quarta-feira, 17 de julho de 2024

Andando com André (Parte 1 de 2)

 

 

O pintor francês André Derain (1880 – 1954) foi um dos fundadores do Fauvismo junto ao grande mestre Henri Matisse, com formas simples, pinceladas espontâneas, retratos do cotidiano e ímpetos sem estúdios prévios, mas num AD que acabou cubista. Fez também cenários de balé e ilustrações de livros. Os textos e análises semióticas a seguir são inteiramente meus. Boa leitura!

 


Acima, Paisagem. A natureza brota libidinosa, com borboletas ensandecidas em cio, na explosão sensual primaveril, quando a vida renasce depois de um inverno de pausa, como nas vinhas, as quais hibernam no inverno para trazer a floração na primavera, da qual se origina então a uva, nos frutos da terra, nas preces de um viticultor para que nenhuma praga estrague seu vinhedo. Aqui são essas pinceladas furiosas e impetuosas, transgredindo séculos de Arte tradicional, como no Modernismo Brasileiro, numa faca que cortou as convenções, os paradigmas de como se pode fazer Arte, trazendo até os dias de hoje, nos quais o artista é absolutamente livre para fazer o que quiser, no modo como a Arte deve ser livre, remetendo aos tempos de ditadura militar no Brasil, controlando o cidadão, espalhando terror, num cidadão oprimido, que não tinha muita escolha, no modo como pode ser frustrante uma censura num filme ou canção, na altíssima classe de artistas como Jobim e Elis, fazendo protestos finos e sutis, indetectados pelos censores vazios e obtusos: “É pau, é pedra, é o fim do caminho!”, como no relato de uma Betty Faria, a qual se viu “nua” e desnorteada na censura da primeira versão da supernovela Roque Santeiro, numa Betty forte a qual, anos depois, deu a volta por cima e encarnou Tieta do Agreste, numa novela de esmagador sucesso, no modo como a Vida vai exigindo que sejamos fortes para virar as páginas, no modo como há tantos e tantos artistas que somem, que param de lutar, e quem parou, desapareceu, como uma talentosa Cindy Lauper, a qual vive até hoje nos anos 1980, incapaz de encarar novos momentos na carreira, o que é uma lástima, pois se trata de uma shit pop muito emblemático dos idos anos aqui citados. Aqui é como se fosse uma grande sala de estar ao ar livre, com carpete confortável, com perfume de óleo de peroba, num anfitrião tão fino, que nos acolhe e nos serve um bom cafezinho, num ato de gentileza e generosidade, como uma senhora caxiense chamada Elizabeth Menetrier, que foi rainha da Festa da Uva de 1969, a qual, ao me receber em sua casa para me dar uma entrevista, serviu-me um café depois. Os troncos aqui são a força da Vida, com raízes profundas, como numa pessoa radicada em algum lugar, vivendo uma vida sólida, produtiva, ao contrário de uma pessoa que está em tal lugar só por ali estar, sem raízes, numa vida vazia e sem consistências, talvez numa pessoa com um estilo de vida tão solitário, como passar sozinha uma virada de ano, num “lobo solitário”, até a pessoa não mais suportar tal estilo de vida, como um amigo meu padre, o qual narrou que, ao morar por um tempo na Itália, disse que sofreu uma grande solidão e uma grande xenofobia, pois, já ouvi dizer, na Itália os brasileiros são sinônimos de casas com palafitas cercadas de jacarés, de favelas paupérrimas no Rio de Janeiro e de prostituição. Ao fundo vemos um lago, um fornecimento de água e vida, remetendo à recente tragédia hídrica gaúcha, com lares totalmente destruídos, num recomeço tão, mas tão duro, no modo como a Vida vai exigindo que sejamos fortes, como passar por uma guerra, no poder maléfico das guerras em deixar rastros de fome e destruição, em inocentes sendo mortos, tudo em nome da busca humana por poder, sempre poder, no maldito Anel do Poder de Tolkien, corrompendo até as melhores almas, e uma prova de busca por poder são as inúmeras pessoas que apostam em loterias, no modo como poder ser inacreditavelmente triste a história de um ganhador de loteria, pois uma pessoa muito especial me ensinou que podemos ser felizes com pouco, no sentido da pessoa se contentar com o que tem, pois se não estou o tempo todo querendo coisas, posso ter paz, pois a ambição é inimiga da paz, como num sanguinário Putin oprimindo um país mais fraco, numa covardia como agredir uma pessoa mais fraca. Nesta cena plácida e relaxante, podemos ouvir o sensual farfalhar das folhas das árvores, numa tarde doce de verão que nos convida a curtir a vida, saindo um pouco da sisudez habitual.

