Volto a falar sobre o pintor brasileiro Almeida Júnior. Os textos e análises semióticas a seguir são inteiramente meus. Boa leitura!
Acima, Apertar a sela. A delgada árvore ao centro é uma sustentação, como uma pessoa que está por um fio, vulnerável, mal tendo noção de sua situação, talvez subestimando a seriedade da situação. É uma magreza, um minimalismo, como nos cruéis padrões de beleza feminina, forçando a mulher as ser subnutrida, atacando em cheio a autoestima de uma mulher cuja beleza não se encaixa em padrões, como uma menina adolescente que conheci, uma vítima, sequer bebendo água, por achar que isso a inchava, tendo que se urgentemente internada numa clínica psiquiátrica para receber soro na veia – o que mais um pai ou uma mãe pode fazer num caso desses senão internar urgentemente? O cavalo aqui é a fidelidade, como um cão, num companheiro fiel, como uma pessoa solteirona que conheço, tendo dois cães, em busca de uma companhia, no modo como um rádio ligado nos dá a sensação de companhia, tudo para aplacar o doloroso sentimento de solidão, no modo como há pessoas solitárias, num estilo de vida difícil, desenvolvendo, assim, uma carência afetiva enorme, sobrecarregando relacionamentos amorosos, pois a carência destrói relacionamentos, até chegar a um ponto da pessoa não mais suportar tal penúria, como nos versos de canções de uma certa popstar, falando sobre o impacto existencial de ter se tornado mãe e matriarca, na capacidade de manter uma família coesa, como em noites de Natal – quando os patriarcas ou as matriarcas morrem, as família se desintegram, com flancos da mesma família passando a noite de Natal em lugares diferentes, o que é uma lástima, remetendo à família de meu finado cunhado, uma família muito unida, reunindo-se em ocasiões especiais. Aqui são essas cenas pacatas rurais caipiras de Almeida, deixando um pouco de lado os luxos burgueses e os cenários finos e aristocráticos, retratando pessoas simples, entalhadas na dureza da Vida, levando uma vida tão árdua, como um rapaz caminhoneiro que conheci, um homem que levava uma vida bem árdua, viajando o Brasil do Oiapoque ao Chuí, tudo para receber uns trocados no fim do mês, só podendo pagar as contas e sem poder acumular muito dinheiro, uma pessoa usava um pingente em forma de cédulas de dinheiro, com tantos e tantos milhões de brasileiros apostando na Loteria, no modo como pode ser infeliz um ganhador da Loteria, por incrível que pareça, como numa personagem do filmão O Advogado do Diabo, na personagem dizendo: “Eu achava que ter muito dinheiro era bom, mas não é!”. A casinha aqui é bem humilde, porém acolhedora, como numa casinha bem humilde de uma certa família de Capão da Canoa, num nível social em que as pessoas vivem com o mínimo de recursos, na ilusão das classes sociais, pois a nível espiritual a divisão de classes é a partir do apuro moral: Os mais depurados, finos e verdadeiros regem os menos, até chegar ao ponto de uma pessoa de bem, honesta, que quer ganhar a vida trabalhando e não roubando, como uma certa sociopata que conheci, a qual enganou muita, muita gente, num apego incrível ao mundano, ao material, em espírito infeliz que vaga pelas terras inóspitas do Umbral, a dimensão dos que não amam. Aqui remete a um documentário que vi sobre uma anônima e paupérrima localidade da zona rural de Caxias do Sul, com pessoas bem simples, vivendo com o mínimo, ou como no documentário do célebre Eduardo Coutinho, mostrando pessoas que viviam num lixão no Rio de Janeiro, num Mundo tão desigual: Uns com tanto; outros com tão pouco! Aqui é algo plácido e pacato, longe das loucuras de cidades desenvolvidas, na magia rural exercida sobre quem está acostumado com as loucuras diárias de uma cidade, como São Paulo, frenética, com levas intermináveis de motoboys indo e vindo, nas demandas de uma urbe tão desenvolvida. Aqui podemos ouvir o canto dos pássaros, que são um bálsamo para os ouvidos, e podemos ouvir o sensual farfalhar aveludado das árvores, na lástima de florestas sendo destruídas por incêndios, com o Mundo voltando os olhos para o Brasil, no problema dos garimpos ilegais, na interminável sede humana por poder, riqueza e dinheiro, na ancestral fraqueza humana perante o sedutor Anel do Poder, destruindo homens de bom caráter.
