quarta-feira, 24 de julho de 2024

Andando com André (Parte 2 de 2)

 

 

Falo pela segunda e última vez sobre o pintor francês André Derain. Os textos e análises semióticas a seguir são inteiramente meus. Boa leitura!

 


Acima, A secagem das embarcações. Aqui remete à beleza do Rio de Janeiro, uma cidade a qual, de longe, do topo do Cristo Redentor, é perfeita e linda, mas uma cidade que, de perto, é repleta de vicissitudes, feiúras e imperfeições, no modo como é a Dimensão Material a qual tenta imitar a perfeição da Dimensão Imaterial, pois matéria é nada e pensamento é tudo, no modo como a riqueza da passagem de Jesus na Terra reside nos pensamentos que tal homem genial propagou, e não numa lasca da cruz onde Ele foi crucificado, nesta fixação humana pelo material, pelo objeto, pelo tangível, pelo bem de consumo, no modo como somos todos prisioneiros de Matrix: Tenho que trabalhar como um burro de carga para comprar um carrão último tipo, ou seja, somos vítimas da Sociedade de Consumo. A água aqui é bem límpida, como num amigo transparente, verdadeiro, um amigão que quer nos ver felizes, na eternidade das amizades, pois o Amor nunca morre, e teremos tais amigos para todo o sempre, no modo como as brigas, os desentendimentos e as mágoas não são eternos, no caminho natural do perdão: Claro que te perdoo, irmão! O dinheiro compra tudo, menos o que importa, que é Amor, como um certo senhor que ganhou na loteria, com pessoas se aproximando dele não por amar este, mas pelo dinheiro – você não faz ideia a qual nível fica reduzida uma pessoa considerada feliz na Terra, ou seja, os ganhadores das loterias, na sabedoria de que podemos ser felizes com pouco, sem sermos donos de meio Mundo, como uma certa senhora caxiense, rica, mas uma senhora com raízes humildes, da zona rural, dizendo em entrevista: “Saí da colônia mas a colônia não saiu de mim!”, na capacidade áurea de uma pessoa em se manter humilde, pois a arrogância precede a queda, como um certo rapaz comediante brasileiro, um diamante bruto precioso, pronto para ser lapidado, mas um rapaz que embarcou numa de se achar o maior deus de todos os tempos, um rapaz que acabou perecendo, o que é uma lástima, pois falo aqui de um talento visível, na arrogância de uma pessoa se achar imune a vicissitudes, achando que estas são para os outros. Aqui são como barcos pesqueiros, no labor do dia, da jornada, na incumbência de trazer o pão para casa no fim do dia, nas responsabilidades de um pai de família, naqueles paizões zelosos, que nunca deixaram algo faltar dentro de casa, ou no zelo materno, de manter a roupa limpa, no modo como uma pessoa, ao sair de casa e morar sozinha, sofre um “choque térmico”, sentindo forte falta de tais zelos do lar primordial, num processo de “desmame”, até a pessoa aprender a morar sozinha. Aqui podemos ouvir o som do mar na orla, no olor sedutor de mar, na sensação de libertação na beira da praia, na sensualidade do espaço vazio da beira, uma página em branco na qual podemos escrever, no modo como a sensualidade reside exatamente nos espaços vazios, pois estes são úteis aos usos do dia a dia, como uma mesa de centro numa sala, servindo para receber coisas, objetos como um celular ou uma xícara de chá, na capacidade do homem de Tao em ser útil ao Mundo, no poder da austeridade e da dignidade, num homem nobre que conquistou o respeito das pessoas, como no Rei Pelé, um homem que se manteve humilde até o últimos  momentos de vida, pois não é insuportável uma pessoa arrogante, que se acha perfeita? Não é o Ser Humano um ser narcisista e prepotente? As velas aqui são brancas e límpidas, assim como a água, como numa política francesa recentemente, nadando nas águas do rio parisiense para mostrar que tal rio está apto a receber as provas olímpicas de Paris, no ônus do progresso, como no cheiro de ovo podre do rio paulistano do Tietê, mais uma das vastas provas de que a Terra tenta imitar o Céu. Aqui remete ao gigantesco e imponente balneário de Camboriú, uma espécie de Nova York à beiramar, com suas torres altas e arrogantes, elitistas, com as luxuosas embarcações da água, num caminho de elitização, como nos altos preços da cidade de Gramado, numa especulação imobiliária que faz aumentar o preço dos aluguéis dos espaços comerciais da cidade serrana.

