quarta-feira, 1 de abril de 2020

Bravo, Baravelli! (Parte 2)


                                       
Volto a falar sobre o artista plástico paulistano Luiz Paulo Baravelli. Por ironia, enquanto eu redigia esta postagem, passava no canal televisivo Arte 1 um documentário sobre o artista, no amplo atelier de LPB. Os textos e análises semióticas a seguir são inteiramente meus. Boa leitura!


Acima, Operetas, Matinada Mexicana. Uma mulher translúcida, quase invisível, espreguiça-se, no gostoso pecadinho da Preguiça, como um casal que topa ficar mais um tempo na cama, abraçadinhos. Esta mulher, este fantasma, é Tao, o invisível, numa forma de governo tão poderosa que sequer pode ser percebida, na virtude de uma pessoa discreta, que age nos bastidores, longe de egocêntricos exibicionismos, ao contrário de uma pessoa superexposta na Mídia. É um transparente véu de noiva, como num dia brumoso, no modo como a Vida é tal dia brumoso, e cabe a cada um de nós o que fazer de tal dia. O dia de Sol é aqui fabuloso, aberto, saudável, iluminado, no modo como é um desperdício (necessário) entrar em quarentena em meio a dias tão belos de Sol. Na extrema direita inferior, vemos recortes de papel, figuras humanas, numa hierarquia, como bonecas russas, no modo como cada um vem de um ventre, que por sua vez veio de outro etc. É no modo de se organizar uma fila na pré escola, com os mais baixinhos no início da fila e com os mais altos ao final, nas intenções humanas organizacionais, na tentativa de se impor ordem racional em meio ao caos, no inevitável modo como há espíritos mais depurados do que outros, fazendo do apuro moral tal critério organizacional espiritual. Este quadro tem uma perspectiva, talvez renascentista, na revolução que o Renascimento trouxe a uma Europa ainda medieval, no modo como as vogues, as ondas de renovação, sempre vêm, irrefreavelmente. Aqui, temos um cenário deserto, rimando com a sensação destes dias de isolamento por causa do Coronavírus, num cenário um tanto apocalíptico, como me disse um ex professor, como no filme Eu Sou a Lenda, numa Nova York deserta, desolada, num homem cuja única companhia é um cachorro, no modo como o Umbral deve ser assim, uma cidade deserta e desolada, sem uma viva alma para se ver ou conversar, numa excruciante sensação de solidão, de carência, de fragilidade, havendo no Trabalho o bálsamo para todas essas dores, numa pessoa que, mesmo obrigada a ficar em casa, trabalha em casa, e não é o Labor a fonte de dignidade e felicidade humana? Como disse Leonardo DiCaprio: “Trabalho é essencial”. Vemos um paredão bem vermelho, como se estivesse sangrando, como num coração sofrendo por uma paixão não correspondida. É como uma pizza bem condimentada, apimentada, na boa culinária baiana ou mexicana, no fascínio exercido pelas especiarias desde as Navegações, havendo uma revolução cultural em meio a coisas tão simples como um pau de canela. Aqui, o Sol é intenso, de Verão, e uma grande sombra é projetada na cena, como na sombra de um gigante, na capacidade que certas (e poucas) pessoas têm em brilhar, em se destacar, pessoas autodidatas, que sabem que não há faculdade que ensine o brilhar. Vemos um paredão bem dourado, intenso, numa cor bem mexicana, como na cozinha do restaurante da Dona Florinda, na cor de condimentos, de temperos, de calor, com estes chefs de renome mundial, encantando com sabores de todas as partes do Mundo, na universalidade humana gastronômica, pois comer bem é algo bem humano, desde o sofisticado parisiense ao índio amazônico. O chão aqui é terroso, limpo, uniforme, maculado por poucas pegadas, como num Sherlock Holmes, seguindo a Lógica para desvendar crimes, numa poderosa prova de Inteligência, de rascunho racional, desvendando mistérios e trazendo luz e esclarecimento à Humanidade. Bem ao fundo na perspectiva, vemos uma pitoresca casinha com uma aconchegante chaminé, numa casa que vejo sempre em Gramado, uma casa aconchegante, com uma bela lareira para receber os amigos em tardes de Inverno, só que uma casa um tanto abandonada, com potencial a ser desenvolvido. Atrás do muro dourado, uma árvore que luta para aparecer e se mostrar, querendo ser vista, reconhecida. É o desejo de cada artista, em ser respeitado, em se destacar, em um Mundo duro, sabemos, um Mundo que dá a impressão de que nada mais é necessário, dando a sensação de rejeição, sensação que tem que ser superada pelo artista.


