Volto a falar sobre o
artista plástico paulistano Luiz Paulo Baravelli. Por ironia, enquanto eu
redigia esta postagem, passava no canal televisivo Arte 1 um documentário sobre
o artista, no amplo atelier de LPB. Os textos e análises semióticas a seguir
são inteiramente meus. Boa leitura!
Acima, Operetas, Matinada Mexicana. Uma mulher translúcida, quase
invisível, espreguiça-se, no gostoso pecadinho da Preguiça, como um casal que
topa ficar mais um tempo na cama, abraçadinhos. Esta mulher, este fantasma, é
Tao, o invisível, numa forma de governo tão poderosa que sequer pode ser
percebida, na virtude de uma pessoa discreta, que age nos bastidores, longe de
egocêntricos exibicionismos, ao contrário de uma pessoa superexposta na Mídia.
É um transparente véu de noiva, como num dia brumoso, no modo como a Vida é tal
dia brumoso, e cabe a cada um de nós o que fazer de tal dia. O dia de Sol é
aqui fabuloso, aberto, saudável, iluminado, no modo como é um desperdício
(necessário) entrar em quarentena em meio a dias tão belos de Sol. Na extrema
direita inferior, vemos recortes de papel, figuras humanas, numa hierarquia,
como bonecas russas, no modo como cada um vem de um ventre, que por sua vez
veio de outro etc. É no modo de se organizar uma fila na pré escola, com os
mais baixinhos no início da fila e com os mais altos ao final, nas intenções
humanas organizacionais, na tentativa de se impor ordem racional em meio ao
caos, no inevitável modo como há espíritos mais depurados do que outros, fazendo
do apuro moral tal critério organizacional espiritual. Este quadro tem uma
perspectiva, talvez renascentista, na revolução que o Renascimento trouxe a uma
Europa ainda medieval, no modo como as vogues, as ondas de renovação, sempre
vêm, irrefreavelmente. Aqui, temos um cenário deserto, rimando com a sensação
destes dias de isolamento por causa do Coronavírus, num cenário um tanto
apocalíptico, como me disse um ex professor, como no filme Eu Sou a Lenda, numa Nova York deserta, desolada, num homem cuja
única companhia é um cachorro, no modo como o Umbral deve ser assim, uma cidade
deserta e desolada, sem uma viva alma para se ver ou conversar, numa
excruciante sensação de solidão, de carência, de fragilidade, havendo no
Trabalho o bálsamo para todas essas dores, numa pessoa que, mesmo obrigada a
ficar em casa, trabalha em casa, e não é o Labor a fonte de dignidade e
felicidade humana? Como disse Leonardo DiCaprio: “Trabalho é essencial”. Vemos
um paredão bem vermelho, como se estivesse sangrando, como num coração sofrendo
por uma paixão não correspondida. É como uma pizza bem condimentada,
apimentada, na boa culinária baiana ou mexicana, no fascínio exercido pelas
especiarias desde as Navegações, havendo uma revolução cultural em meio a
coisas tão simples como um pau de canela. Aqui, o Sol é intenso, de Verão, e
uma grande sombra é projetada na cena, como na sombra de um gigante, na
capacidade que certas (e poucas) pessoas têm em brilhar, em se destacar,
pessoas autodidatas, que sabem que não há faculdade que ensine o brilhar. Vemos
um paredão bem dourado, intenso, numa cor bem mexicana, como na cozinha do
restaurante da Dona Florinda, na cor de condimentos, de temperos, de calor, com
estes chefs de renome mundial, encantando com sabores de todas as partes do
Mundo, na universalidade humana gastronômica, pois comer bem é algo bem humano,
desde o sofisticado parisiense ao índio amazônico. O chão aqui é terroso,
limpo, uniforme, maculado por poucas pegadas, como num Sherlock Holmes,
seguindo a Lógica para desvendar crimes, numa poderosa prova de Inteligência,
de rascunho racional, desvendando mistérios e trazendo luz e esclarecimento à
Humanidade. Bem ao fundo na perspectiva, vemos uma pitoresca casinha com uma
aconchegante chaminé, numa casa que vejo sempre em Gramado, uma casa
aconchegante, com uma bela lareira para receber os amigos em tardes de Inverno,
só que uma casa um tanto abandonada, com potencial a ser desenvolvido. Atrás do
muro dourado, uma árvore que luta para aparecer e se mostrar, querendo ser vista,
reconhecida. É o desejo de cada artista, em ser respeitado, em se destacar, em um Mundo duro, sabemos,
um Mundo que dá a impressão de que nada mais é necessário, dando a sensação de
rejeição, sensação que tem que ser superada pelo artista.