 


Acima, Paisagem da Provença. A grande árvore ao centro é uma imposição e uma advertência, como uma placa de trânsito, na imponência de uma Marta Suplicy, a qual deu uma palestra a uma plateia de adolescentes em 1994 em Caxias do Sul, uma plateia na qual eu, adolescente na época, estava, numa Marta pegando o microfone e dizendo: “Adolescência é uma época me que se masturbar dez vezes por dia é perfeitamente normal!”, impactando todos na plateia, numa mulher a qual, definitivamente, não é tola, burra ou simplória, como na imponente fachada de um prédio em estilo neoclássico. Aqui é esta paixão de Derain por natureza e paisagens naturais, saindo um pouco das frenéticas loucuras de urbes movimentadas, desejando um pouco de paz e retiro, numa pausa, como na louca São Paulo, com suas levas intermináveis de motoboys indo e vindo, nas demandas de uma cidade tão grande e desenvolvida, numa cidade que me seduz, apesar de eu saber que o Rio de Janeiro é a cidade mais linda do Mundo, na mescla carioca de natureza e urbe, em praias cheias de surfistas e mulheres belas fazendo topless, em certas diferenças culturais, fazendo absolutamente impossível uma mulher muçulmana fazer topless, no machismo patriarcal da burca, numa mulher passiva, que aceita tal posição subalterna, na crueldade patriarcal de dividir as pessoas entre eles e elas, quando, na verdade, o espírito não tem sexo, na metáfora dos anjos assexuados, fazendo dos anjos uma metáfora para nos fazer entender a felicidade dos espíritos livres, no modo espírita como cada um de nós é acompanhado o tempo todo por um anjo da guarda, o qual quer sempre nos guiar pelo melhor caminho, fazendo do Amor a cola que nos mantém unidos, um Amor tão subestimado pelas crueldades habituais do Ser Humano, no modo como não me canso de dizer: Nada mais humano do que ser desumano! Os galhos retorcidos brotam com força, como veias e artérias de seiva gerando Vida, pois já ouvi dizer que a Vida é o nervo da Arte, em estilos de dança sensuais, como a valsa, no momento mágico de interação social, na debutante que abandona as bonecas para abraçar a vida social, na interação com pessoas pelas quais a menina se sente atraída, no desejo adolescente em picos hormonais, querendo beijar, transar e viver, numa pessoa que decide que quer viver, não mais reprimindo a si mesma. As folhas aqui remetem ao cheiro das folhas de plátano no verão, o sensual verão, na gloriosa época de férias, no sisudo momento de encerrar o veraneio e recomeçar a sisuda vida, na divertida tira do genial cartunista Carlos Iotti, com a família Radicci voltando da praia de cara amarrada, mal humorada, na vida que segue se desdobrando em toda a sua seriedade, na luta que não pode cessar. Aqui é a candura de traços infantis, como nos traços infantis de Basquiat, com suas pinceladas rústicas e simples, nas incríveis ramificações de estilos artísticos, libertando a mente do artista, numa Nova York que tanto exala e transpira Arte, em museus arrebatadores como o Met, com milênios de Arte expostos, no lugar mais lindo que eu já vi em minha Vida, fazendo-me imaginar como eu “enlouqueceria” dentro do supremo parisiense Louvre, na riqueza inacreditável da França, o centro do Mundo Civilizado, num novaiorquino que quer tanto quer ser parisiense, na preferência que o Met tem em expor Arte Europeia, no fascínio que é estudar uma língua estrangeira, na necessidade tão básica em se saber falar Inglês, numa língua que se tornou altamente universal, no que o genial Luis Fernando Verissimo disse ser “O Império da Língua Inglesa”, e eu concordo plenamente. Aqui o vento é como um ritmo numa pista de dança, com todos dançando ao mesmo tempo, fazendo de Tao tal “DJ”, com caminhos diferentes que levam ao mesmo destino, que é o infinito, ou seja, Deus, nas sábias palavras de Barbra ao final de um show: “Somos iguais, mas não os mesmos!”. O terreno aqui é fértil, num lamentável modo como um lote de arvoredo é devastado para dar origem às cidades, fazendo com que, pelo Google Earth, as cidades sejam borrões cinzentos no meio de verdes naturais, no ônus do progresso.