Acima, Paisagem no rio das pedras. Aqui é como no túnel de uma vagina, no caminho que leva ao útero de onde viemos, como no final do clássico 2001, no feto voltando ao lar primordial, no cheiro libertador de mar, no retorno que nos aguarda, no fato de que ninguém está na Terra para sempre, na imagem de libertação e esperança do Espírito Santo, no glorioso dia de soltura, na ironia de que, depois de desencarnada, a pessoa se depara com o fato de que não pode ficar parada e improdutiva, tendo que arranjar algum emprego no Plano Superior, o plano maravilhoso no qual não há desemprego, na orientação que dou a qualquer pessoa desencarnada: O vida metafísica não tem enigma - vá trabalhar, meu irmão! É a pergunta que fazemos a qualquer irmão nosso lá em cima: Onde estás trabalhando? Pois até Tao trabalha! Aqui é um túnel, no termo esperançoso de “luz no fim do túnel”, numa travessia, como no Livro dos Mortos do Antigo Egito, com a pessoa passando pelo mundo dos mortos, num livro cheio de encantamentos para auxiliar o passante desencarnado, algo diferente do costume espírita, sem superstições, no hábito espírita de se rezarem orações católicas, no link que existe entre Espiritismo e Catolicismo, também num casamento com a Ciência, que é o desenvolvimento do pensamento lógico, na beleza fria dos números, o Yang, no modo como o pensamento racional serve para deixar o coração tranquilo, como num consultório de Psicoterapia, na missão do terapeuta em nos mostrar a Vida do modo mais frio possível, na imagem da águia voando alto, num símbolo da liberdade do cidadão americano, nos EUA, na contradição ianque, num país que, apesar de se dizer o paladino baluarte democrático da liberdade, proíbe o cidadão de se prostituir, ou seja, o corpo do cidadão pertence a um estado – não é um paradoxo? Aqui o córrego corre naturalmente, em processos existenciais se desenvolvendo naturalmente, no caminho natural do crescimento e da depuração, no modo como as indiscutíveis durezas da Vida vão nos fazendo pessoas melhores, com os pés no chão, vendo o Mundo sem expectativas ou filtros de idealizações, como em personagens como Oscar Schindler, crescendo, iniciando o filme como um playboyzinho fútil e acabando se compadecendo com os sofrimento do Mundo, tecendo a célebre lista que salvou vidas, num filme que tanta comoção causou no Mundo, num merecidíssimo Oscar de Melhor Filme, num trauma bélico para sempre como cicatriz da Humanidade, numa Hollywood na qual não podemos mexer com os judeus, como no caso de Mel Gibson, o qual está até hoje pagando por ter acusado os judeus de assassinar Jesus, na frivolidade do antissemitismo. As árvores aqui nos envolvem e seduzem, como na floresta mágica Lórien de Tolkien, regido pela estranha, bela e amedrontadora Galadriel, o ser mais depurado da lendária Terra Média do autor, uma personagem interpretada pela talentosa Cate Blanchet, uma atriz que nos deslumbra ao desaparecer perante os personagens que interpreta, sendo assim um bom ator, fazendo com que vejamos, na tela, somente o personagem, nunca o ator em si. Aqui sentimos aquele cheiro de mato, de natureza, num perfume rural, na sensação de liberdade de se estar na praia, um lugar tão inspirador, no sedutor e magnético vazio da orla, uma página em branco na qual podemos escrever, e assim é Tao, a folha em branco da Eternidade, este presente incrível, no fato esmagador de que jamais findaremos, uma prova do poder imensurável de Tao, na perspectiva eterna, como na eternidade dos números, na ironia de que sempre existirão números primos, não importando o quanto avancemos na escala numérica, fazendo de Tao tal senso de humor, no modo como já ouvi dizer: a gravidez e o parto são grandes piadas de Deus para com as mulheres. Aqui é uma passagem de vida, num percurso, numa espécie de agenda programada, num percurso cujo fim é o Desencarne, fazendo com que o encarnado improdutivo se dê conta da vida vazia e desinteressante que viveu, abraçando o trabalho, talvez reencarnado num contexto mais produtivo.