Acima, Os Sentidos. Aqui, temos uma reunião, talvez de membros da mesma
família, só que aqui há muita distinção, e cada figura tem personalidade
própria, como nos assombrosos bustos romanos do Met. Na extrema direita, uma
marca que parece ser um entalhe, como num ferro quente sobre uma superfície de
madeira. É como uma mancha de petróleo, como óleo vazado de um navio,
emporcalhando praias, nas imperfeições feias do progresso humano. É como uma
reunião de lagos, num recorte complexo, como nas várias ilhas canadenses,
exigindo ao Homem que dê nomes e graças para cada ilha, na imposição de beleza
e ordem a um mundo tão caótico e sem nome. É um rosto bem disforme, e mal
podemos observar feições humanas. São traços radicais, toscos, como num entalhe
feito de forma bem rústica, como numa casa rústica, com o chão interior de
terra, no que me remete a uma adega de um senhor, com um chão de terra, pois
nada mais pertinente, visto que o vinho é um produto das entranhas da terra.
Aqui, é como uma borboleta sombria, sem muita cor ou beleza, numa borboleta
subestimada por sua feiura, como numa pedra de ametista – feia por fora e bela
por dentro, como um artista que teve que batalhar muito até atingir a
notoriedade, no sapo se transformando em príncipe, ou na Fera se rendendo à Bela,
na vitória do Amor sobre as Sombras. Mais do ladinho, vemos uma forma verde,
com dois grandes olhos que observam tudo, numa onisciência, com olhos ávidos e
famintos, no olho de um artista observando o Mundo, querendo chamar a atenção
deste. São os enigmáticos olhos de odalisca, com um véu escondendo e
instigando, como na personagem Ano do Véu, de Patricia Pillar, numa majestosa
cena de revelação, na vitória da Beleza, no fascínio que a atriz exerce sobre o
escritor Luis Fernando Verissimo. É um verde natural, da cor de um gafanhoto,
um louva a deus, como num fedefede sendo esmagado, num gambá, num ato de
repulsão, querendo manter certa distância, no distanciamento respeitoso, no
modo como muitas pessoas famosas não podem se dar ao luxo de sair na Rua para
passear, perdendo a deliciosa prerrogativa do cidadão comum de ir e vir – tudo
sem seu preço. Mais do ladinho, um rosto um pouco mais deformado, como se
estivesse derretendo, com linhas delgadas e uma certa porção em amarelo, na cor
da vitória, do topo do pódio, na sensação deliciosa de se ganhar um prêmio, um
reconhecimento, um estímulo, uma alegria, uma homenagem. Este rosto é como o
personagem Slot de Os Goonies, numa
horrenda criatura que, ao final, acaba revelando uma beleza e uma nobreza
arrebatadoras, como na revelação de uma certa cantora em um concurso televisivo
de cantores amadores, uma mulher que, antes subestimada em sua feiura, acaba
surpreendendo todos com uma voz majestosa, no patinho feio se revelando cisne,
na vitória da alma sobre a carne. Este rosto tem olhos desencontrados, como num
camaleão, olhando para direções diferentes. E tem uma boca discreta, comedida,
e um aspecto de gordinha, de uma pessoa que sabe como é bom o pecadinho da Gula,
o que me remete de uma senhora obesa e bela em um parque da Disney, em Orlando,
EUA, buscando lá uma tora de encomendada, numa mulher de uma altivez de dar
inveja a muitas magrelas – Beleza vem de dentro, vide tantas moças anoréxicas
e, consequentemente, feias. Por fim, na extrema esquerda, um rosto de uma cor
de argila, como na idosa Rose em Titanic,
fazendo vasos de cerâmica, no valor das mãos que servem ao Mundo, como me disse
minha falecida avó, sobre si mesma: “Estas mãos foram úteis ao Mundo, pois com
elas lavei, passei, cozinhei e costurei”. Este rosto tem um aspecto de pinturas
rupestres, primitivas, num Ser Humano que foi adquirindo sofisticação,
diferenciando-se dos outros animais, pois há algum outro animal de produz Arte?