Acima, Os Sentidos. Aqui, temos uma reunião, talvez de membros da mesma família, só que aqui há muita distinção, e cada figura tem personalidade própria, como nos assombrosos bustos romanos do Met. Na extrema direita, uma marca que parece ser um entalhe, como num ferro quente sobre uma superfície de madeira. É como uma mancha de petróleo, como óleo vazado de um navio, emporcalhando praias, nas imperfeições feias do progresso humano. É como uma reunião de lagos, num recorte complexo, como nas várias ilhas canadenses, exigindo ao Homem que dê nomes e graças para cada ilha, na imposição de beleza e ordem a um mundo tão caótico e sem nome. É um rosto bem disforme, e mal podemos observar feições humanas. São traços radicais, toscos, como num entalhe feito de forma bem rústica, como numa casa rústica, com o chão interior de terra, no que me remete a uma adega de um senhor, com um chão de terra, pois nada mais pertinente, visto que o vinho é um produto das entranhas da terra. Aqui, é como uma borboleta sombria, sem muita cor ou beleza, numa borboleta subestimada por sua feiura, como numa pedra de ametista – feia por fora e bela por dentro, como um artista que teve que batalhar muito até atingir a notoriedade, no sapo se transformando em príncipe, ou na Fera se rendendo à Bela, na vitória do Amor sobre as Sombras. Mais do ladinho, vemos uma forma verde, com dois grandes olhos que observam tudo, numa onisciência, com olhos ávidos e famintos, no olho de um artista observando o Mundo, querendo chamar a atenção deste. São os enigmáticos olhos de odalisca, com um véu escondendo e instigando, como na personagem Ano do Véu, de Patricia Pillar, numa majestosa cena de revelação, na vitória da Beleza, no fascínio que a atriz exerce sobre o escritor Luis Fernando Verissimo. É um verde natural, da cor de um gafanhoto, um louva a deus, como num fedefede sendo esmagado, num gambá, num ato de repulsão, querendo manter certa distância, no distanciamento respeitoso, no modo como muitas pessoas famosas não podem se dar ao luxo de sair na Rua para passear, perdendo a deliciosa prerrogativa do cidadão comum de ir e vir – tudo sem seu preço. Mais do ladinho, um rosto um pouco mais deformado, como se estivesse derretendo, com linhas delgadas e uma certa porção em amarelo, na cor da vitória, do topo do pódio, na sensação deliciosa de se ganhar um prêmio, um reconhecimento, um estímulo, uma alegria, uma homenagem. Este rosto é como o personagem Slot de Os Goonies, numa horrenda criatura que, ao final, acaba revelando uma beleza e uma nobreza arrebatadoras, como na revelação de uma certa cantora em um concurso televisivo de cantores amadores, uma mulher que, antes subestimada em sua feiura, acaba surpreendendo todos com uma voz majestosa, no patinho feio se revelando cisne, na vitória da alma sobre a carne. Este rosto tem olhos desencontrados, como num camaleão, olhando para direções diferentes. E tem uma boca discreta, comedida, e um aspecto de gordinha, de uma pessoa que sabe como é bom o pecadinho da Gula, o que me remete de uma senhora obesa e bela em um parque da Disney, em Orlando, EUA, buscando lá uma tora de encomendada, numa mulher de uma altivez de dar inveja a muitas magrelas – Beleza vem de dentro, vide tantas moças anoréxicas e, consequentemente, feias. Por fim, na extrema esquerda, um rosto de uma cor de argila, como na idosa Rose em Titanic, fazendo vasos de cerâmica, no valor das mãos que servem ao Mundo, como me disse minha falecida avó, sobre si mesma: “Estas mãos foram úteis ao Mundo, pois com elas lavei, passei, cozinhei e costurei”. Este rosto tem um aspecto de pinturas rupestres, primitivas, num Ser Humano que foi adquirindo sofisticação, diferenciando-se dos outros animais, pois há algum outro animal de produz Arte? Aqui, é como um bloco de granito cortado, com formas que, apesar de ser uma dura pedra aparentemente imutável, tem vestígios liquidiscentes, pois tudo que é Matéria está fadado, cedo ou tarde, à danação.