 


Acima, A última ceia. Aqui é o mágico momento da missa, quando todos temos a mesma coisa no estômago, no lembrete de que somos iguais perante Ele, na imortal nobreza que reside em cada um de nós, no sangue estelar eterno, havendo na Terra a metáfora das famílias de realeza, cuja nobreza serve para nos fazer entender que somos todos da mesma infinitude imaterial, remetendo a uma dimensão acima, mais nobre, mais bela, onírica, indestrutível. Jesus aqui, é claro, é o centro da cena, na iluminação do Filho de Deus, fruto de Imaculada Conceição, a qual serve para nos fazer entender que somos todos frutos de tal Imaculada Conceição, na poderosa imagem da Virgem, pois as afinidades são totalmente mentais, espirituais, na metáfora do Telefone, numa comunicação de pensamento para pensamento, sem influência da Matéria, da paixão e do sofrimento. Um dos discípulos descansa a cabeça Nele, num ato de Amor e rendição, curvando-se perante a perfeição do homem mais notório da História da Humanidade. O vaso florido ao centro é a Vida, o poder da Vida, no único caminho que existe, que é Tao, em nossos anjos da guarda sempre nos levando pelo único caminho, na eterna inclinação humana em tomar atalhos, ignorando a importância da fineza e da polidez, da verdade, do Amor, num Ser Humano que acha que existe poder na grosseria, o que é um equívoco, como nos finos esforços diplomáticos em nome da Paz e da concórdia, num homem de Tao, que evita a guerra, nesta eterna paixão humana pela guerra, sendo a guerra a responsável por deixar rastros de fome e destruição, como no júbilo de terroristas ao ver queda das Torres Gêmeas, na alcunha do vilão Esqueleto: “O senhor malévolo da destruição”. A mesa é branca e limpa, na limpeza e no perfume do metafísico, como dizem que o médium Chico Xavier tinha um perfume espiritual fascinante, delicioso, no poder das fragrâncias mundanas, as quais giram em torno do que importa, que é a elevação moral, num Chico de humildade indestrutível, dizendo-se um mero carteiro, num homem que foi muito, muito além disso, trazendo alento principalmente a mães que perderam os filhos, na famosas cartas psicografadas, num canal de comunicação entre Terra e Céu, na promessa cristã do Reino dos Céus: Fulano não vai resolver os problemas do Mundo, mas Fulano pode ser uma figura na qual o povo possa depositar esperanças. Aqui temos um Jesus com um incrível poder magnético, carismático, unindo as pessoas, como um Sol unindo um sistema solar, na capacidade de certas pessoas em unir as pessoas, ao contrário do sociopata, o qual só quer desunir e destruir, plantando a discórdia entre os seres humanos, como uma certa senhora sociopata, a qual, no frigir dos ovos, é um animal que não sabe e nem quer saber viver em sociedade, na sabedoria de que a Paz é maior do que a raiva. Aqui as palavras de Jesus ecoam por milênios, até chegar ao ponto do césar romano se converter ao Cristianismo, numa Roma a qual, no passado, perseguia e oprimia os primeiros cristãos, na capacidade das ditaduras em oprimir e aterrorizar um povo: Quanto mais Tao tenho, menos quero controlar as pessoas, na humildade de um líder em se considerar um de seu povo, no caminho democrático de igualdade, no povo elegendo os próprios líderes, em povos miseráveis como os chineses, impedindo de eleger seu presidente. Aqui é o poder de um homem de Tao, unindo as pessoas, num espírito que odeia as guerras e os desentendimentos, até chegar ao ponto da pessoa ter pavor de mentir, sendo o Espírito da Verdade um dos entes metafísicos que inspiraram Kardec na concepção da Doutrina Espírita, assim como Santo Agostinho, na noção de que somos todos prisioneiros de um corpo carnal, mas uma prisão que não é perpétua, na sobrevivência da mente à morte do corpo físico, na questão de que temos que fazer algo de válido e produtivo de nossos dias na Terra, ao contrário de atividade de prostituição, com pessoas que fazem do Sexo um leilão, como na santa Maria Madalena, vislumbrando algo mais nobre do que a prostituição, sem eu aqui querer ser moralista demais. A porta arqueada ao fundo é a saída, a libertação, havendo na ressurreição de Jesus o puro desencarne, Nele voltando ao lar primordial, na qual só há amigos.

