ver nestas formas familiares, como um cachorro, ou um rosto humano. Os feijões brotam como jabuticabas, na forma incessante da Vida, sempre respirando, sempre lutando, como num lutador, que entra no octógono para vencer, abrindo aqui o termo “atirar-se nas cordas”, ou seja, pobre daquele que parou de lutar pela Vida. Aqui, temos uma bomba de carisma, mas no fato de que as unanimidades são existem, como numa Evita, amada por uns; odiada por outros.


Acima, Série Lixo Extraordinário. Esta foi uma das imagens que formaram a abertura da novela Passione, da Rede Globo. A imagem remete à diva da MPB Marisa Monte, uma estrela reservada, discreta, criteriosa, de bom gosto, representando a Inteligência, a classe, a nobreza brasileira. Aqui, a mulher tem um olhar sonhador, como a Tereza no longa O Quatrilho, observando o céu estrelado da noite, querendo ter uma vida mais interessante, mais urbana, perguntando-se dos mistérios do Universo, e o porquê do brilho das estrelas ser tão belo, talvez numa Tereza querendo se tornar uma estrela ela própria, numa pessoa sensível, alheia à árdua vida de camponesa, numa Tereza fugindo com o amante, partindo em busca da felicidade – Tereza não é uma vilã de Disney. Aqui, é como um Narciso, hipnotizado por si mesmo, caindo na água e afogando-se nas profundezas da vaidade, como uma pessoa que passa por um momento narcisista, tendo que levar um choque de realidade para colocar os pezinhos de volta ao chão, no caminho da humildade, no modo como não é muito bom a pessoa se achar perfeita, pois se tenho consciência de minhas limitações, não serei arrogante, pois a Arrogância precede a queda. Podemos ouvir aqui a voz cristalina de Marisa, fina como puro cristal, num rico prisma, nos encantos transparentes da Discrição, numa pessoa que aprendeu a se preservar e a ser invisível desse modo, pois quanto mais invisível sou, a menos pressões me submetem, ao contrário de numa Whitney Houston, a qual passou a sofrer pressões esmagadoras com o megassucesso O Guardacostas, na triste história de uma pessoa que teve tudo e tudo perdeu, tudo por causa das malditas drogas, substâncias que destroem almas e dilaceram vidas, como num senhor que conheço, o qual está condenado a uma prisão perpétua, tendo que passar o resto de seus dias numa clínica psiquiátrica, tudo por casa de cocaína. Aqui, Vik Muniz faz do lixo um luxo, num trabalho minucioso, de formiguinha, de passinhos de bebê, catando pacientemente o lixo e compondo o quadro, como se o lixo tivesse sido subestimando por quem o descartou, numa riqueza de uma caixaforte de Tio Patinhas, na abundância de Tao, o tesouro metafísico, o tesouro psíquico da Dimensão Metafísica, com suas mansões, no modo como somos todos queridinhos de Tao, o generoso Pai, na revolução do pensamento de Jesus Cristo, trazendo o Amor como a única coisa que vale a pena, pois como podemos ser irmãos se não nos amamos? Como o Cosmos poderá ficar unido? Várias rodelinhas formam o cabelo desta Marisa, talvez azeitonas pretas fatiadas, como várias células formando um organismo, com vários pontinhos formando o rosto sonhador, no modo como nunca se é velho demais para sonhar, e todos temos o direito de sonhar, de querer fazer algo a mais da Vida, pois ninguém é obrigado a ser apenas uma dona de casa, como me disse uma grande amiga psicóloga: “É tão desinteressante uma pessoa que é só dona de casa...”, pois tudo que temos que mostrar é Inteligência, com tantas pessoas que desperdiçam seus próprios talentos, pessoas com amarras, que não conseguem “quebrar a casca do ovo”, talvez num espírito que, na próxima encarnação, tratará de não perder tempo mais – todos temos direito e uma nova chance, no perdão de Tao, o Pai que nunca perde a fé nos filhos. Esta Marisa é pálida como o luar, como no luar que vi ontem de minha sacada, na fraca luz lunar, suave, discreta. Aqui, Vik Muniz leva a sério a função do artista plástico, que é associar coisas dissociadas, formando, assim, coisas novas, numa pessoa de ampla visão, que vê futuro no que os outros descartaram, como numa Elis Regina, que tinha um afiado faro para detectar grandes canções, regravando Como Nossos Pais, anteriormente gravada por Belchior, sem obter muita atenção do público na primeira versão. É a questão do critério, numa Marisa Monte cheia de critério, no modo como podemos avaliar uma pessoa por meio das escolhas desta, como num Leonardo DiCaprio, que escolhe filmes fortes e contundentes para fazer. Aqui, temos uma espécie de acumulador compulsivo, mas numa acumulação positiva, saudável. Num dos detalhes, um relógio, marcando o tempo de nossas vidas na Terra, nosso lar provisório. Aqui, o lixo é o Patinho Feio, na “vingança” daquele que um dia foi subestimado.