Acima, Os Sentidos (2). Faço aqui uma imersão maior nestas duas obras. A mulher da direita tem uma espécie de disco de ouro, na consagração de artistas que se tornam grandes sucessos de Mercado, no claro objetivo da Indústria Fonográfica – vender. É o esmagador sistema das gravadoras, fazendo com que a composição da letra e da música pertençam aos autores, mas fazendo com que a gravação da canção em si seja de completa propriedade da gravadora, no modo como o finado e genial artista Prince se dizia um escravo de tal indústria, num contexto em que a gravadora sequer notifica o artista do uso do fonograma, da gravação. É um Mundo duro. Os olhos aqui estão deslocados, e têm tamanhos diferentes, com se pulsassem em frequências diferentes, cada um com seu ritmo e sua identidade, no modo como os relacionamentos amorosos são difíceis, pois o segredo para a longevidade de um casamento é Paciência, ou seja, um tendo a paciência para aguentar os defeitos do outro, visto que uma pessoa, por mais benéfica eu seja, tem lá seus defeitos e suas arestas a ser aparadas pelas vicissitudes da Vida. Esta mulher está desfigurada e distorcida como as linhas dos azulejos debaixo da água em uma piscina, no mistério científico da Matéria Escura, a cola invisível que mantém o Cosmos unido. Esta desfiguração é o total filme de terror que é a vida de uma certa socialite americana, uma mulher que fez tantas cirurgias plásticas que se tornou desfigurada, horrível, um pesadelo, na falta de ética de um cirurgião plástico que topa operá-la, só para ganhar dinheiro da socialite, mesmo vendo que a tal mulher já está desfigurada, e que uma nova cirurgia só a deixará ainda mais disforme. As linhas desta face são incertas como rios cortando terras sinuosamente, alimentando e purificando, no inevitável progresso humano que acarreta em poluição, e temos que dar um certo crédito aos ecologistas, pois a Terra é uma só, e não podemos ir a outros planetas, ao menos não a um planeta tão rico e cheio de Vida como o nosso. A boca desta mulher tem um sorriso bem sutil e discreto, na virtude da Discrição, como num homem de Tao, que sabe que o exibicionismo não traz respeito, pois a pessoa que se exibe por se exibir não conquista o respeito das pessoas. A boca é da cor de lavanda, no fascínio exercido pelas fragrâncias, no prazer de estar perto de alguém perfumado, como dizem que era o perfume metafísico de Chico Xavier, o maior médium da História, uma pessoa de uma humildade avassaladora, num homem sábio de Tao, que só se dizia um mero carteiro, transmitindo mensagens entre os planos terrestre e espiritual. Já, o homem da esquerda é mais tosco e enigmático e seus olhos, como círculos, são incertos e também disformes, como numa pessoa no meio de uma crise existencial, um momento em que é muito difícil que a pessoa enxergue o Mundo com clareza, ficando confuso, como em um autêntico labirinto, como no fascinante filme Labirinto – A Magia do Tempo, numa personagem que mergulha num lugar muito traiçoeiro, com várias pistas falsas e confusas, no modo como não é fácil para a pessoa encontrar um norte em sua própria vida, e feliz daquele que encontra. Aqui, é como se fosse uma antiguidade, com um aspecto de um objeto que passou por muito tempo, apresentando os inevitáveis sinais de envelhecimento, no modo como a Maturidade é uma libertação, pois a pessoa que é jovem demais não faz escolhas muito sábias, no caminho de crescimento, engajando dois processos – o progresso espiritual em si e o progresso da criança virando adulta, podendo engajar ainda mais outro processo, que é a passagem, por exemplo, por um curso universitário. Aqui, os sinais são confusos e dúbios, como se várias pessoas tivessem desenhado ali, cada um querendo deixar sua marca, sua inconfundível individualidade. É uma escultura rústica, no modo como o rústico acolhe, pois é sem rígidas formalidades – é como um velho amigo, um amigo de décadas. É confortante e agradável. Tao.