 


Acima, Autorretrato em estúdio. Os autorretratos são a tentativa de uma pessoa em se enxergar de fora, vendo a si mesma como os outros a veem. O momento aqui é de labor, como numa humilde Gisele dizendo: “Tenho que trabalhar!”. Aqui temos a ironia de metalinguagem, pois é césar falando de césar, ou seja, a o pincel de Derain falando sobre os pincéis de seu próprio estúdio. Aqui são essas pinceladas modernistas de Derain, num pincel apaixonado, impetuoso, na formidável transgressão impressionista, derrubando por terra a Arte Acadêmica, numa Tarsila do Amaral exposta num museu de Buenos Aires, nesse insano galgar de inovações, como hoje em dia, numa era em que se perdeu o suporte físico do Vinil, do VHS, do CD e do DVD, quando que hoje tudo é software, na era do Download e do Streaming, causando perplexidade à minha geração, a qual viveu os últimos suspiros da Era Analógica, mas num galgar tecnológico que pouco perplexidade causa em gerações mais jovens, que nasceram entre os anos 2000 e 2010, gerações completamente digitais, as quais não fazem ideia do telefone de gancho e do televisor de tubo. Derain aqui está retirado, evitando ser o centro do quadro, como numa pessoa discreta, numa pessoa avessa a midiatizações e celebrizações, na crítica mordaz de Allen em Celebridade, um cineasta que caga em cima do stablishment das celebridades, com o perdão do termo chulo. O traje aqui é escuro e discreto, digno de um funeral, como certa vez, quando eu estava num funeral, duas senhoras reprovaram minhas vestes azuladas e esverdeadas, no modo como nos funerais indianos as pessoas vestem vestes coloridas, em diferenças culturais, mas diferenças não abismais, pois o Patriarcado é universal, na figura indígena do cacique, como se fosse uma compensação masculina frente ao poder das mulheres, que é trazer Vida o Mundo, numa mulher de burca que está reduzida a propriedade de um marido, fazendo da mulher uma moeda de troca, num pai negociando a venda da própria filha, nas palavras de uma certa jovem, a qual dá sinais de se tornar feminista: “Que machismo essas festas de quinze anos, com o pai exibindo a filha como se esta fosse um pedaço de carne!”, na capacidade feminista de ter a coragem de transitar contra o vento patriarcal, nas nossas elites intelectuais, pensando contra a ignorância e o preconceito, no triste porém fabuloso fato de que a Filosofia não muda o Mundo, mas muda o modo da pessoa se relacionar com tal Mundo, pois nem Jesus na Sua suprema majestade soube resolver os problemas do Mundo. O quadro aqui é um tanto sombrio, numa sobriedade, numa pessoa que aprendeu o valor da discrição, como uma senhora discretíssima que conheço, discreta no modo de falar e de se vestir, uma mulher que, de tão discreta, evita usar muita maquiagem, só se maquiando, ainda que sobriamente, para eventos como casamentos, como na sobriedade inglesa, num monarca que se vê inclinado a representar tal discrição de um povo. Podemos ouvir aqui o cheiro de tinta, como chegar a uma mostra de Arte e sentir cheiros peculiares pela galeria de exibição. Neste quadro, temos um inabalável silêncio, num lugar de quietude e produtividade, numa pessoa que encontra vida em sua rotina, sabendo que o indivíduo tem que se centrar, ao contrário de uma pessoa alcoólatra a qual nunca se centrou, fazendo da Vida uma aventura, no modo como todos sempre temos que ter os pés no chão, na questão amorosa: Flores exuberantes sabem conquistar um coração, mas é necessário que as coisas comecem pela cabeça! O rosto aqui está parcialmente oculto, no discernimento taoista de que há dois lados para cada moeda, e que fácil e difícil são faces do mesmo trabalho, no modo como não existe trabalho que nos dê 100% de prazer, pois é necessário que tenhamos disciplina, na importância de se sentar e produzir algo, havendo miséria existencial na vida de uma pessoa improdutiva, nos versos de uma canção de Macy Gray: “Levante-se e faça algo! Como você vai obter sucesso se você sequer tenta?”. A Arte existe para nos libertar, e aqui Derain parece querer se libertar do quadro, num impetuoso cavalo.