 


Acima, Retrato de homem com jornal. O jornal é a revolução tipográfica, na publicação de livros e instrumentos de comunicação social, deixando para trás os arcaicos manuscritos. O jornal é tal objeto civilizatório, espraiando notícias e informações, cultura, com colunistas expressando seus pensamentos, na democratização da informação, no fato de que o Conhecimento tem que ser universal. O jornal é tal sofisticação urbana, com notícias da cidade e do Mundo, evoluindo e resultando na inacreditável Internet, num paradigma poderosíssimo, sepultando o telefone de gancho, a televisão de tubo, a carta pelo correio e as extensas enciclopédias, pois hoje é tudo Internet, inclusive dicionários linguísticos, em facilidades de satélites que nos permitem teclar em tempo real com uma pessoa que está do outro lado do Mundo, em avanços que deixam minha geração perplexa, mas tecnologias que são comuns e banais para a geração de meu sobrinho, que nasceu entre os anos 2000 e 2010, uma geração para a qual o DVD é altamente arcaico, pois hoje em dia é tudo software, sepultando o suporte físico dos discos e fitas, cabendo muita, muita coisa dentro de um singelo pendrive – é muito louco! O homem é delgado e fino, lembrando os rostos longilíneos do pintor Mondigliani, já analisado neste blog, como máscaras africanas, em objetos de avanço intelectual – os macacos não esculpem. A cortina aqui traz uma suntuosidade, como em mágicas cortinas de teatro, abrindo e revelando a mágica do cenário, trazendo o espectador para dentro da trama, da peça, no poder da Arte em penetrar na cabeça das pessoas, interpelando-nos como seres humanos – os macacos não recitam Shakespeare. A poltrona é o conforto do lar, do retiro, do descanso e da pausa, no termo carioca “muvuca”, que descreve o aconchego do lar, um lugar no qual estamos tão à vontade, de chinelos, pantufas ou mesmo pés descalços, na máxima de O Mágico de Oz: “Não há lugar como o lar!”. A poltrona aqui é tal entronamento, sendo eu dono e senhor de minha própria casa, como no rei da Inglaterra se sentando em frente à televisão e vendo a programação da BBC de Londres, no papel de um monarca em se manter humilde, alinhado com o povo, na simplicidade de um homem o qual, apesar de majestoso e poderoso, mantém-se alinhado com o povo, com o homem comum, pois quanto mais humilde e simples eu for, mais longe vou, como numa senhora respeitada de Caxias do Sul, a qual, apesar de ser rica, manteve-se sempre humilde em suas raízes na zona rural da cidade gaúcha. O chão é como um quebracabeça, exigindo da cabeça da pessoa que o monta, em desafios deliciosos como palavras cruzadas, as quais amo, num desafio que coloca nossa mente para trabalhar, no sentido da pessoa sempre se manter ocupada, exercitando esse “músculo” que é o cérebro, ao contrário de pessoas que se aposentam e nada mais fazem no lugar, no modo como a palavras “aposentadoria” é uma ilusão, pois ninguém pode parar, tirando, no máximo, férias. O homem aqui está elegante, engravatado, como no garboso chef gaúcho Anonymus Gourmet, um homem arrumando, que sai de casa garboso. A elegância é a sofisticação urbana, numa pessoa que se arruma para ir a um café, como nos chics cafés de Buenos Aires, uma cidade tão cosmopolita e elegante, mas num país que sofre uma crise profunda, num país que carece de dinheiro para fazer obras e melhorias, num enigma: Por que há nações tão ricas e nações tão pobres? De onde vem a riqueza? Podemos ouvir aqui o farfalhar das folhas do jornal, em jornais brasileiros tão poderosos como a Folha de São Paulo, na inteligência dos jornalistas, intelectuais que são nossa elite de inteligência, pessoas cujas cabeças devemos respeitar sempre, em talentosos jornalistas que podem fazer tiradas tão maravilhosas, na vitória da cabeça sobre a bunda. A fita que contém a cortina é um ímpeto controlado, numa pessoa cautelosa, como num leão atravessando cuidadosamente um rio.