Acima, Camponeses chamarizes. Aqui é a universalidade das divisões de trabalho, fazendo do casamento uma sociedade, numa divisão de tarefas, como em tribos amazônicas, nas quais aos homens cabe a tarefa de caça, numa atividade mais agressiva, deixando às mulheres tarefas menos agressivas, como cuidar de crianças e fazer coletas na floresta, numa tarefa análoga às compras em supermercado, na incumbência da mulher, mãe e esposa em manter a casa abastecida com compras, na responsabilidade de nada deixar faltar em casa, nas palavras de minha querida avó Carmen, mostrando-me suas velhas mãos e dizendo: “Essas mãos foram úteis ao Mundo, pois com elas lavei, passei, cozinhei e costurei!”. Aqui é como na tarefa do policial militar em caçar bandidos, detectando quadrilhas e fazendo operações de busca e apreensão, numa imposição de autoridade policial, no modo como não podemos desacatar um policial, o que enquadra crime, nas hierarquias necessárias para a manutenção da ordem, havendo punições para os que desafiam tal ordem, numa ameaça: Se você não quer perder a preciosa liberdade, comporte-se! Aqui os homens estão absolutamente atentos, tensos, fazendo o mínimo de barulho para não afugentar os animais caçados, em caçadores com experiência, sabendo como caçar, sussurrando discretamente um para o outro, como atravessar um rio cautelosamente, sabendo que ali pode haver perigo. Na cena há um contraste, pois os caçadores em destaque esclarecido fazem contraste com a floresta negra, num ambiente sem luz artificial, num caçador que poucos recursos têm para saber onde pode estar o animal, como na tarefa de pesca, num pescador que tem que estar o mais quieto possível, para que, assim, a falta de trepidações na água não afugente os peixes, num trabalho de paciência e persistência. Aqui são homens simples, sem calçados nos pés, numa pobreza que Almeida tanto retrata, fascinando-se pelo povo brasileiro. Aqui os pés descalços são tal indicador de status social, com tênis sendo cobiçados bens de consumo, nos sedutores e auspiciosos apelos da Sociedade de Consumo, da qual somos escravos: Tenho que acordar para trabalhar, ganhar dinheiro e poder adquirir um carro último tipo, como na metáfora de Matrix, um sistema opressor do qual somos escravos e prisioneiros, na Arte imitando a Vida. Aqui, o homem agachado é mais jovem, sendo o outro mais experiente e sábio. O velho pede cautela ao jovem, pois o velho já foi jovem, sabendo como a pouca idade pode trazer percalços à pessoa, na experiência da idade, na época da sabedoria do juízo e da responsabilidade, no modo como pode crescer rápido um primogênito, ajudando os pais a criar os irmãos mais novos, em pesos de responsabilidade, como um senhor que conheço, um drogado de marca maior, sinto em dizer, sem as responsabilidades de se livrar o álcool, da maconha e da cocaína, este pó maldito que tantas vidas destroça, como um senhor que conheço, o qual, por causa do pó, está condenado a passar o resto de seus dias numa clínica psiquiátrica – é um horror. O idoso está pedindo cautela, como se soubesse dos ímpetos imaturos do jovem, como numa pessoa que, de tão imatura, acha que seu próprio insucesso é culpa do Mundo, trazendo aqui o lema católico da pessoa assumindo responsabilidades sobre si mesma: Minha culpa, minha culpa, minha máxima culpa! As mangas arregaçadas são tal dedicação ao labor, no termo “arregaçar as mangas”, como no marketing de um certo Ministro do Trabalho, o qual aparecia em público com as mangas arregaçadas de sua camisa, numa gestão federal que tanto pavor causou ao povo brasileiro. Aqui podemos ouvir os sons furtivos da mata, como grilos, e cada passo dos homens faz o mínimo de barulho, querendo, assim, não afugentar o animal caçado. Aqui é um momento máximo de dedicação e concentração, numa pessoa se doando ao labor, concentrando-se, no fato taoista de que fácil e difícil são faces do mesmo trabalho. As armas são o falo bélico, com canhões penianos destrutivos, como no déspota nortecoreano, investindo tudo em armas.