 


Acima, Janela para o parque. A janela é o vislumbre de possibilidades, como no famoso espírito Patrícia desencarnando, deparando-se com a vida metafísica, numa readaptação, encarando uma nova vida, na perfeição do Plano Superior, o qual é amplamente imitado na complicada dimensão que é a Terra. As flores são a beleza da Vida, na explosão libidinosa primaveril, com ursos famintos acordando da hibernação, abocanhando salmões que correm rio acima para a reprodução, nos ciclos da Vida, como girinos ensandecidos num rio, numa memória de infância que tenho, com várias coloridas flores de lantanas assediadas por borboletas ensandecidas, num sopro de frescor como a Vênus primaveril de Botticelli, na revelação da mãe mar numa concha, com o olor de mar, numa beleza revelada, como no descobrimento do famoso busto de Nefertiti, na beleza egípcia de uma mulher que obteve muito poder num Egito de homens, no qual o máximo que uma mulher podia almejar era ser líder do numeroso harém do faraó, numa Nefertiti que governou o Egito entre a morte de seu marido Aquenáton e a chegada do enteado dela, Tut, à maioridade. A cortina aqui é a magia de uma revelação teatral, quando o diretor entra em nossas mentes e nos traz para o enredo, na missão da Arte, que é penetrar em nossas mentes, como grandes sucessos do Cinema, em comoções mundiais como Parque dos Dinossauros, fazendo de Spielberg tal deus sagrado de Hollywood, nestes homens que se tornam extremamente respeitados, numa Hollywood volúvel, como num Mel Gibson, o qual já ocupou o topo da cadeia alimentar hollywoodiana com Coração Valente e enterrou-se com um filme que culpou os judeus pela morte de Jesus – se você quer obter sucesso em Hollywood, não mexa com os judeus! O jarro é a serventia, num objeto útil no dia a dia, na capacidade de uma pessoa em ser tal vazio útil, num homem de Tao, que se coloca para o Mundo, contribuindo para este, na magia sedutora dos espaços vazios, como um armário vazio, que serve para guardar as roupas, ao contrário da pessoa improdutiva, que em nada contribui para o Mundo, pois na Vida é preciso ter três coisas: Trabalho, trabalho e trabalho, mas não a um ponto exagerado de workaholic, numa pessoa que só trabalha e não vive, pois até no Plano Superior as pausas são necessárias, no fato bíblico de que Deus descansou no sétimo dia, ou seja, se até Ele descansou, tenho que descansar também, como no laborioso colono italiano no RS, um colono que só não trabalhava no domingo porque a religião e o padre não permitiam. Ao fundo vemos uma floresta rica, como uma sala de estar ao ar livre, na magia de uma sala limpa, perfumada, com finos cristais no teto, num anfitrião fino, que faz com que nos sintamos à vontade, na imposição natural da hierarquia espiritual, a qual é irresistível, ao ponto de eu fazer questão de obedecer ao meu irmão mais depurado do que eu, ao contrário da Terra, na qual a hierarquia é imposta à força, goela abaixo, nas rígidas hierarquias militares, plantando medo nos subalternos, na existência das ditaduras, impostas à força, no imperfeito modo humano, na estupidez das imposições, em irmão maltratando irmão, e isso não é Tao, pois quando mais Tao e nobreza tenho, menos controle viso obter, no modo como o povo pode perceber que o homem de Tao não é um estúpido grosseiro, pois o homem que tem classe nunca se impõe à força, em homens nobres como Chico Xavier humilde, modesto, agradável, acolhedor, sabendo que não é o centro do Universo, ao contrário do sociopata, que se acha Deus – é um horror. A mesa aqui é o depositório, como numa pessoa depositando esperanças em algo, em alguém, no homem de Tao, no qual o povo deposita suas esperanças, num homem de Paz, imune aos apelos sedutores do Anel do Poder, o qual corrompe homens bons. Nesta cena podemos sentir a brisa deliciosa que entra pela janela, num hálito fresco de libertação, no ato básico de se escovarem os dentes, havendo nos rituais de limpeza e higiene a tentativa humana de se aproximar do Metafísico, o qual é limpíssimo, sem uma única bactéria; sem um unido fiapo de pó.