 


Acima, Retrato de Matisse. Aqui é uma relação de proximidade e intimidade, com dois colegas de ofício. As cores são vivas e pulsantes, provocadoras, no dom de um popstar em pisar num palco e atear fogo na plateia, um dom que nem todos têm: Comentou-se que os shows de Seal e Lenny Kravitz no Rock in Rio foram shows mornos, sem excitação na plateia, apesar desses dois artistas serem boas vozes com bons repertórios. O cachimbo é o hábito, como tomar um vinho num fim de tarde, numa pausa do cotidiano, num descanso, num happy hour, no momento em que a sisudez do dia dá espaço a gravatas afrouxadas e uma injeçãozinha de álcool no sangue, nas palavras do personagem de Charlie Sheen: “Ninguém gosta do sabor de álcool; as pessoas gostam dos efeitos do álcool!”. Matisse nos encara sério, sisudo, como se estivesse sentindo um peso de responsabilidade, na responsa que é criar filhos, não só provendo estes financeiramente, mas incutindo valores nobres na cabeça da criança, no modo como as crianças estão sempre ouvindo, e se as crianças falam palavrões, é porque ouviram de seus próprios pais, como reza a lenda de que a sanguinária Mary Tudor, que queimou centenas de protestantes vivos em fogueiras – sim, o Ser Humano é cruel –, foi educada de um modo de não saber palavrões, num espírito infeliz, que desencarnou e foi ao Umbral, pois não pode ser feliz uma pessoa que tanto maltrata seus irmãos, no contraste entre glórias mundanas e glórias espirituais. A camisa azul é deliciosa, num mar caribenho, na lembrança que tenho de ter me banhado em límpidas águas caribenhas, aproveitando a viagem, na delícia que é viajar, conhecer lugares, como eu disse a quem me perguntou o que eu faria se tivesse muito dinheiro: “Viajaria!”, na ironia de que o Ser Humano é universal, e não importa para qual lugar do Mundo vamos, pois sempre nos depararemos como mesmo Ser Humano, apesar das diferenças culturais serem aparentemente abismais. Aqui temos um homem vivido, com o pesar dos anos pesando nas costas, no lado delicioso de ser uma pessoa madura, pois não é bom ser jovem demais, pois ao ser jovem demais, fazemos muitas tolices e somos um tanto arrogantes, numa fase da vida em que não temos juízo, sabedoria ou responsabilidade, como guiar um veículo automotor sem ter carteira de motorista, numa inconsequência adolescente, numa época da Vida em que cremos que não encararemos percalços ou dificuldades, num jovem subestimando a seriedade da Vida. Matisse aqui já não é um rapaz jovem, e suas entradas na cabeça assinalam que está no outono da Vida, mas não é verdade que tal idade é um peso fenomenal nas costas, pois o personagem Aragorn de Tolkien é um homem grisalho de 47 anos de idades no auge da virilidade e na flor da idade, com vigor, força e disposição, como um senhor que conheço, o qual se acha velho demais para ingressar num curso superior, o que é uma grande bobagem: Meu irmão, não há um único curso oferecido pela UFRGS que desperte teu interesse? É na delícia de se formar e fechar um ciclo, numa transa com orgasmo, no modo como são tristes as histórias de vida de pessoas que largaram os estudos, subestimando a importância de se fechar um ciclo, como um senhor que conheço, uma pessoa que abandonou a faculdade para nada fazer no lugar – não tem como ser saudável! A barba longa é a sabedoria e a sedimentação de anos de experiência de Vida, como um vinho envelhecendo, num passar dos anos que tanto vão nos ensinando. O quadro aqui, apesar de termos um Matisse sério e quase carrancudo, tem cores alegres e carnavalescas, no fascínio de lustres de cristal, com suas multicores, num salão elegante e garboso, glamoroso, nos lindos clubes metafísicos, num lugar onde ninguém é grosseiro, na vitória do fino sobre o grosso, no equívoco de uma pessoa crer que há força na grosseria, o que é uma ilusão. Uma linha de expressão na testa revela tal seriedade e foco, como na testa envergada da Mulher Maravilha de Gal Gadot, num foco, numa pessoa com meta e objetivo, não vivendo ao sabor do vento.