Acima, Cascata de Votorantin. Podemos ouvir o som poderoso da queda de água, nas forças da natureza, num surfista excitado por um mar cheio de ondas, prostrado perante um mar sem ondas, na questão do desafio, num espírito olímpico, aceitando tais desafios, querendo quebrar recordes, no modo como o Esporte produz tais ídolos, em píncaros de popularidade, como um Pelé, com um funeral digno de rei, no modo como o gênio dá a impressão de que as coisas são fáceis. Aqui é este pincel tão talentoso de Almeida, num quadro que quase é uma fotografia, num quadro cinético, com movimento, dando-nos a impressão de que estamos vendo um filme. Podemos sentir as gotículas de água batendo em nossas faces, nessa paixão de Almeida pela natureza e pelo ar livre, no cheiro de bosta campestre ao ar livre, numa deliciosa sensação de liberdade, longe das vicissitudes urbanas, trazendo uma cidade tão única como a do Rio de Janeiro, numa sedutora mescla de urbe com natureza, no estilo de vida carioca, como uma amiga carioca minha, a qual virou surfista, numa cidade digna de sediar jogos olímpicos e de receber megashows, seduzindo o Mundo com tal beleza e sensualidade, fazendo com que nós, no topo do Cristo, observemos a cidade com a sensação de que tudo está perfeito, quando o Rio é uma cidade material, ou seja, cheia de vicissitudes como criminalidade, narcotráfico, pobreza, abismos sociais, racismo etc., ou seja, fica claro que são as cidades materiais que buscam imitar a plenitude inabalável das cidades espirituais, metafísicas, e a maior prova disso são os desastres naturais que flagelam tais cidades materiais, em momentos de união e solidariedade, compadecimento, como heroicos voluntários distribuindo roupas e comida, ou ajudando a limpar casas repletas de lama residual da catástrofe gaúcha recente. A água aqui é deliciosa, e convida-nos para um mergulho, num Brasil tão repleto de belezas naturais, fascinando o Mundo com tais locais exóticos, fascinando, por exemplo, os povos escandinavos, os quais sofrem com longos e deprimentes invernos, no modo como dias ensolarados são um tanto raros na cinzenta e úmida Londres, fazendo com que o cidadão londrino seja pálido, em contraste com o Rio, com corpos bronzeados à beiramar. As águas aqui caindo são resultados, consequências, na questão de causa e efeito, de resultado. As pedras são a dureza da Vida, num Mundo duro, que acaba por ocasionar no indivíduo um crescimento espiritual enorme, e este é o sentido da Vida, depuração, tornar-se uma pessoa melhor, mais iluminada, mais caridosa e mais amorosa, no modo como o Amor é tão subestimado, quando que o Amor é a força que nos liga, fazendo de nós todos filhos do mesmo Pai, do mesmo Tao, no caminho da Eternidade, no presente perene da Vida Eterna, pois a Eternidade é a explicação lógica – nada teria sentido se a Vida acabasse no óbito do corpo físico. O dia aqui é majestoso e esplêndido, num Céu de Brigadeiro, banhando a nação brasileira com muito Sol, numa cópia do Plano Superior, onde os dias são agradáveis e as noites são amenas, sem chuva, frio ou calor extremo, num lugar tão delicioso, até chegar ao ponto da pessoa desencarnada, lá em cima, ser emoldurada por uma luz, na alegria dos que se mantém ocupados e produtivos, pois a Vida é uma miséria para os que não trabalham nem estudam, como um senhor que conheci, o qual abandonou o curso superior que cursava para nada fazer no lugar de tal faculdade, abraçando uma vida miserável e improdutiva, um senhor que se perguntava: “Por que será que nada acontece em minha vida?”. É como me disse uma sábia médium espírita: Eu até posso obter a ajuda e o respaldo de outrem, mas eu sou o protagonista de minha própria vida, e tudo em minha vida depende de mim, no caminho da responsabilidade, numa pessoa que cuida de sua própria vida. Aqui é um quadro ermo, solitário, reservado, no modo como toda pessoa precisa de alguns momentos de solidão e reserva, num caminho solitário, porém maravilhoso, como o glorioso fato de que teremos a Eternidade inteira para nos relacionarmos com nossos irmãos amigos.