Aqui, é como um bloco de granito cortado, com formas que, apesar de ser uma
dura pedra aparentemente imutável, tem vestígios liquidiscentes, pois tudo que
é Matéria está fadado, cedo ou tarde, à danação.
Acima, Os Sentidos (2). Faço aqui uma imersão maior nestas duas obras. A
mulher da direita tem uma espécie de disco de ouro, na consagração de artistas
que se tornam grandes sucessos de Mercado, no claro objetivo da Indústria
Fonográfica – vender. É o esmagador sistema das gravadoras, fazendo com que a
composição da letra e da música pertençam aos autores, mas fazendo com que a
gravação da canção em si seja de completa propriedade da gravadora, no modo
como o finado e genial artista Prince se dizia um escravo de tal indústria, num
contexto em que a gravadora sequer notifica o artista do uso do fonograma, da
gravação. É um Mundo duro. Os olhos aqui estão deslocados, e têm tamanhos
diferentes, com se pulsassem em frequências diferentes, cada um com seu ritmo e
sua identidade, no modo como os relacionamentos amorosos são difíceis, pois o
segredo para a longevidade de um casamento é Paciência, ou seja, um tendo a
paciência para aguentar os defeitos do outro, visto que uma pessoa, por mais
benéfica eu seja, tem lá seus defeitos e suas arestas a ser aparadas pelas
vicissitudes da Vida. Esta mulher está desfigurada e distorcida como as linhas
dos azulejos debaixo da água em uma piscina, no mistério científico da Matéria
Escura, a cola invisível que mantém o Cosmos unido. Esta desfiguração é o total
filme de terror que é a vida de uma certa socialite americana, uma mulher que
fez tantas cirurgias plásticas que se tornou desfigurada, horrível, um
pesadelo, na falta de ética de um cirurgião plástico que topa operá-la, só para
ganhar dinheiro da socialite, mesmo vendo que a tal mulher já está desfigurada,
e que uma nova cirurgia só a deixará ainda mais disforme. As linhas desta face
são incertas como rios cortando terras sinuosamente, alimentando e purificando,
no inevitável progresso humano que acarreta em poluição, e temos que dar um
certo crédito aos ecologistas, pois a Terra é uma só, e não podemos ir a outros
planetas, ao menos não a um planeta tão rico e cheio de Vida como o nosso. A
boca desta mulher tem um sorriso bem sutil e discreto, na virtude da Discrição,
como num homem de Tao, que sabe que o exibicionismo não traz respeito, pois a
pessoa que se exibe por se exibir não conquista o respeito das pessoas. A boca
é da cor de lavanda, no fascínio exercido pelas fragrâncias, no prazer de estar
perto de alguém perfumado, como dizem que era o perfume metafísico de Chico
Xavier, o maior médium da História, uma pessoa de uma humildade avassaladora, num
homem sábio de Tao, que só se dizia um mero carteiro, transmitindo mensagens
entre os planos terrestre e espiritual. Já, o homem da esquerda é mais tosco e
enigmático e seus olhos, como círculos, são incertos e também disformes, como
numa pessoa no meio de uma crise existencial, um momento em que é muito difícil
que a pessoa enxergue o Mundo com clareza, ficando confuso, como em um
autêntico labirinto, como no fascinante filme Labirinto – A Magia do Tempo, numa personagem que mergulha num
lugar muito traiçoeiro, com várias pistas falsas e confusas, no modo como não é
fácil para a pessoa encontrar um norte em sua própria vida, e feliz daquele que
encontra. Aqui, é como se fosse uma antiguidade, com um aspecto de um objeto
que passou por muito tempo, apresentando os inevitáveis sinais de
envelhecimento, no modo como a Maturidade é uma libertação, pois a pessoa que é
jovem demais não faz escolhas muito sábias, no caminho de crescimento,
engajando dois processos – o progresso espiritual em si e o progresso da criança
virando adulta, podendo engajar ainda mais outro processo, que é a passagem,
por exemplo, por um curso universitário. Aqui, os sinais são confusos e dúbios,
como se várias pessoas tivessem desenhado ali, cada um querendo deixar sua
marca, sua inconfundível individualidade. É uma escultura rústica, no modo como
o rústico acolhe, pois é sem rígidas formalidades – é como um velho amigo, um
amigo de décadas. É confortante e agradável. Tao.