Acima, Mona Lisa de manteiga de amendoim e Mona Lisa de geleia de uva. VM tem um pé na Pop Art, na menção da Cultura de Massa. É como um clichê industrial, uma esteira de produção, como se fosse um carimbo, numa sopa enlatada vendida em várias e várias unidades. Aqui, temos um Vik Muniz que sabe comer bem, delicioso em sua arte, como numa fatia de pão recebendo geleias e pasta de amendoim, e podemos sentir o perfume da comida, da uva em geleia, do doce sabor do amendoim. Aqui, são como duas irmãs gêmeas, as quais, apesar de ser univitelinas, têm características próprias, pois há aspectos da pessoa que correspondem ao espírito, e não à genética, no caminho da individualidade, como irmãos que vieram dos mesmos pais, da mesma barriga, criados debaixo do mesmo teto, sob os mesmos valores, e cada filho sai de um jeito. Aqui, Muniz preserva o enigmático sorriso de Monalisa, marcante como uma boa campanha publicitária, num Vik que já pensou em ser publicitário, no amargo fato de Propaganda não é Arte – é técnica de venda, sendo natural um artista se desinteressar pela vida de publicitário. Aqui, temos uma metalinguagem, com artista falando de artista, como uma atriz num filme, interpretando outra atriz, no modo como as influências são inevitáveis, num artista buscando referências, fazendo com que um grande artista faça escola, servindo de inspiração a muitos outros artistas, no fato de que não existe livro ou faculdade que ensine talento ou potencial. Aqui, temos uma dobra bem no meio da obra, num discernimento, onde acaba minha casa e começa a casa do meu vizinho, no discernimento do que é meu e do que é de outrem, no modo como é pouquíssimo nobre não respeitar o espaço do cocidadão, como pessoas que, apesar de ser recebidas com honras em casa de outrem, não são gratas e nem dão valor a tal acolhida, como numa certa doutrina, cujo nome não revelarei, uma doutrina que prega o desrespeito para com o que é do outro, uma doutrina que nada mais fez do que resultar em ditaduras, os governos fakes que querem obter Paz por meio da opressão do cidadão comum, e esse desrespeito não é Tao, pois este sabe o valor da Liberdade, do bem estar, do conforto, como um músico, guardando cuidadosamente o seu instrumento musical, num ato de zelo, de Amor, fazendo das guerras a total perda de Tao, num contexto amargo em que sequer o diálogo diplomático é mantido, e quando se perde a diplomacia, qual é a esperança? Aqui, temos um Vik fazendo duas tentativas, dois testes, dois empreendimentos, explorando possibilidades. É como um cartão de Natal dobrado ao meio, exigindo que o espectador tenha o instinto para perceber tal metalinguagem, numa linha tênue entre imitar e inspirar-se, pois o artista aqui não quer ser alguém além dele próprio, apesar de estar buscando referência em uma das maiores mentes que já encarnaram na Terra - Leonardo. Aqui, há uma certa simplicidade, pois não há vários e vários tons, ao contrário da Monalisa de da Vinci, cheia de nuances. Aqui há a simplicidade de apenas o branco sendo pintado de bordô ou pardo, numa releitura pós moderna de uma obra clássica, como num músico contemporâneo regravando Cole Porter, na junção de música pop com cenários clássicos, no diálogo entre ontem e hoje, como no transgressor tênis no longa Maria Antonieta, numa pitada de irreverência jovial em meio a um contexto tão sisudo e sério, como na logomarca da MTV, com uma pichação, num jovem querendo encontrar o seu lugar no Mundo, neste duro Mundo de adultos, sendo uma virtude uma pessoa conseguir se manter jovial e bem humorada em meio a uma vida que exige tanto juízo do cidadão. Aqui, é como a Gastronomia, uma arte que foi feita para ser destruída, assim como um artista tem que produzir sempre, nunca parando no tempo, nunca se atirando nas cordas do ringue da Vida.