 


Acima, Natureza morta. Nesta cena temos um abandono, numa ausência, como um senhor que conheço, o qual é um pai um tanto ausente, o qual em nada contribuiu para o pagamento das mensalidades das faculdades de seus filhos, como no personagem de As Horas, numa mulher que fugiu das responsabilidades, abandonando o filho para este ser criado por outrem, como na fuga de se tomar um calmante para dormir, numa Barbra dizendo que, na maior parte do tempo, gosta de nada fazer, em momentos de contemplação, fugindo dos estresses do Mundo, nessas vidas frenética de compromissos e responsabilidades, nas sábias recomendações de um professor que tive na minha faculdade: “Não se estresse demais!”, ao contrário do neurótico, como nas patologias do genial Woody Allen, um gênio que construiu um estilo próprio, num homem que já disse em entrevista: Vai desencarnar e deixar tudo, tudo para atrás, inclusive a carreira mundana, nos versos de uma canção jazzística: “Ninguém se importa comigo. Estou feliz como posso ser. Aprendi a amar e viver. Talvez o Diabo pode se importar!”. Nesta cena temos uma discrição e uma sisudez, pois não se trata de uma explosão exuberante de cores, num quadro sério. A cadeira é o merecido repouso, como no fim de uma jornada de trabalho, para pessoas pragmáticas, para as quais a noite serve para se descansar para, no dia seguinte bem cedo, abraçar mais uma jornada de trabalho, ao contrário das pessoas sensíveis, contemplando o céu noturno e perguntando-se sobre os segredos do Universo. Aqui é uma mesa que já foi usada, no fim de uma refeição, no modo como acontecia na minha casa quando tínhamos empregada: Nós quatro, da minha família, fazíamos a refeição e, depois de sairmos da mesa, a empregada fazia sozinha a refeição, indo contra o costume de uma certa pessoa, a qual gosta que a empregada faça a refeição junto com o patrão – tem gosto para tudo, remetendo a pessoas grosseiras, as quais tratam mal pessoas mais pobres e humildes, como uma senhora que conheço, a qual, ao passar pela zeladora de seu prédio, sequer olha para esta, muito menos dizendo um mínimo “oi”, na ilusão das classes sociais, pois a hierarquia espiritual é relativa ao apuro moral, nos mais verdadeiros regendo os menos. Uma das toalhas da mesa parece cair como uma cascata, num acontecimento de coisas sucessivas, como um processo em andamento, no curso natural das coisas, na sabedoria de que tudo se resolve por si, havendo no perdão o caminho natural da Eternidade, pois as brigas não são eternas, assim como o Umbral não é eterno, pois nossos irmãos pouco depurados vão, naturalmente, crescer e adquirir tal apuro, fazendo do Inferno uma mera casa de passagem, como num paciente internado numa clínica psiquiátrica, na esperança de que depois da noite vem o dia, num banho de luz e libertação, como no passe espírita, numa bênção de nosso irmão que nos ama. O cálice de vinho está meio cheio, num controle e numa renúncia, remetendo à canção majestosa e sutil de Chico Buarque, fazendo um jogo entre “cálice” e “cale-se”, numa classe tal que a canção passou ilesa aos controles de censura ditatorial, na vitória da virtude sobre a vulgaridade, como me disse uma professora: “Os militares eram tão burros!”, assim como Trump, um homem com a cabeça do tamanho de uma ervilha e, mesmo assim, tornando-se o homem mais poderoso do planeta – sei lá, meu irmão. Vemos algum alimento remanescente num prato, na noção taoista: Se depois de um desentendimento, feitas as pazes, sobrar alguma amargura, nada pode ser feito a respeito. A cena aqui está desorganizada, em pleno momento de uso, nas demandas do dia de uma dona de casa, como uma mulher que conheço, a qual abandonou carreira par ser do lar, nas palavras de uma amiga minha psicóloga: “É tão desinteressante uma pessoa que é só dona de casa!”. A luz entra sutil na cena, talvez num Derain morando numa Paris cinzenta, úmida.