Acima, Os Sentidos (3). A obra da direita é o rosto de uma jovem mulher,
talvez uma melindrosa dos anos 1920 ou 30. Ela tem o formato aproximado do mapa
do Brasil, talvez num Baravelli patriota, na ironia de que, no exato momento em
que redijo aqui, uma carreata de carros buzinando anda pelas ruas pedindo o fim
do confinamento pelo Coronavírus, e inclusive um dos carros tocava o Hino
Nacional. É a cor vermelha, talvez do Comunismo, num rosto próximo de um Che,
na construção das grandes personalidades carismáticas, na comoção mundial que
foi a morte de Di, no modo como a morte de Elis virou o Brasil de cabeça para
baixo. Aqui, é como se fosse um fruto da terra sendo arrancado, trazendo junto
de si a raiz, a base, o ponto forte da vida de uma pessoa, a referência, talvez
a família, na importância dos laços familiares, os quais nunca se dissolvem com
o Desencarne. É como se fosse um balão com uma cordinha, encantando crianças,
na magia de algo que nega a dura e inevitável Lei da Gravidade. O pescoço é
como se fosse um cabo de algum instrumento, talvez na foice e no martelo,
simbolizando aquilo que dá sentido, cor e sabor à vida de uma pessoa – o Labor,
em tardes brumosas que têm que ser preenchidas com trabalho, no modo como,
desencarnada, a pessoa nota que o trabalho segue sendo essencial, e não é Tao
um grande trabalhador? Estas obras de Baravelli dão um certo aspecto
labiríntico à galeria, com o espectador se deparando com figuras tão imponentes
e de tanta personalidade, como num torneio esportivo de qualquer esporte, como
Tênis, com os grandes mestres se confrontando na quadra, atraindo a atenção do
Mundo no embate entre titãs, como no fascínio que o Coliseu exercia sobre o
cidadão romano, com gladiadores competindo pela glória da Vitória. Aqui, o
cabelo da mulher é de um imprevisível preto, negro como a asa da graúna. Sua
boca é séria e mínima, fechada, talvez fechada para a interação social, como
num rapaz autista que conheci, o qual dizia, para qualquer pessoa que quisesse
interagir com ele, a frase seca: “Não quero!”. Esta boca é como um cacau,
exercendo o fascínio do chocolate, no perfume de uma chocolateria gramadense,
no velho e bom pecadinho da Gula. Os olhos desta mulher fitam o infinito, num
espírito que tenta, sem sucesso, entender o que é o Infinito, a Eternidade,
numa vizinhança cheia de Paz, num mundo em que se vive de verdade, sem as
toscas interrupções das guerras e conflitos. Já, à esquerda, vemos uma espécie
de Davi de Michelangelo, com um perfume azulado, como na fragrância de Antonio
Banderas Blue Seduction, ou seja, Sedução Azul. O Davi olha para o lado,
incerto, sem perceber que é fitado pelo espectador. Ele está completamente
calado e introspectivo, talvez refletindo sobre algo, sobre qual é o sentido de
tudo isso, no formidável e irreverente filme Dogma, no qual Deus é uma mulher, não por deboche, mas para renovar
a Fé e trazer um pouco de perturbação aos padrões misóginos patriarcais. Na
cabeça deste homem, vemos formas que parecem galhos, numa fertilidade criativa,
ou como serpentes de Medusa, na cabeça do monstro sendo cortada, para, assim,
trazer a sanidade do pensamento racional, como num Aragorn decepando um monstro
malicioso. Os olhos verdes azulados são como joias, deixando transparecer as
águas mediterrâneas, como no segundo ensaio fotográfico de Galisteu para a
Playboy, ou como no extremo bom gosto da Playboy de Maitê Proença, numa revista
que prima pelo sexy sem ser vulgar, numa linha tênue a qual, apesar de fina, é
clara, sendo uma honra para uma mulher posar para tal periódico, na vitória do
bom gosto sobre a vulgaridade, como no inocente nu artístico. O topo da cabeça
do rapaz traz formas como a silhueta de prédios numa grande cidade, numa cidade
apolínea, longe das vicissitudes como o Coronavírus, na promessa de uma
dimensão melhor, onde gregos e troianos encontram Paz, finalmente.