Acima, Cena da família Adolfo Pintos. Aqui pode ter sido uma encomenda de uma família rica, num artista que teve que fazer tal trabalho para ser pago e pagar suas contas. Aqui destoa dos quadros pobres, humildes e caipiras de Almeida, e vemos uma família muito abastada, vivendo com conforto e regalias. A porta aberta é um respiro saudável, uma liberdade, uma opção, em priscas eras em que as portas de entrada das casas podiam ficar abertas e receptivas, numa cópia da sagrada vizinhança metafísica, onde há paz e respeito, sem as obsessões mundanas por dinheiro e poder, pois a hierarquia metafísica é baseada em apuro moral – os mais respeitáveis regem os menos. Os instrumentos musicais são a Arte, cujo nervo é a Vida, e temos aqui uma ironia de metalinguagem, com césar falando de césar, ou seja, a arte do pincel de Almeida falando sobre a arte musical. Aqui a prole é vasta, em épocas sem televisão, ou seja, fazendo do sexo a diversão, como nas famílias de antigamente, com muitos rebentos, ao contrário de hoje em dia, época em que os casais têm poucos filhos, muitas vezes apenas um, numa mudança cultural de comportamento. A prole aqui dos Pintos são a obra de um artista prolífico, com vasto repertório, em artistas tão prolíficos como Woody Allen, numa filmografia vasta, num gênio de um brilho muito próprio, inconfundível, tendo uma mãe que não aprova a carreira do cineasta, dizendo a este que este teria que ser farmacêutico, no espectro freudiano da figura materna, como em um certo filme de Allen, com uma mãe autoritária, que pouca opção dá ao filho, no poder catártico terapêutico da Arte, num artista que vê no labor uma válvula de escape para se expressar ao Mundo. A cena aqui é idealizada, plácida e organizada, muito, muito longe de uma casa de verdade com tantas crianças, num lar que, na realidade, era uma loucura de bagunça infantil, com crianças berrando, chorando e fazendo malcriações, bagunças, divertindo e estressando os adultos, no termo “arteiro”, para falar de crianças sapecas e indisciplinadas. Os vasos com plantas são a Vida, a força da Vida lutando para sobreviver, num Deus que quer nos ver lutando e batalhando, no modo como a pessoa desencarnada observa que o Céu não são anjinhos dourados tocando harpas de louvor, na divertida crônica do genial Luis Fernando Verissimo: “Imagine você morrer, ir ao Céu e só ver louva-a-deus, pisar em louva-a-deus, respirar louva-a-deus”, num escritor que é uma pessoa tão discreta e pacata, numa caneta talentosa, que se expressa com extrema clareza, como num pincel de Botticelli, mostrando cenas da forma mais clara possível, simples, limpo, nas palavras sábias de da Vinci: “A simplicidade é o mais elevado grau de sofisticação”, como uma Jackie O., passeando sozinha pelas ruas de Nova York, uma mulher chic, simples, com sua bolsa e seus óculos escuros, no arquétipo insuperável de primeira dama americana, deixando no chinelo uma certa senhora, cujo nome não mencionarei. Nesta cena tão plácida e irreal, o patriarca faz uma tranquila leitura, concentrado em tal silêncio apolíneo, num silêncio de biblioteca, no divertido episódio em que Mr. Bean entra numa biblioteca, nesse talento tão único como Rowan Atkinson, um maravilhoso palhaço, imitado por um artista cômico do emblemático e deslumbrante Cirque Du Soleil, cuja apresentação tive o privilégio de ver em Porto Alegre, numa técnica impecável dos artistas, no caminho disciplinado do treino, remetendo a uma professor de balé que conheci, duríssima em relação a disciplina. A mãe aqui é zelosa e paciente, ensinando a filhinha a costurar, num trabalho machista, da mulher condenada aos trabalhos domésticos, num preconceito que começa muito cedo, com a menininha ganhando de brinquedo um bebê boneco, treinando a mulher para o trabalho machista de bela, recatada e do lar, enfurecendo as feministas, as quais pensam contra o vento da sociedade patriarcal, na imagem que temos de Deus, um patriarca de brancas barbas. Aqui, um filho mais velho cuida do irmão bebê, num peso de responsabilidade.