Acima, Sarah Bernhadt depois de Nadar. Obra da série Retratos de Revistas, com a grande atriz que viria a se transformar em personagem em romance policial de Jô Soares. Apesar de parecer estar com vestes de rainha, a estrela está simplesmente enrolada numa coberta, na questão de que Beleza vem de dentro. Ela toma totalmente conta do quadro, como uma estrela de Cinema, fazendo com que a tela pegue fogo, numa grande e estonteante presença, como numa Sophia Loren, numa pessoa que, de forma autodidata, aprendeu a brilhar, como numa Gisele, uma pessoa que foi instintivamente desbravando o seu caminho. Um zeloso e dedicado Vik Muniz cata seus pequenos objetos, reconstituindo fotos ou pinturas, num esforço de releitura. Podemos ouvir aqui o farfalhar da coberta que veste Sarah, num silencioso estúdio, num momento de intimidade entre a atriz e o fotógrafo, no modo como eu adorei ter feito um ensaio fotográfico com uma fotógrafa caxiense, no ido ano de 1995, e, para haver uma boa química, modelo e fotógrafo têm que atirar um nos braços do outro, numa questão de química, como numa genial Meryl Streep, que faz com que qualquer coator tenha boa química com a própria MS. A musa se apóia num pilar, num sólido pilar, no modo como a pessoa tem que encontrar seu próprio pilar, sua base de apoio, como num relacionamento amoroso, num ato de entrega, em que um fala de suas tristezas para o outro, num momento de redenção o qual nenhum dinheiro é capaz de pagar, pois as melhores coisas da Vida são de graça. Sarah, aqui, indaga e desafia o espectador, fitando este impiedosamente, como no olhar de uma Monalisa, numa Sarah autossuficiente, segura de si e de sua carreira. Aqui, temos um sorriso discretíssimo, quase imperceptível, como se a diva estivesse entediada, querendo se despir e ir para casa, no Yin que é o conforto do lar, longe das exigências Yang do Mundo lá fora, voltando aqui a mencionar Streep, uma pessoa reservada, alheia ao glamour dos tapetes vermelhos, numa pessoa pacata, que sabe o valor do momento de se preparar um chá no conforto do lar, pois as pressões do Mundo lá fora podem avassaladoras, fazendo com que a pessoa saiba mostrar, para este mesmo Mundo, o dedo do meio... Aqui, Sarah é como um furacão, um tsunami, uma galáxia girando intermitentemente, como água indo ralo abaixo, nos poderes das forças naturais, fazendo com que o artista seja este “deus”, esta força natural, este terremoto, na missão do artista: Virar o Mundo de cabeça para baixo. Aqui, Sarah e suas vestes são pálidas, como uma folha em branco, pronta para ser desvirginada, marcada, como no prazer de se ver o próprio material escolar um dia antes das aulas começarem, na promessa desafiadora de mais um ano de estudos. Os cabelos de Sarah quase se fundem ao fundo, numa relação de continuidade, no modo como tudo no Cosmos gira em torno do mesmo Tao, como esferas circundando o Sol. Os cabelos de Sarah são uma moldura, emoldurando o que interessa, que é o instinto do artista, no modo como as molduras não surtem efeito se emoldurarem um quadro pobre ou medíocre, do mesmo modo como não há campanha publicitária maravilhosa que salve um produto de baixa qualidade. Aqui, Sarah está completamente relaxada, quase adormecendo, no prazerzinho da Preguiça, de se ficar mais um tempinho na cama, deixando para lá as exigências espartanas do Mundo, num discernimento entre Público e Privado, na bipolaridade entre Smith e Marx, ou seja, entre o estado inexistente e o estado onipresente. Aqui, temos uma Sarah que aprendeu a lição da simplicidade, como numa Monroe, causando comoções em uma carreira vibrante e genial, deslumbrando o Mundo ao dizer que tudo o que usava para dormir eram duas gotas de Chanel número cinco. Sarah deixa para trás afetações e frescuras, fazendo da Arte esta base despretensiosa, uma Arte que sempre convida o espectador a participar, no nome da banda U2, ou seja, “você também”. Seu decote provoca, e provavelmente está nua debaixo desta coberta, sentindo-se confortável em sua própria pele. E não é feliz quem aceita numa boa a si mesmo?

Referências bibliográficas:

Vik Muniz. Disponível em: <www.historiadasartes.com/prazer-em-conhecer/vik-muniz/>. Acesso em: 25 mar. 2020.
Vik Muniz. Disponível em: <www.leilaodearte.com>. Acesso em: 25 mar. 2020.
Vik Muniz. Disponível em: <www.pinterest.ca>. Acesso em: 25 mar. 2020.
Vik Muniz. Disponível em: <www.pt.wikipedia.org>. Acesso em: 25 mar. 2020.

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