Acima, Os Sentidos (4). Aqui, temos um embate de várias figuras imponentes,
como na antiga bancada do Jornal do Almoço, na RBSTV, com cada um expressando
suas impressões e conceitos, como no extinto televisivo Barraco MTV, com várias pessoas expressando suas opiniões sobre o
assunto da semana. Aqui, é como uma banca de professores analisando algum
trabalho de monografia, no fim de um curso universitário, quando o aluno é
confrontado e questionado, tendo que defender a própria tese, desejando impor
respeito aos exigentes mestres. Aqui, é como um buffet, com várias opções, na
questão do livre arbítrio, num espírito que é livre para ir aonde quiser, ou
como no restrito rol dos atores estelares, que podem se dar ao luxo de escolher
o que fazer, com diretores ao redor do Mundo sonhando em trabalhar com tais
estrelas, ao contrário do ator sodido, que tem que rezar para conseguir algum
papel e dar graças a Deus quando o obtém, numa questão hierárquica, num
ambiente em que a bajulação e a massagem de Ego correm soltas, de forma
promíscua e generalizada, algo que desaparece na Dimensão Metafísica, o plano
onde temos a certeza de que somos muito amados e especiais, ao contrário da
dúvida cinzenta da Encarnação. Aqui, é como uma loja, oferecendo diversos
produtos, num apelo de diversidade, no modo como a diversidade tem que ser
respeitada, como numa rica e colorida galeria de deuses, santos ou atores
estrelas, pois qual seria a razão da Arte se todos os artistas fossem iguais?
Aqui, respira-se ar de Liberdade, ao contrário de um sistema ditatorial, que
busca padronizar os cidadãos, eliminando o livre arbítrio e impedindo que o
cidadão desenvolva sua personalidade espiritual, no modo como Tao não erra no
que faz, dando à luz filhos distintos, únicos, pois não haveria lógica em duas
pessoas serem idênticas... Começando a contar as obras a partir da esquerda, o
primeiro rosto é como uma flor sustentada por um cabo, num homem apaixonado,
oferecendo flores, insinuando intenções amorosas, num homem que, apesar de
romântico, tem que ter uma proposta sólida, pés no chão, pois casamento não é
apenas Amor; é também conveniência. O segundo rosto é de um cinza metálico, como
num homem confinado cruelmente em uma máscara de ferro, ou como o homem de lata
de O Mágico de Oz. É um homem
blindado, pronto para o combate, com olhos agudos, olhando para o lado, numa
visão afiada, fria, técnica, na construção técnica do espírito, na eliminação,
na mortificação de emoções que fazem sofrer, como ciúmes ou raiva. É uma
armadura que rechaça flechas, numa pessoa que adquiriu o controle de sua
própria vida, rejeitando que os outros lhe digam como viver, e não é triste uma
pessoa que não é dona de si mesma? Como diz numa letra de música: “Que você lhe
diga, pelo menos uma vez, quem é mesmo o dono de quem”. Aqui, é como uma chapa
metálica saindo de uma indústria na virtude da produtividade, no desafio que é
produzir em meio a dias ociosos de isolamento viral. O terceiro rosto tem um
olhar triste, pensativo, talvez numa pessoa em meio a uma desmotivação
depressiva, num pênis flácido, sem tesão pela Vida, como uma grande amiga
minha, perdida em meio a sentimentos de frustração e perda, num horrendo
desnorteamento, mas numa esperança, pois, disse-me uma ótima psicoterapeuta, as
crises são positivas. O quarto rosto é mais fechado, como numa pessoa que se
isolou do Mundo, como na personagem Hellen no início do filme A Morte Lhe Cai Bem, isolada do Mundo,
consumida em meio de sentimentos excruciantes de ódio e vingança. No quinto
rosto, olhos agudos e desafiadores, que olham para uma direção diferente do
rosto, que está de perfil. Há um quadrado transparente, num jogo erótico entre
esconder e revelar, numa pessoa que sabe como provocar as pessoas, fazendo
render uma carreira, como se essa pessoa soubesse surfar instintivamente em tal
onda. Uma linha reta corta verticalmente o rosto, na divisão racional entre
antes de depois, entre eu e você. O último rosto tem dois olhos que parecem
duas galáxias “namorando”, fundindo-se, transando, formando algo novo, na matéria
de artista plástico em pegar elementos, combiná-los e produzir coisas novas.