 


Acima, O pintor e sua família. Ao fundo temos uma discreta intervenção, numa pessoa misteriosa adentrando na cena, como numa família que conheço, a qual tem uma sociopata inflitrada, uma louca que teve uma concunhada, penetrando na mente desta para, assim, danificar tal família, nessa capacidade do sociopata em manipular as pessoas, na recomendação quanto ao doutor louco sociopata Hannibal Lecter – nunca dê a este informações pessoais. Aqui há toda uma interação, com várias coisas acontecendo na cena, com cada um fazendo alguma coisa, algo fora do real, pois o pintor precisa de solidão dentro do atelier, num retiro, em saudáveis momentos de solidão, como Deus descrito no filme Dogma: Solitário, porém repleto de senso de humor. Vemos uma moça com um cachorrinho, no mascote da casa, nas incumbências de se criar um bicho, em tarefas como comprar ração, levar o cão para este fazer na rua suas necessidades básicas, dar banhos semanais no cão etc., no modo como ter um bicho é trabalhoso e oneroso – tenho que acordar para trabalhar, ganhar dinheiro e, assim, comprar ração para o meu bicho, ou seja, uma vida sustentando um animal. Vemos um furtivo gato preto, no símbolo do agouro e do azar, como no gato negro de Matrix, anunciando algo ruim, como trovões anunciando uma tormenta, no modo humano em ver as forças da Natureza em deuses, como Thor, o deus nórdico do trovão, cujo nome é alusivo ao barulho do impiedoso raio de tempestade estourando, como poderosas marteladas. Vemos um pavão, que é a beleza, como nos homens pavão galanteadores, os galãs, para o quais é visceral ter boa aparência, em homens namoradores, populares entre o mulherio, como um certo político homossexual, o qual deve ter sido eleito por causa de uma votação massiva por parte do eleitorado feminino, no modo do homem gay tem suas divas para admirar e cultuar. Vemos uma velha senhora lendo, totalmente quieta no seu canto, sabendo do valor da discrição, como na figura folclórica do Preto Velho, quietinho no seu canto, sábio em sua discrição, só observando os egos ascendendo e descendendo, como numa mensagem de Natal escrita por meu querido avô falecido Ibanez, dizendo que tantos e tantos egos já subiram e desceram na História da Humanidade, e Jesus não, pois Jesus permanece, num homem humilde que se revelou a maior mente de todos os tempos. A senhora lendo é o retiro, numa vida discreta e pacata, como na vida pacata de Meryl Streep, retirada em sua discrição, sabendo que a vida é boa quando é simples, em momentos gostosos ao lar, como fazer uma caneca de chá ou café, nos prazeres simples da Vida, os quais pouco ou nada custam financeiramente. Aqui Derain retrata suas raízes, seu lar, convidando-nos a entrar. O pintor parece pintar a receptáculo de frutas na mesa, na magia de um panetone com frutas cristalizadas, num pão rico, em ocasiões especiais, no modo de um judeu, ao não celebrar o Natal, admitir que é muito bela tal época do ano, nessa questão tão básica que é o respeito às diferenças, mas num ser humano sempre ignorando tal regra de convívio pacífico. Deran aqui está aprumado, engravatado, como se estivesse num café elegante, numa roupa que não procede no momento de pintar, pois qualquer artista pintor veste alguma proteção para trabalhar, como um avental ou um guarda pó, ou uma roupa bem velha e surrada. Aqui talvez tenhamos um Derain vaidoso, querendo ser retratado da forma mais garbosa possível. A mesa é o momento da reunião familiar, com todos à mesa, desfrutando da mesma comida, no momento da missa de comunhão, na igualdade, nos eternos esforços do padre da missa ao nos chamar de irmãos, com todos esses príncipes filhos do mesmo Rei, pois cada um de nós é extremamente único e especial, numa dimensão acima da Terra, no poder do metafísico, que renega as vulgaridades do Físico. A cena aqui tem um certo silêncio, numa sala silenciosa, como no silêncio harmônico dentro de um atelier, no silêncio em que ouvimos o sutil farfalhar de veludo. Aqui temos harmonia, numa vizinhança onde todos são amigos.

 

Referências bibliográficas:

 

André Derain. Disponível em: <www.en.wikipedia.org>. Acesso em: 10 jul. 2024.

André Derain. Disponível em: <www.google.com>. Acesso em: 10 jul. 2024.

André Derain. Disponível em: <www.pt.wikipedia.org>. Acesso em: 10 jul. 2024.

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