Acima, Os Sentidos (3). A obra da direita é o rosto de uma jovem mulher, talvez uma melindrosa dos anos 1920 ou 30. Ela tem o formato aproximado do mapa do Brasil, talvez num Baravelli patriota, na ironia de que, no exato momento em que redijo aqui, uma carreata de carros buzinando anda pelas ruas pedindo o fim do confinamento pelo Coronavírus, e inclusive um dos carros tocava o Hino Nacional. É a cor vermelha, talvez do Comunismo, num rosto próximo de um Che, na construção das grandes personalidades carismáticas, na comoção mundial que foi a morte de Di, no modo como a morte de Elis virou o Brasil de cabeça para baixo. Aqui, é como se fosse um fruto da terra sendo arrancado, trazendo junto de si a raiz, a base, o ponto forte da vida de uma pessoa, a referência, talvez a família, na importância dos laços familiares, os quais nunca se dissolvem com o Desencarne. É como se fosse um balão com uma cordinha, encantando crianças, na magia de algo que nega a dura e inevitável Lei da Gravidade. O pescoço é como se fosse um cabo de algum instrumento, talvez na foice e no martelo, simbolizando aquilo que dá sentido, cor e sabor à vida de uma pessoa – o Labor, em tardes brumosas que têm que ser preenchidas com trabalho, no modo como, desencarnada, a pessoa nota que o trabalho segue sendo essencial, e não é Tao um grande trabalhador? Estas obras de Baravelli dão um certo aspecto labiríntico à galeria, com o espectador se deparando com figuras tão imponentes e de tanta personalidade, como num torneio esportivo de qualquer esporte, como Tênis, com os grandes mestres se confrontando na quadra, atraindo a atenção do Mundo no embate entre titãs, como no fascínio que o Coliseu exercia sobre o cidadão romano, com gladiadores competindo pela glória da Vitória. Aqui, o cabelo da mulher é de um imprevisível preto, negro como a asa da graúna. Sua boca é séria e mínima, fechada, talvez fechada para a interação social, como num rapaz autista que conheci, o qual dizia, para qualquer pessoa que quisesse interagir com ele, a frase seca: “Não quero!”. Esta boca é como um cacau, exercendo o fascínio do chocolate, no perfume de uma chocolateria gramadense, no velho e bom pecadinho da Gula. Os olhos desta mulher fitam o infinito, num espírito que tenta, sem sucesso, entender o que é o Infinito, a Eternidade, numa vizinhança cheia de Paz, num mundo em que se vive de verdade, sem as toscas interrupções das guerras e conflitos. Já, à esquerda, vemos uma espécie de Davi de Michelangelo, com um perfume azulado, como na fragrância de Antonio Banderas Blue Seduction, ou seja, Sedução Azul. O Davi olha para o lado, incerto, sem perceber que é fitado pelo espectador. Ele está completamente calado e introspectivo, talvez refletindo sobre algo, sobre qual é o sentido de tudo isso, no formidável e irreverente filme Dogma, no qual Deus é uma mulher, não por deboche, mas para renovar a Fé e trazer um pouco de perturbação aos padrões misóginos patriarcais. Na cabeça deste homem, vemos formas que parecem galhos, numa fertilidade criativa, ou como serpentes de Medusa, na cabeça do monstro sendo cortada, para, assim, trazer a sanidade do pensamento racional, como num Aragorn decepando um monstro malicioso. Os olhos verdes azulados são como joias, deixando transparecer as águas mediterrâneas, como no segundo ensaio fotográfico de Galisteu para a Playboy, ou como no extremo bom gosto da Playboy de Maitê Proença, numa revista que prima pelo sexy sem ser vulgar, numa linha tênue a qual, apesar de fina, é clara, sendo uma honra para uma mulher posar para tal periódico, na vitória do bom gosto sobre a vulgaridade, como no inocente nu artístico. O topo da cabeça do rapaz traz formas como a silhueta de prédios numa grande cidade, numa cidade apolínea, longe das vicissitudes como o Coronavírus, na promessa de uma dimensão melhor, onde gregos e troianos encontram Paz, finalmente.