Acima, Estudo para a partida. Podemos ouvir o burburinho, numa cena de comoção, nos homens se despedindo de suas famílias, como no naufrágio do Titanic, com os homens deixando que mulheres e crianças embarcassem nos botes salva vidas, no modo como Jack deu a vida para salvar a de Rose, num filme que tanta comoção causou, emocionante, num manifesto antiinsesibilidade burguesa. Os barcos são como o corpo físico é um barco habitado por um espírito, num momento de libertação quando o barco fica para trás e só a mente sobrevive, fazendo metáfora com o Telefone, num vínculo limpo, espiritual, sem algo de físico, no modo como tudo se resume ao psíquico, e tudo se converte em amizade, quando um casal, ao desencarnar, perde o vínculo matrimonial mundano, ficando amigos um do outro, nas famosas palavras do padre ao púlpito: “Até que a morte os separe!”. Aqui é um mundo de homens, com os homens assumindo as responsabilidades e as importâncias, num mundo de homens, no homem sempre num nível acima das mulheres, no modo como, sinto em dizer, as próprias mulheres são machistas, numa mulher que faz questão de viver na sombra de um homem, como se fosse um instinto evolutivo, no modo como a Evolução entalhou a mulher do instinto materno protetivo, no instinto de proteção que qualquer mulher tem com o filho, no instinto de fêmea, como certa vez uma ave quero quero fêmea quase me arrancou os olhos por eu me aproximar do ninho com os filhotes, no modo como eu mesmo já provoquei mães no instinto destas, resultando numa história triste que conheço, numa filha que simplesmente proibiu, por meio judicial, que a senhora sua mãe pudesse ver o neto desta, numa mãe cujas puras intenções são proteger, nas palavras de uma certa matriarca: “Não sei do que sou capaz para proteger um filho meu!”. A areia é uma divisão, uma separação e um abismo, como no abismo psíquico que existe uma pessoa de bem e um sociopata, no modo como uma pessoa de bom coração, quando erra, não o faz propositalmente, na sabedoria popular de que o caminho para o Inferno é pautado de boas intenções, no ponto da pessoa aprender a ouvir mais a cabeça do que o coração, pois este pode ser traiçoeiro, enganador, ilusório, como eu em meu último ano de faculdade, num momento em que eu estava farto de aulas, professores e trabalhos, com o meu coração me dizendo para dar um tempo e me formar um tempo depois, mas com minha mente me dizendo para me formar de uma vez, e ouvi a mente, endurecendo o coração, como numa proposta de casamento, a qual tem que ser sólida e pés no chão, pois lençóis de cetim são muito românticos, mas a Vida não é só cama. O mar aqui é a vastidão do Cosmos, numa sopa infindável de galáxias, num Universo que, de tão grande, é infinito, na máxima islâmica de que Alá é grande, na intercomunicação entre diferentes religiões, na universalidade do Ser Humano e da condição humana encarnando na Terra, no modo como os japoneses podem ser tão parecidos conosco, os ocidentais. Aqui é como a partida de imigrantes italianos rumo ao Brasil, em sonhos de sucesso e fortuna, num colono que se deparava com uma vida tão árdua, em mãos calejadas pelo árduo trabalho rural, como no célebre quadro do pintor Pedro Weingärtner, com o casal de colonos num descanso do exaustivo trabalho rural, na mulher olhando para os próprios calos, querendo ter mãos de dama, sem calos, como nos sonhos da sensível Teresa em O Quatrilho, sonhando com uma vida urbana, agitada e sofisticada, com ruas movimentadas, teatros e cafés, numa Teresa que pouco se identificava com a árdua vida campesina que levava, apaixonando-se por um homem sofisticado que simbolizava e vida que Teresa queria ter. Aqui é o ímpeto europeu embarcando em naus e desbravando as Américas, como na corrida armamentista da Guerra Fria, numa época em que o Comunismo assustava o mundo capitalista, resultando num inevitável golpe de estado no Brasil, numa Casa Branca que se tranquilizou com tal golpe, na garantia de que o Brasil não se tornaria uma república socialista.
Referências bibliográficas:
Almeida Júnior. Disponível em: <www.meisterdruke.pt>. Acesso em: 12 jun. 2024.
Almeida Júnior. Disponível em: <www.pt.wikipedia.org>. Acesso em: 12 jun. 2024.






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