Acima, sem título. Na porção
esquerda, um majestoso Sol, mas não um Sol dourado na Terra, mas um por do Sol
azulado de Marte, na diversidade vasta de esferas ao redor do Cosmos, no fato
de que seria difícil imaginar que há Vida somente em nosso planetinha azul. É
um Sol que sabe distribuir sua energia para todos os seus filhos, como se um
patriarca tivesse um poder gravitacional em reunir a família em uma noite de
Natal, no poder de uma pessoa em unir outrem, deixando saudades quando tais
patriarcas partem. Vemos um homem vagando em direção ao Sol, em direção ao
esclarecimento, numa caminhada de depuração, onde a pessoa se mortifica em
relação a tolas ilusões auspiciosas, tornando-se uma pessoa mais inteligente,
racional, pés no chão, uma pessoa que vai aprendendo o que realmente importa na
Vida, que é a depuração moral, como ver uma pessoa perdendo uma cédula de
dinheiro e avisar na hora tal pessoa, pois como podemos ser irmãos se não nos
respeitamos? É uma estrada solitária, nos necessários momentos de solitude, no
modo como é insuportável, a qualquer pessoa, não ter uns momentos consigo
mesmo. Ao centro do quadro, a silhueta de uma mulher sensual, fazendo um
striptease, tirando sua meia calça, provocando o Mundo, como num artista
provocador, que causa comoções, fazendo da Arte uma ferramenta para interferir
na Vida em Sociedade, mexendo com as emoções das pessoas, no modo como a Arte não
teria sentido em meio a um contexto insensível, como um mendigo, sendo ignorado
na Rua. Podemos ouvir o som de uma música sexy para o despir, no complicado
jogo de revelar sem se entregar por completo, rechaçando o óbvio, o vulgar, o
trivial, no discernimento entre sensual e sexual, no modo como, na Dimensão
Metafísica, há uma castração, não uma castração física, mas espiritual, no
expresso aconselhamento dos espíritas: “Mortifique o espírito, não o corpo”. E
a mortificação é isto, na metáfora do Castelo de Grayskull, do herói He-Man: há
o vilão Esqueleto, que é o mal vivo, operante; e há Grayskull, que é o Mal
mortificado, vencido, derrotado, eliminado. Logo ao lado desta sexy mulher, vemos
um círculo claro, como nos holofotes em algum teatro ou show, como nos
holofotes hollywoodianos, como se estivessem procurando por algo, por uma
estrela, no artista no palco, no momento mágico em que, num belo teatro, o
artista é o centro do Universo, angariando todas as atenções, numa Maria Callas
encantando o Mundo com sua técnica vocal, como disse um finado diretor teatral:
“Nada mais mágico do que o momento em que a cortina se abre e a cenografia é
visualizada pelo espectador”. Esta mulher tem formas que remetem a asas de
anjo, na liberdade, como disse recentemente uma amiga psicóloga: “A Mulher tem
que ser livre”, numa mulher que tem a força para desafiar os preconceitos
patriarcais, nos quais a menina, assim que nasce, é colocada “debaixo de sete
chaves” pelo próprio pai, o qual visa entregar a menina, pura e casta, na
igreja para o marido, nos preconceitos do Mundo: “Homem pode tudo; mulher pode
nada”, atiçando a fúria de mulheres lésbicas, as quais, em inteligência,
detectam, desde cedo, tal rede preconceituosa – vida longa ao contestador, à
elite intelectual! Já, na porção mais à direita no quadro, um aglomerado
confuso de letras e palavras, como num ambiente em que muitas opiniões são
expressas, no aconselhamento de Tao: “Há muita falação por aí. É realmente
melhor ficar calado”. Como ouvi uma pertinente frase: “O que é pouco, aparece;
o que é muito, aborrece”, no caminho limpo e minimalista de Tao, atentando-se
ao que realmente importa, como num homem simples, sem frescuras ou afetações
pernósticas. Aqui, é como um alfabeto confuso, e as letras parecem competir umas
com as outras, num plano competitivo, como na Escola, em que o professor elege
como darlings, como queridinhos, os
alunos aplicados e esforçados, que levam o curso a sério.
Referências bibliográficas:
Luiz Paulo Baravelli. Disponível em: <www.catalogodasartes.com.br>. Acesso em: 18
mar. 2020.
Luiz Paulo Baravelli. Disponível em: <www.galeriamarceloguarnieri.com.br>. Acesso em:
18 mar. 2020.
Luiz Paulo Baravelli. Disponível em: <www.obrasdarte.com>. Acesso em: 18 mar. 2020.






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