 


Acima, Retrato de menina de preto. Disciplina é isto o que temos aqui. A menina está comportada, tolhida, numa sisudez adulta, serena, como um professor exigente, que é duro com o aluno, exigindo o máximo deste, naqueles professores bons, que valem cada centavo da mensalidade da faculdade, com aqueles professores que acabam se tornando nossos amigos, numa relação de afeto e intimidade, como duas almas que se reconhecem, talvez vindo de uma amizade de outras encarnações, no poder infinito do amor e da amizade, no amor que é eterno, pois os ressentimentos não são eternos, no caminho natural do perdão, no caminho da Eternidade, num ponto inevitável de perdoarmos nosso irmão, no modo como as mágoas perecem, como uma senhora que foi minha professora, já falecida, uma senhora que hoje, lá em cima, perdoou-me totalmente, no caminho natural do perdão, com todas as questões se resolvendo naturalmente, na noção taoista de que tudo acaba se resolvendo, como um sociopata, o qual passará por muitas vidas e tornar-se-á um espírito nobre de luz e bondade – ninguém é sociopata para sempre. Neste quadro temos uma descentralização, pois a moça está na porção inferior, e temos uma grande lacuna no quadro, um vazio, que é o vazio sedutor da orla, numa página em branco na qual podemos escrever, na serventia do vazio: Um copo é útil porque serve para nos servir bebida; uma janela é útil porque nos faz ver lá fora. É como arrumar enfeites em prateleiras – sempre tem que haver um lugar vazio, um respiro, para nos ajudar no dia a dia, como numa mesa de centro de sala de estar, num vazio que tem serventia, servindo para colocarmos coisas sobre a mesa, como bandejas de cafezinho, no modo como a sensualidade reside, exatamente, nos espaços vazios, na magia do nada, do intangível, do invisível. As mãos repousam pacificamente, disciplinadas, numa elegância e numa polidez, com mãos dignas que servem ao Mundo, numa mãe zelosa, cujas mãos foram úteis ao Mundo, lavando, cozinhando e costurando, no poder dignificante do trabalho, no modo como o Mundo só pertence aos dignos de tal glória, sendo triste e desinteressante a vida de uma pessoa improdutiva, como uma senhora que conheço, uma mulher rica e, ao mesmo tempo, miserável, nada fazendo de seus dias na Terra, abraçando uma vida vazia e pobre, paupérrima, ao ponto de tudo o que resta a tal senhora é cuidar da vida dos outros, fofocando, uma senhora a qual tem um semblante um pouco malicioso, um pessoa para a qual eu não tiro o chapéu, sinto em dizer. A roupa aqui é recatada, muito recatada, com alto pudor e decência, numa moça de família, respeitável, como no contraste entre as irmãs Tieta e Perpétua: Esta, sisuda e discreta, quase morta de tão sisuda; já, a outra é colorida, excitante e exuberante, na capacidade de uma pessoa em exalar vida lidando de forma natural com o Sexo, indo contra ao pecado escuro e proibido católico, sinto em dizer, uma religião na qual temos que pedir perdão por termos nos masturbado – fala sério, seu padre! A cadeira é o entronamento de uma posição social privilegiada, numa família abastada, com crianças criadas de um modo bem austero, como uma pessoa que conheço, a qual reencarnou filha de um casal extremamente exigente em relação a disciplina, uma pessoa que, no colégio, tirava sempre as melhores notas da turma, visando gabaritar todas as disciplinas, uma pessoa cujo semblante era sério quando recebia a prova corrigida e não tirava nota máxima, abraçando uma vida muito séria de responsabilidade, talvez num espírito o qual, numa encarnação anterior, viveu ao sabor do vento, sem responsabilidades, no modo como o passar de encarnações vão nos tornando pessoas melhores, o que é o objetivo da Vida – crescimento e depuração. A gola é o poder transformador das mãos humanas, no talento plástico de associar coisas e fazer coisas novas – os macacos não desenham. O preto é a cor do luto e da discrição, no preto dos hábitos de freiras, numa vida de retiro espiritual, talvez num espírito o qual, numa encarnação anterior, foi mundano e fútil.