Acima, Os Sentidos (4). Aqui, temos um embate de várias figuras imponentes, como na antiga bancada do Jornal do Almoço, na RBSTV, com cada um expressando suas impressões e conceitos, como no extinto televisivo Barraco MTV, com várias pessoas expressando suas opiniões sobre o assunto da semana. Aqui, é como uma banca de professores analisando algum trabalho de monografia, no fim de um curso universitário, quando o aluno é confrontado e questionado, tendo que defender a própria tese, desejando impor respeito aos exigentes mestres. Aqui, é como um buffet, com várias opções, na questão do livre arbítrio, num espírito que é livre para ir aonde quiser, ou como no restrito rol dos atores estelares, que podem se dar ao luxo de escolher o que fazer, com diretores ao redor do Mundo sonhando em trabalhar com tais estrelas, ao contrário do ator sodido, que tem que rezar para conseguir algum papel e dar graças a Deus quando o obtém, numa questão hierárquica, num ambiente em que a bajulação e a massagem de Ego correm soltas, de forma promíscua e generalizada, algo que desaparece na Dimensão Metafísica, o plano onde temos a certeza de que somos muito amados e especiais, ao contrário da dúvida cinzenta da Encarnação. Aqui, é como uma loja, oferecendo diversos produtos, num apelo de diversidade, no modo como a diversidade tem que ser respeitada, como numa rica e colorida galeria de deuses, santos ou atores estrelas, pois qual seria a razão da Arte se todos os artistas fossem iguais? Aqui, respira-se ar de Liberdade, ao contrário de um sistema ditatorial, que busca padronizar os cidadãos, eliminando o livre arbítrio e impedindo que o cidadão desenvolva sua personalidade espiritual, no modo como Tao não erra no que faz, dando à luz filhos distintos, únicos, pois não haveria lógica em duas pessoas serem idênticas... Começando a contar as obras a partir da esquerda, o primeiro rosto é como uma flor sustentada por um cabo, num homem apaixonado, oferecendo flores, insinuando intenções amorosas, num homem que, apesar de romântico, tem que ter uma proposta sólida, pés no chão, pois casamento não é apenas Amor; é também conveniência. O segundo rosto é de um cinza metálico, como num homem confinado cruelmente em uma máscara de ferro, ou como o homem de lata de O Mágico de Oz. É um homem blindado, pronto para o combate, com olhos agudos, olhando para o lado, numa visão afiada, fria, técnica, na construção técnica do espírito, na eliminação, na mortificação de emoções que fazem sofrer, como ciúmes ou raiva. É uma armadura que rechaça flechas, numa pessoa que adquiriu o controle de sua própria vida, rejeitando que os outros lhe digam como viver, e não é triste uma pessoa que não é dona de si mesma? Como diz numa letra de música: “Que você lhe diga, pelo menos uma vez, quem é mesmo o dono de quem”. Aqui, é como uma chapa metálica saindo de uma indústria na virtude da produtividade, no desafio que é produzir em meio a dias ociosos de isolamento viral. O terceiro rosto tem um olhar triste, pensativo, talvez numa pessoa em meio a uma desmotivação depressiva, num pênis flácido, sem tesão pela Vida, como uma grande amiga minha, perdida em meio a sentimentos de frustração e perda, num horrendo desnorteamento, mas numa esperança, pois, disse-me uma ótima psicoterapeuta, as crises são positivas. O quarto rosto é mais fechado, como numa pessoa que se isolou do Mundo, como na personagem Hellen no início do filme A Morte Lhe Cai Bem, isolada do Mundo, consumida em meio de sentimentos excruciantes de ódio e vingança. No quinto rosto, olhos agudos e desafiadores, que olham para uma direção diferente do rosto, que está de perfil. Há um quadrado transparente, num jogo erótico entre esconder e revelar, numa pessoa que sabe como provocar as pessoas, fazendo render uma carreira, como se essa pessoa soubesse surfar instintivamente em tal onda. Uma linha reta corta verticalmente o rosto, na divisão racional entre antes de depois, entre eu e você. O último rosto tem dois olhos que parecem duas galáxias “namorando”, fundindo-se, transando, formando algo novo, na matéria de artista plástico em pegar elementos, combiná-los e produzir coisas novas.