 


Acima, Sábado. Aqui é o delicioso retiro do lar. Uma moça costura pacientemente; outra lê. A mesa é o momento de reunião, quando todos nos unimos pela barriga, na reunião em volta de uma das necessidades mais básicas, que é a alimentação. É a magia distributiva, como um sol num sistema solar alimentando os filhos planetas, como uma travessa de comida ao centro de uma mesa, servindo-nos e unindo-nos em torno de algo comum, como no momento da comunhão na missa, quando todos temos a mesma coisa no estômago, na capacidade de um líder em unir o povo, como num patriarca, como dois senhores patriarcas que conheci, os quais mantinham unidas suas respectivas famílias, senhores cujas famílias se desintegraram após tais senhores terem falecido, com suas esposas viúvas que não souberam manter a família unida. A janela ao fundo é a liberdade, num ambiente de trabalho salubre, quando a pessoa tem um quadro ou uma vista para a mente saber “respirar”, ao contrário de um ambiente insalubre de trabalho, com a pessoa “aprisionada” em uma tela de computador, não tendo alguma vista para poder espairecer, no modo como eu mesmo já trabalhei em ambientes psiquicamente insalubres, no caminho degradante do sofrimento, num fundo de poço, em ambientes que não estavam me fazendo bem, tendo eu, então, mandando tais empregos à merda, com o perdão do termo chulo. O pão é o ganho do dia, num pão que alimenta uma família, no modo como o simples preço do pão foi o estopim da Revolução Francesa, num rei que pouco se sensibilizava com o próprio povo, pois um líder ausente deixa de ser líder, no momento de ruptura de tal revolução, com nobres guilhotinados, num golpe de estado, como uma princesa Isabel sendo destituída, tendo que se refugiar na Europa, na História tão bela do Brasil: Nós, os brasileiros, não fomos encontrados numa “lata de lixo”; nós temos uma história e uma proveniência. Aqui é uma identidade feminina, com mulheres no lar, com comadres proseando nos afazeres como tricotar, no modo como a jornada de trabalho passa rapidinha quando temos um ambiente saudável, que faça bem a nossas cabeças, ao contrário de um ambiente estressante e viciante, no modo como eu mesmo tive uma fase workaholic, só trabalhando, sem viver, o suficiente para me ensinar que não vale a pena ser workaholic, pois o Mundo não me abonará por eu não respeitar a mim mesmo, como uma senhora que conheço, uma workaholic que acabou tomando no cu, com o perdão do termo chulo. Aqui são esses rostos alongados de Derain, delgados, como máscaras carnavalescas, no poder da Cultura Popular Brasileira, que é o Carnaval, no privilégio do Brasil ter tais raízes afros, nos tambores pulsantes dos escravos que sobreviveram aos horrores escravocratas, na crueldade humana, com senhores dos cafés paulistas, ambiciosos, querendo dinheiro e poder, insensíveis aos flagelos de seus irmãos, os escravos, num Brasil que ainda respira traços remanescentes de tal época, com descendentes de escravos morando em favelas paupérrimas, como nos moldes sociais baianos: Preto trabalha para Branco. O livro é a erudição, no modo como um país se faz com homens em livros, num Brasil que tanto carece de Cultura Erudita, a qual começa nos bancos escolares, havendo na Educação algo tão subestimado, em problemas como a evasão escolar no Brasil, com cidadãos de pouco apuro intelectual, num Brasil que paga caro por tal carência, resultando nos terraplanistas ou nos que acham que ditaduras são positivas. O ambiente aqui não é muito iluminado, e a luz entra discreta na cena. A toalha na mesa é a proteção, numa mesa protegida, no instinto materno de proteção, no modo como a Evolução entalhou a mulher deste modo, dando à mulher o instinto protetor, no modo como uma mãe odeia ver seu filho sendo repreendido por outrem, no instinto protetor que permite a sobrevivência dos filhotes. Aqui não é uma casa muito rica, nem muito pobre. O bule na mesa é tal calor no lar, como pessoas reunidas ao redor do fogo num dia gélido de inverno, como nos inclementes invernos londrinos.

 

Referências bibliográficas:

 

André Derain. Disponível em: <www.en.wikipedia.org>. Acesso em: 10 jul. 2024.

André Derain. Disponível em: <www.google.com>. Acesso em: 10 jul. 2024.

André Derain. Disponível em: <www.pt.wikipedia.org>. Acesso em: 10 jul. 2024.

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