Acima, sem título. Na porção esquerda, um majestoso Sol, mas não um Sol dourado na Terra, mas um por do Sol azulado de Marte, na diversidade vasta de esferas ao redor do Cosmos, no fato de que seria difícil imaginar que há Vida somente em nosso planetinha azul. É um Sol que sabe distribuir sua energia para todos os seus filhos, como se um patriarca tivesse um poder gravitacional em reunir a família em uma noite de Natal, no poder de uma pessoa em unir outrem, deixando saudades quando tais patriarcas partem. Vemos um homem vagando em direção ao Sol, em direção ao esclarecimento, numa caminhada de depuração, onde a pessoa se mortifica em relação a tolas ilusões auspiciosas, tornando-se uma pessoa mais inteligente, racional, pés no chão, uma pessoa que vai aprendendo o que realmente importa na Vida, que é a depuração moral, como ver uma pessoa perdendo uma cédula de dinheiro e avisar na hora tal pessoa, pois como podemos ser irmãos se não nos respeitamos? É uma estrada solitária, nos necessários momentos de solitude, no modo como é insuportável, a qualquer pessoa, não ter uns momentos consigo mesmo. Ao centro do quadro, a silhueta de uma mulher sensual, fazendo um striptease, tirando sua meia calça, provocando o Mundo, como num artista provocador, que causa comoções, fazendo da Arte uma ferramenta para interferir na Vida em Sociedade, mexendo com as emoções das pessoas, no modo como a Arte não teria sentido em meio a um contexto insensível, como um mendigo, sendo ignorado na Rua. Podemos ouvir o som de uma música sexy para o despir, no complicado jogo de revelar sem se entregar por completo, rechaçando o óbvio, o vulgar, o trivial, no discernimento entre sensual e sexual, no modo como, na Dimensão Metafísica, há uma castração, não uma castração física, mas espiritual, no expresso aconselhamento dos espíritas: “Mortifique o espírito, não o corpo”. E a mortificação é isto, na metáfora do Castelo de Grayskull, do herói He-Man: há o vilão Esqueleto, que é o mal vivo, operante; e há Grayskull, que é o Mal mortificado, vencido, derrotado, eliminado. Logo ao lado desta sexy mulher, vemos um círculo claro, como nos holofotes em algum teatro ou show, como nos holofotes hollywoodianos, como se estivessem procurando por algo, por uma estrela, no artista no palco, no momento mágico em que, num belo teatro, o artista é o centro do Universo, angariando todas as atenções, numa Maria Callas encantando o Mundo com sua técnica vocal, como disse um finado diretor teatral: “Nada mais mágico do que o momento em que a cortina se abre e a cenografia é visualizada pelo espectador”. Esta mulher tem formas que remetem a asas de anjo, na liberdade, como disse recentemente uma amiga psicóloga: “A Mulher tem que ser livre”, numa mulher que tem a força para desafiar os preconceitos patriarcais, nos quais a menina, assim que nasce, é colocada “debaixo de sete chaves” pelo próprio pai, o qual visa entregar a menina, pura e casta, na igreja para o marido, nos preconceitos do Mundo: “Homem pode tudo; mulher pode nada”, atiçando a fúria de mulheres lésbicas, as quais, em inteligência, detectam, desde cedo, tal rede preconceituosa – vida longa ao contestador, à elite intelectual! Já, na porção mais à direita no quadro, um aglomerado confuso de letras e palavras, como num ambiente em que muitas opiniões são expressas, no aconselhamento de Tao: “Há muita falação por aí. É realmente melhor ficar calado”. Como ouvi uma pertinente frase: “O que é pouco, aparece; o que é muito, aborrece”, no caminho limpo e minimalista de Tao, atentando-se ao que realmente importa, como num homem simples, sem frescuras ou afetações pernósticas. Aqui, é como um alfabeto confuso, e as letras parecem competir umas com as outras, num plano competitivo, como na Escola, em que o professor elege como darlings, como queridinhos, os alunos aplicados e esforçados, que levam o curso a sério.

Referências bibliográficas:

Luiz Paulo Baravelli. Disponível em: <www.catalogodasartes.com.br>. Acesso em: 18 mar. 2020.
Luiz Paulo Baravelli. Disponível em: <www.galeriamarceloguarnieri.com.br>. Acesso em: 18 mar. 2020.
Luiz Paulo Baravelli. Disponível em: <www.obrasdarte.com>. Acesso em: 18 mar. 2020.

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